
Mateus Aleluia, voz dos Tincoãs, cantor, poeta, pesquisador, reapresenta a cannabis e as medicinas da floresta como parte de uma gramática maior: a da natureza, que tem leis, não moral. Aos 81 anos, ele recorda que a música veio antes de tudo e que o humano só encontra caminho quando se reconhece parte do arranjo.
Nesta conversa com nossa editora Anita Krepp, Aleluia propõe a planta como instrumento de escuta e lapidação. A cannabis, diz, é alquímica. Uma parceira diária capaz de deslocar o sujeito do efeito raso para a transformação, de afinar o diapasão interno que antecede qualquer ritual.
A conversa atravessa substâncias e territórios. Jurema, ayahuasca e maconha, a “cangonha” dos pescadores da Ilha de Luanda, em Angola. Foi ali que o baiano de Cachoeira viveu quase duas décadas pesquisando culturas e tradições que, como revela, integram as plantas sagradas ao cotidiano.
Seu Mateus, quando foi que o senhor descobriu que a sua voz tinha uma característica ritualística?
Olha, eu ainda não descobri, estou descobrindo (risos). Eu penso que a vida é mesmo assim, a gente não sabe, na realidade, quem somos nós. Tudo começa pelo nosso desconhecimento, como é que nós viemos parar aqui nessa dimensão. Na realidade, acredito que tem muita gente que sabe, mas eu não sei como é que a gente sai de uma condição totalmente de anonimato cósmico a nível de terra. De uma parte sensível do nosso pai que transmite essa parte sensível para a nossa mãe e daí surgimos nós. Nós que passamos por um concurso cósmico, que a gente deve ter se candidatado para vir para aqui, entre milhões.
Teve alguma iluminação, algum contato espiritual com a sua voz?
Olha, menina, o contato espiritual, eu acho que existe sempre, não só comigo, com todos nós. Acredito que cada um de nós, que estamos aqui nessa dimensão, temos uma finalidade específica que a outra pessoa, o outro ser vivente, ou outra ser vivente, não tem. Nós temos uma especificidade, cada um de nós. Às vezes, a gente olha a especificidade do outro ou da outra, mas não procura descobrir ou está sensível para que a natureza nos revele qual é o nosso verdadeiro papel aqui. É um papel de entrega a todo esse ambiente onde nós viemos parar, aqui nessa terra, nesse universo, nesse cosmo existencial em que nós estamos. Então, essa revelação, ela é feita todo dia, de forma espiritual, de forma material, que a combinação de tudo é uma realidade. Nós não podemos nunca separar coisas. A inclusão é o único meio que a gente acredita que existe para que haja realmente tudo quanto nós imaginamos ou dizemos que vemos e existe. A inclusão dos elementos, isso é importante. O que somos nós diante dos elementos que nos formou?
O senhor descobriu cedo o seu papel aqui nessa terra?
Eu ando atrás dessa descoberta. Diz que a nossa missão principal aqui é andar atrás de alguma coisa que nos leve ao caminho da sabedoria. Só depois que a gente encontrar o caminho da sabedoria que nós vamos poder, um dia, saber se a sabedoria permite que a gente se aproxime dela. Mas nós temos que estar nessa caminhada constante.
O senhor chegou, ou pelo menos vislumbra chegar, no caminho da sabedoria?
Todos nós, né? Eu não me coloco assim como se fosse a parte do que está acontecendo. A parte da procura de cada um de nós.
Mas tem evoluções em momentos diferentes, não é que toda a humanidade tem momentos de evolução coletiva.
De cada um, claro. Mas aí é como nós somos. E vamos ser sempre essa figura. Somos solitários, mesmo na multidão. E você tem que descobrir assim. Eu tenho que descobrir a mim. Se descobrir, esse é o grande mistério. Mas é nossa missão procurar sempre. Saber que a gente dorme, e quando dormimos, deixamos de existir, pelo menos temporariamente. Quando acordamos é como se fosse uma ressurreição. Ressurgimos, vai começar tudo novamente. Os problemas, as felicidades, as infelicidades. Os prazeres, os não prazeres… É como se cada problema do dia se apresentasse no dia em que o problema tem que se apresentar. Quando eu falo problema, eu não falo só problema complicado. Você tem que estar preparada para, quando acordar, enfrentar a questão nossa de cada dia.
E o senhor acredita que a cannabis ou substâncias psicodélicas podem ser uma ferramenta para se descobrir e para descobrir o seu próprio caminho?
Ajuda, sim. Ajuda. Ajuda porque a cannabis, ou qualquer outra substância natural que aqui está, é a natureza que nos proporciona, e nós não vamos chegar a nada a não ser através da natureza. E a natureza tem suas leis. Nós, seres humanos, que dizemos que somos humanos, é que temos moral. A moral é humana. A natureza tem leis. A natureza não está preocupada se eu tenho leis, se eu ando de paletó, sem paletó, de casaco, de calça, não. A preocupação da natureza, penso eu, é a perpetuação da espécie e sua evolução, mas dentro de uma narrativa da natureza, não de uma narrativa nossa. A natureza que vai nos dizer como nós vamos evoluir, e a natureza, para poder cumprir esse papel comigo, é preciso que eu me abra para a natureza. Nós só revelamos segredos para pessoas que nós confiamos. Eu tenho que me aproximar da natureza e me tornar uma pessoa confiável para a natureza. Só assim ela vai me revelar pequeninos segredos, e quero crer que a cannabis é um desses pequeninos segredos. Ao usar cannabis, ela vai conversar contigo de uma forma talvez até imperceptível para cada um com quem a cannabis conversa. Mas para um bom ouvinte, uma conversa sussurrada é entendida. E a relação com a cannabis é essa. É você fazer da cannabis a companheira ou companheiro seu ou sua de cada dia e conversar com ela, porque ela vai conversar com você. Mas você só vai ouvir o que ela tem para lhe dizer sobre se você estiver dentro de uma perspectiva de escutá-la. Se não, é apenas como tomar uma cerveja, tomar um uísque. São efeitos diferentes, mas vai dar um tchan, entendeu? Não é bem isso. A cannabis vai mais além, ela é alquímica. É como se fosse… A transformação do homem vil em homem nobre. O papel fundamental, da maneira como eu vejo, da alquimia, é transformar o homem para que ele perceba melhor o ambiente em que ele está, para que ele passe a entender realmente que ele é naturalmente o alquimista. Ele não é um observador da natureza. Ele é parte dela. E como parte dela, ele tem que se abrir para ela para que ela, a natureza, se abra para ele e se torne para ele aquilo que ela realmente tem, a natureza própria de ser. Quem é sua professora? A natureza, ela que me conduz. Você descobriu sua missão? Não sei. A natureza falou comigo e me disse, olha, você já está pronta. Como ela ainda não me disse que eu estou pronto, eu não posso chegar por aí e dizer que eu estou pronto.
Como é a sua relação com essa planta? Veio mudando ao longo do tempo? Como é hoje?
Ao longo do tempo ela mudou. Eu venho antes da década de 60, né? Então, toda aquela transformação, aquele boom da mudança do comportamento social, eu fazia parte dessa explosão, como todos da minha época, até os que antecederam um pouco a minha época, mas da minha época fizemos parte, digamos assim, ativa. Cada um na sua forma de encarar o processo. Mas acredito que todas foram formas válidas. Porque hoje em dia somos todos pessoas um pouco mais maceradas, entendeu? Pra poder saber agora, saber, olha, pronto, isso que nós fizemos foi mal, isso que nós fizemos foi bem. Agora, o que é o bem e o que é o mal é complicado. Então, vamos deixar que a natureza nos revele direitinho isso. Tem muitas coisas que eu fiz que eu não concordo. Mas eu ainda estou aqui. Tem que haver algum motivo. Algum motivo existe. No fundo, no fundo, a gente trabalha essa relação com a cannabis no decorrer de toda a nossa vida e toda a nossa infância, mesmo quando nós não usávamos cannabis, ouvimos falar dela. Não era com esse nome, cannabis, essa sofisticação, né? Hoje a cannabis é uma sofisticação. Mas sabíamos o que era, como estamos sabendo o que é hoje. Hoje é uma relação alquímica, científica, filosófica. Uma revelação de culto. Porque, para nós, toda religião é precursora do que viria a ser a cultura. Não existe cultura sem um culto. E, através de um culto, seja lá ele qual for, ou um templo, ou um terreiro de candomblé, ou uma sinagoga, ou uma mesquita, onde você aprende a ter determinados hábitos, hábitos esses que depois se transformam no modo de comportamento das pessoas que frequentam. O culto tem uma finalidade um pouco mais alquímica, de você ir em busca de onde é que você veio, de você ter uma relação de compreensão com essa força potentosa que criou tudo. Essa força incognoscível, que criou tudo, que você procure ter uma relação com ela mais próxima. Aqui na Bahia nós temos a cultura, uma cultura afro-indo-barroca. Pelo culto do indígena, pelo culto barroco vindo da Europa e pelo culto africano. Se nós temos aqui uma gastronomia, por excelência aqui na Bahia, comendo um acarajé, caruru, a maior parte dessa comida são comidas de santo, comidas que foram aprendidas dentro de um templo religioso. E no caso da cannabis, para não perder o fio da meada, essa conversa que ela tem com nós mesmos, que ela nos revela, esse princípio que nós não podemos deixar de ter, esse culto pela sabedoria. Aí você vai ter a ayahuasca, um mecanismo que a natureza nos põe à disposição, não é para a recriação, não. É para culto, mas culto de forma consciente. Olha só, que coisa complexa. Se você fica consciente, você fica ali, dentro de um quadrado, amarrado e amortecido por toda uma série de dogmas, por toda uma série de morais. A cannabis tem esse papel. De dar a você a possibilidade de você conhecer você, de você dialogar com você, se tornar uma pessoa protegida por um círculo de luz cósmica, para não deixar que a sua personalidade, a sua mentalidade seja invadida. Que você pense com você em sintonia com o cosmo, em sintonia com a natureza. Então, quero crer que a cannabis tem essa possibilidade de lhe conduzir para um possível entendimento, eu não posso dizer que é um entendimento, porque eu ainda não estou nessa condição, mas ela me colocou no caminho de estar à procura.
O senhor falou da ayahuasca e eu ia te perguntar justamente se o senhor vê a cannabis, a ayahuasca, a jurema parecidas no propósito, ou se cada uma tem um objetivo espiritual diferente?
Toda jornada de libertação, para nós, afrodescendentes, massa humana africana que atravessamos o Atlântico, que aportamos aqui há mais de 300 e poucos anos, todo o nosso caminho leva a Ilê e Fé, leva a Savalú, leva a Aruanda, leva ao ponto que nós acreditamos, que é o nosso ponto de existência espiritual materializado. O Romano diria: todo caminho leva a Roma. Nós falamos, todo caminho nosso leva a Ilê e Fé, leva a Savalú, leva a Aruanda. Meu pai vem de Aruanda, entendeu?
O senhor teve ou tem contato com a Jurema?
Olha, tive um contato assim, de alô, como vai, não muito profundo. Só um alô, como vai. Nunca houve segredos entre nós.
O senhor foi morar um tempo em Angola e eu queria saber, na sua vivência como pesquisador por lá, se o senhor encontrou comunidades que utilizavam plantas de poder psicoativas nos seus rituais?
Olha, principalmente as psicoativas, eu via isso no uso dos pescadores de Luanda, da ilha de Luanda. Eles não usavam, pelo menos eu não vi, em ritual. E o ritual lá, que eu participei até como pesquisador, não era igual aos rituais que nós temos aqui. Lá os frequentadores dos locais de Quimbanda não têm essa devoção como nós temos aqui no Brasil. Não sei agora como é que está, mas naquela época iam como quem vai ao médico, médico do espírito. Resolvendo o seu problema, ele não tem nenhum vínculo, nenhum vínculo com aquela casa. Lá, pelo menos, o que eu presenciei em Luanda, principalmente, era isso. E o uso da cannabis era com os pescadores, como se fosse um ritual. Antes de ir para a pesca, a grande maioria deles, aqueles mais velhos, fumavam a sua cangonha. Lá se chama cangonha, que passava por um processo de um coco com água dentro, como se fosse purificado, para não deixar a fumaça lhe fazer mal.
Tipo um bong…
Isso, lá era um coco, aquilo era bonito, mágico mesmo, e eu via somente lá nos pescadores da ilha de Luanda. Depois, tinha as pessoas que faziam esse uso recreativo, mas não assim do ponto de vista de ritual, não. Aquilo era um ritual, digamos assim, do pescador, de trabalho, como se preparasse para poder pedir licença à rainha do mar.
Eu sou apaixonada pelos Tincoãs e queria saber como nasceu esse grupo.
Os Tincoãs começou antes de mim, começou em 1960, cantavam boleros. Depois voltaram para a cachoeira e um dos componentes originais que desistiu. Naquela época, a música era uma coisa totalmente irregular para poder a pessoa realmente se dedicar à ela. Mas quando ele desistiu, automaticamente, eu assumi. Isso mais ou menos em 62 ou início de 63. Nós começamos, paulatinamente, a mudar o repertório. Foi o ano da revolução cultural do mundo. Dizer que nós pensamos, vamos cantar isso para atingir esse objetivo, não. Nós começamos a cantar esse repertório porque faz parte do nosso imaginário, faz parte do nosso inconsciente coletivo. Isso é uma cultura que está em todos daquela região, mas nem todos resolveram cantar. Nós éramos aquilo. Nós éramos aquela fusão. Cachoeira é aquela abóbada, aquela cabaça. É aquela terra que fica num vale, o vale do Paraguaçu. Naquela época, ainda, a igreja tinha as suas mãos sobre o comportamento e até sobre o imaginário das pessoas. Então ninguém se pronunciava sobre o que era do candomblé, mesmo quem era do candomblé mesmo. Havia uma certa repressão. O candomblé só foi deixar de ser perseguido do ponto de vista judicial, em 78. Até então, para poder o candomblé ser tocado, tinha que se pedir licença na delegacia de jogos e costumes. Quando nós começamos. Não começamos a cantar para chocar com o poder vigente. Começamos a cantar isso porque nós éramos isso, naturalmente. Era um canto de afirmação do que nós somos. E a gente não cantou para nos afirmarmos de forma a chocar com nada. De uma forma consciente ou inconsciente, a gente não negava as nossas origens. Mesmo quem não era do candomblé, a partir das seis da tarde, naquela época, ele era embalado pelo som do candomblé, que ressoava no vale todo. Quando começava a tocar o ron, o pi, o lé e o gã, todo mundo ouvia, todo mundo era envolvido pela música. Aquilo só parava lá para as altas horas da noite ou madrugada. Pela manhã, era o sino da igreja católica que tocava despertando as pessoas. E depois o órgão da igreja católica tocava e ressoava pela cidade toda, porque não havia poluição sonora. Então todo mundo tinha essa formação sem saber que tinha. Todo esse processo educativo entrou pelos canais, deu contorno. Isso era lindo. E é lindo. Mesmo depois que nós gravamos, aquela empolgação inicial com o trabalho nosso não deixou as pessoas admirarem. Mas o trabalho não teve, digamos assim, o tratamento que deveria ter para poder ter essa repercussão que tem hoje.
Imagino, porque até hoje em dia não dá muito para botar rótulo nos Tincoãs. E até hoje, até onde eu saiba, não surgiu coisa parecida…
Talvez não haja. Porque nós surgimos sem intenção, assim como uma criança anda, e ela nem sabe que ela pode andar, mas de repente ela anda na ponta dos pés, daqui a pouco ela está falando. Assim fomos nós. Entendeu? Iniciação espontânea. Era aquilo que a gente fazia. Era aquilo que a gente ouvia. A gente ouvia muito tocar Joãozinho da Gomeia. Luís da Mouriçoca cantando música de candomblé. Pegamos todo um aparato de tudo quanto aquele recôncavo nos propicia e colocamos dentro da música que nós estamos fazendo. Mas nós ouvimos muito Luís da Mouriçoca, Joãozinho da Gomeia, e outros que foram precursores. E o primeiro lá na nossa banda, né? E penso que no Brasil todo. O nosso diferencial foi a gente realmente colocar essa formação Afro-barroca dentro da nossa espiritualidade africana.
Eu tenho a sensação de que conhecem mais os Tincoãs fora do Brasil do que dentro. Eu, brasileiríssima, apaixonada pela cultura brasileira, fui conhecer os Tincoãs há cinco, seis anos. Como que eu não bebi isso na mamadeira?
Não sei. Para lhe ser franco, não sei. Oito anos atrás mais ou menos, nós fomos surpreendidos com a música nossa, Cordeiro de Naná, numa peça publicitária para a campanha da Apple. A gente nem sabia.
E não pediram autorização?
Não, e até hoje nós estamos querendo saber a origem do contrato, quanto foi, quanto não foi. Mas para você ver como as coisas são. E foi lá de fora, foi a Apple. Um contrato feito, não sei se foi no Canadá ou na França, com uma empresa lá, uma produtora de lá de fora, sem nem passar pelas pessoas que fizeram.
O senhor já sentiu entrar em um estado alterado de consciência através da música, e não por uma substância, especificamente?
Antes de tudo, a música. Esse é um princípio que nós defendemos e defenderemos sempre. Antes de haver isso que nós percebemos, houve a música. Antes dos elementos serem movidos para poder criar, houve o som. Esse som é música. Na própria formação, a terra é música. O vento das árvores é música. O mar… Você tem que pensar quem foi a pessoa que fez esse grande arranjo. E os músicos que executaram aquele arranjo feito. A música te leva para o caminho que você nunca andou. A música antecede a cannabis. Então, quando você soma a cannabis, que é, como é que eu disse, um instrumento, uma ferramenta da natureza, para que você ouça, esse diapasão musical dentro de você, você desperta para a vida. E a cannabis tem essa possibilidade de te ligar à sua música, sua música primária, aquela sonoridade primeira, do seu coração.
A proibição ao candomblé e à maconha parte do racismo estatizado. Te interessa, pessoalmente, entender os rumos que a regulação no Brasil da cannabis vai ter dentro da perspectiva racista em que ela está inserida?
Menina, tudo me interessa e nada me coloca dentro do interesse e além do interesse. Um segmento natural tem os dias fadados para aceitar, isso é como água, você não pode colocar uma barreira na frente da água, porque a água vai passar ou por baixo ou por cima, ou por um lado ou pelo outro. Agora estão descobrindo rios embaixo dos rios, água embaixo dos oceanos. E a água também está em cima, que ela se evapora, se transforma em outro mar, que a gente ainda não designou direitinho o que é que é. Você não pode proibir o improibido. A natureza não pode ser proibida. Isso é uma questão puramente de ego, de poder, quem manda. Ou melhor, quem pensa que manda. Ela está aí hoje, não está? Já está de uma forma muito menos acorrentada do que já esteve na minha época. A gente mede a coisa assim, de uma forma tridimensional. Fora desse pensamento tridimensional, a gente não existe. Então, as pessoas que vão de encontro, que se tornam racistas, se tornam anti-cannabis, anti-ayahuasca, meu Deus, que autoridade cósmica elas têm pra proibir? Não estou falando da autoridade aqui criada pelo homem, não, mas que autoridade cósmica, universal, do universo real, tem pra proibir? Não pode, filha. Não pode. E quando essas pessoas vierem numa outra volta aqui, se é que vão voltar, verão que tudo mudou. As coisas que estavam proibidas movimentaram o mundo. O obscurantismo que quer nos manter nesse ambiente curto, pequeno, isso tá errado. Não adianta você dizer que eu tô errado, que eu vou continuar a fazer o que eu faço. Porque eu acredito nisso. Eu não faço o que me disseram pra fazer. Eu não respiro porque ninguém me concedeu a licença pra poder sugar o oxigênio. Eu respiro porque respiro.