Reportagens

De volta para a nave-mãe

Por Anita Krepp

Alguns meses após a edição de 2023 da Expo Head Grow, àquela altura, realizada na Fazenda Maeda, em Itu, Clóvis Antunes e Henrique Oliveira, os organizadores da Expo, receberam uma foto curiosa enviada pela administração da fazenda: um pé de maconha havia brotado de uma semente deixada ali por algum participante, por engano – ou não. 

“O pessoal do parque levou na brincadeira, e contou que, quando foram arrancar, alguém já tinha levado a planta inteira, com raiz e tudo, claramente para casa”, Clóvis lembra, rindo, de uma das várias histórias maravilhosas que aconteceram na Maeda, que foi palco de mais da metade da história da EHG, entre 2019 e 2024. 

Antes disso, em 2017, a 1ª edição tinha rolado em Campinas. “No estacionamento de um sítio que choveu e alagou tudo”, resgata outro “causo” divertido, Jarrão, sócio-diretor da Squadafum, marca que esteve presente em todas as edições desse evento e que, no próximo fim de semana (23 e 24 de agosto), retorna à São Paulo, onde havia celebrado a sua 2ª edição, em 2018.

Desta vez, a EHG chega chegando, pronta para abalar as estruturas da cidade, ocupando, nada mais, nada menos, do que o estádio do Corinthians. “A cada ano, fincamos uma estaca na terra, pra dizer que daqui a gente não vai sair. Há alguns anos, era impossível pensar em uma feira de cultivo de cannabis no Brasil, mas além do mercado, as pessoas se profissionalizaram, e o que surgiu como um evento underground, hoje você vê em todas as mídias. Vejo isso como uma grande evolução”, avalia Jarrão.

Inspirada nas melhores do mundo

Além de realizadores da Expo, Clóvis e Henrique também atuam como empreendedores em outros segmentos do cannabusiness. Essa experiência lhes dá sensibilidade para entender as necessidades das marcas e, ao mesmo tempo, ter uma visão mais ampla sobre tendências que o público espera. Uma bagagem que eles ampliam viajando para o exterior, visitando feiras canábicas e observando tanto o que funciona quanto o que pode ser feito de forma diferente por aqui. 

“A Expo Head Grow tem total inspiração em outras feiras como a Expo Weed, no Chile, a Spannabis, na Espanha, e a Mary Jane, em Berlim, que visitei há dois meses e era gigantesca, com marcas do mundo todo”, diz Clóvis, que nem sempre consegue trazer todas as novidades, já que, em se tratando de Brasil, há certos limites. “Mas fazendo aquela forcinha pra empurrar esses limites um pouco mais pra frente, de forma cuidadosa, porque volta e meia aparece político querendo se promover, e quase sempre há alguém tentando dificultar a realização do evento.”

Felizmente, todas as edições da festa foram exitosas, e por isso são altas as expectativas para a edição deste ano, que, tá certo, perde em contato com a natureza, ao sair do interior de volta para a capital – e aquele clima bucólico que todo mundo adorava –, mas ganha em acessibilidade. Localizado ao lado da estação Corinthians-Itaquera, da linha vermelha do metrô, o novo local vai favorecer o acesso à periferia.

O advogado Erik Torquato, figura carimbada da cena, é um dos que estão entusiasmados com a mudança de endereço. “Espero ver um público diferente, que possa desfrutar de tudo que a Expo tem a oferecer nesses momentos de encontro, confraternização, organização da luta, da militância, e reernegização da nossa alma e do nosso espírito combativo”, diz ele, que cria poesia ao falar desse evento que ele considera a mãe dos grandes eventos do gênero, “que não concorrem, mas se somam.”

Depois da Expo, uma melhor cultivadora

Fernanda Soares, técnica de IT e cultivadora, tem visitado tantos eventos de cannabis quanto possa e concorda, na prática, que não há concorrência entre eles, mas uma evolução de patamar com os aprendizados que vai aprendendo com cada comunidade, a cada nova oportunidade de encontro como o que promove agora a EHG, que Fernanda visitará pela 1ª vez este ano, com muita vontade de aprimorar principalmente seu conhecimento sobre extrações e o processo de clonagem.

Sua caminhada grower, que vai alçando voos mais complexos, começou numa tentativa de fugir do prensado. “Na busca de qualidade eu descobri a magia do cultivo e hoje ouso dizer que gosto mais de cultivar do que de fumar. Todo o processo me encanta e cada etapa me hipnotiza de uma forma diferente, o formato das folhas, os aromas e finalmente as flores com os tricomas brilhantes, acho mágico e fico horas contemplando”, diz ela, que vai de Araraquara a SP, especialmente para a Expo.

Eventos como esse unem o melhor dos mundos: de um lado, a chance de conhecer novidades e tecnologias para o cultivo; de outro, a oportunidade de se divertir. E é preciso admitir, no quesito entretenimento, a Expo Head Grow está muito à frente dos outros eventos do tipo no Brasil. Arrisco dizer que também no mundo. No fundo, trata-se de um verdadeiro festival que, para além da ganja, reúne música, gastronomia e cultura.

Estamos falando, na verdade, de um festival

Afinal, talvez já seja tudo parte da mesma coisa. “A cannabis acabou se misturando à cultura em geral e à arte, porque tem esse poder de aflorar a criatividade’” reflete Zeider Pires, vocalista da banda Planta e Raiz, que tocou em uma das primeiras edições. “Foi uma experiência incrível e estamos muito felizes em ver esse crescimento, poder fazer parte desse momento da Head Grow. A gente tá amarradão e não vê a hora de celebrar essas conquistas e liberdades”. diz sobre o show da banda marcado para domingo, dia 24.

Outro pessoal que está animadíssimo em tocar na EHG é a banda Ponto de Equilíbrio, que se apresenta pela primeira vez no evento, com um show que costuma ser descrito como um verdadeiro ritual. ‘Pela mensagem que trazemos e por essa conexão entre artista e plateia, a experiência transcende, se aproximando mesmo de um ritual’, explica o baterista e fundador do grupo, Lucas Kastrup, que compôs um dos hinos da planta, a música “Santa Kaya”. 

O músico quer chegar bem antes do show para poder dar umas voltas pelo lugar, conhecer gente e sentir a energia do universo canábico, que merece ser celebrado por suas conquistas e avanços, mas sem perder de vista que ainda temos um longo caminho em direção à reparação social. “Sangue inocente é derramado todos os dias com a premissa da guerra às drogas, quando sabemos que essa é uma guerra aos pobres, e a Expo é o lugar ideal para se discutir ideias também nesse sentido”, dá a letra, Kastrup.