Saindo da estufa

Facundo Guerra: “O pior vício que existe é o vício em dinheiro”

Poucos empresários têm uma trajetória tão singular quanto a de Facundo Guerra, argentino radicado no Brasil, doutor em ciência política e reconhecido como um dos maiores nomes do entretenimento paulistano – ele é o criador de espaços icônicos como o Cine Joia, o Mirante 9 de Julho e o Bar Riviera. Mas por trás do rótulo de “rei da noite”, Facundo nunca se encaixou no perfil clássico de empreendedor. Ele não se orienta pelo lucro e tampouco cultiva a obsessão pelo acúmulo. Sua visão sobre dinheiro é marcada por uma infância de privações e pelo legado de uma família comunista, que sempre o alertou sobre os perigos da riqueza.

Nesse papo com nossa editora Anita Krepp, Facundo diz que a maior vantagem de ter dinheiro não está no luxo, mas na liberdade de dizer “não”. Ele também compartilha um medo profundo: o de envelhecer pobre em um país onde a velhice sem recursos é, como ele define, “muito cruel”.

Facundo também fala abertamente sobre sua relação com a cannabis, hoje especialmente em versões modernizadas, como gominhas de THC, que lhe permitem dosar com precisão os efeitos. Ele reflete sobre o papel das substâncias na noite paulistana e denuncia as desigualdades no acesso: “a depender da cor da sua pele e da condição financeira, todo lugar é legalize”.

Nos últimos anos, o empresário mergulhou também no universo dos psicodélicos. Ayahuasca, psilocibina e ketamina se tornaram ferramentas de autoconhecimento numa fase da vida em que a maturidade permite lidar melhor com as experiências. Facundo enxerga nessas substâncias não um escapismo irresponsável, mas um modo de se reconectar consigo mesmo, de “tirar férias do próprio ego” e resgatar epifanias que a vida adulta já não oferece com tanta frequência. 

Facundo, você que já abriu mais de trinta empreendimentos, já perdeu a conta numa velocidade impressionante, como tá esse fogo empreendedor dentro de ti? Você já consegue relaxar, viver sem pensar no próximo empreendimento?

Olha, pela primeira vez na minha vida, eu não tô com o empreendimento engatilhado. Tirando o período da pandemia, que não dava pra fazer nada, mas eu já tinha ideias do que eu ia fazer quando a pandemia cessasse. Mas não estou com nenhuma ideia sendo produzida, nem rascunhando nada, tô super num período bem mais tranquilo.

O que mudou pra chegar nesse momento?

Ah, eu acho que eu já fiz tudo, não tenho mais o que fazer. Já fiz teatro, casa de show, restaurante, bar, cinema, espaço cultural, boate, bar. Pô, já fiz tudo. Então não tô com muita vontade.

E onde você tá colocando sua energia?

Tô dando muita aula ultimamente. Muita gente aqui no Brasil se fode abrindo seus negócios. A gente tem umas estatísticas muito cruéis aqui no Brasil com relação à abertura de negócios. O Sebrae fala de 60% de falha nos três primeiros anos, mas aí a gente não sabe também o que é empreendedorismo, o que é sobrevivência, o que é precariedade, o que é comerciante… tem uma confusão muito grande entre esses termos. Eu tô me dedicando a dar aula, de alguma maneira livrar esse povo de um monte de coach que no final das contas vende sonho e entrega pesadelo, né?

Não tem uma pegada coach no Fractal?

Não, cara. Porque o coach vende a ilusão que é fundamentada na meritocracia que todos podem. Ele vende ouro de tolo. E eu, na verdade, tô dando aula. Além de eu ser capacitado pra dar aula, tecnicamente, fiz doutorado, estudei um monte, eu também montei 30 negócios. Então, eu não fico falando pras pessoas sobre meritocracia, eu não falo sobre desenvolvimento pessoal, eu não falo sobre resiliência. Eu dou uma estrutura que eu usei ao longo dos últimos anos. Todos esses negócios também tiveram uma base empírica, no começo, pelo menos, até eu sistematizar. E eu tenho uma taxa de sucesso relativamente alta, que é um jeito de fazer as coisas.

Como nasceu a Fractal?

Acho que foi na pandemia que eu comecei a dar aula. Foi bem na pandemia. Então, também nessa coisa de querer… Tava sem projeto, e comecei a perceber que as pessoas estão ficando meio desesperadas. Porque elas começaram a perder emprego, e aí eu montei um grupo pra ajudar essas pessoas a montar negócios. E deu super certo. Vi um monte de negócio que saiu dessas tentativas, um monte de gente que ficou sócia. E é bem animador ver esses negócios saindo do papel e saber que eu contribuí de alguma maneira com essas histórias.

Eu sei que você reinveste muito do que você ganha nos seus próprios negócios, mas quais são os seus outros interesses em termos de investimento?

Nada. Eu sou um péssimo investidor, não manjo porra nenhuma de investimento. Nada, zero. Eu também não invisto no negócio dos outros e não sou muito orientado pra grana também. Gosto de ter conforto financeiro, mas o melhor de ter dinheiro é poder falar não. Então hoje em dia eu tô falando bastante não. Mas eu também não consigo converter dinheiro em coisa. Eu sou, de uma determinada maneira, conservador com relação aos meus gastos. Venho de uma família que sofreu muito na velhice com a pobreza. Acho que eu sou a primeira pessoa que eu conheço na minha família que conseguiu enriquecer. Minha família é muito sofrida. Meu pai mora num apartamentinho de trinta metros quadrados em Itaquera, eu tento mudar a vida dele, mas ele é muito muito orgulhoso. Já tentei trazer ele pro centro, já tentei de tudo. A única coisa que no final das contas consigo fazer é pagar o plano de saúde dele, que é o que ele me deixou fazer. Aí meu irmão entrega iFood, minha irmã mora na gringa e é funcionária do lar, faz limpeza em casa de família, então, porra, eu não tenho medo de envelhecer. Mas eu tenho medo de envelhecer pobre. Porque aqui no Brasil, você envelhecer pobre é muito cruel. Como eu sou filho e neto de comunista, a gente cresceu meio que sabendo, ouvindo do nosso pai que “por trás de toda fortuna existe um crime, que o dinheiro corrompe, não confie num rico, o rico vai sempre te fuder”… Então a gente sempre cresceu com aquela impressão de que o dinheiro é tóxico. E ele é em determinada condição, o dinheiro tem um poder de transformar muito grande.

Como você internalizou toda essa bagagem anti-rico?

Eu sempre tive um mecanismo de juntar dinheiro e gastar tudo. Mas eu gastava em projeto, eu tava juntando um negócio, eu tava indo super bem, aí eu acumulava alguns milhões e em vez de construir patrimônio, eu dispersava tudo em novos projetos. Muitas vezes, alguns deles, eles não tinham nem sustentabilidade financeira, e eu sabia disso. Tipo, o Mirante 9 de julho, eu gastei uma fortuna, acho que uns 4 milhões de reais, e sabia que ele não ficava em pé. Ganhar dinheiro não é prioridade pra mim. É prioridade a partir do momento em que eu falo, “porra, se esse lugar não ficar sustentável, eu não vou conseguir aguentar muito tempo”. Mas… Ganhar dinheiro, perder dinheiro, pra mim são coisas que são da vida, eu não me preocupo muito. Durante a pandemia eu fiquei sem pagar, por exemplo, algumas mensalidades da escola da minha filha e isso me deixou muito incomodado. Mas fui criando esses mecanismos pra não acumular muito dinheiro, ter dinheiro, mas não ter dinheiro demais. Eu tenho dinheiro suficiente, por exemplo, pra viajar de Econômica Plus. Não de Executiva, mas de Econômica Plus. Se eu aquietar o rabo, em um ano eu fico milionário de novo, porque os negócios dão muito dinheiro. Mas eu gosto de ter desejo, entendeu? Eu gosto de sonhar um dia em viajar com a minha filha de Executiva. Não que eu faça muita questão, pra ser sincero, mas não quero que a Executiva se normalize na minha vida, vire coisa corriqueira.

Manter o desejo vivo também te mantém vivo, por que se você tem tudo, qual é a motivação, né?

É exatamente disso que eu tô me dando conta. Ter tudo, ter muito dinheiro, atingir um status, atingir um determinado patamar financeiro, é triste demais, porque você para de desejar, e aí nada vira uma conquista, tudo fica natural. Nada você faz, puta, cheguei aqui, caralho, que foda. Existe um determinado patamar de dinheiro que se passar dele começa a ser perigoso.

Agora, Facundo, você tem fobia social? Como é isso sendo essa pessoa que tá ou esteve circulando muito por ambientes cheios de gente?

Ah, eu tenho um pouco de fobia social, sim, mas eu trato com a psiquiatra. Eu não bebo, então as pessoas começam a ficar meio chatas quando bebem demais, começam a me incomodar e eu não gosto de ser moralista, entendeu? Eu não gosto de dizer o que os outros devem ou não devem fazer, se devem ou não devem se drogar, se devem ou não devem fazer isso ou aquilo. Prefiro me retirar do espaço. E São Paulo, acho que como qualquer megalópole, tem essa coisa de fogueira de vaidades, das pessoas se acharem mais importantes do que as outras, essa coisa da arrogância, do hype, de você estar num determinado lugar e se comportar de uma determinada maneira.

Sinto que você, no fundo, tem um pouco de preguiça do universo que te rodeia…

É, eu não tenho muita paciência mesmo e também não tenho muita vontade de pertencer a ele. Eu gosto das coisas mais consistentes, de alguma maneira, sabe?

Com tanta vivência no entretenimento e na vida noturna de São Paulo, qual papel você acha que as drogas desempenham nesse recorte de universo da cidade?

Eu acho que as drogas são fundamentais pra experiência humana na Terra. Eu não gosto da cocaína, porque eu acho que quando você dá um teco você corrobora com o que existe de pior na nossa sociedade, político, banco, traficante… Então, eu acho que você reforça aquilo que existe de mais daninho. E a cocaína também é uma droga que reforça muito o teu ego, né? Então, as pessoas acabam cheirando e se sentindo superiores às outras. Também não gosto muito do álcool, apesar de ser, de uma determinada maneira, um traficante legitimado pelo Estado, eu vejo com bons olhos essa história das pessoas beberem menos, estarem menos dispostas à bebida. Mas cada um tem que escolher o seu próprio veneno. Tem gente que é viciada em dinheiro. Tem gente que é viciada em tigrinho. Tem gente que é viciada em sexo. Eu acho que cada um tem a sua forma de escapismo. O pior vício que existe é o vício em dinheiro, é o vício mais escroto, pior do que a cocaína. Agora, os demais são todos muito bem-vindos. Qualquer maneira de você alterar a sua consciência, sair um pouco do seu ego, dissolver o seu ego, experimentar camadas mais profundas de si… Eu acho muito foda. E tenho um plano meio utópico. Nunca usei drogas, sempre tive muito medo do impacto que elas poderiam trazer no meu cérebro, porque sou muito dependente do meu cérebro, foi através dele que eu consegui mudar a minha vida, então sempre tive receio de impactar meu cérebro e não conseguir fazer aquilo que faço. Mas agora que eu estou mais velho, estou com uma certa pretensão de começar a ser um velho doido, andar pelado, com a cabeça cheia de cogumelo (risos). Estou experimentando várias coisas que eu nunca tinha experimentado. Eu passei por um período difícil agora recentemente, meio depressivo, e aí eu comecei a experimentar a ketamina, a psilocibina, e já consagrei ayahuasca algumas vezes… Então eu estou começando a experimentar coisas que eu nunca experimentei quando era mais jovem. Acho que é a melhor idade para você começar a buscar drogas, quando você já tem uma sabedoria, você já consegue controlar a substância, porque você já é maduro, o impacto no cérebro já não é tão mais importante, porque de qualquer forma ele está se deteriorando mesmo.

E alguns psicodélicos até ajudam a que não se deteriore, a estimular a neurogênesis…

Exatamente, como a psilocibina, né? Você já está mais maduro, mais sábio, você já sabe quem é, então você precisa de uma necessidade ainda maior de escapar de você mesmo. A gente fala pouco sobre as drogas e a maturidade, e é a melhor idade, porque você já tem uma carga de experiência foda e você começa a ficar um pouco entediado da vida, poucas coisas te surpreendem. A coisa chata de você envelhecer é que você tem poucas epifanias também. Eu me lembro que quando eu era moleque eu tinha epifania direto, assim, com arte, vendo uma peça de teatro. Minha cabeça explodia múltiplas vezes. Hoje em dia é muito mais difícil, porque de alguma forma você já viu quase tudo. Se você é uma pessoa curiosa, você já viu quase tudo. Então as drogas te permitem essa alteridade, elas permitem você entrar em outras dimensões que não são dimensões da produção humana, mas são dimensões tuas também, são camadas tuas que muitas vezes você deixou de travar contato com elas.

Qual psicodélico você experimentou primeiro?

Primeiro foi a ayahuasca, depois o cogumelo, e agora recentemente a ketamina. Eu tenho tido um pouco de preguiça da ketamina, porque você tem que inalar ela, e eu tenho um pouco de preconceito com cocaína, então dar uns tecos de Special K eu tenho achado um pouco cafona.

O que você acessa com a ajuda da ketamina?

Nossa, difícil colocar isso em palavras, Anita… A impressão que eu tive, por exemplo, com a ayahuasca, que é aquela coisa da sensação do seu ego se desfazer, e você fica um nó como se todas as emoções e todos os sentimentos confluíssem no mesmo lugar. Você já não controla mais o que você sente, pelo menos é o que aconteceu na ayahuasca comigo. Eu não controlava o que eu sentia, mas eu recebia tudo, tanto a dor, quanto a alegria, quanto o prazer, quanto o medo. Eles fluíam por mim, mas eles não ficavam e não eram processados. Eu acho que a ketamina é quase o oposto disso, porque eu fiquei tão relaxado e tão quase coisificado, eu não consigo colocar isso em palavras, mas era quase uma coisificação do ser. Você vira o teu entorno, você vira tudo. Essa coisa que tem os orientais, de vibrar de acordo com um objeto, de vibrar de acordo com uma cadeira, de vibrar de acordo com um animal, de vibrar de acordo com uma árvore, sei lá, com o vento, de tudo ser algo, de tudo ser parte de si, eu acho que é um pouco do que eu senti quando eu usei ketamina.

E na Ayahuasca como é que você foi parar?

Curiosidade. Eu não sou uma pessoa muito religiosa, mas tenho amigos que estavam consagrando e aí eu fui pra pra ver qual que era. Fui três vezes e voltaria tranquilamente. Agora eu vou passar por um terapeuta que vai me entregar uma dose heroica de psilocibina, 5 gramas. Vai ser no consultório e com acompanhamento porque é uma dose muito alta.

Qual é a expectativa?

Nenhuma. Expectativa é a mãe da decepção. É como você tem que se preparar para uma viagem.

Mas você não tem medo de bad?

A bad faz parte também. Está tudo bem. A bad é importante. Não pode escapar da bad. A bad ensina alguma coisa também.

Com certeza, a bad ensina muito mais do que só o gostosinho, uhu, mas você consegue se deixar levar sem resistir?

É, eu tenho uma certa resistência no começo, porque eu sou muito racional. Então perder o controle da minha racionalidade é uma coisa que me incomoda. Mas aí, perder o controle passa a ser uma decisão de controle, entendeu? Passa pelo controle perder o controle. Então você racionalizar e falar assim “você precisa largar disso daqui”. Primeiro tem um processo de controle para depois existir a perda. 

O que de mais interessante você tem descoberto nessa sua incursão pelos psicodélicos?

Não vou te dizer que eu tive nenhuma epifania, que eu descobri um outro lado meu. Eu acho que ela abre… Bem aquela coisa da década de 70, 60, de abrir a porta para uma percepção e para uma dimensão que você não tem. Você fica turista dentro de si mesmo, e isso é o mais bonito. Você acaba viajando sem sair do lugar. Essa dose heroica que vou fazer é um pouco de tirar férias de mim mesmo. 

Mas é tirar umas férias de você indo de encontro profundo com você…

Mas não é o seu eu. Quando você fala de você, você fala de ego. Aí tirar férias de você significa tirar férias do seu eu, mas não de outras camadas que te compõem. Aquela camada produtiva, social, aquela camada que tem contornos, adjetivo, aquela camada que te aprisiona, porque o ego também é uma prisão. Então isso é de alguma forma botar o carcereiro pra dormir um pouco.

Como é que você lidava com seu ego antes dessas incursões psicodélicas?

Pode parecer falsa humildade, mas não. Eu não acho que o que eu faço é muito mais importante do que qualquer outro trabalhando na sociedade. E tenho dispositivos pra não deixar isso acontecer. Eu tento ficar pouco tempo à noite. O meu trabalho intenso é muito mais com pião de obra do que com promoter. Não deixo meu ego ficar completamente inflado, me sentir mais importante do que os outros, olhar de cima pra baixo. Pode parecer falsa modéstia, mas isso é uma construção da infância, de como você foi educado. Eu fui uma criança que foi cadeirante durante um período. Além de ter boas notas, eu não tinha nenhum tipo de destaque social. E eu fui uma criança também na década de 80 e 90, meus pais eram cruéis, segundo a concepção de paternidade hoje. Minha mãe era uma mãe cruel. De abusos físicos, abusos morais, não abusos sexuais, mas abusos físicos e morais. Então, eu cresci com uma autoestima de merda, que é uma coisa que eu tenho que tratar hoje na terapia. Então, eu não tenho uma visão de que eu sou foda. Pelo contrário, se não fosse pela minha autoestima cagada, provavelmente eu não teria feito 10% do que eu fiz, porque eu tô sempre provando pra mim mesmo que eu posso ir um pouco mais além. Provar pra ninguém, porque é provar pra mim mesmo… Fiz engenharia, fiz jornalismo, fiz mestrado, fiz doutorado, fiz um cem número de cursos de arte, de cinema, de teatro. Tudo isso pra provar pra mim mesmo que eu não era burro. Eu nunca cheguei a essa conclusão. Porque eu não fui nem buscar meu diploma de doutorado. Pra que que eu fui fazer um doutorado em ciência política? Pra nada. Mas pra provar pra mim mesmo que eu podia fazer, era uma maneira de me sentir legitimado socialmente.

Qualquer pessoa que fez um doutorado numa instituição séria, no mínimo, é esforçada… Aí todas as vezes que eu falava, “ah, fiz um restaurante”. “Ah, mas você não fez bar ainda. No bar você vai falhar”. “Ah, não fiz cinema. Mas no cinema você vai falhar”. “Ah, no teatro. Mas no teatro você vai falhar”. E assim sucessivamente, fui fazendo vários dispositivos sociais, porque eu queria saber qual que era aquele que ia me enterrar. Um desejo de quase autodestruição, mas por outro lado também tenho um outro mecanismo que faz com que esse capataz que tenho dentro de mim não vença. É meio difícil de entender, né? Mas existe uma tensão entre a autodestruição por um lado e a arrogância por outro de não permitir que esse lado vença. Então tem essa tensão que é o que me move. Não é o ego, não é a vontade de aparecer, não é a vontade de ser melhor do que os outros, não é o dinheiro, não é nada disso. São esses mecanismos que são muito mais complexos do que tudo isso… Você tá sendo uma terapeuta. Falando coisas pra você que são assuntos da minha terapia.

Hoje em dia em São Paulo existem clubes, bares, que são considerados legalize. E as pessoas, inclusive, escolhem onde ir levando isso em conta. Isso é uma coisa nova de abertura da sociedade pra esse tema ou desde sempre existiram esses lugares legalize?

A depender da tua cor de pele e da tua condição financeira, todo lugar é legalize. Ou você acha que não tem político que fica dando teco no banheiro do Senado? A gente não legaliza droga aqui no Brasil, a gente sabe o porquê. Porque é controle social de população preta, porque interessa a banco, interessa a política. É um instrumento de controle não legalizar as drogas.

Você sente que a sociedade está um pouco mais permissiva?

Eu acho que na noite paulistana sempre existiu uma suspensão da moral do dia, são duas sociedades que coexistem. A sociedade da noite, as pessoas que saem à noite, as pessoas que se divertem, essa moralidade, ela não é a mesma moralidade do dia porque existe a produção e existe o anestésico à produção, que acontece à noite.

Me conta um pouco da sua relação com a cannabis…

Eu gosto muito de cannabis e sou paciente da Anvisa. O que acontece é que o THC varia muito a dosagem de acordo com o tipo de beck que você fuma, as pessoas agora tão plantando em casa. Então, às vezes, eu dou um teco, e como eu sou mais frágil do ponto de vista químico, não bebo e tudo mais, às vezes, eu perco a dose. Então, o que eu tô fazendo agora é consumindo cannabis em produtos como gummy, spray, que eu sei quanto que eu vou usar. Às vezes eu errava a dose, ficava locão demais. Tô amando as gominhas, que são cinco miligramas de THC. Antes de sair, eu mando uma gominha pra dentro, fico ótimo. E assim, tecnologia, né? Tudo bem, você sai da parte ritualística, que não me interessa muito, e você entra na parte da molécula mesmo, e acho que essa, sim, tem a sua função.

Você falou que a parte ritualística não te interessa, mas ao mesmo tempo, eu sinto que você é uma pessoa que tá sempre em busca de um aperfeiçoamento pessoal, espiritual. Como você explicaria a sua espiritualidade?

Eu não tenho espiritualidade desenvolvida. Eu acho lindos todos os rituais, acho os rituais super importantes pra nossa existência. Mas eu não acho que é Deus que entra, acho que são todas versões de si mesmo. Eu não acredito em fantasma, eu não acredito em espírito, eu não acredito em demônio, como objetividades, mas como subjetividades. Não dá pra você falar que tudo o que você acredita é uma verdade no mundo. Não, varia muito de acordo com a tua cultura, varia muito de acordo com as tuas experiências pregressas. Eu sou filho de Ogum e Oxóssi. Eu vou dizer que Ogum e Oxóssi existem quando, sei lá, na Polinésia não existem Ogum e Oxóssi? Por exemplo, as pessoas são muito medrosas com espaços que são mal-assombrados, todos os meus lugares são mal-assombrados, teoricamente. E eu sou capaz de ficar num espaço mais mal-assombrado que você imaginar. Me coloca num castelo mal-assombrado ali no interior da Irlanda que eu não vou ver fantasma, porque eu não acredito em fantasma.