Saindo da estufa

Samara Felippo: “Três fatores me sustentam: alimentação, exercício e o THC”

A atriz Samara Felippo, figurinha carimbada da TV no final dos anos 90 e 2000, é hoje uma voz que amplifica a de muitas mulheres, trazendo às redes temas como maternidade, feminismo e as mais diversas violências que todas nós já sentimos na pele. 

Nesse papo com Anita Krepp, editora desta Breeza, Samara revela que os pilares para manter de pé essa força são a alimentação, o exercício físico e a maconha, que, segundo ela, faz um carinho na alma. Ela ainda compartilha seus pequenos rituais com a planta: fuma raramente, mas confessa que o que conquista mesmo seu corpo é a gummy de THC que ela toma meia hora antes de deitar e que vem funcionando bem para sua insônia.

E o papo acabou extrapolando para outras substâncias, como o álcool, que já foi um problema pra ela, e a ayahuasca, onde chegou com a expectativa de conversar com o falecido pai, mas acabou sanando outros traumas, o mais pesado deles com as duas cesáreas que foi induzida a fazer sem necessidade pra isso. Sexto sentido, plantas de poder, violência obstétrica, machismos e honestidade radical guiam esse papo que começa agora.

Samara, você tem um sexto sentido aguçado?

Tenho. E tem uma história engraçadíssima com uma amiga minha. Eu não sei por quê, talvez porque eu falo muito sobre feminismo, machismo, etarismo, racismo, essas pautas que a gente precisa estar sempre batendo na tecla. Eu estava no rolê com essa amiga, a gente ali bebendo, bebendo, e chega aquela hora em que o álcool bate. A gente se divertindo, e ela ficando com um boyzinho dela lá. Cara, eu não sei por quê, mas eu impliquei com o menino. Ela falou que eu não tinha feito nada, mas eu impliquei com o menino. Mania. E aí ela disse que, em algum momento, que eu nem lembrava, eu fui muito grossa com ele, muito não sei o quê, falei de um jeito esquisito. Ela ainda estava conhecendo o cara. Eu pedi mil desculpas, falei, Ju, me perdoa, cara, mil desculpas, não sei o que aconteceu. Nossa, se quiser que eu fale com ele, eu falo com ele. Ela é muito minha amiga, se eu não fosse tão amiga, eu nem falaria com ele. Corta para uma semana depois: Juliana me escrevendo, dizendo, Sá, sabe aquele cara com quem você brigou? Um bosta, um merda.

Você tem essa coisa de não se enganar muito com as pessoas, de chegar e já meio que sentir? Ou você já se surpreendeu com uma leitura equivocada da sua parte?

Não, eu acho que eu sinto, cara. Quando não bate, eu percebo na hora, porque eu sou uma pessoa muito transparente. A gente brinca no meu grupo de amigas que temos incontinência facial, porque não conseguimos esconder nada. Se eu estou feliz, eu estou feliz. Se eu não gostar de você, eu nem vou ficar perto. Eu falo tudo bem, prazer, prazer, e já saio de perto. Eu não fico mais obrigada a estar perto de pessoas que não me agradam, que me fizeram alguma coisa ou com quem o santo simplesmente não bateu. 

Você, toda sincerona, deve ter tido dificuldade nesse meio de celebs? 

Eu tentei, e tento até hoje, ser sempre muito eu. Mesmo mais imatura, mais jovem, eu sempre tive isso. Porque eu sou do Caxambi, né, cara? Sou carioca. Tem uma coisa em mim que é vá à merda, meu irmão, não me torra o saco. É um negócio que já é meu. Em algum momento da minha vida, eu tentei esconder isso, tentei disfarçar, me encaixar. Porque a gente passa o tempo inteiro tentando pertencer, encaixar, ser aceita. Eu, uma menina do subúrbio do Rio, chegando na Globo para gravar novela com um monte de gente gabaritada… Fui muito bem recebida, sempre com muito carinho. Mas eu sinto que, em algum momento, eu quis dar uma segurada na essência que é a Samara, por imaturidade, por vergonha, por bobagens de jovem. Mas hoje, não, amor. 

Você resgatou sua potência, né?

É. Exato. Talvez eu nem saiba se me encontrei um dia lá atrás. A gente vem tentando se encontrar o tempo todo. Em algum momento, antes de ser mãe, eu achei que tivesse me encontrado, mas depois da maternidade, existe um luto. Uma morte dessa mulher de antes. Algo necessário, importante para essa nova mulher. E depois vem um renascimento, talvez um reencontro.

Agora os seus temas estão muito nessa coisa de feminismo, maternidade e tal. Como você percebeu esse lugar e sentiu necessidade de começar a falar sobre?

Olha, Anita, eu acho que foi quando eu me separei do meu último casamento, com duas filhas. Foi um baque muito grande. Foi um lugar onde eu comecei a tatear as coisas, a entender o que estava acontecendo. A vida é uma roda que vai girando, girando, e nada do que você idealiza ou espera necessariamente acontece. Você precisa estar preparada para esses momentos e nunca está. Nunca ninguém te prepara. A frustração chega e você precisa lidar com ela. Eu acho que, nesse momento, comecei a olhar profundamente para o machismo que a maternidade esfrega na nossa cara em primeiro lugar. A gente já vive isso sendo mulher, algo que não deveria ser natural, mas é imposto diariamente. A maternidade, porém, dá um esfregão maior. E com as minhas filhas, vindas de uma relação interracial, eu comecei a adentrar esse abismo. Todos nós, brancos, somos potencialmente corpos racistas. A sociedade coloca um chip que a gente precisa arrancar e essa é uma guerra. Essa guerra começou para mim ali. Ainda bem. A gente não precisa ter filho para falar e lutar. Lugar de fala é uma coisa, falar sobre a pauta é outra. Mas com as minhas filhas pretas, de cabelo crespo, ocupando lugares que eu nunca ocupei, veio o instinto de mãe leoa. Entrei na pauta antirracista com a dor de tudo o que a gente encontra pelo caminho e com o que elas já passaram. Entrei também nas pautas sobre maternidade, sobre o quanto a maternidade compulsória é romantizada. A maternidade em si é romantizada, o nosso cansaço e a exaustão são romantizados. Dizem que uma boa mãe é a mulher que sofre, que aguenta calada, porque se reclamar, é cancelada. Eu reclamo, mas resolvo. Hoje é assim. Essas pautas vieram entrando na minha vida nesse momento de consciência e pelas porradas que eu fui tomando.

Você está pensando em empacotar tudo isso e criar alguma coisa a respeito disso? Ou esses temas já meio que você tem um pouco de receio de ficar só neles?

Cara, eu não posso ter receio de ficar só nesses temas, Anita, porque é o que a gente vive. Todos os dias uma mulher morre vítima de feminicídio. Uma criança é humilhada e sofre racismo em uma escola que deveria protegê-la e acolhê-la. Pessoas trans são assassinadas diariamente. Meu direct está sempre cheio de mulheres pedindo ajuda, implorando por socorro. Isso é algo que eu não vou e não posso deixar de falar. Eu tenho fases em que abordo mais alguns assuntos e falo menos de outros. Quando denunciei a violência patrimonial que estou sofrendo, que não ficou no passado, continua acontecendo, comecei a falar sobre isso porque muitas mulheres passaram a me procurar, dizendo que também tava acontecendo com elas. Acho que, sendo uma pessoa pública, minhas pautas reverberam de um jeito que provoca identificação em muitas mulheres. A gente vê mulheres ricas, brancas, poderosas, enfrentando violência psicológica, física, emocional. Elas têm dinheiro para buscar advogados e apoio psicológico, já uma mulher da periferia, não. Existe um abismo entre essas realidades, mas a dor é comum.

Como está hoje a sua relação com a atuação? A vontade de continuar como atriz ainda recebe muita atenção e intenção da sua parte ou acabou ficando mais de lado para que você pudesse se dedicar a essa fase mais autoral?

Eu acho que a gente busca constantemente um lugar de reinvenção. Eu sou cria da televisão. Com 17 anos fiz minha primeira novela e assim foi por 16, 17 anos consecutivos da minha vida. Vivi de tudo ali: sofrimento, choro, alegria. O nome que tenho hoje também veio das novelas e da visibilidade que a Globo me proporcionou, junto com o meu trabalho. Sou atriz e serei atriz para sempre. Morrerei atriz, não consigo me separar disso. Mesmo quando produzo conteúdo para o Instagram sobre racismo ou pensão, é a atriz que está presente. É a atriz junto com a Samara que sente, que se dói, mas também a Samara que carrega vozes de outras mulheres. Muita coisa que digo nas redes não é apenas sobre mim. Trago histórias de outras mulheres para que ganhem espaço e visibilidade. Hoje encontro muitas mulheres na rua que me abraçam com imenso carinho e gratidão pela figura que me tornei na internet. Não gosto muito de me definir como criadora de conteúdo ou influenciadora, mas, de alguma forma, sou essa pessoa digital que dialoga com elas. Há mulheres que nem lembravam que eu fazia novela e que se conectam comigo pelos vídeos que publico. Apesar disso, morro de saudade de estar em um set. Só que não posso ficar esperando a Globo me chamar, faço o meu corre. Às vezes envio um e-mail para produtores, gente que conheço. Só que o tempo passa. Muitos autores e diretores que me acompanharam já não estão mais lá ou já se foram. E tudo bem. Houve um momento em que sofri muito com isso. A gente se culpa, cai naquela síndrome da impostora: “Você é ruim, não vão te chamar porque você não é boa atriz”. Mas a maturidade chega, traz carinho e lucidez. Eu me digo: “Ei, você enlouqueceu? Claro que não”. Essa percepção também me impulsiona a me reinventar. Escrevi, produzi e atuei em uma peça que é um dos projetos mais importantes da minha vida, feita com a Caroline Figueiredo: Mulheres que Nascem com os Filhos. Agora está parada, mas rodamos o Brasil inteiro. O texto é lindo, uma catarse nossa sobre a desromantização da maternidade. Produzi minhas festas, toco, e me reinvento nas redes. São caminhos que precisei criar para mim. Tenho vontade de fazer um solo agora, algo de comédia, ácido e sarcástico na medida certa para provocar incômodo, mas com leveza suficiente para dialogar com quem me acompanha.

Para falar de maternidade, universo feminino?

Eu vou entrar no que eu falo, no que reconheço nas mulheres e que muitas vezes incomoda muito os homens. Eu quero muitos homens na plateia me ouvindo, mesmo que isso os deixe desconfortáveis, que eles saiam refletindo a partir de um lugar como esse. O texto está chegando, estou escrevendo com uma amiga minha. O projeto está em movimento, está acontecendo. É também uma reinvenção da minha parte. Mas, se uma produtora de elenco me chamar para um teste para a novela das dez ou das sete, eu vou. Minha atriz está pulsando e sempre vai pulsar.

Agora, Samara, aqui na Breeza a gente gosta muito de falar sobre cannabis, portanto chegou a hora de conhecer a sua relação com essa planta.

É ótima. Eu acho ela incrível. Eu converso, inclusive, sobre isso em casa com as minhas filhas. Sobre essa criminalização que fazem em cima da maconha, que é racista. Sou a favor da descriminalização. Não sou usuária constante, mas já usei. Adoro estar numa rodinha com amigos, mas isso é muito esporadicamente. Mas tenho um amor profundo, acho incrível. Estarei sempre do lado da pauta da legalização.

E o que ela te desperta nas vezes que você esporadicamente experimenta? Qual é a brisa?

Ela me acalma, me pausa. E muitas vezes ajuda na criação. Eu escrevo muito, então, me leva um pouquinho pra esses caminhos, quando eu tô dentro da brisa com meus amigos ou mesmo sozinha.

Dentro da escrita, o que te favorece?

Eu trago vídeos muito profundos e sérios, porque os assuntos de que falamos têm esse peso. Mas eu preciso viver com humor. Se não tiver humor, mesmo aquele que faz você rir sem entender exatamente o motivo, aquele riso que parece proibido, eu não funciono. Eu venho carregada de humor. Eu rio muito. E quando escrevo, percebo que escrevo de um lugar cheio de sarcasmo. Por isso reviso sempre depois. É muito importante para ajustar tudo sem deixar nada exagerado demais. É uma relação muito bacana. Acho incrível. Acho que é uma planta linda, inclusive, muito linda. Tem um cheiro delicioso ali no vasinho, em tudo.

Quando você troca ideia com suas filhas e elas estão em plena adolescência, qual é a curiosidade que elas têm? Por que na nossa época de adolescente, nossos pais falavam de maconha com um tom meio terrorista, né?

Pelo amor de Deus… Minha mãe, até hoje, fala de maconha, fala de cocaína, fala de heroína, para ela, veio tudo junto no mesmo pacote. Minha mãe é uma senhora já idosa, conservadora, e ainda sustenta esse discurso, infelizmente. Está cristalizada nisso, como muitos senhores, senhoras e pessoas conservadoras. Ainda não é um assunto muito comum para elas, porque não têm contato direto. Elas sabem que alguns amigos provavelmente já fumam. Tenho certeza disso pela idade e pela adolescência. A de 12, não. A de 16, não sei. Mas é possível. As conversas que temos são muito teóricas. Eu sei que a mais velha detesta o cheiro. Eu brinco e digo que, mais tarde, a gente conversa.

É que quando tem esse espaço de conversa, pode, inclusive, não rolar interesse…

Sim, exatamente. É tão aberta a conversa, o diálogo, que inclusive, eu falo… Um dia, na vida, se você quiser experimentar aqui, vem aqui, que é seguro. Deu uma pira, deu uma onda, aqui tá segura. Então, a segurança, pra mim, é o mais importante de passar pra elas em relação a isso. É experimentar a vida que tá na nossa frente.

Você já usou maconha pra dar uma salvada no seu humor quando tudo tá desmoronando?

Não, acho que não, Anita. Ela me leva mais para um lugar de relaxamento. Eu me lembro de querer dormir bem. E de, de fato, dormir bem. Isso me faz bem, porque sempre tive problemas com sono. Hoje em dia, inclusive, eu tomo a gummie no meu cotidiano. THC, todo certinho, prescrito, para eu conseguir tirar uma sonequinha linda e gostosa.

Então, você é paciente de cannabis medicinal? 

Sim. Para dormir. 

E por que a escolha pela gummie em vez do óleo?

Foi pela médica e pela empresa com quem organizamos tudo. Tenho muitos amigos que usam óleo com receita, tudo certinho, mas ainda não chegou o momento para mim. Estou feliz com o que estou usando. Está me dando um soninho muito gostoso. Está me proporcionando uma noite de descanso mental e físico.

Como é que você vive esse processo de paciente de cannabis no Brasil?

Foi pela Humora. Uma grande amiga minha fez um evento, um café da manhã com a Humora, e ela disse que explicariam todos os benefícios, para onde vai, o que faz, como funciona. Eu não pude ir nesse dia e ela me passou o contato. Com esse contato, marquei uma consulta com uma médica e relatei tudo de que eu precisava, tudo que eu estava sentindo. Ela me encaminhou para o processo da goma, da jujubinha.

E está funcionando? 

Muito. Eu tomo meia. Meia hora depois, tento não ficar com o rosto grudado no celular, que é o nosso vício. Você quer descansar e aquela luz azul vem direto na cara. Tenho insônia e meu corpo sente a falta do sono. Então eu tomo, faço minha pequena rotina, meia jujubinha, deito e digo para mim mesma: Samara, meia hora. Meia hora. Não pega no celular. É quase um mantra.

Quais são os seus rituais para se acalmar? Porque eu imagino que a sua insônia vem da pessoa que quer fazer mil coisas e não consegue desligar…

Eu entendi que o exercício físico é algo pelo qual meu corpo realmente agradece. Não só o meu, mas qualquer pessoa percebe isso quando começa. Eu sei que dá preguiça, eu morro de preguiça, mas o exercício é um lugar importante. Faço musculação, musculação é vida. E também faço muay thai. O muay thai que pratico é uma aula curta, quase um treino de cardio intenso, vinte minutos de movimentos diretos. É uma delícia. Descobri que isso é uma catarse para mim. Fico suada e, junto com a musculação, isso me dá um relaxamento profundo na hora de dormir. A alimentação mudou muito a minha vida desde a pandemia, quando entrei na linha cetogênica. Para quem não conhece, vale pesquisar. A cetogênica me fez tirar o açúcar da minha rotina e reduzir ao máximo a farinha branca. Para mim, essas são as verdadeiras drogas. Aprender a reduzir o álcool também me ajudou demais. Eu, jovem, com independência financeira e todos os acessos possíveis… Imagina. Com 25 anos, vivi muita coisa, e sou grata a todas elas. Mas acho que é essa soma de fatores que me sustenta hoje: a alimentação que sigo, sem ser rígida comigo mesma; o exercício físico; e agora o THC, que está me fazendo um carinho.

Você já passou por alguma roubada, de beber e de repente se ver numa situação que puta que pariu…?

Uma história engraçada, que é até com a Fernandinha Souza. A gente estava em um show do Chiclete com Banana, no Rio de Janeiro, e eu tinha exagerado naquele dia. Naquele período, eu estava tomando remédio para emagrecer. Era uma fase em que muitas atrizes passavam por uma pressão enorme. Misturar aquilo com álcool era uma bomba – outra droga que é receitada o tempo inteiro. Mas a história acabou sendo divertida, graças a Deus. Meu anjo da guarda trabalhou muito naquela noite. Eu saí do show, me afastei da Fernanda e entrei no carro de um casal qualquer. Abri a porta, sentei no banco de trás e encostei a cabeça no vidro. E eu já era Samara Felippo, já fazia novela. Fiquei ali, quietinha. A Fernanda rodou o estacionamento do shopping me procurando, completamente aflita. De repente, ela olha pela janelinha de um carro e me vê encostada no vidro, dentro do carro dos outros. Eu só lembro dela falando sai daí agora. Eu pedindo desculpa para o casal. Coisas de jovem. Essa saiu barata, ainda bem, e acabou sendo engraçada (risos). Fui dormir na casa da Fernanda. Fui deitar na cama e a Fernanda sempre foi muito metódica, toda organizadinha, tudo limpinho. Eu estava com o pé sujo, roupa suja, tudo sujo, tentando me jogar direto nos lençóis. Ela falou “não, não, não, não”. Ela me levantou na hora e me jogou no chuveiro com roupa e tudo, nunca vou esquecer isso (risos).

E microdose de cogumelo, já provou?

Hum, eu tenho muito medo da onda do cogumelo, Anita. Juro. Eu já consagrei ayahuasca na minha vida e ela me levou para um lugar intenso. Foi uma experiência surreal, com todo o ritual que envolve. Mas eu não gosto desse tipo de brisa. Talvez seja uma covardia minha de não querer olhar tão profundamente para o que existe aqui dentro. Não curto muito. Já experimentei uma vez e a onda me levou para um lado introspectivo demais. Eu não interajo, fico travada, e, para mim, isso é chato.

Como é que você foi parar nessa sessão de ayahuasca?

Eu estava ensaiando a peça na época e foi pela minha diretora que já ia há muito tempo. O meu sonho sempre foi levantar no meio da ayahuasca bater tambor, mas eu nunca consegui.

Tem que estar muito firme para poder conseguir levantar para bater tambor, né?

Não consegui, não consegui. Ela me derrubou muito. Eu fui parar nessa experiência por indicação da Rita, minha diretora, que disse que era um lugar seguro, um lugar bacana. Acho importante ter alguém que indique uma vivência bonita, segura, séria, comprometida e responsável. Foi assim. Eu fui e foi ótimo.

Como você ficou quando recebeu esse convite? Você lembra da sensação? Foi uma mistura de curiosidade com um toque de medo?

É, eu fui postergando. Fui adiando mesmo. Mas tenho um caso pessoal, que é o meu pai. Ele faleceu com 53 anos, muito jovem. Foi um abalo enorme na minha vida, eu tinha 21. Nossa relação era conturbada. A gente se amava muito, mas ele fumava demais. Eu sempre odiei cigarro desde pequena. Detestava ver meus pais fumando. Até hoje eu me afasto de quem fuma. Eu fazia cartinhas para o meu pai, pedindo para ele parar. Cresci, a adolescência chegou com seus hormônios e começamos a ter embates constantes sobre isso. Ele chegava, eu saía. Às vezes ficava dias sem falar com ele. Com isso, nossa relação ficou muito ruim até ele falecer. E ele foi a primeira pessoa realmente próxima que eu perdi. Eu nunca tinha lidado com a morte, além de pets. Perder alguém de verdade foi devastador. O luto sempre foi difícil para mim. É um lugar que eu ainda não sei habitar. Eu nem fui ao enterro do meu pai e me sinto péssima por isso. Meu irmão cuidou de tudo. Ele sempre me ajudou. Eu lembro de ter sido colo para a minha mãe. Ficamos nós três. Esse chamado para a Ayahuasca veio dessa confusão interna. Eu não conhecia nada sobre a Ayahuasca. Aceitei porque queria encontrar meu pai. Achava que teria um encontro com ele, achava que resolveria mágoas, que curaria feridas dessa relação. E não foi assim. A Ayahuasca chega e te sacode, te levanta e mostra que não é por aí. Que existem outras dores para curar. Na minha primeira sessão, por exemplo, curei a culpa que carregava por ter feito cesárea. Era uma culpa profunda. Eu ouvi de mim mesma se perdoa, essa culpa não é sua. Tive duas cesáreas completamente engolida pelo sistema. Sei que não vou ter mais filhos. Não quero mais. E isso me trouxe a dor de nunca viver a sensação de um parto humanizado, do meu filho vindo direto para o meu colo. Eu chorava toda vez que via um parto assim. A Ayahuasca me levou para um lugar de cura verdadeira. Nessa sessão, eu vi claramente que aquela culpa não me pertencia. E pude deixar ir. Eu voltei duas vezes só e depois não consegui mais, por medo do que eu vou ver, medo do que eu vou enfrentar.

Mas esse lance das suas cesáreas, você sentiu como uma violência? Não eram necessárias?

A gente vive em um país que é campeão de cesáreas desnecessárias. A cesárea faz parte de toda uma indústria do capitalismo em que cada etapa gera lucro, no gás, na anestesia, no anestesista, na agulha. E ainda existe a lógica do conforto médico. Num domingo, por exemplo, dificilmente alguém quer lidar com um parto normal. Podem estar em um churrasco, descansando, e a cesárea vira o caminho mais fácil. É um funil. Eu estava completamente sem informação, com um parceiro que também não sabia nada sobre o assunto e que não me apoiava. Minha família era distante de qualquer discussão sobre parto humanizado. Eu me vi dentro de um sistema que me empurrava para um lado só. Fui induzida. Hoje falo sem problema algum que fui vítima dessa estrutura. Não falo isso com vitimismo, mas com consciência. Era uma mulher jovem, com uma gravidez saudável, e fui direcionada para uma cesárea que não era necessária. E sempre reforço que a cesárea é extremamente necessária, em muitos casos ela salva vidas de mulheres e bebês. O problema é o uso indiscriminado, sem real necessidade, que se tornou uma prática comum. Eu também tinha medo de parir. A sociedade colocou isso em mim. Os filmes, os livros, as novelas mostram mulheres parindo em cenários caóticos, com dores absurdas, praticamente morrendo. Eu via aquilo quando era jovem e pensava não quero isso. Esse medo reverberou até a minha gravidez. Eu não seguia mulheres nas redes sociais que falassem de parto humanizado. Não conhecia doulas nem vozes que tratassem o parto com acolhimento, respeito, protagonismo e escolha. Hoje sigo muitas e aprendi muito. Hoje eu falo sobre isso para transmutar, para transformar o que vivi, para chegar a um lugar de cura.

Então não foi uma culpa imediata, foi com o tempo que você foi percebendo essa violência?

Na época eu achei ótimo. Pensei que bom, vamos logo, não aguento mais ficar grávida, tira logo, estou cansada. E eu era a mulher branca, de classe média, privilegiada, que estava fazendo a unha no dia do parto. Quando olho para trás, vejo tudo isso com nitidez. O tempo foi tirando as camadas e me mostrando o que eu não enxergava. Mulheres começaram a relatar suas experiências, eu fui ler livros sobre o tema, vi documentários, conversei com amigas que sofreram violência obstétrica. Eu nem sabia que aquilo tinha nome. E essas camadas foram caindo até que eu compreendesse o sistema em que eu estava inserida. Depois disso veio uma culpa horrível. Eu achava que tinha sido burra, que não tinha percebido nada. Mas não é burrice, é estrutura. É como o racismo age, moldando mentalidades desde antes de a gente se dar conta. Eu já estava preparada para aceitar a cesárea como caminho natural, do mesmo jeito que eu cresci acreditando que toda mulher nasce para ser mãe. Para mim, não existia opção de não ser. Em entrevistas sempre me perguntavam se eu queria ter filhos e eu dizia que meu sonho era ser mãe. Eu nem sabia por que respondia isso, eu não fazia ideia do que era ser mãe. O que eu conhecia era o amor imenso que recebi da minha mãe, a entrega dela, tudo o que ela viveu. Hoje olho para isso com muito mais respeito e carinho. Penso na gravidez dela, na amamentação, no bico ferido, no cansaço, no trabalho, nas perdas… Para mim, mulher tinha que ser mãe, não existia opção de não ser. É um chip que colocam na gente. Romantizam tudo. Dizem que é a coisa mais linda do mundo. E, no fim, todo o peso do cuidado cai sobre a mulher. Muitas vezes ao lado de um homem péssimo, abusivo, ausente. Essa é a verdade que eu demorei para enxergar.

De que modo você está criando duas meninas para que elas não achem que o amor romântico é a coisa mais importante da vida?

Com elas eu faço um trabalho involuntário, às vezes até inconsciente. A gente está vendo uma série e, quando surge uma cena abusiva ou um romantismo exagerado, aquele que a gente reconhece como pura ficção, eu paro tudo, pauso o filme e pergunto o que você viu de errado ali, filha? Ela observa e responde. Esse espaço de diálogo é muito importante. Já existe um esclarecimento ali. A mais velha tem 16 e entende bastante coisa. É óbvio que eu sempre digo que não tenho controle de tudo. Minha filha pode agir de um jeito em casa e de outro com os amigos, tenho plena consciência disso, mas acredito que o essencial já chegou ao entendimento delas. Essa desconstrução do amor romântico, da dependência emocional que recai sobre as mulheres, dessa sensação de estar em uma prateleira, esperando ser escolhida. Como isso destrói autoestima, alimenta frustrações, abre portas para depressão e solidão. Falo tudo isso com clareza. No dia a dia, vou apontando situações, mas não controlo tudo. Ela vai ver filmes românticos e vai achar lindo. E ali já existe uma pequena pílula que a narrativa tenta inserir. Ela pode conhecer um garoto que diga que ela é a pessoa mais maravilhosa do mundo, tudo que ele sempre sonhou, e ela pode se encantar. Acho que isso é inevitável. Talvez o que eu possa fazer é torcer para que ela quebre menos a cara do que eu e você quebramos, Anita. Que saiba se defender, que saiba dizer não quando for preciso. Conto o que já passei, falo sobre como perdi a virgindade, porque me irrita muito essa ideia de lacre, selo, pureza. Isso não existe, não romantizo esse momento. O que importa é que seja bom para ela e para a outra pessoa. Conto como foram meus relacionamentos, onde eu sofri, o que foi abuso para mim. E isso cria um diálogo real, elas vão entendendo, vão criando critérios. Aqui em casa nada é ditatorial, é mais um cuidado aqui, um alerta ali. Acho que, desse jeito, eu estou conseguindo.