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Observatório da Planta

Se o mercado da cannabis travar nos EUA, o Brasil pode acelerar

Por Murilo Nicolau

A indústria de hemp dos EUA acaba de entrar num período de contagem regressiva. Dentro de um ano, em novembro de 2026, pode entrar em vigor um dos maiores apertos regulatórios da história do setor. Se isso acontecer, o maior produtor mundial de derivados de cânhamo pode abrir espaço para fornecedores internacionais, inclusive o Brasil.

O Congresso americano aprovou novas regras que redefinem completamente o conceito de hemp. Antes bastava que o delta-9 THC ficasse abaixo de 0,3%. Agora passa a valer a soma de tudo: THC total, THCA e qualquer canabinoide com efeito semelhante ao THC. No caso dos produtos finais, o limite cai para 0,4 mg por embalagem, um valor que exclui cerca de 95% do mercado atual.

A mudança técnica é profunda, mas pode ser explicada de forma simples: se antes a lei olhava exclusivamente para o delta-9-THC, agora ela considera qualquer molécula que possa se transformar em THC ou similar. O resultado é que praticamente todo o setor de bebidas, gomas e extratos de hemp voltariam à ilegalidade federal.

Mesmo assim, nada muda agora. O mercado tem 12 meses de trégua.

Esse intervalo abre diferentes possibilidades nos EUA. As empresas podem tentar reformular produtos, parte da norma pode ser revista, ou o país pode voltar a agir racionalmente e acabar substituindo o banimento por um modelo regulatório mais perene. Caso o banimento vigore, os impactos econômicos serão imediatos. Linhas inteiras de produtos seriam descontinuadas, cadeias logísticas seriam interrompidas e o país que liderou a expansão global do hemp verá surgir a chance de um vácuo de oferta justamente quando a demanda por canabinoides cresce.

É aqui que o Brasil aparece como potencial beneficiado. Mesmo com desafios internos, o país reúne vantagens competitivas claras. Temos clima favorável, capacidade agrícola e um ecossistema técnico que domina genética, cultivo e extração. Se os EUA reduzirem drasticamente a oferta de derivados do hemp, outros países ocuparão esse espaço. Não há nenhum impedimento estrutural que impeça o Brasil de participar dessa cadeia desde que avancemos em previsibilidade regulatória e estrutura produtiva.

O cenário americano ainda é incerto. Muitos analistas acreditam que o banimento total nunca será aplicado. Outros enxergam a medida como um instrumento de pressão para acelerar uma regulamentação federal mais moderna. Independentemente da direção, o mercado global de canabinoides vai se reorganizar.

Desta vez, o Brasil não entra como coadjuvante. Temos pela primeira vez a chance real de assumir protagonismo produtivo num momento em que o principal concorrente pode se autolimitar.

Se os EUA fecharem a porta do THC derivado de hemp, talvez seja justamente nessa fresta que o mercado brasileiro encontre sua melhor oportunidade.

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