
Consagrada chef do restaurante Maní, um dos dez melhores da América Latina, Helena Rizzo esbanja simplicidade. Apesar de sua lista de premiações ser longa, tendo sido eleita duas vezes a melhor chef mulher do mundo. Também está à frente de um dos poucos restaurantes brasileiros com estrela Michelin, além de ter se tornado nacionalmente conhecida por estrelar como jurada do MasterChef, o popular reality show de culinária, desde 2021.
Falar com Helena Rizzo é ouvir uma voz coerente. Embora não seja muito afeita a conceder entrevistas, não titubeia em responder ao que lhe é perguntado. Sair da estufa, para ela, é questão de “onde a gente puder não ser hipócrita”. É melhor, mesmo, não sê-lo.
Na conversa que você confere logo abaixo, e também no episódio desta semana de nosso podcast, o Saindo da Estufa, a chef fala da sua relação com o óleo e com a flor da maconha. Além da vontade de cultivar a planta e das experimentações que já fez e ainda quer fazer com a cannabis. A conversa foi conduzida por Anita Krepp, nossa diretora de redação.
Helena, qual é a sua relação com a maconha?
Eu consumo as flores dela e o óleo também. De forma muito moderada. O óleo, tomo todo dia, três gotinhas de manhã, três à noite. Me ajuda. Como no sono. A flor inalada, também. É outro sono que eu tenho quando eu fumo. O meu ritual é fumar lá pelas cinco da tarde, seis. Tipo de manhã, para trabalhar na cozinha, jamais. Não funciona. Mas num finalzinho de tarde, sim. Daí dá aquela acalmadinha e, na hora de dormir, eu já tô com sono. Então, para mim, ela (a planta) me dá uma equalizada. Eu sou uma pessoa que trabalha bastante, faço um monte de coisa, então eu sinto que a cannabis me equilibra. Equilibra essa coisa da aceleração.
O que você curte fazer quando usa maconha?
Eu gosto de ler, estudar, ver filmes, escutar música. Entro no meu processo criativo. Gosto para desenhar, para pintar. Ela (a cannabis) entra nesse lugar.
Uma vez você me contou de uma ideia que você tinha de plantar cannabis num pedaço de terra, mas a gente não aprofundou nessa conversa.
Na verdade, comprei um sítio, mas não sei como tá isso, né? Eu não tô acompanhando o tempo todo. Já li algumas coisas, mas não sou uma expert no assunto. E, claro, se der para eu plantar um dia, seria maravilhoso. Eu gosto da planta, acho ela incrível, até para fazer uns testes culinários.
Para mim, desde os meus 16 anos, eu acho que tem um efeito positivo na minha vida. Nunca me viciei, né? (risos) E, claro, se der para eu plantar um dia, seria maravilhoso.
Helena Rizzo
Atualmente, como você acessa a planta?
Sempre usei de forma moderada. Nunca comprei. Agora que eu tô associada a uma ONG (a Club Brasileiro de Fitoterapia Cannábica), acabo pegando. Mas muito pouco porque eu consumo pouquíssimo. Eu associei também meu pai. Ele fez uma consulta por ter muita dor no corpo, na coluna. Tem artrose, umas doenças autoimunes, inflamatórias. Pra ele, tá sendo ótimo.
Quem levou quem pra essa ONG de cannabis?
Como eu conhecia o trabalho dessa ONG de perto, vi que era um negócio super de qualidade, tudo feito com maestria, com amor. Junto, tem essa questão do meu pai, que a gente vinha conversando. Ele estava tomando muito remédio e eu ficava assustada. No verão passado, falei ‘pai vamos ver se a gente acha um outro caminho’. Daí ele gostou, conversou, se informou.
Não teve resistências do tipo “isso é maconha, não quero”?
Meus pais sempre tiveram essa resistência. Mas eles tão envelhecendo e abrindo mais a cabeça (risos). Meu pai fala que às vezes até toma umas gotinhas a mais (risos).
Como você separa o uso do óleo para o da flor?
Quando eu chego mais cedo em casa, que quero relaxar, não tenho mais nenhum compromisso, gosto de fumar. Três, quatro peguinhas, fico bem.
Fumar antes de trabalhar, então, nem pensar?
Uma vez, num restaurante na Espanha, fui trabalhar de manhã, dei uns peguinhas e foi horrível. Horrível! Não combina. Comecei a entrar numas, achava que não tava fazendo direito. Então, nunca mais fiz isso.
Você falou que a cannabis te reequilibra. De que maneira?
Morando em São Paulo a gente tem uma vida muito acelerada. Eu me percebo muito pensando, correndo maratona. E daí eu falo (para mim mesma) ‘Não! Vamos estar mais presentes. Pra quê isso?´. A cannabis equilibra o meu jeito de estar na vida. Eu sou uma pessoa que produz, que gosta de produzir. Gosto de estar bem, disposta. Mas sinto que às vezes eu acelero. Acho que a cannabis dá um freio.
A cannabis é uma substância comum nos bastidores da cozinha?
Na cozinha a gente vê mais outros tipos de drogas, né? A galera usava mais pó, que é uma merda, e bebida, pra relaxar quando chega o fim do expediente. E são coisas que, pra mim, não funcionam.
Você considera a cannabis uma droga?
Não! O que vejo de importante de toda a legalização, da descriminalização, é a gente conhecer. Ter conhecimento sobre a planta, sobre o consumo. Se eu fico fumando todo dia, não gosto. Mas, pra mim, não é droga.
A gente já vê, principalmente nos EUA, umas experimentações culinárias acontecendo. Você chegou a experimentar a cannabis dentro da cozinha?
Vou te confessar que tive uma experiência uma vez, de ingerir, que não foi legal. Na Espanha. Era um brownie e eu tava com muito trampo, cansada, e tive um teto preto com o negócio. Passei muito mal. Depois disso, fiquei receosa. Depois eu comi umas balinhas de gelatina, coisa suave. Agora, o que me interessa, bem dosado, sabendo o que tá fazendo, é que dá pra brincar. O aroma é maravilhoso, o sabor… já tem algumas coisas na natureza que remetem a esse sabor e a esse aroma… fazer infusões, o que seria bom talvez só pra dar uma breeza… eu sei que tem muita gente fazendo isso.
O aroma é maravilhoso, o sabor… já tem algumas coisas na natureza que remetem a esse sabor e a esse aroma… fazer infusões, o que seria bom talvez só pra dar uma breeza… eu sei que tem muita gente fazendo isso.
Helena Rizzo
Você já experimentou cozinhar com maconha?
Na minha adolescência, fiz brincadeiras com manteiga. Fiz bolo, mas sem ter muita noção. Meio na brincadeira, perigoso. Daí quando aconteceu isso comigo eu pensei ‘opa!, tem que saber o que você tá fazendo’. Às vezes eu provo um melzinho que me mandam de presente. Mas vou muito devagar.
Você usa esse melzinho em algum prato?
Não, eu não cozinho com ele. Não fiz experiências mais profundas com cannabis.
Pensando num país legalizado, você serviria num prato do seu restaurante?
Eu fico pensando num sorvete. Seria uma coisa deliciosa. Um sorvete com esse aroma refrescante, e com limão. Limão com cannabis! Fico pirando um pouco nessas infusões. Trazer a coisa herbácea.
Você acha que esse papo de peito aberto, que a gente tá tendo, é um caminho para os brasileiros saírem da estufa?
É complicado porque envolve dinheiro, envolve organizações, tráfico. É delicado, mas eu acho bacana trazer (o assunto). Onde a gente puder não ser hipócrita, porque a gente sempre acaba sendo um pouquinho (risos). Sempre usei antes de forma recreativa, nunca em excesso. Como te disse, nunca fui compradora de maconha, não sou uma super estudiosa. Eu consumo e vou percebendo os efeitos que têm em mim. A cannabis tem uma importância na minha vida, no meu bem-estar, na minha ansiedade, na minha criatividade, e no meu corpo. No funcionamento do intestino. Se eu tô constipada e dou um pega, já dá vontade de ir ao banheiro (risos).
Eu fico pensando num sorvete. Seria uma coisa deliciosa. Um sorvete com esse aroma refrescante, e com limão.
Helena Rizzo
E no sono, né?
Realmente, a questão do sono pra mim é um problema que eu tenho. É de família. Minha mãe também tem. Mas ela ainda tem esse preconceito, e não usa. Eu até durmo, mas acordo no meio da noite. Nos dias em que eu fumo, durmo as minhas sete, oito horas.
Como foi a primeira vez que você experimentou maconha?
Devia ter uns 16 anos, porque meu namorado fumava e eu experimentei. E aí muito de vez em quando eu fumava. Não me lembro muito bem, não bateu tanto, não foi uma coisa que eu gostei de cara. Aí, depois, com amigas na praia, de final de semana. Comecei a entender mais. Sempre fumei de turma.
Você vê diferença entre medicinal e recreativo? É importante pra você traçar essa linha?
Pra mim, tá no mesmo barco. Eu gosto de pensar, de brincar, de escrever, fazer associações entre coisas. Se pego férias e começo a fumar todo dia, sinto que vai dando uma preguiça de fazer as coisas. Eu gosto de fazer exercício todos os dias de manhã, por exemplo. Então, eu nunca fumo antes de fazer exercícios. Apesar de que dizem que o Bob Marley fumava um e saía pra correr, e que era maravilhoso (risos). Eu já experimentei fazer isso, mas eu canso muito rápido. Se tô com uma dorzinha na coluna, parece que aquela dor fica gritando mais.
Grita no mental até mais do que no físico, né?
É, quando eu fumo tem uma coisa meio autoanalítica, de autoconhecimento. De se perceber, mesmo as noias. Gosto dessa provocação comigo mesma, que a cannabis traz. De olhar pras coisas e se aprofundar em algumas que tão ali contigo, naquele dia, naquele estado. Eu sinto que depois dá uma resolvida, dá uma suavizada.
Dá um exemplo de coisa que se resolveu no mental.
Questões que a gente tem em relação à vida. Em relação ao trabalho. Encanou com alguma coisa que uma pessoa te falou, ou que você pensou? Uma situação que tu viveu? Daí aquilo vem e temos a oportunidade de trabalhar naquilo. Pra mim, pega muito nesse lugar.