Na Breeza

Ganja revelação

Um papo breezado com a fotógrafa e laboratorista Bel Gandolfo, que bolou um jeito de revelar filmes com ganja

Um chá super concentrado de folhas de maconha em temperatura ambiente, carbonato de sódio e vitamina C. Mistura tudo e pronto: está feito o maconhol (ou F1D2), um revelador fotográfico à base da erva.

Longe de querer esconder o segredo por trás da fórmula que desenvolveu, a fotógrafa brasiliense Bel Gandolfo, de 32 anos, prefere dispensar a rigidez das medidas exatas para se permitir a liberdade da experimentação ao revelar filmes analógicos com maconha em seu laboratório caseiro. “Não meço as coisas. Eu tinha que ter balança, termômetro, mas vou no freestyle. Como cientista, sou uma ótima artista”, brinca. 

Ajustando o foco

O interesse pela oitava arte, assim como pela maconha, surgiu cedo na vida de Bel – que ganhou de presente de Natal sua primeira câmera analógica, uma point and shoot, aos nove anos de idade. Mas, em ambos os casos, foi o tempo que se encarregou de estabelecer tão profunda relação a ponto de unir fotografia e a ganja em uma profissão. 

“Eu fumei pela primeira vez com 16 anos, não foi maneiro, passei muito mal”, conta. “Quando eu entrei na universidade para cursar psicologia na UnB, aprendi a fumar. Aprendi que tinha que ter as pontas soltas da minha cabeça bem presinhas para não ficar na noia, não bater uma lombra errada”.

Da mesma forma, ela se voltou para a fotografia quando, ao final de uma pós-graduação em psicanálise, decidiu viver do que realmente ama – até então, fotografar era uma paixão despretensiosa. “Uma das máximas da psicanálise é que você tem que seguir o seu desejo”, diz. “E eu percebi que não estava tendo coragem para fazer o que amava, então, digo que a psicanálise me fez largar a psicanálise”.

E assim, aos 27 anos, com o desafio de provar para si mesma, e para seus pais (descontentes com a decisão da filha), que recomeçar valeria a pena, Bel mergulhou de cabeça no mundo da fotografia musical: se embrenhou na cena, ralou à beça e, pouco a pouco, foi conquistando o seu espaço.

A descoberta do maconhol

Imperceptível para quem vê músicos como Marcelo D2, Sain, Murica e Letícia Fialho nos cliques de Bel, o maconhol foi uma feliz descoberta para a fotógrafa que buscava uma estética de alto contraste em suas revelações.

“Você não olha a foto e diz que foi revelada na maconha, não tem verde, nada disso. Mas tem, sim, uma pequena diferença que é esse super contraste quando se usa um filme de ISO baixo. Acabamos descobrindo isso”, conta assim, no plural, já que aprendeu com os colegas Vinícius Campos e Guilherme Durão (com quem ela criou um coletivo pela democratização dos processos analógicos de fotografia) sobre as técnicas de revelação fotográfica com ingredientes inusitados.

“Eu sabia que dava pra revelar (filmes) com alecrim, chá, café, vinho, cachaça. Como maconheira que sou, veio a curiosidade de tentar com a ganja”, conta. No isolamento da pandemia, Bel perdeu as contas de quanto tempo e de quantos testes precisou até chegar num resultado satisfatório – uma equação que envolve a qualidade da foto em si, a composição e a temperatura do revelador, o tempo de imersão do filme na fórmula e outros detalhes técnicos de revelação.

“É um aprendizado de muito desapego e ao mesmo tempo de muita presença e consciência, porque se não der certo, não tem o que fazer. O analógico é muito mais fatal: você tem um clique, uma chance, tipo aquela música do Eminem: ‘if you had one shot, tã tã tã’”, cantarola Bel.

O barato da metalinguagem

Tão interessante quanto o efeito de alto contraste que, segundo Bel, o maconhol proporciona como nenhum outro revelador que ela já usou, o simbolismo é o que traz a verdadeira beleza dessa experimentação.

Afinal, além de usar, literalmente, a maconha no processo de revelação fotográfica, ela se vale da subjetividade de um estado de consciência alterado pela erva como inspiração para produzir fotografias autênticas e potentes. “A ganja me coloca em um estado de reflexão, de calma e de presença”, conta. “A cabeça vai para outro lugar, o da não obviedade. É muito nítido que, em estados diferentes, a gente presta atenção em coisas diferentes”. E, com a sensibilidade de quem consegue captar instantes e imprimir sensações em um clique, Bel revela a poesia que a metalinguagem traz para sua arte.

“É uma chapa (de filme) chapada que foi revelada por uma maconheira que com certeza está chapada, então, tem essa dimensão da graça, né?”, diz a fotógrafa, que abusa da semiótica ao usar papel de cânhamo para imprimir suas fotos reveladas com maconha, mostrando todo o potencial e versatilidade da planta, desta vez, a serviço da fotografia.

Por Thaís Ritli
Fotos: Bel Gandolfo