Por Anita Krepp

“Falar de ganja é desafiador pra gente que é artista independente, porque as plataformas derrubam nosso alcance. O tema mais atrapalha do que ajuda, mas é uma escolha de posicionamento, então bola pra frente”, confessa Jota 3, uma das principais referências do dub no Brasil. O depoimento escancara o contraste, enquanto vozes pró-legalização são silenciadas digitalmente, como já foi a própria Breeza, as mesmas redes sociais permanecem permissivas para crimes de verdade, de apostas ilegais à exploração de imagem infantil.
Felizmente, a vida real insiste em contrariar a sanha proibicionista das plataformas. Prova disso é que no próximo sábado, 18 de outubro, Jota lança o remix de “Flores e Ervas” (Jota 3 e BNegão) na festa dub Terremoto – um dos bailes mais tradicionais da cena soundsystem paulistana. O evento terá a participação do lendário produtor inglês de reggae Vibronics, que também assina o remix. “É uma honra e muito natural seguir ao lado de um artista tão representativo como o BNegão, que cresci ouvindo e admiro, e do Vibronics, que está vindo diretamente da Inglaterra para uma apresentação única no Brasil.”
Jota é hoje uma das principais pontes entre o Brasil e a cena dub internacional, conexão que nasceu no período em que viveu em Brixton, bairro do sul de Londres marcado pela forte presença caribenha e pelo legado vibrante da cultura soundsystem, ainda pulsante ali e reverberando mundo afora. “Essa vivência foi fundamental. Me fez querer falar mais sobre a erva na minha música, e não apenas como diversão, mas como uma mensagem de consciência”, resume.
Protegido por Jah
O relançamento de Flores e Ervas, quase uma década após a primeira versão, expõe não só o lento processo de normalização da cannabis na sociedade, mas também a força motriz da arte de Jota. “Gravamos o clipe original em uma plantação cujo dono foi preso logo depois. Não teve relação com a gravação, mas foi muito triste: mais um jardineiro encarcerado, mais um motivo para a gente continuar iluminando esse tema”, relembra o artista, que também já sentiu a repressão na própria pele.
Em uma das ocasiões, aquela em que acredita ter tido mais sorte, Jota foi surpreendido pela juíza responsável pelo processo de porte de maconha que enfrentava. “Eu já estava certo de que seria fichado e teria que prestar serviço comunitário. Mas, de repente, a juíza disse que conhecia meu trabalho, que a família dela também era ligada à música e que entendia a relação da erva com esse universo. No fim, ela simplesmente me liberou.”
A experiência acabou se somando à trajetória de quem segue na linha de frente pela legalização e pelo direito ao autocultivo no Brasil, causa que Jota assume como missão central de sua caminhada artística no underground. “Às vezes a gente paga para trabalhar, mas isso faz parte do fundamento de ajudar as pessoas. Fazer música e falar de ganja me ajudou a me curar, então, enquanto eu puder, vou seguir nessa luta”, afirma. A voz embarga ao concluir: “Ganja é amor, e a revolução é verde.”
Pai de família e maconheiro
A cura pela erva, como ele define, chegou ainda na adolescência, em meio a sucessivas internações por problemas gástricos. “Desde criança eu precisava cuidar da minha mãe, que tinha uma condição neurológica, e isso me gerava muita ansiedade. Acabei desenvolvendo úlcera nervosa e vivia hospitalizado”, recorda. Foi nesse período que um amigo o convidou para aulas de canto e meditação. “Com ele, formei uma banda, comecei a cantar e, aos poucos, fui melhorando. Foi também quando passei a fumar erva, e ali encontrei o caminho de Zion.”
Embora a ganja sempre tenha feito parte de seu processo criativo, combustível para produzir, compor e escrever, Jota só a trouxe para o centro de sua obra em 2016, com a faixa Flores e Ervas, que agora ganha relançamento. “Só depois que minha filha ficou mais velha é que resolvi focar nas mensagens de legalização”, explica. A decisão veio do respeito à vontade da mãe da menina, que preferia que, durante a infância e a adolescência, o tema não fosse tratado de forma explícita nas canções.
Dez anos depois de erguer pela primeira vez, de forma explícita, a bandeira da cannabis na sua música, Jota celebra a relação próxima que construiu com a filha, recém-formada em educação física e também usuária da planta. “Criamos uma relação linda em torno da ganja. A gente fuma junto, troca ideia… algo que eu nunca poderia imaginar na minha geração”, conta, orgulhoso. “A diferença é que ela é da geração do ice, e eu continuo fiel à flor.”