Reportagens

De Freud a Olavo Bilac

Por Filipe Vilicic

Artistas, boêmios, místicos sempre estiveram associados ao uso de substâncias. Mas houve um tempo em que as drogas eram também, digamos assim, coisa de cientistas, médicos e intelectuais. Vamos voltar a uma era antes de “droga” até ser chamada de “droga”.

É o que propõe o livro “Os Psiconautas: Como as Drogas Desnudam a Mente” (no Brasil, saiu pela editora Manole), do historiador inglês Mike Jay, que se especializou em escrever de forma aberta sobre a história das drogas, com livros como um sobre a mescalina e outro no qual mergulha na cultura de ficar sob efeito, o “high”. Para ele, toda sociedade é um sociedade “high”. 

Em sua última obra, “Os Psiconautas”, que recentemente ganhou edição brasileira pela editora Manole, Jay defende a tese de que antes dos anos 1920, “drogas” nem eram chamadas de “drugs”, no termo em inglês, pois o termo pejorativo ainda não tinha sido inventado. Isso era ainda mais prevalente no século 19, quando as novas substâncias, descobertas ou inventadas em laboratórios, eram tidas como milagres da ciência, capazes de melhorar as condições de vida e nossos potenciais.

Maconha, cocaína, ópio e heroína eram vendidas em farmácias. Entenda que as farmácias daquela época eram exclusividades das elites que viviam em centros urbanos.

Nos conta o autor do livro, Mike Jay: “Os estereótipos que temos do ‘usuário de drogas’ — delinquente, criminoso, mentalmente instável — não estavam tão presentes no século 19. Na verdade, a palavra ‘droga’ naquela época se referia a todas as substâncias que você poderia comprar em uma farmácia, sem as conotações negativas que possui hoje. Os cientistas que faziam autoexperimentação podiam estar correndo riscos preocupantes com sua saúde, mas não eram vistos como moralmente comprometidos, muitas vezes era o oposto. Eles queriam ser o mais abertos possível, descrevendo suas doses e efeitos da maneira mais completa e clara”.

O neurologista Sigmund Freud, o pai da psicanálise, começou a estudar a cocaína em 1884, quando ela não era vista como uma “droga de rua”, mas como um alcalóide promissor recém-isolado pela indústria farmacêutica. Freud escreveu o ensaio “Über Coca” (Sobre a Coca) não pela ótica de um usuário recreativo, mas como um pesquisador entusiasmado com a ideia de que ela seria a cura para males como a depressão, a fadiga e, ironicamente, para o vício em morfina. Na época um jovem de 28 anos, Freud descrevia a cocaína como uma substância “mágica”.

“Cientistas interessados na consciência e no funcionamento da mente aprenderam muito com a autoexperimentação com drogas psicoativas. Para alguns, como Humphry Davy, isso foi o que consolidou suas carreiras”, comenta Jay. Os experimentos em si mesmo com o óxido nitroso (o gás do riso) foi uma ferramenta de descoberta intelectual que validou a autoridade científica de Davy e ajudou a fundar as bases da neurologia e da psicologia moderna, por meio dos relatos escritos pelo químico inglês que viveu entre os séculos 18 e 19.

As experiências de Freud com a cocaína talvez sejam as mais manjadas, mas pelos olhos de hoje podem levar a questionamentos como: Por que um médico resolveu se meter com pó? Acontece que a droga não era demonizada naquela época, associada a cartéis latino-americanos e ao submundo. Se tratava de uma substância possível de ser comprada legalmente em uma farmácia. Para o mundo de Freud, o do fim do século 19, a autoexperimentação era o caminho esperado para quem buscava estudar a mente humana.

Uma série de intelectuais e cientistas ficaram célebres pela autoexperimentação:

  • O pensador Walter Benjamin com o haxixe;
  • o psicólogo William James com óxido nitroso;
  • o pioneiro cirurgião William Stewart Halsted com a morfina e a cocaína;
  • o escritor Thomas de Quincey com o ópio;
  • o filósofo Jean-Paul Sartre com corydrane para manter o ritmo da escrita;
  • o escritor Ernst Jünger com LSD e psilocibina;
  • Aldous Huxley com mescalina;
  • Michel Foucault com LSD;

Na Paris do século 19, Charles Baudelaire, Alexandre Dumas, Victor Hugo e outros intelectuais se reuniam no Club des Hashischins, onde consumiam pasta de haxixe. “A Era de Ouro ocorreu por volta de 1880 até o início do século 20. Este foi o momento em que as ideias modernas sobre a mente estavam sendo formuladas, de que existia um subconsciente do qual não temos consciência, e diferentes níveis de personalidade, sensação e imaginação que se manifestam em diferentes estados de consciência, os quais poderiam ser explorados com drogas em condições experimentais controladas”, complementa o autor. Uma das teses do livro “Psiconautas” é a de que as drogas tiveram papel na formação do que se tem como a “psicologia moderna”. 

Mesmo que grande, a lista de psiconautas de mais de 100 anos atrás é majoritariamente masculina, sendo que no livro de Mike Jay, são os homens que estrelam, pois se tratava de uma sociedade ainda mais machista e na qual as mulheres muito, muito raramente tinham voz. A maioria das intelectuais associadas ao uso de substâncias começaram a se manifestar no início do século 20, como a pensadora Maya Angelou com a maconha, a pediatra Valentina Wasson com os cogumelos, a escritora Edith Wharton com o láudano.

Os humores com os psiconautas mudaram radicalmente próximo à década de 1920. “Chegou ao fim em algo entre os anos de 1900 e 1914, quando cresceram as ansiedades sobre a prevalência do uso de drogas, a imagem do usuário de drogas delinquente se consolidou, o uso livre de álcool se tornou uma grande questão social e política, e a psicologia se afastou da introspecção em direção a estudos de comportamento e medições objetivas da atividade mental”, comenta Jay. 

A Guerra às Drogas fez com que essas substâncias passassem a virar fetiche ou serem demonizadas, a depender de a qual grupo você pertence. Artistas passaram a ser estigmatizados pelo uso, agrupados em categorias como hippies e beatniks, e a autoexperimentação, antes aplaudida, foi execrada pela ciência e pela maior parte da intelectualidade. 

Como exemplo do novo cenário que se formou, o autor evoca a história de dois cientistas em 1992, o antropólogo Wade Davis e o médico Andrew Weil, que publicaram sobre achados feitos pela autoexperimentação com uma toxina de um sapo. A descoberta inclusive levou a uma melhor compreensão histórica sobre as civilizações Olmeca e Maia, pois os ossos desses animais eram frequentemente encontrados em rituais dessas culturas, e logo se fizeram as associações necessárias para sacar que se tratava já de um uso psicodélico da toxina.

Se esse mesmo experimento fosse publicado no fim do século 19, na época de Freud, ele seria aplaudido por seus pares e destacado em importantes periódicos científicos. Como em 1992 já imperava todo o preconceito com as drogas criminalizadas, como a maconha, e qualquer uso era associado a desvio e criminalidade, Davis e Weil foram condenados por seus pares, que nem quiseram saber dos grandes méritos de suas descobertas. Nos anos 1990, nesse sentido mais caretas do que os de 1890, a autoexperimentação era condenada e, os cientistas que as fizessem, igualmente “cancelados”.

“Os pesquisadores psicodélicos modernos estão em uma situação estranha e ambígua: é claro que a maioria deles tem experiência com psicodélicos, mas eles precisam conduzir seu trabalho utilizando ferramentas como mapeamento cerebral e neuroquímica”, analisa Mike Jay. “Estudam os efeitos das drogas por procuração, em vez de se envolverem diretamente com suas próprias experiências”.

O pensamento proibicionista prevaleceu no último século, porém os ares têm mudado nos últimos anos, como comprovam, inclusive, os relatos de cientistas, médicos e grandes pensadores aqui na Breeza. A nova onda de legalização da maconha e dos psicodélicos, começando pela porta do uso medicinal, tem vencido estigmas e muitos intelectuais resolveram sair da estufa, agora com maior diversidade e domínio das mulheres. 

Mas e o Brasil?

O livro do historiador inglês Mike Jay não cita os intelectuais e pensadores de nosso país, mas a Breeza resolveu abrir um capítulo à parte para falar sobre.

O historiador Saulo Carneiro pesquisa justamente sobre o uso de drogas no Brasil do século 19 e início do 20, período em torno do qual gira seu novo livro “Antes da Proibição: Quando a Maconha Era Remédio” (da editora Vista Chinesa). Ele diz que o primeiro e principal registro que encontrou sobre o uso de drogas por intelectual é uma crônica de Olavo Bilac, chamada “A cannabina” e publicada em 1892. Sob forte influência de Charles Baudelaire, no texto Bilac descreve sua experiência com o uso de haxixe, recomendado por um médico amigo. “A crônica funciona quase como um retrato daquele período: elites urbanas tendo acesso a determinadas substâncias por meio de médicos e farmácias, enquanto populações negras e pobres utilizavam essas drogas em contextos populares e comunitários, muitas vezes anteriores à própria medicalização dessas substâncias”, contextualiza Carneiro.

O Brasil também teve um período de liberdade, anterior à proibição, e no qual o termo “droga” ainda não tinha sua conotação pejorativa. A elite, portanto, comprava morfina, ópio, maconha, heroína nas farmácias. 

“Uma das histórias que mais me chamou atenção circula na Fiocruz, no Rio de Janeiro, quase como uma memória oral ou uma espécie de anedota institucional envolvendo Oswaldo Cruz como usuário de ópio”, recorda o historiador brasileiro. “Ele estaria em uma fase de uso mais intenso justamente durante o período de construção do Castelo Mourisco, atual sede da instituição, e circula a narrativa de que a ideia do projeto arquitetônico teria surgido durante uma dessas experiências com ópio”. 

Outro caso que chamou atenção no trabalho de historiografia de Carneiro foi o de João do Rio, escritor e intelectual carioca que viveu de 1881 a 1921: “Foi um dos poucos autores brasileiros do período a descrever de maneira relativamente aberta o uso de ópio e os espaços de consumo como parte da própria experiência urbana da modernidade. Ele também abordava a circulação de morfina e cocaína entre elites, prostitutas, boêmios, médicos e personagens da vida noturna carioca. Acredito que ele tenha sido um dos autores que escreveu de forma mais aberta sobre drogas no Brasil naquele contexto pré-proibicionista”. Para ele, obras como “A Alma Encantadora das Ruas”, de 1908, e “Dentro da Noite”, de 1910, se encaixam como exemplos desse cenário urbano e boêmio do começo do século 20.

Assim como lá fora, aqui o movimento psiconauta do início do século passado também era praticamente masculino, pois imperava o machismo. “Mas isso não significa que mulheres não utilizassem drogas. Elas também faziam uso de substâncias, tanto medicamentos prescritos quanto outras drogas que circulavam socialmente naquele período”, pontua Carneiro. “O problema é que a sociedade era profundamente machista e centrada na figura masculina. As mulheres tinham menos espaço para participar da vida intelectual, publicar textos e construir memórias públicas sobre suas experiências. Relatar abertamente o uso de drogas poderia significar não apenas estigma moral, mas também exclusão social”. 

Nas artes brasileiras, principalmente as de tempos mais modernos, é mais comum ver nomes de mulheres associados ao uso de drogas, como Rita Lee. Quando se foca a procura em cientistas e pensadoras como filósofas, os exemplos são raros. Mas se destacam ilustres como Pagu, a Patrícia Galvão, musa do modernismo e militante política que tinha relação com éter e ópio.

O Brasil do século 19, como o de hoje, usava as drogas como forma de exclusão. Enquanto as elites compravam suas substâncias preferidas na farmácia, pessoas escravizadas, pescadores, feirantes e outros do povo trabalhador usavam a diamba (aí em contexto já então ilegal, pois fora do sistema médico-farmacéutico) em grupos como o Clube dos Diambistas. 

Assim como no contexto global, no Brasil há uma onda recente e cada vez mais forte de cannabis e psicodélicos, ainda mais forte (e legalizado) nos fins terapêuticos. Intelectuais e cientistas estão saindo da estufa e as diferentes formas de uso estão em processos (mesmo que em diferentes estágios) de aceitação. Tomara que parte desse processo leve pensadores, de todas as ideologias e camadas, a pensarem mais livremente sobre os porquês de usarem as substâncias que usam. Só que também seja uma transição mais inclusive do que a como era no Brasil do século 19.