
A Dudinha é uma das maiores preciosidades que passaram pela minha vida. Sempre amável, companheira, esteve comigo em momentos dificílimos, de encararmos doenças juntos, à solidão de um pós-divórcio, a lutos em que ela me apoiou com seu carinho e presença. Se você já amou um ser vivo, um pet, um animal como nós somos, e que compartilha nossa trajetória no planeta conosco, irá se identificar.
Os últimos três anos de Dudinha foram de batalha. Mas uma luta que teria sido mais sofrida e desgastante se não fosse por um remédio milagroso que surgiu em nossas vidas: o óleo de cannabis.
Essa foi uma história que demorei a conseguir contar, pois a dor de perder Dudinha, de vê-la nos deixar, me acompanhou por muito tempo. Foi parceira em todos os momentos: no dia a dia, deitando e aquecendo meus pés enquanto escrevia, em lindas aventuras. Hoje, porém, as memórias vem com sorriso, com a alegria do que juntos vivemos.
Era uma cachorra exemplar, que gostava de agradar, de brincar, diziam como era uma lady. Uma golden retriever daquelas que adoravam correr, o que eu amava fazer ao lado dela, como na Avenida Sumaré, próxima de casa. Suas glórias eram caminhadas em trilhas, pular em lagos, no rio, no mar, pegar bolinhas jogadas ao ar. Uma vida sublime de uma cã.
Percebi o primeiro tumor dela quando começou a mancar, apresentando dor. O vacilo da pata no passeio, com uma careta pedindo auxílio, denunciou que algo estava errado. A primeira cirurgia foi vitoriosa, tirando esse mal e mais um outro tumor, menor, que fora descoberto.
Mas o câncer é uma doença maldita e que se espalha. Logo voltaria, mais forte, multiplicando-se.
A entrada na quimioterapia, o acúmulo de remédios, a fez perder o brilho e as vontades. Dudinha era daquelas que vinham correndo esfomeadas imediatamente ao ouvir “vamos comer!”. Pedia e amava qualquer rango. A perda de apetite me levou com ela a um buraco de tristeza.
Eram comuns os enjoos e as dores. Em uma careta, deitando no meu colo, nossa relação de cúmplices da vida nos fazia entender um ao outro. Eu a via e captava sua dor.
Só que essa não é uma história de tristeza, mas de boas memórias. Isso te garanto. O que o câncer tentou tirar de minha Dudinha, minha cã-companheira, a erva lhe deu de volta: vontade de viver, de comer, de correr, de brincar, de nadar, de brilhar.
“Vamos experimentar a cannabis?”
A pergunta da veterinária vinha com certo receio. Logo ela emendou: “Tem algo contra?”.
Nada contra, pelo contrário, só a favor. Já fumava maconha, um hábito que veio desde garoto, começou daquele jeito errado na adolescência, mas foi ganhando conhecimento, regras, cultura, tornou-se uma relação bem mais saudável. Os baseados no fim do dia me davam aquela força para lidar com os sentimentos no momento de batalha contra o câncer de minha cã. Eu só não imaginava que um dia a planta poderia, assim como fazia comigo, dar um mundo melhor para Dudinha.
A veterinária logo começou a elencar vantagens do remédio. Nerd que sou, somado ao quanto amava minha cã, também mergulhei nas pesquisas.
A cannabis é comprovadamente eficiente para dores crônicas, como as que Dudinha sentia nas patas e na coluna, em consequência dos tumores. Mais recentemente, em 2025, um estudo da Cornell University (EUA) indicou que 80% dos cães com osteoartrite apresentam melhora significativa na mobilidade e redução da dor após o uso do óleo full-spectrum.
Para o câncer, a cannabis não “cura”, isso sabemos. Todavia, surge como pilar fundamental para proporcionar qualidade de vida enquanto se enfrenta a doença. O CBD atua inibindo mediadores inflamatórios, enquanto o THC potencializa a analgesia em dores oncológicas intensas. A larica cai bem, pois estimula o apetite que se vai mesmo na cachorra mais comilona.
Nos primeiros meses de luta contra o câncer, a veterinária notou como o óleo poderia estar ajudando a conter a proliferação do tumor. Agora se sabe, por estudos experimentais in vitro e em modelos animais, que canabinoides podem induzir a apoptose (morte programada) de células tumorais e inibir a angiogênese (formação de vasos que alimentam o tumor). Ou seja, a percepção da veterinária poderia, sim, estar correta.
O tratamento do câncer era duríssimo. Náuseas, vômito, fraqueza. O óleo mirava nesses males, erguendo-a. Assim, ganhava disposição para viver.
A prova de como a planta sagrada a ajudava a ser feliz, e até por vezes, digamos assim, se esquecer que encarava qualquer doença, é mais empírica do que acadêmica. Os estudos servem como comprovações do que víamos no dia a dia.
Ela vinha correndo para tomar suas gotinhas
A Dudinha chegava, abria o bocão, colava a língua pra fora e pedia as gotinhas mágicas. Depois de ter suas poucas gotas, juro que via um sorriso nela. Não havia letargia, apenas conforto e felicidade.
Os estudos se comprovaram na prática. A dor e falta de mobilidade nas patas estava a impedindo de fazer longas caminhadas, ou mesmo subir com tranquilidade no sofá. Após algumas semanas da ganja, ela já saltava na cama para dormir ao meu lado. Viajávamos e ela retomava as trilhas, mesmo que sem voltar a correr com a mesma habilidade, e se jogava em lagos e rios.
A volta da vontade de comer foi exemplar. Dudinha retomou sua draguice, querendo um pedacinho de tudo. A fome de viver era nítida em seu olhar.
Para conseguir o óleo mágico, porém, tinha certa novela, aquela da ilegalidade. A veterinária foi quem indicou a fonte, também um veterinário. Ele fazia o óleo em seu laboratório na faculdade, no clandestino mesmo, e cobrava um preço acessível para poder proporcionar o bem que ele acreditava (com razão) que estava lá para fazer aos animais.
Entregava em casa, praticamente todo mês. Um cara simpático, ativista, que claramente tinha fé naquilo que fazia. Para o Estado, se ele fosse pego, seria preso como traficante.
A ilegalidade revela absurdos como esse: o de proibir uma planta, fruto bendito da natureza, até aos animais que deveriam ser e viver livres. A humanidade se tornou tão estúpida em sua repressão e em seus proibicionistas, que fez chegar toda essa agressividade e aprisionamento até a gatos, cães, cavalos, aos seres vivos que conosco compartilham a Terra. Por isso também acalenta ver os avanços no último ano, protagonizados pela Anvisa e pelo Judiciário (e com tanta isenção e covardia do Legislativo), em direção à liberação da erva. Não só para humanos, como para animais que tanto tem a ganhar com ela, como tanto ganhou Dudinha.
Por mais sagrada que seja a planta, ela não cura. Dudinha nos deixou, enfrentando agudo sofrimento em seus últimos dias, naqueles em que o divino avisou que a levaria. Mas tenho certeza que foi a maconha que permitiu que a dor mais aguda fosse de semanas, não de anos. Foi a diamba que lhe permitiu viver por mais e melhores anos ao meu lado.