Na Breeza

Páginas de conhecimento sobre a erva

Por Filipe Vilicic

Gregório Ventura é um precursor na divulgação do conhecimento aprofundado e sem preconceitos sobre maconha em nosso país. Com sua editora Vista Chinesa, preencheu uma lacuna no mercado ao levar informações valiosas sobre a planta para novos públicos. Isso, muita gente já sabe. Aqui na Breeza vamos contar a história que o levou a se dedicar à essa missão de colocar na prateleira dos leitores aqueles livros que nos ajudam a derrubar paradigmas errados sobre a ganja e a espalhar educação e aceitação.

Nascido no Horto, bairro super arborizado e bucólico do Rio de Janeiro e onde ainda mora, seus primeiros contatos com a cannabis foram por meio de ideias equivocadas, daquelas contra as quais ele luta hoje. “Foi através da Guerra às Drogas, né?, através da proibição. Seja por programas policiais, seja por palestras na escola, essas coisas que vão colocando a maconha na nossa vida”.

Sua visão passou a mudar conforme foi chegando na vida adulta, principalmente com o ingresso na faculdade de jornalismo na PUC-Rio. Ele lembra que muitos de seus colegas já fumavam um, desde 14, 15 anos de idade, e era um elemento considerado normal nas rodas de estudantes, ou seja, num ambiente bem distinto daquele com o qual estava acostumado, rodeado de notícias escandalosas.

Experimentou com os amigos na faculdade, não se recorda se com 19 ou 20 anos de idade. Num acaso, como fala, “respeitando aí aquele limite que que os médicos falam hoje em dia, né?, de desenvolvimento”.

Músico, adepto de violão, guitarra, baixo e percussão, seus preconceitos anteriores também foram sendo questionados pelos artistas que ouvia e que lhe eram referência. Bob Marley, Peter Tosh, Jimi Hendrix, Planet Hemp. “Comecei a construir uma relação diferente com a planta. Percebi, por exemplo, que os músicos usavam para se inspirar, tinha quem usava para sentir menos dor”. Logo a diamba se tornou hábito, entrando na sua vida, inclusive como motivação nos estudos e no trabalho.

Uma visão de mercado (e de maconheiro)

Por muitos anos após se formar, Gregório trabalhou na TV Brasil em um programa de saúde sobre pessoas com deficiências. Ainda era, contudo, início dos anos 2010 e a cannabis não tinha vez nas pautas na TV, mesmo que já houvessem muitos estudos comprovando seus benefícios medicinais.

“Mais pro final desse programa, que ficou no ar até 2021, começou a ter espaço para alguns casos interessantes, como de crianças com histórias muito marcantes. Às vezes com uma deficiência muito grave e que tomava o óleo para conseguir fazer as coisas cotidianas”, nos conta.

No paralelo, porém, seu interesse pela maconha aumentava. Curioso que é, buscava informações sobre a planta, mas não encontrava muitos conteúdos de qualidade em português. Por volta de 2017, começou a semear a ideia dele próprio abrir mais espaço para esse conhecimento no Brasil.

“A cobertura editorial sobre a maconha no Brasil era então muito limitada, até infantil”, comenta. “Comecei a pesquisar e ver iniciativas interessantes em outros países. Foi assim que eu cheguei ao “O Livro da Maconha”, que é um compilado com vários autores, e resolvi que poderia trazer pro Brasil”.

Gregório percebeu a lacuna no mercado e resolveu preenchê-la. Notou que o que saia publicado por aqui tinha muito foco em questões clínicas ou de segurança pública, então resolveu apostar em temas históricos e sociais.

“Não podemos ficar falando sobre maconha como se ainda estivéssemos nos tempos da Guerra Fria. A Guerra às Drogas e a proibição atravessou minha vida de forma diferente do que é com donos de outras editoras, as tradicionais, então pude trazer uma outra visão”. Publicado em 2020, “O Livro Da Maconha: O Guia Completo Sobre A Cannabis” foi o primeiro lançamento da Vista Chinesa, a editora que fundou com sua bandeira canábica.

A obra é até hoje a mais vendida da Vista Chinesa, que, todavia, ainda tem resultados mais tímidos: “O Livro da Maconha” está próximo dos 1 mil exemplares comercializados. A obra traz um compilado de textos de pessoas que são referência na área, como Lester Grinspoon, Rick Doblin, Carl Hart e Raphael Mechoulam.

Relação saudável (e profissional)

Logo sua empreitada começou a chamar a atenção de brasileiros que querem publicar por sua editora. Caso do historiador Gustavo Maia, o nome por trás também do Cannabis Monitor (escrevemos sobre sua história aqui na Breeza), com seu “A Maconha no Brasil Através da Imprensa”. Gregório também se envolveu com pesquisadores da UERJ (Universidade do Estado do Rio de Janeiro) na organização de um seminário sobre avanços científicos, o que resultou na série “Maconha no Brasil”, que neste ano vai para seu terceiro volume e que traz referências do setor.

Ele se esforça para trazer para nosso país livros que são referências no exterior. “A abordagem parte de acompanhar o que tem saído e, aí, simplesmente envio e-mails para as editoras e autores, em busca de quem topa”. E assim publicou “Como me tornei a rainha do haxixe”, biografia da holandesa Mila Jansen, mundialmente conhecida como a “Rainha do Haxixe”.

A próxima publicação da Vista Chinesa segue a linha que está se tornando forte na casa, a da historiografia sobre a cannabis. Em “Antes da Proibição”, do historiador Saulo Carneiro, conta-se como a maconha era plantada e vendida livremente no Brasil antes da (até recente) onde de proibicionismo que tomou não só nosso país, como o mundo. 

Gregório Ventura se tornou referência sobre a sabedoria sobre a erva em nosso país. Não só pelos livros que lança, mas também para quem está ao redor. “Muita gente me procura perguntando como arrumar um medicamento à base de cannabis para a tia, para a avó. Acaba que às vezes a maconha entra na minha vida de formas não esperadas, assim, não convencionais”.