
Por: Anita Krepp
O Masterchef, programa de culinária mais pop dos últimos tempos, invade os lares brasileiros pela TV aberta a ponto de, mesmo quem não assiste, reconhecer os jurados e alguns dos participantes, é, talvez, o programa mais cannabis friendly do Brasil. A começar por dois dos três jurados: primeiro, Henrique Fogaça saiu em defesa da erva, que fez milagres no tratamento de saúde da filha Olívia; depois, Helena Rizzo saiu da estufa com a Breeza, contando sua relação com a planta e os planos de cultivo no seu sítio.
E, agora, o mais novo Masterchef a enveredar pelo universo canábico é o Rafael Barbosa, que depois de conquistar o 3º lugar do programa, em 2022, foi parar em Barcelona, onde prepara menus especiais, infusionados com THC, para jantares e eventos em clubes canábicos. “Além de ser um nerd, que gosta de entender e aprender como as coisas acontecem, também sou maconheiro, e acho que a culinária e a cultura canábica andam muito de mãos dadas. Você fuma um beque e bate a larica, daí você tem que comer, então já taí a prova de que são feitos um para o outro.”
O espírito da confraternização, para Rafael é a verdadeira conexão entre os rituais em torno à comida e à maconha. “Sentar-se em volta de uma fogueira e assar uma carne, como acontece até hoje em dia com o nosso churrasco é uma tradição da humanidade, assim como a maconha. Você senta numa rodinha, fuma um beque e vai passando pra todo mundo, confraternizando, tendo aquele momento junto com a sua família, com seus amigos e companheiros”, exemplifica.
Taurino, né?
Taurino, Rafa conta que sempre gostou muito de comer, mas só se arriscou pela cozinha a partir de 2019, quando entrou para a faculdade e teve que se virar para não passar fome nem gastar rios de dinheiro comendo fora. Mas logo a pandemia chegou, as aulas ficaram suspensas e o tempo “livre” se expandiu suficientemente como para que novas e ousadas experimentações acontecessem na sua cozinha.
Empolgado com o novo talento, Rafa teve a ideia de se inscrever no Masterchef, e passou na seleção. Daí em diante as coisas aconteceram muito rápido. “Foi uma experiência muito louca, virei figura pública, larguei a facul de ciência da computação e fui aprender a ser blogueiro”, conta ele, que até então era completamento anônimo na internet. “Eu era do tipo que postava dois stories por ano e, de repente, em dois meses, já tinha mais de 100 mil seguidores no Instagram”, lembra ele, que precisou aprender a lidar com a fama repentina ao mesmo tempo em que tentava aprender o ofício de cozinheiro profissional.
Parte do jogo de cintura que o cozinheiro precisa ter, Rafa já tinha aprendido da época de adolescente, quando ajudava a mãe nos menus que ela preparava para eventos de vários portes no Rio de Janeiro. Naquela época, ele chegou a preparar a comida servida no camarim de Coldplay, Red Hot Chilli Peppers e Paul Mccartney. Tá bom pra você?
Com a experiência prévia servindo nomões da música e o destaque que ganhou no Masterchef, Rafa conseguiu uma vaga na cozinha do OCYÁ, um restaurante famoso no Leblon por servir peixes maturados na brasa. Foi lá o seu primeiro trabalho realmente numa cozinha, a oportunidade que ele precisava para entender como funciona esse ambiente e tomar gosto pela coisa. “Aí eu fiquei meio perdido na minha vida e comprei passagem só de ida a Barcelona, onde moro hoje.”
Qualquer comida vai bem com maconha
Rafa lançou mão da sorte de ser neto de italiana e tirou o passaporte europeu “que ajudou muito nessa missão toda” de conseguir um trabalho na nova cidade, onde finalmente ganharia em euro. “Cheguei aqui e logo entrei no restaurante de um brasileiro que me conhecia por conta da internet”, lembra o chef, que meses depois foi convidado a trabalhar no Grasa, um restaurante catalão tradicional que há mais de 20 anos serve tapas de lamber os dedos, e onde está até hoje.
“Além do meu trabalho no dia a dia, surgiu a oportunidade de fazer pop ups com dois amigos que conheci por acaso no cinema assistindo Ainda Estou Aqui. Os dois malucos me reconheceram e eu descobri que eles queriam abrir uma padaria. Acabou que fizemos um pop up de brunch brasileiro muito gostoso e divertido”, diz, convidando para a próxima edição CAOS Pop-up Breakfast, o brunch brasileiro que prepara a segunda edição para o meio de julho – sem maconha, vale esclarecer.
Para experimentar as criações canábicas de Rafa, é preciso seguir sua agenda ligada a clubes canábicos como o Gorilla, que, aliás, é administrado também por brasileiros. “Na estreia desse tipo de evento, fizemos uma noite de tacos com três opções de recheio com molho de abacate que tinha THC infusionado. As pessoas podiam escolher colocar ou não o molho especial, foi muito interessante”, conta o chef, explicando que como o THC repele água e se dissolve em óleo, é possível infusionar os canabinoides em qualquer tipo de óleo.
“Cada flor vai ter um toque especial pra alguma coisa, você pode pegar uma strain cítrica e infusionar com azeite, outra um pouco mais docinha e infusionar com manteiga, pois combina melhor. A partir disso, dá pra fazer literalmente qualquer prato da culinária, porque todos os pratos do mundo utilizam algum tipo de óleo ou gordura”, simplifica o cozinheiro-maconheiro que tem adorado as incursões por essa “nova” culinária. “É fantástico, porque realmente traz a maconha pra comida de forma muito simples. Se você entende o processo, você consegue botar em qualquer lugar.” E qualquer lugar mesmo. Para o próximo evento, o masterchef prepara uma carta de temakis. Depois conta pra gente, Rafa.