
A multifacetada artista Lucy Alves conversou com Anita Krepp, editora da Breeza, em um momento de pausa rara na sua rotina. Atriz, cantora, compositora e multiinstrumentista, ela se divide entre shows, gravações e temporadas de imersão criativa. No meio disso tudo, falou sobre saúde mental, liberdade afetiva e os limites entre arte e bem-estar.
Lucy comentou da sua relação pontual com a cannabis, relatou experiências familiares com o uso medicinal e defendeu o acesso à informação como ferramenta contra o preconceito. Os psicodélicos entram no campo da curiosidade, mas com portas abertas.
Lucy analisou ainda a dificuldade dos vínculos heterossexuais, o peso do machismo estrutural e a importância de escolher com quem se quer caminhar. Ela, que já se declarou bissexual, prefere não mais se fixar em categorias. O foco, diz, está na qualidade das trocas.
Ao longo da entrevista, também falou sobre o impacto da terapia em sua trajetória e como a arte funcionou, muitas vezes, como ferramenta de expressão e sobrevivência. Contou como quase chegou à depressão ao se mudar para o Rio e como o exercício físico, que pratica com regularidade e disciplina, foram fundamentais para manter o corpo e o juízo no eixo.
A conversa passa, claro, por forró, mas também por versões de rock nacional, vontade de gravar na Jamaica e a redescoberta da sanfona como extensão do próprio corpo. O equilíbrio, no fim, vem do que ela experimenta, mas principalmente de saber reconhecer o que faz sentido em cada fase.
Você que fez a personagem Brisa na novela Travessia, pra começar essa entrevista pra revista Breeza, eu queria saber, pra você, o que é uma boa brisa?
Ah, uma boa brisa cada vez mais é a gente estar em paz com a gente, com as nossas escolhas (a gente se cobra tanto), e com a nossa família. Sou uma pessoa que eu gosto muito das coisas mais simples, então, a paz, tanto no campo profissional, quanto pessoal, tem me trazido essa brisa boa, ter entendido um outro tempo das coisas, um tempo de uma brisa leve, calma, como daqui das praias de João Pessoa, que tem essa brisa leve, que é o meu tempo. A gente fala muito que o sotaque das pessoas correspondem muito ao lugar onde elas nasceram, como elas falam, a velocidade, o jeito que a gente fala, a entonação, que lembra a natureza também, então é isso. Tô equalizando os meus tempos e eu acho que uma boa brisa é a gente estar em paz.
E você mora em João Pessoa ou está de visita?
Eu moro no Rio, mas tenho uma base também em João Pessoa, porque eu trabalho muito no Nordeste, então eu fico nessa constante ponte aérea. Quando eu tô fazendo trabalhos como atriz de novela, aí eu fico mais intensamente no Rio, mas quando não, eu fico me revezando, porque tem a parte musical, e eu faço trabalho aqui, seja de show, de publicidade, então, eu vivo nessa ponte aérea.
“Eu quero ser essa senhora sexy, linda, maravilhosa e que trabalha”
Você ficou conhecida do grande público em 2013, quando foi pra final do The Voice, e logo em seguida já começaram a pintar os convites pra atuar como atriz. Daí você foi fazendo coisa, fazendo coisa, e ganhando prêmio atrás de prêmio, principalmente como atriz revelação. Como foi pra você esse entendimento e essa abertura, pra uma nova expressão da sua arte? Como você divide o coração de cantora, musicista e atriz?
Foi uma grata surpresa essa coisa da atuação. Eu tinha talvez uma pequena aptidão, vamos falar assim, porque eu sou intérprete. A música e o palco me trouxeram muito isso, mas foi, assim, uma ferramenta muito feliz pra minha vida, pra além do tanto profissional que eu ganhei. Eu acho que pessoalmente também a coisa da atuação é meio que uma grande terapia, um grande meio de você expurgar vários sentimentos que você consegue trazer à tona com os personagens. A primeira personagem que eu fiz tinha um ranço, e ela era muito valente, muito briguenta, muito pra fora, e eu não sou uma pessoa assim na vida, sabe, de grandes discussões, de ter agredido alguém na minha vida, não lembro, e aí essa personagem botou tudo que um dia talvez eu tenha tido vontade de fazer, escrachar alguém, dar na cara de alguém, aí eu pude fazer isso com a personagem. Foi muito maneiro me descobrir atriz e, claro, poder conciliar os trabalhos com essa parte da música. A música sempre faz parte das personagens que eu faço, e isso é um presentão, poder trazer a música, e aí eu levo pra tudo, seja pra decorar um texto, seja a personagem mais musical. Às vezes ela canta profissionalmente ou não, mas a música sempre tá lá. Isso me trouxe muita maturidade nos palcos, na vida, e como pessoa mesmo. Acho que a coisa da atuação faz a gente observar muito o ser humano, a gente vai se aprofundando, observando, querendo entender essas personagens que são diferentes da gente. Claro que a gente empresta muito, mas é um grande campo social, então pra mim foi muito bom, na questão da maturidade pessoal, e hoje eu vou conciliando os dois. Não tenho pretensão alguma de largar nem um e nem outro, a música é uma grande paixão na minha vida, porque eu comecei com a música, então, realmente, eu me divirto muito no palco. Comecei como instrumentista e era ali que eu me expressava melhor, era tocando instrumento. Hoje, com tudo que eu já vivi, com a novela, participei em um reality de dança também, hoje eu sou uma pessoa mais desenvolta de expressão, de corpo, porque eu sou uma pessoa tímida, só que hoje eu acho que eu tenho ferramentas pra conseguir me expressar melhor. Eu era uma pessoa que eu tinha dificuldade de me expressar com palavras, então a música sempre me ajudou, desde criança, às vezes eu ficava no meu quarto tocando, fui uma criança que sempre teve num ambiente muito adulto, de pessoas mais velhas que eu, então também ficava ali tocando, frequentava clube de choro… Eu era uma jovem senhora, e acho que eu fui ficando mais jovem com o passar do tempo. A arte, de uma forma geral, é uma grande salvação na minha vida.
Não bateu aquele medinho de, putz, será que eu vou dar conta de atuar?
Ah, com certeza, eu caí de paraquedas numa novela cheia de grandes nomes, de pessoas muito experientes, fiquei morrendo de medo, muito insegura, porque eu sempre fui um pouco insegura, embora as pessoas achem que eu sou muito… ah, porque tem essa coisa, mulher nordestina, mulher forte, ela é decidida, ela faz e acontece. Mas no fundo eu sou uma grande cagona, eu sou muito insegura. Então talvez algumas posturas eu tenha assumido para me proteger mesmo, e aí eu lembro uma vez, uma hora que eu estava lá, eu cheguei para o diretor e falei, “cara, vocês têm certeza que vocês escolheram a pessoa certa?” E aí ele “não, cara, a gente quer você, a gente escolheu porque é você, acredite”. Então foi assim um grande presente. Essa novela é uma obra de arte, a primeira novela que eu fiz, Velho Chico, não sei, ela não tem muita comparação para fazer, porque ela foi uma novela muito permissiva, assim, artisticamente, então a gente não era muito podado, embora a gente fosse iniciante, eles deixavam a gente tomar o set, sabe, a gente se expressar do nosso jeito, é muito maneiro, é muito raro. Não dá pra fazer isso em todas as novelas porque tem tempo, tem toda uma estética. E essa novela, ela foi diferente de todas, e é uma sorte poder começar num lugar assim. Mas com medo, com medo seguimos, vamos com medo mesmo, sempre.
“Meu próximo projeto de vida é ir pra Jamaica, pegar uma casa e fazer um grande forró, uma coisa misturada, eu acho que tudo cabe na música”
No seu último trabalho, o EP “Me encontra”, achei interessante você fazer versões de forró de clássicos do rock nacional, como Pitty, Charlie Brown Jr., tem outros clássicos do rock que você tenha vontade de forrozear?
Acho que a energia do forró é a mesma energia do rock. Então, eu gosto de levar essa energia pro palco e tô muito feliz com esse trabalho justamente por isso, eu acho que achei uma energia nesse trabalho, que eu queria extravasar, que traz tudo o que faço. Eu boto meu violino ali no arranjo, tenho a minha pitada que traz a coisa mais melódica, tem a coisa romântica, mas tem a energia do rock, que o forró tem muito isso. E aí tenho um desejo muito grande, que as minhas grandes paixões, pra além do forró, da música brasileira, dessa energia do rock, rock nacional, rock internacional, o reggae… Eu tenho uma grande vontade de ir pra Jamaica e produzir um álbum lá desse forró com reggae, porque eles são muito próximos, e Gilberto Gil já fez isso também, de uma forma maravilhosa. Meu próximo projeto de vida é ir pra Jamaica, pegar uma casa e fazer um grande forró, uma coisa misturada. Eu acho que tudo cabe na música, a música é massa por isso, tudo cabe, tudo, tudo, tudo. Você cantando do seu jeito, você tendo sua personalidade, mas você pode cantar qualquer coisa, você é capaz de trazer pro seu universo, e a música, ela é infinita de possibilidades, então eu sou fã. Sempre fui fã, desde Luiz Gonzaga, Gilberto Gil, Michael Jackson (me inspiro muito, porque era um cara que não só compunha, mas era um grande performer, e isso me atrai muito nos palcos). Hoje eu cada vez mais busco ser uma grande performer, isso é um grande tesão. Eu sempre fui muito da linha dos instrumentistas, compositores, mas sei lá, a gente gosta de Metallica também, eles misturam tudo, até Zé Ramalho já gravou com Metallica. Então é isso, a música é surpreendente, e aí o que vai pintando na minha cabeça, eu vou muito seguindo esse feeling. Porque eu também sou de fases, eu não sou essa coisa estática, e graças a Deus. No forró a gente brinca muito com isso de versão, a gente é rei de versionar as músicas, tanto internacional, a gente sempre faz uma versão, ó, veio pro forró é porque o negócio é babado. A gente sempre brinca com versão, isso é um clássico, isso é um sei lá, é uma tradição já da gente, do forró, a gente gosta de versionar as coisas, e no meu caso eu trouxe músicas nacionais pra esse trabalho, mas de compositores, de pensadores que eu gosto. E aí tem Pitty, acho que a versão de Equalize também ficou muito gostosa no shot. Acho que encontrei alguma coisa diferente nele, sabe, em termos de energia, de mistura, não sei. Tá me batendo muito bem. Eu acho que as pessoas também estão sentindo, mas eu acho que é tudo do momento. Tô feliz, muito satisfeita, mais madura, tô curtindo, e as pessoas estão curtindo também.
E Lucy, junho é o mês de São João e também da visibilidade LGBT, e eu imagino que a mídia deve te procurar, especialmente nos meses de junho, pra você falar sobre essas duas efemérides. Enche o saco, ou você até que gosta?
Não acho que enche o saco, porque acho que isso faz parte do que eu sou também. Na verdade, fico feliz de poder ter essas bandeiras. As pessoas olham pra mim hoje e, eu acho, enxergam que isso faz parte da minha vida, do meu cotidiano. Então ser uma pessoa que não prega, mas valoriza o amor do jeito que a gente quiser viver, independente de qualquer coisa, seja homem com homem, mulher com mulher. Acho que a gente tem esse direito de escolher ser feliz. Eu por exemplo já tive namoradas. As coisas são chatas, às vezes, porque as pessoas querem tirar a gente do armário. Isso acho que cada pessoa tem que ter o seu momento de se expressar, e se expressar se quiser. Mas, como é algo que, cada vez mais, é mais natural pra mim, tento também deixar essa coisa mais natural. Não vivo falando sobre minha vida íntima, porque eu sou assim desde sempre, mas se me perguntam, eu respondo com muita tranquilidade. Porque eu sou essa pessoa que já me assumi bissexual, mas hoje nem sei mais o que falar, que rótulo, eu só vou me permitindo, vou vivendo. Estou cada vez mais segura de mim também, então não me importa muito me definir nesse lugar, porém não tenho interesse algum em me esconder, porque isso não cabe. Eu acho que a gente tem que ser feliz, tem que ser livre pra andar na rua de mão dada com quem a gente quiser.
“Ser uma pessoa que não prega, mas valoriza o amor do jeito que a gente quiser viver, independente de qualquer coisa, seja homem com homem, mulher com mulher. Acho que a gente tem esse direito de escolher ser feliz”
A gente tem que ser feliz e não se colocar nesse lugar, nessas caixas. As pessoas muitas vezes querem que a gente seja essa pessoa livre, mas que não mostre muito, então acho que isso também não cabe. E vai também muito da personalidade, do jeito de cada pessoa, esse termômetro de exposição. Estou tranquila em falar do São João, é uma coisa também muito boa pra mim, na verdade, muito feliz, porque é sempre um grande encontro com o meu povo, a música, é um momento tão feliz, é tão alegre. É uma festa que só traz alegria, que as pessoas estão extravasando, estão dançando, é música, é fartura de mesa cheia, comida, pessoas, amigos, familiares, é um momento que eu consigo encontrar mais a minha família, porque eu toco muito no Nordeste mesmo, e aí, todo mundo fica feliz, todo mundo se celebra. É uma festa grande, que movimenta muitos municípios, são muitos lugares com muitas festas, movimenta muita, muita gente. Então, já faz parte do meu calendário para sempre. E, na verdade, eu comecei nos palcos nas festas de São João, então, não tem como fugir disso, e eu nem quero também, porque é uma grande felicidade.
Falando sobre as mulheres, que cada vez mais se descobrem bissexuais, você acha que tem alguma coisa a ver com a baixa qualidade geral dos relacionamentos heterossexuais?
É, menina, tá difícil, tá difícil (risos). Tem uma macharada aí que precisa melhorar muito ainda, é uma tristeza. Mas, assim, eu acho que a gente no geral procura relacionamento de qualidade, cada vez mais as pessoas querem se relacionar com pessoas que realmente compreendam você, que vêm pra somar. E quanto mais a gente tem consciência disso, e principalmente a gente, as mulheres, a gente tá conquistando cada vez mais espaço, mais consciência, no trabalho, na vida afetiva, sabendo se colocar, e aí a gente tem esse poder de escolha. Então no meu caso, eu procuro relacionamento de qualidade, mas acho que por sermos uma sociedade muito machista, a coisa é estrutural. A gente tá mudando a nossa mentalidade. Os homens estão tendo que mudar também, porque não dá mais certos comportamentos, senão eles também vão sobrar e vão perder as maravilhas que somos nós. A gente vem passando por um processo de transformação, a sociedade como um todo, tem muito a se alcançar, mas eu acho que até por causa da tecnologia, das redes, quanto mais é difundido acho que a coisa vai mudando e tem mudado. Mas no geral, a minha temática é, quero um relacionamento de qualidade pra minha vida e não vou me submeter a um relacionamento que não me valorize, que queira me diminuir. Não venha querer me podar, nem nada, eu sou assim. Claro que no relacionamento, que é a coisa mais difícil da nossa vida, a gente se relacionar com alguém, meu Deus do céu, é uma coisa mais incrível, porque eu acho que é quando a gente descobre mais da gente, é quando a gente tá se relacionando com alguém, mas é a coisa mais difícil do mundo. Os dois têm que querer muito, porque é isso, eu vou ter que ceder, obviamente, e a gente vai ter que querer caminhar juntos. Imagina, meu Deus, eu não posso nem comigo (risos). Todo dia se descobre uma coisa diferente, imagina você descobrir a dois, é babado, mas tá aí, terapias e afins. Eu faço bastante terapia, venho querendo aprender mais sobre mim, sobre as pessoas também, mas tô muito aberta às pessoas, mas aos relacionamentos de qualidade, já passou a época de eu me contentar com pouco.
Lucy, você, natural é da Paraíba, onde tá localizada a Abrace, maior associação de pacientes de cannabis do Brasil, que atende hoje mais de 40 mil pessoas. Você chegou a entrar em contato com o trabalho deles?
Eu tô por fora disso, mas que legal. Olha, a Paraíba, realmente, sempre surpreende. Cara, aqui é um grande polo tecnológico, e a gente sempre surpreende, assim, como a gente tá na frente pesquisando e abraçando a ciência, no modo geral, e as coisas que fazem bem pra gente. Tô por fora disso, viu, amiga, que bom, que boa notícia que você está me trazendo aí.
“A gente tá mudando a nossa mentalidade, os homens estão tendo que mudar também, porque não dá mais certos comportamentos, senão eles também vão sobrar e vão perder as maravilhas que somos nós”
Pois é, falar em cannabis medicinal no Brasil é falar da Paraíba. Mas me conta um pouco sobre a sua relação com a cannabis.
Olha, nunca fiz uso medicinal, mas já experimentei algumas vezes. Quando eu tô de boas, eu acho que me ajuda a desligar um pouco, mas, confesso, que não é um grande amor que eu tenho. É muito raro, porém, minhas experiências são boas. Eu tenho um familiar que começou com uns tremores e aí ele começou a fazer o uso de alguma espécie de óleo da cannabis, e ele teve melhoras significativas, mas parou… É a coisa da informação que a gente ainda precisa levar às pessoas. Sabendo usar, só traz benefícios, isso é comprovado mundialmente. Então, é a coisa da educação mesmo, que a gente ainda tá caminhando, vai ter que entender que tem muita coisa que tá impregnada no nosso imaginário, e por conta do preconceito, muitas vezes a gente deixa de trazer um benefício pra vida.
Na sua época de adolescente, como é que era esse tema em casa? Tinha liberdade pra falar a respeito?
Não se falava. Eu lembro uma vez que a gente comentou e me falaram “olha, se você quiser experimentar, se quiser usar aqui em casa, beleza”, mas não se falava abertamente, não. Eu fui morar fora, tal, e vim trazendo outra visão também das coisas, convivendo com uma gama maior de pessoas, mais grupos diferentes, e aí eu quando tenho oportunidade eu fico conversando. Mas aqui na nossa criação, na minha e das minhas irmãs, nunca se foi muito colocado, sabe, isso e outros vários assuntos. E aí é uma coisa que já vem também da educação deles, eles são do alto sertão, e aos poucos eles vão abrindo a mente, porque a gente vai trazendo esse tipo de informação e, portanto, não tive esse tipo de conversa que teria sido muito interessante, pra mim, muito bom, eu acho que é necessário.
Morar fora te propiciou entrar em contato com a cannabis de maneira distinta?
Por exemplo, eu toquei muito à noite em bares, tocava em bandas de reggae e, óbvio, sempre tinha pessoas usando e tal, mas eu sempre tava distante. E assim deixava também, de tipo, cara, não vou me aproximar desse assunto, deixa ele ali quieto, não tenho muito conhecimento, então vou ficar aqui também. E aí, eu acho que depois, quando eu me mudei pra minha casa, pro meu lugar, comecei a observar a cannabis com os meus olhos. Aí fui conversando, me aproximando, experimentando o que eu queria experimentar, pra saber, onde eu posso chegar, o que eu gosto ou não, e por isso me permiti conversar mais sobre o assunto.
Também no Nordeste a gente tem, na Universidade Federal do Rio Grande do Norte, o maior centro de pesquisa psicodélica do Brasil. Você tem interesse por essa ciência psicodélica?
Confesso que tenho que pesquisar um pouco mais, mas eu tenho interesse porque eu acho que também tem uma ligação forte com a arte, então é algo que me chama. Eu não tô muito íntima do assunto, mas eu sempre tô muito aberta, gosto de aprender, sou curiosa, e tô tão pertinho do Rio Grande do Norte, inclusive a minha produtora é Potiguar, então olha aí, ó, vamos chegar perto, quero me inteirar mais desse assunto.
“Acho que também tem uma ligação forte com a arte, então é algo que me chama, eu não tô muito íntima do assunto, mas eu sempre tô muito aberta, gosto de aprender, sou curiosa”
Esse seu momento pleno foi construído a base apenas de terapia? Zero substâncias?
Foi eu mesma, não teve muita ajuda das substâncias não. Eu acho que é o meu jeitinho, e aí foi vivendo mesmo, muita experiência, muita terapia pra ir destravando esses lugares de poder falar, de poder me expressar, de falar sobre os meus sentimentos, das coisas que me incomodavam, das minhas dores, das minhas angústias, de quem era eu… Eu sempre quis descobrir quem eu era pra além da música, pra além da sanfoneira. Por isso, essa coisa com a terapia, de querer testar coisas, e aí eu fui conseguindo descobrir mais sobre Luciane, pessoa física, que não é artista, porque eu comecei muito cedo, então, essa coisa do palco, de estar ali, e aí a gente vai vivendo isso, e se deixar, minha filha, a nossa vida é só isso mesmo. E eu gosto também, gosto do que faço, gosto de trabalhar, mas aí eu fui esquecendo um pouquinho da minha pessoa física. Então, sim, eu acho que no meu processo, especialmente falando, foi com muita vivência, foi dando com a cara na parede, escutando muito as pessoas, convivendo com muita gente diferente. Nesse intervalo que eu fui pro Rio de Janeiro, eu conheci muita gente. Eu sou aberta, assim, então eu vivi com muita gente diferente, fiz muitas coisas, eu vou me jogando, e mesmo que o povo diga, mulher, não vá que ali é estranho, eu faço questão de ver com meus próprios olhos. Então, acho que é isso, terapia e vivência e vida mesmo.
Você é um baita exemplo, de saúde, e basta ver as matérias na internet com Lucy Alves de biquíni pra lá e pra cá (risos). De onde vem tanta saúde?
Mulher, eu tô numa fase que eu tô me achando, ontem eu postei um vídeo, eu disse, mas, olha, que bicha gostosa (risos). Eu tô numa fase que tô me amando muito, tá tão bom, por isso que eu tô assim, ó, Zen (risos). Eu sempre me preocupei com a minha saúde porque é uma coisa que me ajuda não só fisicamente, mas também mentalmente, acho que é uma espécie de terapia pra mim, de aliviar minhas ansiedades, sabe. Quase tive depressão já uma época no Rio de Janeiro, por conta de tudo, das mudanças todas, da pressão, dessa coisa de procurar os caminhos, e minha família toda tá na Paraíba, então eu fui sozinha pra lá e realmente é como se eu estivesse começando do zero. Porque, embora tenha aparecido na TV e tal, eu tive que juntar gente, eu tive que conhecer gente, eu tive que formar equipe, eu por mim. Isso tudo me deixou bastante ansiosa, a cidade tem outro ritmo, meu Deus do céu, parece que aqui tem 36 horas e lá a gente já acorda atrasado, então isso foi mexendo muito comigo. Até 27 anos de idade, sempre, meu Deus, ó, de boas, de boas, uma vida boa, feliz, tranquila, e aí pra eu entender isso, demorou um pouco.
Como é que você fez pra lidar com essa quase depressão?
O exercício sempre me ajudou, porque na verdade, depois pesquisando, desde criança eu tinha essa coisa hiperativa e, aí, eu sempre me exercitei, fazia esporte, competia. Fazia atletismo, gostava de prova de longa distância, tem uma parte de mim que tem que ser solitária, gosto de ficar sozinha, e esse era um esporte que eu ficava pensando muito, correndo e pensando, aí fazia tudo, fazia natação, handball, e isso sempre me ajudou a equilibrar. Quando fui entrando nesse processo mais ansioso, obviamente fiz terapia e procurei psicólogos, psiquiatras, tinha que entender o que é isso. Comecei a usar medicação, depois também procurar outros tipos de medicação, que fossem um pouco mais naturais também, enfim, e pesquisando o que trazia essa paz, como equilibrar o meu juízo com a minha rotina e tal. Então acho que foi um processo de ter, sim, médicos por perto, de continuar meus exercícios, de entender que eles são fundamentais pra mim e para além da estética, que é uma coisa que me traz um bem imenso. Eu preciso do meu corpo, eu entendo que eu sou uma artista de palco, a gente é quase uma atleta de alta performance, a gente tem que estar bem pra fazer os shows, pra conseguir cumprir agenda. A gente pega ônibus, viaja de avião, não é nada romantizada a vida do artista, é um corre-corre grande. Também participo das reuniões, das partes burocráticas, então eu tenho que estar com o juízo bom, e tem que estar com o físico melhor ainda. Muitas coisas eu tenho certeza que foi meu físico que me salvou, quando eu fiz a novela, por exemplo, que eu fui protagonista, que eu gravava de segunda a sábado, muito intenso, muito exaustivo, fui a primeira a entrar na novela e a última a sair. Tenho certeza que foi meu físico que segurou a onda também, porque teve uma hora que eu achei que eu eu nem sabia mais de nada, eu tava no modo avião.
E você só foi?
Só fui. Memorizava, chegava lá e não dava trabalho nisso, mas, depois eu fiquei assim, pensando… Outra pessoa teria pirado. Não tive uma gripe, não sei como, mas, porque mesmo gravando até tarde, eu me forçava um pouco, eu acordava ainda mais cedo antes de ir pro set, e eu me exercitava mesmo assim, às vezes um pouco cansada, mas eu dizia, cara, vamos lá, vamos fazer um trabalhinho de força aqui, porque senão a máquina não vai aguentar. Eu tenho consciência que eu quero trabalhar bastante, eu quero ser essa senhora sexy, linda, maravilhosa e que trabalhe, porque eu gosto de trabalhar, então, quero estar nos palcos, quero estar nos sets por muito tempo, e aí eu tenho que me cuidar, gosto de me alimentar, tenho gostado de beber água cada vez mais. Equilíbrio é tudo na vida, gosto de sair, gosto de tomar uma, adoro tomar meu negocinho, a minha cachaçinha, a minha breja, adoro sair pra me divertir, pra sorrir com o povo, mas também gosto de acordar cedo, me exercitar, gosto do equilíbrio.
Lucy, a sanfona foi dos últimos instrumentos que você aprendeu, então eu queria que você desse uma sugestão pra quem quer começar a tocar sanfona, qual é o melhor caminho?
Ah, sanfona realmente é apaixonante, eu demorei, viu? Eu resisti, porque ela já tava aqui na minha vida, mas é um instrumento um pouco pesado, e às vezes as pessoas têm uma resistência por conta disso. Existem hoje opções de instrumentos menores, hoje eu tive a oportunidade de fazer uma sanfona pra mim, um modelo especial, feito pra mim, num tamanho maneiro, com um peso legal, que me atende musicalmente, isso facilita e me deixou cada vez mais feliz pra tocar. Sempre me preocupei com essa coisa do instrumento não me atrapalhar esteticamente, eu queria que ele fizesse parte do meu corpo pra que não fosse uma coisa que me incomodasse, eu queria que fosse uma grande engrenagem. Fui pesquisando, fui procurando sanfonas mais leves… Mas se você já estuda piano também, eu acho que vai ter uma certa facilidade, porque a sanfona de teclado, tem essa parte das teclas, mas é isso, é começar do início, com musicalização. Mas você pode começar sentada, eu sou mais atrevida, gosto de tocar em pé mesmo, e aí por isso que eu tenho que caprichar nos exercícios, que a coluna tem que estar em ordem pra aguentar, porque tem uma macharada que nem aguenta tocar em pé e vive dizendo, minha filha, toque sentada. Mas eu não aguento não, e por isso eu cuido da minha coluna, e você vá cuidar da sua coluna também, vá baixar seu lombo. Risos. Mas é um instrumento fascinante, tem várias possibilidades hoje de tamanho de instrumento, de professores, aqui mesmo na Paraíba, quando eu comecei a tocar, não tinha tantas sanfoneiras, eu não tive referências femininas, sempre masculinas. Hoje tem um monte de alunos e alunas, principalmente meninas, procurando sanfona, isso é muito massa, e tem a coisa da representatividade também, e isso é muito bonito, porque é uma cultura que nunca vai morrer, mas tem a possibilidade de todo jeito.