
Por Anita Krepp
“Um dia eu simplesmente acordei dentro do sonho, e quando percebi que tava sonhando, despertei”, lembra a cantora Josyara, sobre a primeira experiência desse tipo que teve, nos idos de 2017, quando ela já morava em São Paulo, e tinha algumas amigas com quem comentou o acontecido. Luê, amiga e jovem cantora da geração de Josyara, deu umas dicas de como não deixar um sonho lúcido escapar. “Ela me disse que quando você acorda no sonho, você tem que olhar pra mão. Um tempo depois, eu tive um sonho e consegui olhar pra mão, e o sonho se manteve.”
O momento de vida da artista não era dos melhores. Tendo que se virar pra sobreviver da sua arte numa cidade ainda tão imensa quanto desconhecida, e lidando com pressões de todo tipo, foi nessa “explosão de sonhos lúcidos o tempo inteiro” que Josyara começou a se consultar. “Então entendi que precisava saber de alguma coisa. Se eu tava na multidão, eu ficava perguntando pras pessoas “que que eu faço pras coisas melhorarem?”, exemplifica.
No caminho do aperfeiçoamento, foi pegando o jeito da coisa. “Se eu tirava a mão pra ver a pessoa, começava a desfazer, então ficava arregalando o olho, olhando pra mão, e o sonho foi ficando mais real, eu conseguia controlar de muitos jeitos”, conta ela, que ganhou ainda regalos artísticos, em forma de inspiração. “A música Nanã veio de um sonho.”
Poliglota, ela
É a música, aliás, que no sonho e na vida real sustentam a existência de Josyara, que antes de chegar em São Paulo, saira de Juazeiro, sua terra natal, para morar uns anos com a tia, em Salvador. “Com 10 pessoas num apartamento de três quartos”, conta com agradecimento pelo apoio que recebeu da família paterna para que pudesse se desenvolver como artista. “Não era nada romantizado, mas me deu o suporte que eu precisava, sou muito grata a eles.”
Intérprete de mão cheia, a artista tem experimentado cada vez mais dar voz às suas próprias composições, todas em português – ainda que ela vire poliglota durante os sonhos lúcidos. “Eu acordava falando alemão, anotava tudo, botava no Google, e fazia sentido. E eu nunca falei uma palavra em alemão”, conta ela que de vez em quando também despertava falando em iorubá.
Outro momento em que ela podia falar diferentes línguas eram os que ela tomava um porre – desde os quinze anos, numa média de todo fim de semana. Josyara reconhece que perdeu a mão. “Tive uma proteção muito forte porque já fiquei bêbada, mas à medida que fui ficando adulta, aprendi a usar o álcool.”
Como é que dizem mesmo, que o álcool é um lubrificante social? No caso da Josyara pode-se dizer que sim. “Era fácil, só chegar no bar e pegar a longneck. Combinava mais com por onde eu andava e foi muito pelo social, se o cogu e a maconha tivessem acesso mais certinho, talvez a gente não bebesse e não fumasse tanto, porque um peguinha do bom, equilibrado e já dá um brilho que você quer.”
Um pouco de café, um pouco de droga
Depois de muito tempo com o álcool como droga preferida, a nossa sonhadora lúcida decidiu ficar careta. Ou quase isso. A maconha, ela já tinha deixado há muitos anos, quando começara a bater errado e os momentos de diversão eram substancialmente menores que os de pânico. “Já fumei muita maconha, mas ao longo dos anos o efeito começou a não ser bom pra mim, batia uma ansiedade, um mal estar e era essa coisa incerta, de crise de riso, come e dorme, passou para palpitação toda hora.”
O hash melhorou um pouco a instabilidade. “Toda vez era o mesmo efeito, mas eu não quero ter essa ligação com o tabaco, por causa da voz, então meio que deixei pra lá, não tenho uma constância mas também não digo que nunca mais, vou fumar quando tiver oportunidade”, diz, sem fechar às portas ao destino, que pode muito bem dar voltas.
Em compensação, do café, ela nunca largou. “A cafeína é meu lance, porque eu gosto de algo que me instigue, mas ao mesmo tempo ainda tô aqui.” E um cogumelinho de vez em quando, por supuesto. “O cogumelo foi realmente fantástico pra mim, ele dava essa risada que a maconha provocava, mas não tinha palpitação e ansiedade da maconha, nem a ressaca do álcool”, conta a cantora, que fez algumas trips com cogumelos psilocibinos e tem curtido a experiência.