
Maitê Proença não é mulher de superfície rasa. Aos 67, ela fala da ayahuasca como quem fala de um amor que te desmonta para depois te devolver ao mundo com outra pele. A maternidade, diz ela, foi um presente dessa medicina da floresta, depois de dez anos tentando e fracassando, até que numa miração, soube: “Agora vai”. Nessa conversa com Anita Krepp, editora desta Breeza, Maitê conta como atravessou portais, pariu coragem, quebrou 24 ossos do corpo, mas seguiu viva.
Ela conta como o ritual, a disciplina e o medo viraram companheiros durante os três anos em que tomou Daime, até o dia em que a planta falou pra ela parar e ir botar em prática tudo o que tinha aprendido. Daí em diante ela descobriu a leveza que nenhuma fama, viagem ou prêmio poderiam dar: aquela que vem quando você larga as cascas e para de viver defendida, mesmo que doa.
Maitê fala também do mundo que a cansa, dessa gente que não escuta a quarta frase, da preguiça coletiva de pensar, da intolerância que cresce nela mesma, e da solução que encontrou: cuidar do seu jardim. Pés no chão, netas correndo, uma horta para lembrar que o que importa não cabe em post de Instagram. Com a Breeza, ela fala também, pela primeira vez, sobre a sua experiência pessoal com o aborto, que ela considera um tema delicado demais para virar bandeira, mas urgente demais para continuar sendo tabu.
Maitê, você é uma atriz foda, que trabalhou muito a vida toda, ganhou prêmios, e depois também descobriu mais um talento da escrita. Você se sente realizada?
Eu sinto que eu tive uma vida plural, que ela foi pra vários lados. Eu viajei muito, eu viajei de uma forma que dava pra mergulhar nos lugares onde eu estava. Eu morei fora do país. E eu acho que eu tenho essa coisa, um caminho polivalente, sabe? Que não foi só, ah, virei atriz e pronto, me realizei como tal. Eu precisei ir pra vários setores, precisei de mais vidas dentro dessa vida, mais vidas realizadas, mais vidas que tenham investigado de fato e tal. Realizada eu não me sinto, não. Eu sinto que eu andei pra vários lados, que eu me interessei por coisas diversas. Agora, nesse momento, estou construindo uma casa, estou aprendendo jardinagem, porque eu quero fazer a coisa do jardim da casa, eu quero que seja a minha parte nas coisas, então, eu vou plantar, vou ter horta, vou ter galinha, vou ter quase uma pequena chácara, e quero aprender para dominar esse assunto que eu acho que pode dar muito prazer. E também estou estudando pintura, porque é uma coisa que é quase uma meditação. Eu medito, mas meditar é difícil, nem sempre você está com vontade de meditar, mas é um exercício. Se você não fizer com uma frequência, uma cadência e uma disciplina, você não sente os benefícios. Aí você fala, não serve pra nada, só fica a parte chata do difícil. É como fazer exercício físico, não adianta muito você fazer uma vez a cada 20 dias. Tudo precisa de disciplina na vida, tudo. O trabalho precisa de disciplina, se eu for escrever, não adianta achar que eu vou conseguir escrever de uma forma caótica, porque eu não vou, não vai ficar bom. Então, eu quero aprender essas disciplinas novas, que eu sei que o mundo está muito difícil.
Em que sentido?
De você sentir que tem uma saída pra esse mundo. Quando eu tinha 20 anos, que eu saí pra viajar pelo mundo, e que eu fui até a Índia, e eu passei pelo Irã. Quando eu passei no Irã, o Xá caiu um mês depois. Então, eu estava naquele momento. Era muito difícil, porque eu tinha que andar de xador, os homens botavam a mão na minha bunda, eu tinha que andar com… Eu me lembro que eu saía do hotel com um melão na mão, assim, tipo assim, vem, quem vai encarar?
Mas você estava sozinha lá?
Eu estava com um namorado que não estava aguentando essa situação, porque ele falou “vai dar um problema, em algum momento vai dar um problema, você tem que ficar no hotel”. Eu falei assim, “não, eu não vim até aqui pra ficar dentro do hotel, você enlouqueceu?”. E a gente não conseguia sair do Irã, porque nós queríamos… Estávamos indo pra Índia. O próximo país era o Afeganistão. E o Afeganistão estava saindo de uma guerra, a primeira guerra com a Rússia. Então eles não davam visto pra gente, e a gente não tinha dinheiro pra voar, então eu dormi no parapeito da casa do embaixador, dormi no chão. A primeira pessoa que ele via quando ele queria sair de casa era eu. Uma hora ele deu os vistos pra nós por insistência, acho que ele não aguentava mais. E ele olhou pra cara da gente, ele viu que a gente era inofensivo e tudo. Conseguimos, atravessamos e tal. Mas aquele momento, com todos os problemas que o mundo enfrentava pontualmente, tinha uma coisa que era um residual do movimento hippie, do paz e amor, sabe? Tinha uma visão romântica do mundo, e por onde eu passei, eu só encontrei gente boa no meu caminho. Teve gente que me deu dinheiro, e a gente não tinha uma língua em comum pra se comunicar. Pessoas que me salvaram de, sei lá, queimadura de segundo grau, que me levaram pra casa. Era um mundo que tinha uma benevolência nele, e agora eu não vejo isso. Você vê que nos anos 30 tinha todo aquele povo de direita. O Salazar, o Franco, o Mussolini, o Hitler, eles estavam por ali. Depois veio todo o movimento de esquerda. Agora é um movimento de direita de novo, mas com pessoas furiosas hoje em dia, e com muito mais poder nuclear na mão, então dá uma desesperança, sabe? O que eu posso fazer? Eu não sei o que eu posso fazer. Então, diante disso, eu fico pensando que talvez pelo espiritual, então eu medito. E acho que a pintura é uma forma de meditação. Porque você fica focado ali, não fica pensando nas suas coisas, você sai do seu umbigo. As pessoas estão muito no umbigo, só pensam em si. É eu, eu, eu, eu. Eu quero aparecer. Eu faço isso, eu faço aquilo. Eu fiz uma macarronada, posto. Eu dei dois passos, e posto. Tiro uma foto, nem olho para a cara da pessoa, e a foto já está no Instagram, é tudo sobre você mesmo.
“Você vê que nos anos 30 tinha todo aquele povo de direita. O Salazar, o Franco, o Mussolini, o Hitler, eles estavam por ali. Depois veio todo o movimento de esquerda. Agora é um movimento de direita de novo, mas com pessoas furiosas hoje em dia, e com muito mais poder nuclear na mão, então dá uma desesperança, sabe?”
E sobre a imagem que você quer que o outro tenha de você.
Uma imagem misteriosa que você, que não é você também. Aquela coisa cheia de filtros e de arrumações que botam uma outra pessoa ali no lugar e tal. Então, eu acho que está tudo muito difícil. E além disso, eu ainda tenho agora quatro netas, porque minha filha casou com um homem que já veio com duas pequenininhas, e teve mais duas, tudo mulher. Essas meninas todas, a casa é pra elas. Porque eu quero que elas botem o pé no chão, quero que elas deparem com uma cobra. Já expliquei que cobra só enxerga a cinco metros. Se você ficar parada, a cobra vai passar, não vai fazer nada com você, ela não quer te atacar, ela está no caminho dela, não vai fazer nada. Enfim, as meninas vão aprender a fazer um doce com aquela fruta que você acabou de colher. Na tua panela. Que você fez ali no espaço de arte da vovó, que tem cerâmica… Estou aprendendo essas coisas também pra poder passar um pouco pra elas.
E é um pêndulo também, né? Porque agora a gente está vendo uma geração que está aí no TikTok, no celular, mas que também tem um movimento de voltar aos fazeres manuais.
Precisa voltar. Precisa voltar. Porque senão você fica muito desesperado. E os problemas são imensos, incomensuráveis. Como é que você lida com o Netanyahu? Como é que você lida com o Trump? Como é que você lida com o Khamenei? É tudo difícil. Então, você cuida do seu jardim. Vou cuidar do meu jardim. Quem sabe aqui me surja uma ideia.
Você é uma mulher muito livre, que sempre fez o que quis, namorou quem quis, é exitosa profissionalmente, viajou, etc. Em que momento da sua vida você se empoderou dessa liberdade? E qual foi o preço que você precisou pagar para exercê-la?
Nada que eu fiz na minha vida foi muito por heroísmo, nem porque eu era foda. Então, eu sou, eu faço, eu aconteço. Foi acontecendo, foi meio que uma imposição da vida mesmo. E por ter muito pouco medo, me quebrei muito por conta disso. Então, tem consequências. Quando você tem pouco medo, você não pensa. E eu sou assim desde pequena. Eu me lembro do meu pai falando, ‘pula’, e eu não pensava se eu vou pular. Minha filha, quando ela era pequena, se eu falava, ‘pula’, ela está em cima de uma árvore, ‘pode pular que eu estou aqui’. Ela vai pensar três horas se ela pula ou se ela não pula. Eu não pensava, eu ia. Eu pulava no mar, eu atravessava a onda, eu pegava a corrente, ia pra corrente até o alto mar, depois voltava nadando. Eu não pensava que poderia ter algum problema no meio do caminho. Quando surgiu o problema, eu vou lidar com o problema. E isso tem consequências. Ossos quebrados, cicatrizes pelo corpo inteiro e tudo, dessas mazelas todas que aconteceram. Mas também, um pouco, porque eu perdi minha família muito cedo. E por eu ter perdido minha família muito cedo, não dava muito pra ficar sentada ali. E agora, o que eu faço? Não tem ninguém. Ou eu sento aqui e fico me sentindo uma pobre coitada, ou eu vou. E por temperamento, eu fui. E aí, a vida foi ensinando.
Você tem aí as suas cicatrizes de muitas vidas vividas em uma, e eu imagino que você seja íntima do perdão pra ter conseguido seguir adiante, depois de viver questões familiares muito duras. Eu queria saber, então, Maitê, onde é que está o perdão?
O perdão está em todo dia. Inclusive, o mais difícil pra mim, é comigo. Porque eu sou muito exigente, com as pessoas e comigo. Muito exigente. E aí, quando as coisas não dão certo, eu acho que esse perdão, assim… comigo mesma, é uma coisa que está… Agora que está acontecendo. Não era muito frequente. Antes, eu ficava me martirizando, me batendo, sabe? “Por que você não fez direito? Por que você não conseguiu? Como é que você fez isso? Por que você falou daquele jeito?”. Então, entender que a gente tem o temperamento que tem, porque você está fadada ao temperamento que você tem. Você está amarrada nele, de certa forma. Ele é uma construção da criança que você foi, das perdas que você teve, da vida que você teve. Ele foi se sedimentando e formando você. Então, às vezes, quando você tem um impulso e diz uma coisa imprópria, aquilo lá, você poderia não ter feito. Mas está feito. Vai lá e pede desculpas. Agora você lida com a consequência.
Mas você não acredita que o ser humano pode mudar?
Acho que muda pouco. Eu conheço pessoas que mudaram muito. Mas se eu tiver que contar nos dedos, são duas as pessoas que mudaram muito, assim, da água para o vinho. E mesmo assim, porque estavam sob a influência de alguém muito importante, muito severo. E quando se libertaram daquela figura, voltaram a ser alguma coisa que já existia neles. Mas acho que a gente vai se melhorando, vai tentando melhorar, mas algumas coisas pioram. Por exemplo, eu estou muito mais intolerante agora do que eu era, com o mundo. Eu era muito mais tolerante com o mundo, com as pessoas à minha volta. Agora eu sou menos, e olha que eu tento não ser, mas não dá. Porque as pessoas… Eu vejo as pessoas com muita preguiça. Preguiça mesmo. Elas querem que as coisas caiam do céu, elas têm preguiça de ouvir, ninguém mais escuta. Então, se você explicar, você sabe como é que faz alguma coisa. No Brasil, está assim. As pessoas estão com preguiça de pensar, porque como ninguém mais lê, ninguém mais argumenta, está tudo dentro do celular, você não tem que exercitar o pensador. As pessoas têm muita preguiça. Elas escutam até a terceira frase. A chave estava na quarta frase. O que você ia mostrar de diferencial, que ia fazer toda a diferença. Aí a pessoa não escuta. Ela tem que fazer aquilo quatro vezes. Porque ela não quis escutar na primeira vez. Não tem paciência para escutar na primeira vez. Então, está difícil para mim. Eu sou muito tolerante com as grandes coisas. Se você me colocasse um problema enorme, daqueles que ninguém sabe resolver, eu fico calma, baixa um Buda, e eu sei exatamente o que é para ser feito, fico muito calma, e ajudo tudo a clarear. Agora, me dê um pequeno problema, eu perco totalmente o rebolado, sabe?
Claro, uma coisa que podia, com um pouco de boa vontade, ter sido resolvida.
Com boa vontade, um pouco de escuta, um pouco de coragem. Está faltando coragem. Só que a vida é feita dessas pequenas coisas. A vida não é feita de grandes feitos, não é feita de grandes momentos a toda hora, e esses grandes momentos são muito definidores e é legal ter uma pessoa que possa ser um esteio nessa hora. Mas eles acontecem pouco na vida, em poucas ocasiões. Então, eu meto os pés pelas mãos com as pequenas coisas do cotidiano. E, a essa altura da vida, eu já poderia ter aprendido isso, mas não, não aprendi.
Ayahuasca, foi como se ela tivesse zerado uma conta para mim. Num momento, fiz aquilo com muita veemência. Fiquei três anos e era três, quatro vezes por semana
Você falou que conheceu poucas pessoas que mudaram, mas eu queria saber como é que você mudou depois da experiência com a ayahuasca.
Olha, eu sou uma pessoa que, quem me conheceu lá atrás, tem gente que diz que não esperava nada que eu tivesse essa vida que eu tive. Talvez, porque em algum período da minha vida, talvez depois que a minha mãe morreu, eu não tinha consciência disso, eu tenha virado uma pessoa mais introspectiva por um período. Eu vejo pessoas da escola que me dizem que, “entre todos nós, você tenha sido a atriz”, sabe? Que é uma coisa que exige uma exposição pública, uma coisa para fora. Que você tenha tido a vida pública de todos nós, quando tinha gente que era muito mais histriônica, muito mais barulhenta, que era muito mais para fora e tudo. Eu mesma acho que, a cada 10 anos, eu mudei muito. Não nos meus valores principais, aqueles que estão ali de alicerce desde sempre, aqueles que eu recebi em casa mesmo, aqueles lá que ficaram, que formaram até os 10 anos de idade. Aqueles ali que são muito definidores de caráter, esses aí estão comigo ainda. Mas o jeito que eu organizei essas coisas e tudo, os meus interesses, para onde eu quis olhar, o que eu quis fazer, essas coisas foram mudando bastante. E a maternidade muda muito, inclusive, foi um presente do Daime, na verdade, para mim. A ayahuasca, foi como se ela tivesse zerado uma conta para mim. Num momento, fiz aquilo com muita veemência. Fiquei três anos e era três, quatro vezes por semana. Às vezes eram três vezes por semana que eu tomava Daime, em menor ou maior quantidade, mas foi bastante, e era muito difícil para mim, porque eu sofria muito. Então, quando eu ia para o local, eu ia em pânico de medo. Era muito difícil para mim. As pessoas falam que é uma droga, mas não é mesmo. Droga, você vai com tudo. Você vai para se aliviar, porque é um prazer e tal. E a ayahuasca era uma coisa dificílima, era sempre um processo sofrido, até chegar naquele topo da montanha. Quando eu chegava no topo da montanha, que eu virava, aí sim, luz. Eu via pessoas na minha frente que estavam só no bem bom. Eu falei, nunca vai acontecer assim comigo, não. Meu processo sempre foi muito difícil. Toda vez era uma conquista. Toda vez eu tinha que fazer a porta abrir.
Você não se perguntava por que você seguia tomando o Daime?
Porque eu via que eu tinha um aprendizado. Eu só parei quando o Daime mandou eu parar. O Daime falou, ‘para’. E eu já tinha ouvido do meu padrinho, porque um dia eu descobri que ele não tomava Daime. Meu padrinho, Sebastião, não tomava Daime. Eu falei, “mas padrinho, o senhor não toma?”. Ele falou, “não, não, eu não tomo, não”. Eu falei, “mas como assim?”. Ele falou, “não, não, Daime a gente toma até um ponto, depois você para”. Mas eu estava começando, estava muito entusiasmada com as minhas descobertas, e achei que ele estava meio de brincadeira. E aí ele olhou para mim e falou, “e você também não vai tomar, você também vai parar”. Eu falei, “ah, tá, tá bom então”. E aí ele morreu e eu continuei tomando, esqueci disso, daí um belo dia eu tomei e não aconteceu nada. Eu tomei um copo, dois copos, três copos, não aconteceu nada, só aconteceu que o Daime falava assim, “acabou, não é mais para você tomar, acabou, agora você pega tudo isso que você aprendeu e vai destrinchar na vida”. Eu burlei essa ordem duas vezes, mas não aconteceu nada.
E você não teve peia nessas duas burladas?
Não, nada, nada, nada. E eu ainda lia o hinário, que antes eu achava lindo, e eu achava uma idiotice completa (risos). Eu falava, como é que eu posso ter em algum momento achado algum valor nisso aqui? Isso aqui é tão simples, tão elementar, tão bobo. E aí eu falei, “não, eu não quero ter essa lembrança”, e parei, nunca mais tomei depois dessas duas vezes. Mas durante o processo, eu tive muitas compreensões imensas.
Eu estive naquele lugar de paz, de integração absoluta com o universo, eu estive ali algumas vezes, não foram todas as vezes, mas algumas vezes eu fui lá, eu sei o que é esse estado, eu sei que eu sou parte de um todo e que talvez isso não se desligue na hora que eu morrer, que essa coisa permaneça de alguma forma, não sei, também não faço a menor questão de saber. Eu tive um momento em que eu precisava muito, era como se todos os meus traumas, que eu carregava até então, pesados, bem pesados, e que não me deixavam lidar com o emocional de uma forma livre, que eram um peso mesmo, tirando minha liberdade, ainda que eu tivesse liberdade de ir e vir, de falar, de ser, etc., emocionalmente a coisa não fluía fácil, não era fluído, era tudo truncado lá dentro. Muitos medos que eu não sabia que eram medos, muitas emoções que eu não queria investigar, que eu tinha medo, como atriz também, de ir naqueles lugares e não voltar. Eu sabia que se eu mergulhasse ali, eu ia fazer uma cena extraordinária, completamente fora do padrão, completamente incomum. Mas, quando eu chegava pertinho, eu tinha que recuar e continuar tecnicamente, porque eu tinha pavor de entrar naquele lugar, eu tinha pavor do que pudesse acontecer naquele lugar. Isso o Daime tirou, meio que zerou uma conta e falou, agora começa de novo, agora você está livre, vai indo devagarzinho, pode ir. E eu tenho certeza que, se não fosse pelo Daime, eu não teria acessado esses lugares que estavam trancados dentro de mim.
Como você chegou no Daime?
Eu cheguei porque meu pai tinha se matado. Eu estava exausta de tanta gente morrendo na minha família, de tantas perdas, de tantas dificuldades. E aí eu tinha uns amigos, o Carlos Augusto Trastor era um deles, a Lucélia Santos era outra, que falavam, “vamos lá, você não tem nada a perder”. Aí eu estava tão exausta emocionalmente que eu falei, “quer saber, me leva, eu vou”. Estava difícil de ter entusiasmo, de seguir, de ter vontade, estava meio deprimida, eu acho. E aí me levaram, e da primeira vez, já foi um acontecimento. Eu atravessei um portal para o outro lado. E aí o que eu fiquei fazendo nos três anos que eu fiquei tomando a ayahuasca foi mais ou menos a mesma coisa que eu fiz no primeiro dia, tirando as cascas. Eu fui tirando as cascas, eu fui tirando as cascas, e apareciam mais cascas, eu fui tirando as cascas para eu ser mais quem eu era na essência. Sem os traumas, sem as dores, sem o querer me exibir para o mundo, sem querer seduzir, sem querer ser isso, aquilo, aquilo outro.
“O que eu fiquei fazendo nos três anos que eu fiquei tomando a ayahuasca foi mais ou menos a mesma coisa que eu fiz no primeiro dia, tirando as cascas. Eu fui tirando as cascas, eu fui tirando as cascas, e apareciam mais cascas, eu fui tirando as cascas para eu ser mais quem eu era na essência”
Até o dia em que o Daime falou “para, tá bom, chega, alguma couraça tem que ter aí, senão não serve para viver no mundo, você tem que ter algum repertório”. Então, eu acho que era isso, eles me pararam antes de eu virar uma ameba (risos). Eu ia me diluir no ar. Foi isso que ele fez por mim. Foi muito maravilhoso, foi muito um antes e depois. Eu atravessei para um outro lugar que era muito mais próximo da pessoa, da minha essência, do que aquela pessoa defendida que eu era até então. E com muito menos sofrimento, porque o meu sofrimento, ele não era consciente, ele estava nas entranhas, ele estava nos ossos que eu quebrava. Eu quebrava porque eu queria me matar. Ninguém quebra 24 ossos. Eu quebrei 24 ossos no meu corpo, inclusive coluna vertebral. Quebrei o nariz, o punho, tudo quebrei, fêmur, bacia, joelho, quebrei pé várias vezes, quebrei dedos, quebrei tudo, tudo, tudo. Ninguém quebra tudo isso. E não era um problema ósseo, eu fui ver, porque eu falei, “não é possível, deve ter algum problema ósseo, deve ter algum problema no cálcio”. Não era. Era um problema, provavelmente, alguma coisa que eu estava me impondo. Como… Você precisa sofrer. Me quebrando, tentando ver se acabava com isso.
Por que você disse que a sua gravidez foi um presente do Daime?
Eu não consegui engravidar, estava tentando há 10 anos, e eu vi que eu ia engravidar, vi muito nitidamente numa sessão, e contei só para uma pessoa. No dia que eu tive a miração clara de que eu ia engravidar, era inequívoca, como eu estou vendo você aqui na minha frente, era assim, nesse nível. Quando acabou o trabalho, tinha uma menininha de uns oito anos, e ela estava pedindo para o pai dela que ela queria se fardar, fazer o ritual de passagem no Daime, e o pai dela dizia que ela não estava pronta. Ela veio andando, eu chamei ela, e o pai dela estava junto. E eu falei para ela: “você está pronta, pode se fardar. Eu tenho certeza do que eu estou falando”. E o pai – eu tenho vontade de chorar quando eu falo isso –, e o pai dela falou “então tá, você vai se fardar”. E eu falei para ela: “você sabe de uma coisa que aconteceu comigo?” E ela fez que sim e apontou para a minha barriga. Ela sabia. Ela botou a mão na minha barriga e falou você vai ter um neném. E aí, de fato, na próxima transa, eu engravidei. Depois de dez anos tentando. Você sabe que é dali mesmo que o negócio veio. E veio porque desbloqueou toda uma coisa de merecimento que eu achava que eu não merecia. Veio porque eu fiz um trabalho de doze mulheres em volta de mim me ajudando, três semanas antes. Eu me preparei com um trabalho de mulheres, todo mundo tomando menos Daime do que eu, e elas vendo as coisas saindo de dentro de mim, todos os obstrutores e tal. Então, foi toda uma preparação. Até eu receber que ia acontecer, e eu vi como ia ser o parto, tudo, tudo, tudo, exatamente. Eu recebi muito do Daime, muito mesmo.
E aí, quando você recebeu tanto, você virou tipo garota propaganda do Daime? Contando pra todo mundo?
Eu fiquei muito fanática. Muito fanática. Mas eu acho que para uma pessoa como eu, que é muito cerebral, era a única maneira. Eu tinha que ser fanática, porque senão eu ia começar a pensar: “o que eu estou fazendo aqui com essa coroa na cabeça? Com essa roupinha cheia de fita, cantando esse hinários?”. Eu ia começar a fazer toda uma coisa que não ia me ajudar, então, eu tive que começar a achar aquilo tudo normal. Aquilo tudo era ok, estava tudo certo. Lindo vomitar. Ótimo. Vomitar é ótimo (risos). Eu emagreci, fiquei com 47 kg. Eu sei que eu olhava para o espelho e ria pensando: “ainda dizem que aquilo lá é um sex symbol”, porque eu estava tão feia, mas tão feia, tão esquálida e acabada. Mas tudo estava valendo a pena, e foi também na disciplina, porque se eu fosse me curvar ao medo que eu tinha de ir e de tomar, eu teria parado na segunda vez. Foi terrível a primeira vez. Eu tinha certeza que eu ia morrer ou eu ia enlouquecer. E eu segui. Então, teve um custo muito alto para mim. Teve um custo do começo ao fim. Nunca ficou fácil, mas eu ganhei muito, sou uma pessoa antes e outra depois.
Você também tem um histórico de uso de outras substâncias psicodélicas como cogumelo. Como é que é para você? Como é que você categorizaria? Porque a ayahuasca tem essa coisa de revelação, de limpeza. Mas o cogumelo talvez seja uma outra onda, né?
A ayahuasca eu tomei dentro do ritual, e o ritual te protege, porque tem gente lá, você vai para a sala de cura quando você está muito mal. Tem um padrinho, uma egrégora. Agora o cogumelo não era assim. Eu morava em Campinas e a gente pegava aquele negócio que estava em cima da bosta da vaca, porque era aquele que era bom – o outro era venenoso – e tomava. E aí dava aquilo tudo que é esquisito também. Pode ser muito bom, pode ser muito ruim. Eu tinha umas viagens muito tenebrosas. Só o Daime me ajudou, por ser uma coisa da disciplina, por ter um objetivo espiritual mesmo. Eu sempre fui muito sensível a todas as drogas. Até cigarro, e sempre fui muito fraca para bebida. Sempre gostei, mas era muito fraca. Maconha, mesma coisa. Eu sou muito sensível. Talvez porque eu tenho uma alimentação muito natureba. Meu corpo, quando vê qualquer substância diferente… precisa de muito pouquinho.
CBD, comecei a usar para as dores, porque tenho muitas dores. Todas essas quebrações deixaram consequências e eu tenho dor permanente.
E hoje em dia você faz uso medicinal da cannabis?
Eu uso CBD, comecei a usar para as dores, porque tenho muitas dores. Todas essas quebrações deixaram consequências e eu tenho dor permanente. Comecei a usar por conselho e recomendação de pessoas que tiveram muito êxito com dor. Comigo, não eliminou minhas dores, mas deu uma diluída. E eu tomo uma dose alta. O que eu sinto que fez um efeito muito bom é na qualidade do meu sono, hoje tenho um sono muito mais reparador. Porque depois de umas três horas de sono, eu entrava numa vigília, estava um pouquinho acordada, sabe? Às vezes, eu lembrava que tinha ficado na vigília. Às vezes, eu não lembrava. Mas eu não estava num sono profundo. E agora, com o CBD, eu não tenho mais isso. Agora, eu durmo direto, não acordo mais cansada, agora, eu durmo de verdade.
E, hoje em dia, você costuma fazer, mesmo que esporadicamente, o uso de alguma das substâncias psicodélicas ou fumar um baseado de vez em quando?
Não fumo. Não fumo. Não gosto. Não gosto mais. Não sei. Dá pena, né? Porque talvez eu ficasse mais tolerante com essa gente toda aí que está… CBD é bom eu gostar, dizem que faz bem pra gente mais velha, né? Eu fiz ao contrário, eu fiz na adolescência. Mas agora, eu não gosto mais. Aliás, eu não estou podendo usar nada. Até álcool, que é uma droga que eu gosto, não funciona mais pra mim. Eu bebo e aí, três horas depois, eu acordo e não durmo mais. Fico duas horas acordada, me atrapalha pro dia seguinte. Nenhuma dose é saudável pra mim.
Agora, mudando um pouco de assunto, você fez um aborto aos 16 anos, quando você morava na França, mas eu nunca vi você defendendo essa bandeira. Por que você escolheu não se posicionar sobre essa questão?
É um negócio muito pessoal, sabe? Você se mete com gente que tem crenças religiosas muito arraigadas. Eu sei porque sou uma pessoa apaixonada. Me apaixonei pelas causas, pelo Daime, por exemplo, que a gente falou. Eu virei católica uma época, durou pouco, mas supercatólica, eu era mais católica, entendeu? Eu rezava o terço e tal, vou muito fundo nas coisas. Eu até morei com um padre, né? Na casa do padre, na torre da igreja. Mas naquela época eu não era católica. Ele me deixou morar lá, o padre Chico, fiquei mais de um ano morando na casa do padre. Eu acho delicado você falar para uma pessoa que acha que está matando um ser humano que ela deve matar aquele ser humano. Por outro lado, acho muito complicado você pegar uma menina que se equivocou e ficou grávida, e a vida dela vai acabar ali se ela tiver aquele filho sem nenhuma estrutura, tendo que deixar com a mãe. Um filho que depois vai odiá-la mais tarde, porque ela largou. É toda uma situação por causa de um momento em que ela morreu de tesão por um gato e ela não pensou. Ela não queria usar a camisinha, porque o cara não ia mais gostar dela. Todas essas bobagens que acontecem na cabeça de uma adolescente. Acho também muito complicado que o Estado resolva por você uma questão tão íntima. Eu acho que a possibilidade deve ser dada e coberta pelo sistema de saúde, para que as meninas sem dinheiro possam acessar esse serviço. E as que não consideram aquilo uma coisa correta do ponto de vista ético, moral, espiritual, não façam. Mas a possibilidade tem que estar ali disponível. Para que essas meninas parem de morrer e façam isso da maneira que elas fazem. Muito perigosas.
“(sobre aborto) Acho muito complicado você pegar uma menina que se equivocou e ficou grávida, e a vida dela vai acabar ali se ela tiver aquele filho sem nenhuma estrutura, tendo que deixar com a mãe”
Você falou agora há pouco dessa coisa do sex symbol. E de fato, você sempre foi uma mulher muito referenciada no Brasil como exemplo de beleza. E te colocaram tanto tempo nesse posto de sex symbol, que eu imagino que tenha sido lisonjeante, por um lado, mas também possa ter gerado uma puta pressão estética nada saudável. Como você lidou com isso durante tanto tempo?
Eu não pensava muito nisso. Porque você não olha no espelho e fica pensando, “nossa, olha que sex symbol”. A vida te coloca rótulos. Se não for esse, vai ser um outro, qualquer que seja. As pessoas reduzem a gente a algumas características, acham que você é aquele combo de quatro coisas e aquilo lá te resume. Mas eu falava, “bom, sabe o que eu vou fazer? Eu vou esperar e as pessoas que me conhecerem intimamente vão poder usufruir dessa outra pessoa mais completa. E quem achar que eu sou aquilo ali também pode usufruir dessa outra maneira, do estereótipo. Se eles quiserem, também podem”. Eu fico à vontade, sei lá, acho tudo bobo, tudo que você proíbe, por exemplo, sei lá, posar para a Playboy. Eu nunca tive problema com nudez, porque na minha casa eu não me lembro de ter saído com a minha mãe para comprar roupa nenhuma vez. Então, acho que não era uma questão muito importante a coisa de ficar bonito ou feio, isso não era falado na minha casa. Então, as roupas eram para cobrir, sabe? Depois eu fui morar na França, eles prezam mais pela inteligência, pelo que você conhece, pelo seu conhecimento, seus parâmetros intelectuais e tal, era outro negócio. A coisa da beleza, para mim, aconteceu quando eu vim para o Rio de Janeiro. O Rio de Janeiro, que foi pela herança da corte que aqui se estabeleceu, tem esse atributo, essa característica de prezar a beleza excessivamente. E ainda tem o mar, então você tem que estar com o corpo assim e assim, mas se você estiver na Dinamarca, você vai para a praia, está lá a velhinha pelada, com a neta pelada do lado dela, de mãos dadas, o peito está caindo aqui no umbigo, mas ninguém está preocupado. Você vai para a piscina pública na França, tem gente sem sutiã e ninguém estava preocupado se o peito tava caído ou não. Então eu pensava isso, falei, “não vou conseguir mostrar a pessoa que eu sou para todo mundo, nem estão interessados, então eu vou vivendo a vida como for possível e quem se interessar vai ganhar um pouco mais. Quem não se interessar fica com aquela lá, tudo bem”.
“Aí você posou para a Playboy e aí os homens, sei lá, tocam uma punheta. E daí, vai tirar um pedaço? Eu vou interferir no que ele faz com o pinto dele? Agora eu vou dizer para ele que ele não pode usar o pinto dele da maneira que ele bem entender?”
Mas aí você posou para a Playboy e aí os homens, sei lá, tocam uma punheta. E daí, vai tirar um pedaço? Eu vou interferir no que ele faz com o pinto dele? Agora eu vou dizer para ele que ele não pode usar o pinto dele da maneira que ele bem entender? Ah, porque é uma coisa machista. Como machista? Porque ele não está incomodando ninguém, está lá dentro do quarto dele. Eu me lembro de receber às vezes de presidiários, montagens. Antes de eu posar, uma vez veio uma montagem que eu mesma fiquei assustada, porque era igual o meu corpo e ninguém tinha visto ainda. O meu peito que ele fez, que ele botou numa colagem, era igualzinho ao meu peito. Eu não sei como que ele viu, mas ele deduziu e mandou uma colagem, uma coisa tosca que ele conseguiu fazer dentro da prisão. E atrás era uma baixaria das coisas que ele fazia comigo, entendeu? E eu achei aquilo muito engraçado. Mas eu achei que poxa, coitado, né? Ele está lá, preso. Ele olha aquela mulher na televisão e ele fica imaginando coisas. Por que ele não pode? E depois ele mandou pra mim que ele queria que eu soubesse. Acho que ele achou que eu ia achar maravilhoso. E eu achei engraçado aquele negócio. Eu acho que as pessoas fazem o que elas querem.
Maitê, você fala abertamente, com honestidade que é rara de se ver, né? Hoje em dia, eu acho que ainda mais. Você nunca teve medo de perder contrato publicitário?
Ah, perdia. Mas… acho que é aquela coisa, né? A gente tem o temperamento que tem, tem gente que pensa pra falar e tem gente que fala e depois pensa. Eu sou dessa segunda leva, que faz, que agarra a vida pelos colarinhos e depois se arrebenta e aí vai ver como é que se costura de volta. E também, eu acho que eu tenho um instrumental pra ir construindo a minha vida com outros elementos. Se não estiver dando certo aqui, eu vou escrever, vou fazer uma outra coisa, vou resolver de outra maneira. Quando ficar difícil aqui, eu vou pra lá. Quando você tem muito pouco recurso, é que você tem que ficar com medo disso. E depois, eu acho que se você é uma pessoa que chegou num determinado patamar da tua carreira, e você não luta pelos direitos que você pode lutar, porque você tá lá, porque o cara que é coadjuvante, ele não pode, ele já ganha pouco e vai deixar de ganhar aquele pouco, é muito mais difícil pra ele. Tem que ser você. Você tem que falar pelos outros, e se você tá nesse lugar, tua voz é mais ouvida. Então, é melhor você fazer algo de bom com a tua voz, enquanto você pode fazer. Às vezes, mesmo que você faça tudo certo, tudo perfeito, dentro de você traçou um plano. Tem gente que traça planos e mesmo assim, você vai dar num lugar medíocre, sabe? Então, tem formas e formas de se fazer a coisa. E quando não der, aceita. Olha, fiz porque achei certo. Não sabia naquele momento que aquilo… Se eu soubesse há 30 anos atrás o que eu sei hoje, talvez eu não tivesse feito várias coisas. Mas eu não sabia. Então, naquele momento, aquilo era certo e foi o que foi feito.
E Maitê, conta o que você tem feito. Você estava em cartaz até agora há pouco, né?
É, eu tenho uma peça que é As Duas Irmãs e um Casamento, que agora tá pausada. A gente fez até semana passada, que era uma comédia. E eu acho que a minha área de excelência é mais a comédia do que o drama, apesar de eu sempre ter sido colocada em personagens mais dramáticos, acho que porque as pessoas que escolhem, eles acham que esse tipo de layout combina melhor com o drama e tal.
Mas a verdade, pra mim, é mais fácil ou mais natural ir pra comédia, e é muito divertido, porque você olha pra plateia e você vê todo mundo rindo. Aquele ponto de vista meu é melhor do que o da plateia pra gente, porque eles estão às gargalhadas com uma coisa que você acabou de dizer. Aquilo vai te dando uma palhacice no espírito. Você vai piorando, vai aumentando, você quer ficar mais palhaça, mais palhaça… É muito divertido, é muito gostoso de fazer. Acho que o mundo tá precisando muito disso, pra que as pessoas tenham um laço pra lidar com ele. Então, poder ficar lá durante uma hora, uma hora e meia rindo, te dá espaço, cria espaço pra depois você encarar as suas questões. Agora eu tô em termos de teatro que eu tô fazendo, eu tô escrevendo, eu tô adaptando um texto meu para teatro com uma amiga, que é mais gostoso trabalhar junto, porque você bate bola, uma faz um negócio, a outra sugere o negócio, levanta a bola, você corta. Tô nesse momento e com essas coisas, de aprender essas coisas novas pra abrir novos caminhos. Enfim, tô, como todo mundo, muito preocupada com a inteligência artificial, só escuto o Yuval Harari pra lá e pra cá falando aquelas coisas terríveis, super assustadoras, mas por isso também que eu quero cada vez mais botar minha mão na terra, fazer coisas com meu corpo que me tirem do cérebro, me botem pra lidar com o mundo real.