Saindo da estufa

Don L: “A gente tem que lutar por uma relação saudável, sem tabu, com a cannabis e com todas as chamadas drogas”

Crédito: Bel Gandolfo

Don L carrega no corpo e na rima a história do rap, que nasceu como trincheira política. Vindo de Fortaleza, ele aprendeu cedo que fazer música era também estar nas ruas, em rádios comunitárias, em movimentos sociais.

Essa base o acompanha até hoje, e nessa conversa com nossa editora Anita Krepp, o artista versa sobre política de drogas e a urgência de uma discussão madura sobre cannabis, psicodélicos, microdose e reparação social. O rapper revela que a sua relação com a maconha está ligada ao equilíbrio entre prazer, saúde mental e criação artística, e expõe a desigualdade que estrutura a proibição: enquanto elites discutem cannabis em consultórios chiques, jovens de periferia seguem expostos à violência policial.

No campo dos psicodélicos, o rapper enxerga uma enorme potência transformadora. A microdose de cogumelo, especialmente quando combinada a outros fungos funcionais, aparece em sua rotina como ferramenta sutil para criar novas conexões mentais e aliviar sintomas emocionais. Ele entende o uso como parte de uma visão holística de saúde, que relaciona corpo, mente e contexto social, e enxerga aí uma alternativa real ao consumo massivo de antidepressivos.

Mas o ponto mais contundente surge quando ele conecta a legalização das drogas à reparação social. Para Don L, não basta liberar o consumo, é preciso garantir que os impostos arrecadados sejam direcionados à moradia e à dignidade nas favelas, territórios violentados com a desculpa da guerra às drogas. Falar de cannabis, para ele, é falar de futuro, mas de um futuro que só faz sentido se for também de justiça.

Don, você é um dos caras com mais estofo, mais bagagem política que eu vejo no rap. Como é que você começou a construir o seu eu político?

Cara, eu venho de um lugar onde o hip hop era basicamente um movimento político. Em Fortaleza, quando eu comecei, que era uma época em que a internet era em lan house, não era uma coisa popular, as pessoas não tinham internet no celular toda hora. Nessa época, você ser de Fortaleza e fazer rap já era difícil. Não tô dizendo que hoje em dia é fácil ser artista nordestino, ainda mais do rap, mas naquela época não havia nenhuma possibilidade, não era uma perspectiva. Então, a gente que curtia rap, que queria se engajar no movimento hip-hop, ia pelas questões políticas do rap. O Hip-Hop se organizava como um movimento social, a gente tinha programas em rádio comunitárias, se associava a movimentos políticos. Isso foi uma politização na vida real. Hoje em dia é muito louco porque eu vejo que tem uma galera que é politizada pelo Twitter. (risos) Passou um mês lendo o thread de Twitter e é desrespeitoso com uma pessoa que tem 20 anos de movimento social, de estar na rua, de ir para manifestação. Eu vim de outra escola, isso me deu essa base, apesar de eu não ser um grande estudioso. Muita gente acha que eu sou super leitor, e eu não sou, porque não tenho tempo, a minha prioridade é a música, eu passo mais tempo lendo tutorial sobre como fazer aquele som que eu quero, estudando sobre o tipo de equipamento usado num disco do Michael Jackson, esse é o meu principal interesse, então não sou um super estudioso, mas eu vim vivendo essa base. 

E como você sentiu a evolução do seu sujeito político quando saiu de Fortaleza e foi morar em São Paulo?

Eu vim em 2013 pra fazer uma carreira. Naquela época não tinha como ser artista de rap em Fortaleza e ter uma carreira nacional. Hoje em dia ainda é difícil, mas é possível. Matuê, Will, esses caras todos têm uma base em São Paulo, uma base no Rio, porque o Brasil é muito concentrado. Por isso que política é tão importante, porque a gente, na verdade, queria viver bem nossa arte. E a gente se depara com inúmeras barreiras que vêm do fato de o Brasil ser esse país subdesenvolvido, onde se você ganha mais de 5 mil reais por mês, você está entre os 10% que ganham mais. É muito absurdo. No Nordeste as coisas são muito mais difíceis, não tem muitas produtoras, apesar de ter grandes profissionais, mas esbarra às vezes na questão social e econômica mesmo. Era muito difícil, eu tive que mudar para São Paulo quando eu lancei minha primeira mixtape solo, Caro Vapor, que eu fiz o volume 2 agora, e era meio assim, era meio uma última tentativa, meio que tentando tudo, mas ao mesmo tempo, se não der certo também eu fiz, eu tentei. Você tem que tentar e mesmo que não der certo, o pior seria eu ter esse arrependimento de não ter tentado e hoje em dia eu tá lá pensando, pô, devia ter tentado, porque o que eu fazia lá hoje em dia é o bagulho, mas quando eu fazia não era, entendeu? Eu tava à frente, não tinha mercado para o que eu fazia, não tinha público para o que eu fazia, e eu podia simplesmente ter desistido.

Como você lidava com a autoestima nessa época em que você não era compreendido artisticamente? 

Tem uma parada que eu acho que me deu uma base de sustentação que vem muito desse lugar de eu ter começado dentro do movimento social e entender coisas de você estar na base. Então, quando a gente fazia um som no Costa a Costa, que era o meu grupo de rap, a gente gravava o bagulho e tal, a gente botava no som do Opala, tinha um Opalão com um somzão no porta-mala, colava na quebrada, na nossa rua, no nosso bairro, naquele barzinho que fica a rapaziada e tem um movimento, que as minas colam pra dançar, e botava o som ali e pediam cervejinha no bar e deixava o porta-malas aberto tocando a nossa música. E aí a gente via a reação da galera. Daqui a pouco tava uma galera chegando pra mim falando, ô, grava um CDzinho desse aí pra mim, porra, massa o som de vocês… E depois a gente foi fazendo as nossas camisas e tal, e vendo que a rapaziada do bairro abraçava e queria usar a camisa do grupo e tal. Então a gente começou a parada por escala, primeiro foi o bairro, depois foi a cidade, depois foi a região. Teve uma época em que a gente lançou a mixtape e a gente, no Nordeste, causou um impacto muito grande. Gente que tinha desistido de fazer rap voltando, e a galera dizendo, nossa, é possível fazer rap no Nordeste. O Costa a Costa fez, sem baixar a cabeça, e de igual pra igual, ali você entende que o que faltava, na verdade, é uma plataforma que leve isso para mais gente, porque já tem muita gente curtindo. E eu sempre fiz música para mim mesmo, então, tem outra parada que é louca, que eu fazia o som que eu queria ouvir, mas não encontrava, um som para eu mesmo levantar minha autoestima, então tem muito a ver com a minha própria música, é o que me segurava na real. Às vezes tem uma coisa da arte que você pensa, pô, mas isso de não tá dando certo e tal, talvez não dê certo, mas a arte, quando ela é genuína, é uma coisa que você precisa fazer. A dúvida é se eu vou realmente conseguir viver disso ou não. E pode ser que você não consiga, mas você vai continuar precisando fazer.

Você percebe uma mudança no contexto político dentro do rap desde que você começou lá atrás, no Costa a Costa, aos dias de hoje?

Mudou bastante porque o Brasil mudou, o mundo mudou. Acho que o rap é muito o reflexo do que acontece na sociedade. É uma música feita por gente que vem de camadas oprimidas da sociedade, em sua maioria, e a cultura das periferias e da música urbana no Brasil, que seria o rap, o funk, mesmo o piseiro, o brega funk, tem várias coisas pelo Brasil que atendem a essa parcela da população e que ganham o mundo. Mas essa cultura muda, então o rap daquele tempo respondia àquela cultura, mas mudou muito, o mundo mudou muito. Eu não sou daqueles que dizem que era melhor, pelo contrário, a gente tem muito mais acesso hoje em dia. No nosso tempo a gente tinha muito mais dificuldade de gravar uma parada. Essa facilidade de agora traz fatores negativos e positivos, então o que a gente propôs naquela época era fazer um som comercial no sentido de chegar para muitas pessoas e ao mesmo tempo ter substância, ter proposta, ter algo mais, ser uma música que respondesse ao reflexo do tempo, da nossa época, e por isso que é relevante até hoje.

A sua raiz no rap é incontestável, mas pra mim você é uma figura que vai além do rap, faz sentido?

Faz, faz. É o que eu tô buscando cada vez mais porque o rap é algo maior do que qualquer coisa que aconteceu na cultura mundial nas últimas décadas, e é daí que eu venho. Eu não acho que o rap seja algo menor ou que eu não seja rapper, mas eu cada vez mais tento criar algo que possa dialogar com a nossa cultura brasileira, outra forma de fazer rap, dialogando com outros estilos de música, porque a arte não tem fronteira. O hip hop é tão rico, tão maravilhoso, que ele te dá essa oportunidade sem você deixar de ser rapper. Quem vai dizer que o Criolo não é rapper mesmo quando ele faz um disco de samba? Quando a Lauryn Hill fez The Miseducation of Lauryn Hill, ela fez um disco que tinha muito menos rap do que o que ela fazia antes. Ela, que pra mim tá entre os melhores rappers da história, rimando, é uma coisa absurda, ela fez um disco onde ela rimava muito pouco, ela basicamente tava cantando e quando ela ganhou um Grammy, a primeira coisa que ela falou é que isso é hip hop, e eu acho que o Criolo diria a mesma coisa. O hip-hop tem isso, o hip-hop te dá essa abertura de conseguir fazer isso, então eu acho que eu sou um desses caras que hoje em dia conseguem falar com outros públicos, gente de todas as idades, tem gente muito jovem no meu show e tem gente muito mais velha que eu. Acho isso uma coisa almejável, que eu sempre quis e tô conseguindo.

Com outros elementos para além do samba?

Eu acho que o samba é mais um estilo de vida e de uma cultura brasileira do que exatamente um estilo de música samba. Lá no Costa-Costa eu já fazia isso, a gente tem reggaeton, que é sample de carimbó, que já é uma música latina, e eu tô dialogando com o sul global também, o que tá rolando na África, o que tá rolando na América Latina, o que tá rolando na Colômbia… Absorver tudo isso e fazer algo único, isso é o que eu tenho feito. Às vezes é difícil porque as pessoas se acostumaram a trabalhar muito com referência e com se basear muito no que tá fazendo sucesso. Agora vai ver uma onda aí de gente querendo ser o Bad Bunny, agora todo mundo quer fazer salsa… A gente fazia salsa lá no Costa a Costa em 2007 e sampliava Pérez Prado e essas paradas porque a gente entendeu que o carimbó veio pela rádio AM para o norte do Brasil e criaram um estilo de música que veio da batida africana e indígena com aquilo que a que a galera tava escutando que também era fruto da diáspora com os espanhóis, e tem essa mistura toda e a gente, pô, vamos fazer isso porque a gente quer fazer algo único, algo nosso. Por isso que eu seleciono muito bem meus produtores e meus engenheiros de mixagem, porque tem que ser alguém que vai entender que às vezes eu não tenho referência. A gente tem que criar também uma forma de mixar essa música, que não é igual a nada do que tá acontecendo.

Tem outro elemento na sua música que não aparece em todo lugar, que é a referência à maconha. Me conta como é a sua relação com a planta?

Cara, maconha no Brasil é um bagulho doido, né? Porque quando eu era moleque, a gente precisava pular um terreno baldio pra fumar um baseado, era um bagulho bizarro. Agora é muito mais fácil, as pessoas compram maconha muito mais fácil hoje em dia no Brasil, apesar de continuar proibido. Mas eu venho da época em que se tivesse o dedo amarelo, o policial te mandava pra delegacia e te dava um tapão. Hoje em dia ainda acontece isso de outras formas. Mas não é exatamente por causa da maconha, é mais pelo perfil de onde você mora, ser favelado, ser preto, isso aí é uma coisa que vai acontecer no Brasil enquanto a gente não mudar realmente essa parada de uma forma mais contundente. Mas eu venho disso aí, cara. Eu fumo, mas não faço disso o meu estilo de vida. Tá na minha vida, mas não faço disso a minha personalidade. Porque tem gente que a personalidade da pessoa é a maconha, e nada contra. Quando eu lancei o Caro Vapor, eu fui um dos primeiros rappers a falar de drogas sem tabu. E não era só maconha, eu falava de todo tipo de droga, de cocaína, de bala, de vários bagulhos, de um jeito que não era moralista… Era tipo, cara, isso é como uma bebida, são coisas que estão aí pra você experimentar, estados diferentes de consciência, então a minha relação com a cannabis é algo que eu gosto de ter, gosto de usar. Às vezes eu tô sem fumar, curto muito fumar hash com tabaco, mas evito fumar direto por causa do tabaco, porque eu sou um cara muito alérgico… É de pessoa pra pessoa, mas tô vidrado em CBD agora, em querer usar CBD na minha vida, porque é bom para várias coisas. Tenho ansiedade, então o CBD é uma parada que é interessante, às vezes ajuda no meu sono… Minha relação com a cannabis é muito tranquila, é uma parada que eu gosto. Quando eu fui em Barcelona, eu experimentei uma coisa que eu queria saber como era há muito tempo, que é você chegar num lugar e ter um cardápio. Teve uma época em que eu parei totalmente de fumar porque tava me dando mal, eu tava ficando deprimido quando eu fumava, ficava pra baixo, e às vezes isso é só a espécie que você tá fumando, tá ligado? Às vezes é porque realmente você precisa parar por um tempo porque aquilo é um estado de consciência diferente, então talvez você tenha que resolver coisas na sua cabeça porque vai te levar para um lugar que de repente você não quer ir. Você ia na boca e pegava o que o cara tinha para te oferecer, agradecia por não levar um enquadro e não ser preso. Hoje em dia eu acho que cada vez mais a gente tem que lutar por uma relação saudável, sem tabu, primeiramente com a cannabis e depois com todas as chamadas drogas, que são drogas assim como qualquer droga de farmácia. Às vezes você tem que usar algo que está sendo vendido na farmácia e que pode ser bom para você por um tempo, e pode não ser bom se for por tempo demais. 

Você usa cannabis também pra lidar com a depressão?

Eu sou um cara que estuda muito sobre saúde mental, sobre saúde do corpo, nosso estilo de vida, porque acho que tudo está relacionado com a vida, e o lifestyle que a gente vive está muito relacionado com nosso ambiente social, que está relacionado com a política. Eu sou um cara que aprendi a pensar o mundo de forma holística, e o corpo também você tem que pensar de forma holística. Acho que quase todo mundo sofre de algum grau de depressão ou de algum problema psíquico hoje em dia, porque a gente vive numa sociedade adoecida, comendo alimentos que nos adoecem. A gente tem estilos de vida que nos adoecem e isso não adoece apenas o nosso corpo. Aliás, não existe uma separação entre o corpo e a mente. Cada vez mais a ciência evolui para entender que, por exemplo, tem uma ligação da tua microbiota com o teu cérebro. Então o que tu come está diretamente relacionado com a forma que você se sente e essa relação é holística. Também a forma que você se sente muda a sua microbiota. Então se você está com depressão, você vai prejudicar a tua digestão, você vai prejudicar o teu estômago e isso vai piorar a tua depressão, e vai entrar num ciclo vicioso, entendeu? Eu sou um cara que quero entender essas coisas todas porque a gente faz rap, a gente faz música e a gente tem um papel na sociedade de falar sobre estilo de vida… Quando eu era moleque, eu escutava rap, escutava aquele bagulho como tipo, pô, quero viver assim, como esses caras, quero que alguém me diga como navegar nesse mundo. Depois a gente vai entendendo que não é só a música, mas a gente também tem um papel de colocar isso na nossa música e na nossa pessoa pública.

A maconha te ajuda nesse equilíbrio mental para além do uso lúdico?

Eu tenho usado CBD e me ajuda muito. A maconha me ajuda na criação artística, eu não fumo para compor, eu componho e depois eu fumo para perceber outras coisas e aí eu adiciono, então eu componho nos dois estados, no estado sóbrio e no estado que eu fumei. Eu gosto de fumar pouco, eu não gosto de chapar pra caralho, e eu não fumo todo dia, gosto de fumar em momentos especiais, pra fazer uma parada. Não sou um cara que fuma muito socialmente, pra ir pra balada, pra ir pra um lugar que tenha muita gente. Eu gosto de fumar num ambiente em que eu esteja com gente que eu já conheço. Utilizar CBD tem sido legal pra mim, eu quero cada vez mais entender, tô ainda testando formas, quantidade, dosagem, esse tipo de coisa. Eu queria muito que tivesse mais acesso à flor de CBD, porque eu adoro fumar, não fumo cigarro porque não quero lidar com a consequência disso na minha saúde, mas adoraria fumar CBD quando não quero chapar. Queria fumar um CBD gostosinho, socialmente… Acho que eu ia curtir. Às vezes eu consigo no Brasil mas ainda é muito difícil, bem mais caro, porque pouca gente tem. Meu favorito mesmo é o haxixe marroquino com tabaco, essa é a parada que eu curto mais.

Você deve ter umas brisas divertidas, compartilha alguma com a gente?

Cara, eu tive uma história engraçada recentemente. Eu sempre quis saber como são os cafés de Amsterdã, que são abertos, você pode fumar na calçada olhando as pessoas passar e depois você vai e continua fumando na rua e é de boa essa experiência de fumar na rua andando numa cidade bonita que é feita para as pessoas andarem a pé… Isso foi para mim apaixonante. Daí encontrei uma amiga que mora lá e eu não via há muitos anos, e ela falou que tinha umas gummies, mas não experimentei lá, aí quando eu tava em Paris, eu só passei um dia em Paris, e achei uma lojinha que não tinha maconha para vender, mas tinha esses gummies. Eu pensei, pô, tô aqui de rolê de bike em Paris, vou comer uma gummie dessa aí… Aí o cara falou, ó, é muito forte, come só metade. Aí eu, ah, beleza, peguei e comi metade. Mano, metade foi demais para mim, eu fiquei muito chapado, e era o único dia que eu tinha rolê em Paris, tinha que fazer um monte de coisa, eu ia no museu, só que eu chapei muito e fiquei curtindo só os dois quarteirões que eu tava, porque eu fiquei chapado, chapado, e não passava nunca. E minha bateria caindo… Caralho, vou ficar sem bateria, não vou saber voltar pra casa. Foi legal o rolê, só que é muito longo, e eu tava com medo de ficar na rua chapadão, sozinho. (risos) E não tem mais o GPS, eu não lembrava de como que volta para o metrô. (risos) O rolê acabou mais cedo, mas foi massa. E eu trouxe um monte de gummies comigo, com muito medo, mas trouxe.

Me surpreende você ter encontrado o gummy de THC em Paris, porque teoricamente não podem vender nada além de CBD…

E é louco porque eu cheguei nessa lojinha procurando CBD, na real. Porque eu achava que não ia ter THC. E eu falei, pô, vocês têm CBD puro? Ele falou, pô, puro eu não tenho. Mas eu tenho essas gummies aqui com 15 mcg de THC e 15 mcg de CBD cada um. Aí eu falei, pô, legal, vou comprar. Eu tava afim mesmo de chapar naquele dia e falei pô legal vou comprar e comprei, mas eu realmente não sei, também não entendi como que eles fazem essas paradas. Estão no limite da legalidade. 

Quando você acha que a gente vai ter essa variedade de produtos no Brasil? Você acha que tá muito longe ou é otimista?

Olha, eu acho que tá um pouco longe porque a gente tá vivendo uma onda de conservadorismo muito grande no Brasil, talvez sem precedentes na história brasileira. A cultura brasileira é complexa. Eu acho que a gente nunca foi tão conservador como está agora, então acho que infelizmente não está muito perto. Eu gostaria muito que a gente legalizasse tudo. O Brasil ainda tem um elitismo muito hipócrita, se você for a consultórios de medicina integrativa aqui no Jardim Europa, para a elite de São Paulo já se fala de maconha tranquilamente. A polícia não vai bater lá e dizer que tem algum bandido ali, mas na favela já é diferente. É por isso que eu, na verdade, sou a favor de que a gente legalize todas as drogas e que o dinheiro dos impostos recolhidos seja investido exclusivamente no fim da precarização das favelas. Eu acho que isso seria uma boa bandeira, porque isso é uma forma de pagar todas as famílias que foram destruídas por causa do narcotráfico, que é causado pela miséria, pela concentração de riqueza no Brasil, e por essa proibição absurda. Obviamente, se alguém está sem dinheiro, sem perspectiva de vida, e existe um mercado para vender uma substância, aquela pessoa vai vender. Na história da humanidade, sempre existiu o consumo de drogas, nunca vai deixar de existir. Ou como um dia a bebida foi proibida e não se sustentou muito. Hoje em dia são as drogas, um dia vai ser liberado. Mas eu acho que a gente tem que atrelar isso a uma bandeira econômica e social.

Interessante você falar disso, porque acho que esse devia ser um desafio coletivo, de todo mundo pensar na reparação social pela cannabis. Então, aprofunda um pouco mais a ideia?

Em primeiro lugar, eu acho que a gente precisa melhorar o nosso horizonte político no Brasil. A gente tem sonhos muito pequenos e sempre regido pelas impossibilidades. A gente tem muitos profissionais das impossibilidades no Brasil que são aquelas pessoas que inventam mil desculpas pra dizer que tal coisa é impossível de fazer. A gente tem que ter grandes bandeiras e grandes projetos, grandes sonhos, grandes planos. Eu acho que já passou da hora da gente admitir que o ambiente da favela é propício para o crime. Você tem uma condição de saneamento básico precarizada, uma condição de moradia precarizada, e não é o caso de tirar as favelas dali e botar as pessoas para a periferia, é construir moradia para as pessoas nos lugares onde elas já estão. Tem um cara que uma vez eu vi ele falar isso numa entrevista, de que a gente poderia ter um projeto para acabar com as favelas, e eu achei muito interessante isso. O nome desse mano é Elias Jabbour. Achei foda que ele falou que a gente pode muito bem fazer isso porque é um projeto grande desse ia gerar dinheiro para as estruturas, porque o cimento é produzido no Brasil, o tijolo é produzido no Brasil, tudo é produzido no Brasil. Esse dinheiro vai circular na economia nacional e gerar um boom de dinheiro na economia. Esse dinheiro retorna esse investimento que não é dívida, mas retorna porque ele retorna e ele é todo ele fica todo dentro do Brasil ou a maior parte da sociedade, porque esse dinheiro fica todo no Brasil. Quero ver uma liberação das drogas que tenha como objetivo reparar os danos que a proibição das drogas causou nas favelas… Ah, então vamos acabar com as favelas, fazer rua e botar uma polícia em cada quarteirão. Não! Estou falando de fazer moradia digna. Agora, pra fazer isso, você vai ter que brigar com um monte de gente que ganha dinheiro com a nossa miséria. A especulação imobiliária ganha muita grana no Brasil. Só que se for bem feito, esses caras mesmos podem ganhar dinheiro. Esse é um projeto que pode ser levantado a bandeira e acho que demora para a gente conseguir impor isso porque muita gente se beneficia da miséria no Brasil. A pobreza no Brasil é um grande negócio, talvez o maior negócio no Brasil. Eu sou só um artista que sonha, do mesmo jeito que eu uso a minha imaginação criativa pra fazer música, eu uso a minha imaginação criativa pra pensar formas de vida que possam melhorar a nossa vida. O Brasil é um lugar que tem grandes profissionais em todas as áreas, com certeza tem alguém que pode redigir esse projeto, entender e conseguir fazer isso ser escrito de uma forma que seja super viável, a gente só precisa de vontade e imaginação política mesmo, parar de sonhar pequeno.

Falando contigo eu tenho a impressão de você também é dos psicodélicos, é isso mesmo?

Sim, eu faço microdose de cogumelo. Tô fazendo agora. Enquanto eu tava compondo esse disco, eu usei, tava usando, mas era microdose. Não tava usando dose cheia, porque dose cheia eu gosto de usar num ambiente menos urbano, natural. Geral gosta de estar num lugar em contato com a natureza, coisa que aqui é muito difícil, a nossa vida na grande cidade de São Paulo é muito precarizada. Talvez se eu morasse em Barcelona eu usasse mais, mas aqui é meio caótico para isso. Eu já tive ótimas experiências com psicodélicos, com cogumelo, com ácido também, LSD. A primeira vez que eu tomei, cara, foi muito louco, porque eu tava em Fortaleza e foi a mesma coisa da gummie. Só que foi assim, o cara me vendeu, eu peguei a parada que era boa, e aí eu pensei “ah vou tomar um quartinho”. Só que não me falaram que demora. Então eu estava ali e eu pensei: ´pô, não está fazendo efeito esse bagulho”. e estava ali esperando, estava de carro, dirigindo, uma coisa de maluco, eu era muito novo. Tomei e não batia, aí tomei mais um quartinho, depois tomei mais um quartinho e aí quando bateu foi de uma vez. (risos) Eu tive aquela brisa clássica de ver as coisas mexendo, o chão mexendo, só Deus na causa. (risos) Consegui chegar em casa nesse estado, mas foi muito louco. Eu cheguei em casa e eu ficava vendo as coisas na minha parede, tinha muitos pôsteres e tal, e viajando na parada, botei um som para tocar… Foi a minha primeira vez. Depois teve outras vezes, aí já mais legal, na natureza. Mas na minha rotina, eu tô usando mais como microdose mesmo, inclusive, tô usando junto com Lion’s Mane, que é um outro cogumelo não psicodélico, que eles juntos têm uma sinergia. O Lions tem a capacidade de te levar a novas conexões neurais. Então, eu acredito que o uso não é uma parada que eu tenha sentido muito drástica, mas eu acho que ao longo do tempo, ele vai possibilitando que você tenha outra visão sobre as mesmas coisas, porque o cérebro da gente, quando vai ficando mais velho, vai ficando acostumado a usar as mesmas conexões neurais. E acho que a cannabis ajuda nisso também, em criar novas conexões, mas a psilocibina é muito, muito forte nisso. Na minha ignorância, eu entendo que você vai pelas mesmas ruas sempre. Tá engarrafado, tá uma merda, tá horrível, e mesmo assim você tá perdendo muito tempo da sua vida usando o mesmo caminho. Daí você começa a tomar isso e vê que tinha outros caminhos. Às vezes pode demorar o mesmo tempo, mas o caminho é mais bonito, vai te causar menos estresse, às vezes é mais curto e às vezes vai te mostrar outras ruas que nem existiam, porque ele cria outras conexões. É o que eu entendi pelo que eu li sobre e eu acho que tem feito efeito muito sutil na minha vida, porque é uma dose curta, eu faço direitinho, um dia sim, dois dias não, e aí você vai evoluindo aos poucos.

O que você diria para a galera que está curiosa, mas com medo tanto da microdose quanto da maconha?

De microdose eu acho que é muito suave, qualquer pessoa pode tentar do jeito certo, com a dose mínima, que não vai te dar brisa. Você vai indo no limite, se tiver um pouquinho de brisa, você tem que diminuir um pouco, a não ser que você queira ter a brisa e você vai ter a brisa e aí é outra história. Mas eu acho que também é legal tomar doses cheias de psicodélico para sentir o efeito alucinógeno, acho que é importante fazer isso na vida de vez em quando. E acho que é uma grande alternativa para quem faz uso de medicamentos antidepressivos. Tem que ter o acompanhamento de alguém porque você tem que fazer o desmame, não pode usar junto, porque é muito perigoso usar as duas coisas juntas. E mesmo quando você para de tomar antidepressivo, você tem que passar um tempo para aquilo sair totalmente do teu corpo. Dependendo do antidepressivo, pode ser 15 dias, pode ser um mês, pode ser uma semana. Você tem que se informar sobre isso, mas tem pessoas próximas que eu já recomendei. Cara, tenta sair do antidepressivo, faz o desmame e tenta fazer microdose de psilocibina. E muitas vezes fez efeito. E a maconha é como eu já falei, é uma coisa que tá disponível ali pra você usar. Eu acho que você deve evitar coisa de baixa qualidade. Quando você começa a usar uma parada que é misturada com amoníaco, porque eu fumei muito tempo na minha vida essas coisas que vêm prensadas, de uma procedência duvidosa. Eu sei que muita gente não tem condição de comprar flor ainda porque essa coisa da proibição faz tudo ser mais caro, mas aí eu recomendo você usar menos e usar uma parada de qualidade, saca? Não ficar refém no bagulho. Eu tenho alguns vícios, eu sou viciado em café, isso é um vício que eu tenho, e é normal que você tenha alguns vícios, mas tem que analisar se aquilo ali em algum momento está sendo demais e você dosa e tal. Então acho que tem que ser um uso consciente de você entender como aquilo se adapta ao seu estilo de vida, ao seu humor, à sua saúde mental. Tem gente que abusa como qualquer pessoa pode abusar de qualquer outra coisa. Tipo eu às vezes abuso do café e é ruim, pode zoar o seu estômago, pode te deixar ansioso, pode causar inúmeros problemas, assim como a maconha. Um não é mais perigoso que o outro se você usar errado, entendeu? Mas acho que pode ser interessante, também pode te fazer pensar em novos caminhos. 

Você tá aberto a empresas, marcas de cannabis ou cogumelos funcionais que queiram trabalhar com você? 

Nossa, tô demais. Quero muito. Pra mim, tudo é saúde, e a gente tem uma noção de saúde muito limitada. Saúde é viver bem. Tem um novo conceito na saúde que o que interessa mais não é viver muito, mas viver bem por mais tempo. Então, se você constrói a sua saúde para você estar bem psicologicamente, mentalmente, ter prazer na sua vida, no seu dia a dia, diante de diferentes circunstâncias que a nossa vida vai ter, às vezes melhor, às vezes pior, isso é ter saúde. Isso é o mais importante: saber lidar com as adversidades da vida da melhor forma. Então, acho que tudo o que é relacionado a isso e acho que a maconha, os psicodélicos, o CBD, os derivados de cannabis, têm a ver com saúde.