
O Lobão é um roqueiro que vai do acústico à ópera e à viola caipira, com a qual compôs as músicas de seu novo disco, que deve sair antes do fim do ano: Vale da Estranheza. Também vai do Lula, que apoiou nos anos 80 e 90, quando PT era oposição, a Bolsonaro e Olavo de Carvalho, para depois trair a todos e sem pudores trair a si mesmo, também.
Nessa conversa com Filipe Vilicic, editor da Breeza, o Lobão começou dizendo que não falaria de passado e por isso nada de comentar sobre drogas ou de quando foi preso por porte de maconha. Mas logo depois de uma amaciada, se solta totalmente.
“Enfiei o pé na vida. Aí eu experimentei drogas pesadas, aí experimentei drogas mais pesadas ainda apoiando o Lula, experimentei drogas pesadas como Olavo de Carvalho, mas tudo… experimentei o Bolsonaro. Não tenho o menor medo de enfrentar”.
Dá suas impressões dos elementos que vão fazer deste nosso século XXI, para ele de discos voadores, descobertas de civilizações antigas na Terra que seriam mais avançadas do que a nossa, e a cura de doenças com o uso de nanorobôs. Tem especial atenção à inteligência artificial, que permeia a temática de seu novo disco. Vale da Estranheza tem a ver com como achamos estranho ver um robô, ou um bebê reborn.
A entrevista está brisada, vai pro espaço, para as redes sociais, para a política, para o passado, para o futuro… e já adianto que Lobão afirma não usar drogas faz um tempão.
Nosso assunto aqui na Breeza parte dos psicodélicos e da maconha, e aqui me veio de imediato sua prisão por porte no fim dos anos 80. Como é isso, ser preso por porte de drogas? E era maconha que te pegaram?
Olha, Filipe, sinceramente já falei tanto sobre isso e não tenho o menor saco de falar sobre isso pela enésima vez, botei no meu livro, sabe? Já falei sobre isso, é de domínio público. Tô falando do disco novo, tô com o Vale da Estranheza, tô fazendo ópera, tô com turnê nova, tô com minha cabeça totalmente direcionada ao aqui e agora, sabe? Esse tipo de informação eu posso dizer com tanta certeza que já foi amplamente divulgado. Não só em livros como em palestras e conversas, em shows. Isso é uma coisa que eu já tô 40 anos falando sobre isso. Eu gostaria de falar de coisas… na verdade eu tô super… parece que eu ganhei um presente de mim mesmo porque tô com repertório novo, músicas novas, meu conceito tá… eu tô em função de divulgar meu trabalho novo. Essa é a intenção quando eu venho a público divulgar algo, ultimamente.
Claro, entendido, Lobão, mas só pra comentar da Breeza, a Breeza é sobre cannabis e psicodélicos, a gente parte daí.
Eu não uso drogas desde 1990, então pra mim não tenho o menor interesse de falar sobre drogas.
Tá bom, então tudo bem, e eu ouvi, claro, seu repertório novo, tudo que você produziu durante a quarentena, li seu livro, eu fiz toda essa pesquisa, e parti dessa pergunta por conta de nosso público.
Eu acho que a gente tem de pensar no nosso público, assim, quem gosta vai se interessar. A essa altura do campeonato, quem gosta de mim e não conhece essa história, é meio suspeito, também.
Era só pra falar do interesse do nosso público, e falaremos de seu novo disco e tudo mais…
Você não tem nenhuma obrigação, não, viu, Filipe, eu só tô falando que a minha condição psicológica e funcional, e comercial, diga-se de passagem, está dentro desse espectro, acho que neste exato momento meu interessante, entusiasmo, meu foco todo está dentro desse universo.
Vamos falar do seu material novo, fiz minha pesquisa, até sonora, principalmente, mas me diz como tá agenda de shows, movimentada? Vi que tem muitos shows marcados neste ano, você passeia por estilos, você falou ópera, sempre passou por livros, música, o que mais tá trazendo aí?
Olha, essa turnê, são duas turnês paralelas que tô fazendo. Uma com o Luau Indoor, um storytelling, inclusive falo como as músicas foram feitas, sob quais circunstâncias, polícia, drogas, está inserido nesse show, que é um show bem de storytelling. É um show que é muito interessante porque, além de fazer a gênese das músicas já compostas em outras décadas, também posso experimentar muitas músicas novas. Então, e essa música nova? Então, nesse formato, cabe com muita mais flexibilidade você botar três, quatro, cinco músicas novas num show, do que se você colocar num show, como o outro, que é de Power Trio, que tá sendo um de warm up. Porque meu intento é lançar o Vale da Estranheza, o disco novo, entre outubro e novembro deste ano. E aí eu pretendo fazer uma tour pequeno, que seja só deste disco, só do Vale da Estranheza. Vou fazer o quê?, oito, dez capitais, e vou documentar. Já fechei com Gerald Thomas, que vai fazer a cenografia, vai ser uma super produção, entendeu? E até lá a gente tá com esses dois shows, por exemplo, agora nesta semana que entra (a entrevista, porém, foi realizada em 2 de junho), eu vou fazer dois shows acústicos; na sexta e no sábado, eu faço no Morro da Urca com o Power Trio, entendeu? Então tô intercalando isso e tô aquecendo porque agora eu tô no meio da gravação do disco em si, porque o repertório está pronto e agora a gente começa a testar, começa a testar em público. A gente vai no Morro da Urca tocar duas músicas novas. O disco é 95% de viola caipira, porque eu compus praticamente tudo na viola. Estou nesse turbilhão, o próprio conceito de Vale da Estranheza. A gente tá muito focado em furar a bolha dos algoritmos, entendeu?, e aí todo mundo chega, por exemplo, “Ah, então são músicas com introduções pequenas?”. Não, não, são músicas grandes, com introduções grandes, tudo que você não espera que alguém faça vai acontecer nesse disco.
“Quanto mais similar for o ser, o bebê reborn, quanto mais próximo, mais esquisito, mais sinistro, mais macabro se torna. Porque um bebê reborn é macabro, uma noiva reborn, é macabro. É tão perto, tão longe”
Você falou de estranheza, o que tem de estranho nesse repertório, me conta um pouco mais.
Então, existe uma terminologia a respeito de uma síndrome que eu vou explicar que se chama o Vale da Estranheza, que é uma síndrome que acomete as pessoas quando você se aproxima de um dróide, um robô, ou de uma réplica humana, como um bebê reborn, uma noiva reborn, que fala como você, tem inteligência artificial (IA), e quanto mais próxima fisicamente for a semelhança entre esse ser e você, mais a síndrome desse Vale da Estranheza se aflora, mais estranho você acha. Por quê? Tem um choque entre a similaridade absoluta, quase absoluta… física, táctil, e saber que estruturalmente você é feito de DNA e moléculas, mas a outra é feita de transistor, e feitas de materiais completamente diferentes de você. E nisso eu já vi vários anúncios de pessoas que fazem robôs, eu tô tentando fazer o menos Vale da Estranheza possível. O Vale da Estranheza já virou uma terminologia e um metro para saber de quantificação, o quanto o dróide, o robô, a réplica é mais ou menos “Vale da Estranheza”. Como se fosse 1km, 2km… o Vale da Estranheza, são quantificações de quanto estranho se tornará, por mais similar, quanto mais similar for o ser, o bebê reborn, quanto mais próximo, mais esquisito, mais sinistro, mais macabro se torna. Porque um bebê reborn é macabro, uma noiva reborn, é macabro. É tão perto, tão longe. É tão próximo de você que é extremamente diferente de você. Eu já achei, uns três, quatro anos atrás, achei e falei “esse vai ser o tema de meu próximo disco”, o Vale da Estranheza, porque é também um puta nome, um puta nome. Então o universo do disco transita sobre. Tem uma música chamada estranho. Tem uma música que eu fiz agora, que eu tive de fazer em inglês porque ela é um desdobramento de My Funny Valentine, e em inglês o Vale da Estranheza, a terminologia, se chama My Uncanny Valley. Ai eu fiz uma música em inglês, a piada só podia ser em inglês, de My Funny Valentine, (para) My Uncanny Valentine, que é justamente uma pessoa que sacrifica sua noiva de carne e osso pra encomendar e obter um dróide, uma noiva reborn, que seja, e se apaixona terrivelmente e faz uma canção de amor pra essa noiva.
No disco transito nessa área da estranheza total das relações humanas. (É) sobre também o processo fascistóide, territorial, ou você ser patriota, ou você torcer por um time, ou você matar pessoas por um partido, uma ideologia. Aí eu tenho uma música chamada Disterritório. E eu sou uma pessoa que sou o contrário disso, não tenho time, não tenho pátria, não tenho partido, eu tô fora totalmente desse escopo da humanidade. E gera o Vale da Estranheza porque o Vale da Estranheza é a territorialização da zona de conforto. Desde a época que os egípcios escravizavam pessoas para ter um escravo para aliviar o seu conforto, nós chegamos ao paradoxismo da zona de conforto com os robôs, a produção em massa tanto na indústria quanto nas relações humanas. Então o disco todo trata sobre isso, em vários aspectos, e o vale vai se aprofundando e alargando, à medida que o disco vai se desenvolvendo.
Você entrou em um dos assuntos que, além de drogas, eu tava programado pra te falar (há tom de ironia), que é a inteligência artificial, TikTok…
É uma droga. Mais pesada, até.
Você tá falando de um cenário, e eu sou muito fã de ficção científica, por acaso, e me vieram vários livros aqui, de ficção científica, enquanto você estava falando. De coisas que a gente vê muito nessa realidade, e agora você está se expressando na música. Mas como você, que é um cara inovador; por exemplo, com sua revista que trazia os CDs, era impactante pra mim, quando era jovem, tinha os CDs e as pessoas feras escrevendo. E você sempre teve isso. Como você vê, então, a inteligência artificial (IA) fazendo música, Snoop Dogg acabou de lançar uma música com IA, um videoclipe com IA, criou um perfil de IA (no Instagram). Como você vê essa modernidade?
Sabe como é, a gente tem de entender os traumas das progressões do mundo… a IA pode ser maravilhosa, na arqueologia a IA está decifrando novos hieróglifos indecifráveis, cuneiformes da época dos assírios, tá entendendo? E, nestes anos, tá havendo coisas incríveis, descobertas incríveis. Descobertas da medicina, a cura do câncer, você vai poder enxergar, você vai poder fazer… invenção de nanorobôs que vão interferir dentro de todo o seu metabolismo. A IA, assim como a imprensa, na máquina de Gutenberg, a máquina de tecer, causou… pá (faz gesto com as mãos, de simulando algo como uma explosão mental)… isso vai acabar com o mundo, não, o que vai acabar com o mundo, não vai acabar o mundo, mas a mediocridade do plágio, do playback, quando vai tocar. Quando tem um monte de falcatruas envolvendo esses benefícios tecnológicos, não somente a IA, é lamentável, mas isso faz parte da natureza humana. Ah, cuidado que a IA vai tomar o espaço de todos os trabalhadores do mundo. Provavelmente sim, mas cabe ao humano ser criativo e inventar outras funções, outros afazeres e se aprofundar na vida. Porque a gente tá tendo uma sociedade muito frívola em relação ao fator existencial do valor da própria vida. Por isso a gente tá se confundindo com a própria máquina, e não porque a máquina está ficando melhor que a gente, mas porque a gente tá ficando cada vez mais chulo. Mais frívolo, menos, assim, você vai se rendendo às “benesses”, entre aspas, da industrialização e dos poderes tecnológicos, e você vê que tem uma máquina maravilhosa como a internet, que pode ter a maior enciclopédia do mundo a seu favor, e o sujeito vai ficando no seu vício de scrolling. O cara, por exemplo, eu lá no meu Instagram coloquei, assim, eu com minha gata, um monte de gatas, peguei a Margarida e coloquei meio assim (faz gesto de carregando a felina no colo), e botei o texto assim, em caps lock, né?, “EU E MINHA GATA MARAVILHOSA, MARGARIDA”. Aí a primeira pergunta é assim: “pô, adorei o gato, mas qual é o nome dele?” (risos) E aí você vai fazer um show em não sei das quantas, aí você “show em não sei das quantas”. E aí a pessoa “pô, adorei, mas o show é onde?”. Isso é corriqueiro, então as pessoas estão se demencializando. Por quê? Ao invés de acirrar a sua curiosidade de aprofundamento, as pessoas procuram a zona de conforto. Vou fazer uma redação… aí procura a IA pra poder fazer. Ou o jornalista… o que você quiser.
“Se a felicidade se tornar uma meta na vida do ser humano, a felicidade vai ser decodificada como férias, aposentadoria, resorts, Disneyland, tarara, frufru, aí você vira um imbecil (…) Porque você vai ficar adormecido pelas benesses sombrias e sinistras da tecnologia”
Hoje você, pô, os advogados, eu tava conversando com um amigo meu advogado nesse fim de semana, e a tese de defesa, você diz, o cara faz com IA. Então, é em todas as áreas. Cabe a gente saber que como, feito ser humano, não pode ter como meta a felicidade pela felicidade. Porque essa equação vai dar infelicidade. A gente tem de ter uma meta muito mais abrangente de que a felicidade tem de ser uma consequência de nosso estado de espírito, e não a meta. E se a felicidade se tornar uma meta na vida do ser humano, a felicidade vai ser decodificada como férias, aposentadoria, resorts, Disneyland, tarara, frufru, aí você vira um imbecil, em duas semanas você vai virar um cretino que não vai voltar nunca mais. Porque você vai ficar adormecido pelas benesses sombrias e sinistras da tecnologia. Você tem de surfar a seu favor, e não contra. E o contrário no caso é você querer botar o boi na sombra pelas benesses tecnológicas.
Você chamou de droga quando falei de TikTok, e aí entra Instagram, X, o que era Twitter…
Ideologia, por exemplo, ideologia é uma droga.
Explica o que é uma droga.
O marxismo, por exemplo. A ideologia liberal. Ideologia reduz o escopo da natureza humana porque você vai ter de entrar num corrimão. Você não pode ser complexo ao ponto de você estar numa ideologia, por exemplo, o materialismo dialético; você estar como socialista, não pode ir num centro espírita, porque você não acredita em Deus, você não acredita em transcendência, né? A mesma coisa em qualquer coisa. Psicanálise, é restritiva. Tudo isso é fruto de uma condição que vem do positivismo de Augusto Comte. A gente tá numa época, num threshold, num limiar, como o que aconteceu no século XX. Por exemplo, o século XX só virou século XX no início da 2ª Guerra Mundial, a 1ª Guerra era puro século XIX, aqueles bigodes, aquele capacete assim (faz o gesto de um cone sobre a cabeça), andando de cavalo, trincheira, tá entendendo? E aquilo, tá vendo, 1918, ainda era século XIX. Nós aqui no século XXI ainda estamos no século XX. Por exemplo, na música, as nossas grandes referências ainda são os Beatles, Rolling Stones, o Led Zeppelin, não é? Aquilo ainda tá muito vivo, e ainda é. Até chegar o século XXI, cara. E o século XXI está batendo na nossa porta, daqui a um ou três anos a gente entra literalmente no século XXI. E aí é um breakthrough, porque aí vem os discos voadores, vêm as descobertas arqueológicas que vão se sedimentar no sentido que nós não somos a única civilização que há 5 mil anos floresceu. A gente vai ver que, antidiluviantemente (referente a antediluviano), existiam outras civilizações muito mais avançadas do que a gente. Toda a nossa condição de se enxergar vai ser totalmente modificada, tanto para trás, quanto para agora, com mais curas, com a extensão da longevidade, em 2030 a gente vai ter nanorobôs que vão praticamente trocar e limpar todo o nosso corpo. Você vai alterar suas juntas, vai renovar suas sinapses , você vai ficar… sabe-se lá o como vai acontecer. Mas aí, sim, a gente vai pro século XXI, fora a presença extraterrestre que agora tá vindo esses disclosures. O Senado americano recebendo almirante, generais, cientistas, caras da Lockheed, da Boeing, falando sobre cobras e lagartos, acontecendo de tecnologia reversa, tão guardando corpos de alienígenas de 1947, tudo tá vindo. Tudo daqui a pouco vai fazer assim (faz gesto de explodir). E tudo que a gente tá vivendo vai ser um breakthrough de algo muito, muito radical.
E qual é o breakthrough, você sabe?
O breakthrough é o limiar em que quando tudo isso se sedimentar, porque tudo isso está sendo evidenciado, construído, desenvolvido nesses períodos, aí você tem o computador quântico, você vai ter os disclosures dos discos voadores, você vai ter o desvendamento arqueológico através da própria, muito auxílio da IA, de vários pergaminhos, escritas, descobertas de novas traduções que vão deixar a gente… “ah, não é nada disso que a gente pensava”. Nosso senso de cronologia, nós temos no máximo 10 mil anos, o homem sapiens viveu há 100 mil anos junto com… tudo isso vai mudar. Nossa concepção, nossa autoimagem, nossa autoconcepção vai mudar completamente. Nossa concepção física vai ser alterada por um increasing de longevidade. Você vai botar bits de chips (ele aponta para a própria cabeça), o computador quântico e a presença final de seres de outros planetas, e de outras galáxias, e de outras dimensões que efetivamente vão ser parte de nosso cotidiano, não serão mais fantasia. Eu vejo tudo isso pra daqui a muito pouco acontecer e daí, cara, a gente vai virar uma outra época, completamente diferente da que a gente vive atualmente, né?
“Sabe o que é que é? A gente não pode ter medo das drogas (…) Você é capitão do seu destino, então nada pode te deter na medida em que você é um homem corajoso e não tem medo das aventuras que a vida te dá”
Como pai, confesso que estou assombrado aqui com o que minha filha vai encarar nisso aí.
Mas é uma aventura maravilhosa. Sabe o que é que é? A gente não pode ter medo das drogas. Como você vai pra umbanda, você vai falar com o seu Exu, o seu Exu vai ser seu melhor amigo. Você é capitão do seu destino, então nada pode te deter na medida em que você é um homem corajoso e não tem medo das aventuras que a vida te dá, pelo contrário. É isso que é ter capital, você saber que quanto mais encrenca, mais legal vai ficar.
Voltando ao mundo de hoje, você fez uma projeção que demora um tempo pra refletir sobre e até pra digerir. Então, voltando ao mundo de hoje, você falou de drogas e redes sociais, como você vê o papel de ambas nessa construção de mundo que você colocou?
Elas funcionam exatamente… inclusive, o vício em rede social está ligado exatamente ao mesmo tipo de vício que a heroína propicia. Você sabe disso, né?, o vínculo das redes sociais desperta dopamina, tudo isso está ligado à mesma coisa, e da mesma maneira e mesma proporção que podem te ajudar, podem te destruir. Então elas têm o mesmo tipo de parentesco, o mesmo tipo de DNA, vamos dizer assim. Tanto uma quanto a outra é uma forma de escape, basicamente, quando a pessoa tenta escapar, e consegue dentro desse escapismo uma zona de conforto, a pessoa se vicia, porque a pessoa não quer confortar, não quer essas aventuras e essas encrencas, só quer evitar. E quando as pessoas só querem evitar as encrencas, que é a sua sua maior riqueza do mundo, você vai para uma zona de conforto e fica lá, meio que num limbo, e aquilo ali parece que é muito bom e agradável, que aquilo parece que vai te puxar e te drenar. A heroína, as drogas pesadas, fazem isso, e a internet tem as mesmas características das drogas pesadas. Ela pode ser um grande aliado, como pode ser um grande inimigo.
Tem aquele clichê de sexo, drogas e rock’n’roll, né? E me ocorreu agora, você falou que não tem mais drogas na tua vida, se afastou disso. Como é que é o rock sem as drogas, tem alguma mudança, ou não?
Droga é como se você tivesse um plug in, tá entendendo? Ou você usa ou não usa. Você achar que tem de ser o trinômio sexo, droga (e rock’n’roll), você tem de ser muito careta, muito acadêmico, porque o rock como é uma pedra que rola, é uma entidade em mutação. Você vê a capacidade de mudança do rock, quando você pega desde o rockabilly, Elvis Presley, Little Richard, os Rolling Stones, Keith Richards. Você vai vendo o rock dos anos 70, depois o rock progressivo, depois vem o rock dos Bee Gees, e depois vem o punk rock. Sabe? Depois vem o grunge, o air rock, o metal! E enfim… por quê? O samba-rock, tem o jazz rock. Tem tudo de rock porque ele é modular. Essa coisa que quando eu me pego com o gatinho e tem o cara “pô, mas roqueiro é mal, não pode gostar de gatinho”. Pô, mas… E não pode gostar de gatinho? Elvis Presley gostava de gatinho. O Freddie Mercury gostava de gatinho. Todo mundo gosta de cachorro… roqueiro gosta de bicho. Paul McCartney, John Lennon, todos. A mesma coisa que “Toca Raul”. Tem de ser muito bobo pra achar que o transgressor… não entender que a transgressão é isso que o que eu tô fazendo, e desdizer o que já foi dito porque virou acadêmico, já. Porque, hoje em dia, sexo, drogas e rock’n’roll, se você quiser preconizar isso atualmente, você tá sendo um ortodoxo do rock. O rock procura disco espacial, disco voador, física quântica, você tá indo por outros lugares, outros afetos, outros tipos de fruição da vida, da existência e do autoconhecimento. Porque o importante de tudo na vida é o autoconhecimento, o rock, como todas as ferramentas que tem, é outra ferramenta. Mas você querer usar o rock como um corrimão ortodoxo de uma doutrina que funcionou em determinado período da vida, em que era muito necessária na guerra dos direitos civis, da repressão sexual, e tudo isso, você ter uma coisa pra espantar a sociedade, daquela época, hoje em dia, a sociedade de hoje é sexo e drogas, não rock’n’roll. Mas você vai pra um show de funk, o show de sertanejo, todo mundo tá com a bunda de fora, mostrando a buceta, chupando piroca, não é isso?. O sexo hoje em dia é careta, na medida em que ele se tornou mainstream. Hoje em dia para você ser alguém, ou você tem de trocar de sexo, ou dizer que seu sexo é isso. Então o sexo virou uma moeda de troca careta. Um artista que contesta tem de verificar isso e ver que aquilo não é mais aquilo pra se lutar contra, aquilo é o status quo de agora.
“Sexo, drogas e rock’n’roll, se você quiser preconizar isso atualmente, você tá sendo um ortodoxo do rock. O rock procura disco espacial, disco voador, física quântica, você tá indo por outros lugares, outros afetos, outros tipos de fruição da vida, da existência e do autoconhecimento“
A esquerda, pô, todo mundo fala que o rock é de esquerda. Pera aí, o rock não é de esquerda, o rock é contra o poder constituído, e o poder constituído era uma ditadura militar. Agora, quando a ditadura virou uma ditadura de esquerda, pô, vâmo contra a ditadura de esquerda, porque a gente tem de ir contra aquilo que tá no poder. E não ficar no lambe-saco do que tá no poder só porque é esquerda… a esquerda tem de ser contestada como tudo, e o artista tem de contestar tudo, duvidar de tudo, questionar e enfrentar tudo. Então as pessoas não entendem isso.
Quem te conhece, quem conhece sua carreira, conhece você como escritor. Li sua autobiografia, que tem a participação de um jornalista também…
O Tognolli não tem participação coisa nenhuma. Ele fez entrevistas.
Ah, claro.
Então quem redigiu completamente o livro fui eu. Essa coisa que teve gente dizendo que eu contratei um ghost writer, não. Eu contratei o Claudio Tognolli para fazer uma coletânea de trabalhos já escritos desde que eu sou um homem público, desde a primeira entrevista, fazer uma coletânea museológica de todos, e realizar algumas entrevistas, pô. Mas a parte propriamente da biografia, fui eu que escrevi.
Fiquei interessado em saber se vai ter um próximo capítulo, teve o 50, o 60, vai ter um novo livro aí, com essas novas ideias do novo século?
Eu não tô com a menor vontade de escrever, tô com vontade de fazer meu livro… (ele se corrige) meu disco, tá entendendo?, além do mais eu vou fazer uma ópera com Gerald Thomas. Uma ópera de três horas, para ser estreada em Londres, tá entendendo? Então não tô nem aí pra livro, agora, primeiro estou coletando minhas próprias experiências, para quando eu estiver achando que eu estou vivendo a mil como eu to vivendo, vai ter um período pra eu reatualizar isso. E, saco, porque tem de ter saco pra escrever, porque não tenho tanto saco pra escrever como eu tenho… quando faço música, tô feliz o tempo todo. E quando eu vou escrever… conheço muito escritor que adora escrever, mas não é o meu caso. Apesar de eu escrever bem, mas quando vou (escrever) parece que eu tô retroagindo ao pré-primário com “Vai fazer lá a redação, menino” (ele imita uma professora). “Saco (ele responde, com voz grossa). E eu vou lá fazer”. Mas eu tô numa hora que estou vivendo novas aventuras. Quero ir pro Monte Roraima, quero ir, quero viajar, então daqui a pouco eu vou colher essas informações e talvez eu vá entrar no outro modo, no modo de escritor, depois. Mas por enquanto eu tô no modo completamente agitado, e caótico, e criativo num outro sentido.
E nessas aventuras é tudo sem nenhuma substância ou o álcool entra aí, outra substância?
Não, eu posso tomar um vinho, mas eu não tenho nada que seja uma muleta. Eu medito (faz gesto de meditação com as palmas encostadas), eu desenvolvi meu cérebro e minha capacidade de usufruir a vida, eu não preciso de nenhuma muleta, nenhum estímulo para poder dar um clique no meu processo criativo, de jeito nenhum.
Lobão, você, tem uma carreira enorme e como figura pública, pra quem acompanhou, parecem vários “Lobão”. Ou também não, quem acompanhou pode ver a estrutura geral. Teve a fase associada a drogas, a rebeldia, fase que teve prisão, teve fase associada ao Lula no Domingão do Faustão, teve fase Olavo de Carvalho, tiveram várias fases. Pra quem vê esse Lobão de várias fases, como hoje você responde a esses todos posicionamentos?
Assim como eu tô afim de ir pro Monte Roraima, assim como eu vou me desafiar agora a fazer uma ópera de três horas com barítono, soprano, como eu nunca fiz, eu… eu… enfiei o pé na vida. Aí eu experimentei drogas pesadas, aí experimentei drogas mais pesadas ainda apoiando o Lula, experimentei drogas pesadas como Olavo de Carvalho, mas tudo… experimentei o Bolsonaro. Não tenho o menor medo de enfrentar. Porque pra um artista, você ser Lula é até fácil, você ser cool, ser de esquerda. Agora vai se botar do lado de Olavo de Carvalho, a inteligência acha que você e o cocô do cavalo do bandido… ainda mais apoiar o Bolsonaro, mas nada mais rock’n’roll. Porque esse que tava no poder, o PT ficou dezesseis anos no poder, e eu ajudei a botar lá. Porque fiquei onze anos indexado na Globo porque eu fui o único artista que teve o culhão de ir lá e cometer um crime eleitoral pró Lula. Então eu tenho essa autoridade com o PT, e eles morrem de impotência em relação a isso. Tenho essa autoridade, eu olho todo mundo no olho e falo “cala a boca”, porque ninguém lutou, ninguém deu cara a tapa como eu. Mas eu também fui o primeiro a ter essa autoridade e falar “não vou mais apoiar vocês”. Inclusive eu botei uma camiseta 100% friendly fire e fui no aniversário do José Dirceu… Dirceu, não, o outro, José Genoino. Fui com a senadora do PSOL… a Helena, Heloísa Helena. Nós fomos ritualizar que saímos do PT. Fui lá de chinfra porque gosto deles. Fui no MST e os caras botam foto “olha você no MST…”, como se fosse passado, mas eu não tenho isso. Eu sou um homem de experiências, sou um traidor porque eu sou artista. Eu traio, não tenho território, eu não torço pra time nenhum, eu não tenho pátria, não sou patriota, eu não tenho attachment, não tenho ligação com isso. Dizer que eu traí, se o Flamengo leva um gol do Fluminense, tô cagando se é Brasil e Argentina, não tenho território. Não tenho quarteirão, não tenho partido, não tenho nada disso, então experimento livremente as coisas. Existe um condutor da minha vida que é muito característico: esse homem experimentou tudo que viu pela frente, tudo. Eu comia carne crua, agora sou vegano. E aí? Sou vegano, há dois anos que sou vegano, tava me preparando. Porque eu já fui vegano teoricamente, quando eu era criança. Quando minhas primeiras músicas eram “vaquianas”, para as vacas, três pintos e um peru. Então eu tinha essa essência, então um cara desavisado vai achar que sou um cara muito facetado. Mas, na verdade, se a pessoa se aprofundar na minha vida, na minha trajetória, vai verificar que minha essência é sempre a mesma: de uma pessoa que experimenta tudo que tem pela frente, que a vida me dá. Eu encaro tudo pela frente porque eu não tenho certeza de nada e nem quero ter. Eu vou de peito aberto, por isso tenho essas histórias tão ricas, porque não me detive a nenhum território. Senão eu tava Flamengo até hoje, nem Flamengo, pois comecei sendo Botafogo, eu me traí, com 10 anos (de idade) que virei casaca. Eu tenho orgulho de me trair porque eu traio o status quo, traio a zona de conforto, traio os territórios, os agrupamentos que se pertencem para se fortalecer mediante a própria fraqueza. Por isso que eu sou sozinho, sou sozinho e maravilhosamente sozinho. Porque essa solitude, não é solidão, é solitude. Solitude é ser só por eleição. E não ser solidão por ser passado, ser cancelado, porque isso não me cola. Então eu adoro a minha vida, eu adoro o jeito que eu conduzo ela.
“Enfiei o pé na vida. Aí eu experimentei drogas pesadas, aí experimentei drogas mais pesadas ainda apoiando o Lula, experimentei drogas pesadas como Olavo de Carvalho, mas tudo… experimentei o Bolsonaro. Não tenho o menor medo de enfrentar“
Você falou de grandes experimentações, hoje a grande experimentação é sua arte, com a sua ópera? Qual é a grande experimentação do Lobão de hoje?
A grande coisa é o cardápio de hoje. O meu disco, o Vale da Estranheza. A ópera eu não comecei ainda, tem dez músicas prontas, mas acho que tem de fazer mais duas ou três, eu não sei, porque não sei se vai caber dentro de um LP. Porque quero fazer dentro de um LP, porque quero lançar um disco, a não ser que eu comece a ficar verborrágico e tenha de fazer um LP duplo. Porque os dois últimos discos, fiz um duplo e um triplo, vou tentar fazer um simples, agora. Minha aventura é essa, minha aventura é meu dia a dia, minha aventura é ser um simples. Minha aventura primordial atualmente é me enxergar como uma pessoa simples, nem um pouco especial. Sou o normal, não sou average, eu não sou um cara comum, mas sou um cara normal, não sou average, sou normal. Não sou estatístico, sou estratégico, entendeu? Por exemplo, eu acordo de manhã, vou limpar a caixinha dos meus gatos, dou soro pra eles, dou remedinho, aí limpo minhas coisas, faço comida, faço meu café, lavo pratos, lavo louça, faço uma liturgia diária, uma ode à minha normalidade, não ser uma pessoa especial, e essa é minha grande aventura atual.
Sensacional acabar assim pra gente (risos) Boa essa frase final. Obrigado pelo seu tempo, pelas palavras.
Eu agradeço. Peço desculpas por ter sido muito rude no início, quando deu aquele “ca-tranco” todo, mas acho que saiu bom, né? Foi mais drogas do que a gente imaginava (risos).
É verdade, falamos mais de drogas do que imaginava. Vários tipos de drogas, né?
Né? foi mais expansiva a nossa reação. Vai ser de ajuda pra rapaziada.