Saindo da estufa

Gerald Thomas: “A única droga que usei foi a cocaína. As outras, só testei todas”

Trazemos pra roda o ousadíssimo Gerald Thomas. Diretor de teatro, autor, escritor e artista plástico, ele é um dos maiores nomes do teatro moderno brasileiro e mundial, e fala abertamente com a Breeza sobre sua jornada com a cocaína, ousadia na vida, irritar os outros e até da época em que se prostituia.

Com uma carreira em que liderou companhias de teatro no Brasil e em Londres, repleta de peças que impactaram públicos de todos os cantos, como Eletra com Creta e a Trilogia da Besta, Gerald Thomas dirigiu nomes icônicos como Fernanda Montenegro, Antonio Fagundes e Marco Nanini, que agorinha estava em cartaz com uma delas, “Traidor”, que passou por São Paulo e Brasília.

Mas nosso principal assunto foi drogas. Tema de seu último livro, “Blow”, ou Pó, no qual ele escancara sua relação duradoura com a cocaína, que começou na adolescência e se estendeu até 2014. Quando jovem, o pó o ajudava nas noitadas de sexo como trabalhador da noite.

Nessa conversa franca com Filipe Vilicic, editor da Breeza, Gerald Thomas nos conta como na adolescência teria sido levado à cocaína por Hélio Oiticica, um dos principais nomes da arte brasileira, abre o jogo sobre suas experimentações e dá sua opinião sobre o Oscar de melhor filme estrangeiro ganho pelo Brasil, e o de melhor atriz disputado por Fernanda Torres, sua ex-mulher. 

Confere que tá espetaculoso do jeito que Gerald Thomas é.

A nossa brisa aqui, a da revista, e o que nossos leitores procuram é sobre psicodélicos, sobre maconha, sobre drogas. Não dá pra não começar falando sobre seu livro Blow (Pó), que é sobre sua relação autobiográfica com a cocaína. Como é tua relação com as drogas, o que te trouxe de bom e os desafios que vieram?

Eu posso dizer que basicamente a única droga que usei foi cocaína, o pó. As outras, testei todas. O ácido, não gostei, tinha 16, 17 anos, dirigia um carro, na Escócia. Então foi muito ruim, eu tinha outros passageiros comigo, então foi muito estranho. Ecstasy não deu em nada, não bateu. E todos os outros membros da companhia (de teatro) estavam usufruindo. Eu ficava “não bateu, não bateu”. Nunca bateu, nenhuma das vezes. Maconha eu nunca gostei, não gosto do retardante. Gosto do speed, do libido, da coisa. Pra muita gente maconha dá libido, mas não pra mim. Nunca bebi álcool, nunca tentei ayahuasca, mescalina, nem nada. Minha forma de alteração da percepção desse mundo pra mim foi a cocaína, usada quase sempre pra sexo. 

E como o livro deixa bem claro, não trocaria por nada a minha experiência. Foi longa, deixei de usar em 2014, quer dizer, há 11 anos. Eu também usei crystal meth. Ali um pouco mais barra pesada, mas poucas vezes. Parei depois de duas experiências que eu tive, cada uma durando três dias. Em combinação com aquela bebida, solvente de turbina de avião. A gente não sabe o que tá fazendo, mas é uma delícia, na hora é uma delícia. A gente não tava bem pensando naquilo, mas pensando em desenvolver um prazer especial, que aquilo dá pra muita gente, né?

“Minha forma de alteração da percepção desse mundo pra mim foi a cocaína, usada quase sempre pra sexo”

O livro me lembra umas leituras meio “Naked Lunch”, esses livros que se passa a experiência da droga, mais do que uma autobiografia em si. Fica a pergunta: Por que você procurou as drogas, o que te levou a procurar? Questão de descoberta, de criação?

Quem me levou foi Hélio Oiticica (nome icônico das artes brasileiras, dezessete anos mais velho que Gerald e que teria sido dealer em NY), quer dizer, fui levado a. Eu era muito jovem pra escolher alguma coisa, na minha opinião. Eu estava me prostituindo, e essa droga ajuda você a fazer qualquer coisa nesse sentido. E o Hélio, com quem eu tava namorando na época, era uma espécie de dealer em Nova York. Eu fazia trabalhos à noite, era trabalhador noturno, vamos dizer assim, e isso ajudava a cumprir minhas tarefas, a não pensar muito, com quem eu tava dividindo a cama ali, não pensa muito, não sente gostos e cheiros, o que está sentindo naquele momento. O negócio ali é ganhar dinheiro e eu ganhava o meu dinheiro. Então foi muito cedo que eu fui apresentado pra essa coisa. Então essa é a história. (o entrevistado faz uma pausa mais longa)

Você fala muito da relação droga e sexo. Mas tem uma relação droga e criação pra você? Muitos artistas têm quase relação de dependência com a droga, pra (processos de) criação.

Nunca consegui fazer nada criativo. Não, não. Sérgio Porto, Manuel Bandeira… nunca consegui escrever um texto que se aproveitasse. Não era Charlie Parker. Nunca consegui dirigir um espetáculo cheirado. Até uma vez cheguei cheirado. Tava em Londres, na companhia, eu senti que as pessoas me olhavam de um jeito. Ninguém sabia, mas a paranoia transforma. O olhar, aquele olhar policial, não foi bom. O que eu fazia era intercalar uma farra com capítulos inteiros de espetáculos. Mandava (o trabalho) e depois uma outra farra. Isso, sim. Mas nunca sob efeito, não. Nunca deu certo. Porque a gente fica trêmulo, batendo na tecla. Depois pega e fica meio confuso.

Quando se lê o livro, depois passam algumas coisas no pensamento. Por exemplo, algumas pessoas que tivessem usado cocaína como você, talvez parassem em uma clínica, por dependência. Cada um parece lidar com um jeito. E você parou. Por que tem essas relações diferentes, como vê esse tipo de individualidade?

Exatamente como comida. Tem gente que bebe Coca de uma forma, outras hamburguer de uma forma. Um hambúrguer a cada 10 anos, outras não aguentam três horas. É a mesmíssima coisa, é um processo biológico como qualquer outro. Tem pessoas que comem caixas de chocolate. Addiction é addiction. Tem gente… eu não aguento ver notícias na televisão, quero explodir. Tem gente que fica grudado na TV o tempo todo. Tudo é igual, é um sistema que cria relações, como um hamster dando voltas naquela rodinha o tempo todo. Por razões de conforto, zona de conforto, não sei. Faz o tempo todo, volta pra cá. Eu também não sei explicar. Mas achei demais o que tava fazendo, não só o pó. A única coisa que não abandonei é o café, e não é porque quero abandonar, porque eu adoro o gosto. Abandonei o cigarro em 2004, então fazem 21 anos que parei de fumar. E eu fumava três maços por dia. De um dia pro outro eu cortei. Teatro é aquele negócio que fuma que nem louco, e parei de um dia pro outro. E não deixei de ser criativo por isso. Odeio a ideia de ser escravo de uma coisa, seja ela qual for. 

“Nunca consegui dirigir um espetáculo cheirado (…) O que eu fazia era intercalar uma farra com capítulos inteiros de espetáculos”

Em dado momento você fala de coragem, também, qual é o tipo de coragem que precisa pra falar do tema? No seu livro tem vários tipos de coragem, como expor as pessoas…

Ah, é… é tabu. Quer dizer, é tabu falar sobre isso. E você pode ser banido. Muitas vezes muita gente glorifica essa droga, ou qualquer uma. Muitas gente fala sobre isso livremente, principalmente as pessoas que não têm relação com ela. E muita gente tem pavor de falar, principalmente pois teve relação com ela. Mas nas instituições de alta esfera, ninguém quer saber disso. Corre um sério risco de não ser bem recebido. Se bem que no fundo no fundo, de portas fechadas, aí vem “mas, olha, eu fiz isso”; “no fundo, no fundo, eu fazia…”; “durante 10 anos eu fiz e tal”. Então tem uma série de… você vai descobrindo isso e aquilo. E é curioso, pois esse livro foi lido em vários lugares, em todos os lugares, em todas as esferas sociais, e depois de algum tempo as pessoas vão conversando. Tá lendo isso, ou aquilo e tal. Então na verdade acaba sendo um confessionário dos outros. Mas é difícil você romper essas barreiras. Coragem  que eu digo é a seguinte: tenha a coragem que a droga te dá. Ela anestesia esse chacra, a barriga, que cria força pra sair. Muita gente chama de ego, super-homem e tal, nunca senti essa parte de enfrentar as pessoas fisicamente, pois não sou esse tipo de pessoa. Mas eu sentia a coragem e tal. Pois eu nunca sentia muita vontade de sair de casa, esse é um problema meu, pessoal. Mas essa droga dava a coragem de sair de casa. Depois de um certo tempo sentia um certo medo de estar fora de casa. Dá um certo… no trânsito, aquela coisa toda. Já tive vontade de voltar pra casa. O intuito nunca era ficar fora de casa, eu queria voltar, sexo e aquela coisa toda. Então era uma boa droga pra me colocar lá dentro e chamar pessoas. Me dava uma boa desculpa pra voltar pra casa. Eu tava realmente procurando uma desculpa pra ficar dentro de casa. 

Alguém ficou irritado com você por causa desse livro, alguém falou “olha, você não devia ter tocado nesse assunto,nesse momento”?

Muita gente. “Mas o que que é isso, agora, neste momento, que inoportuno”. Escrevi em inglês. Muita gente falou aqui (nos EUA, onde ele nasceu e mora) “O que é isso?”. E eu dizia “O que você tem a ver com isso?”. Muita gente ficou muito irritada, por muita coisa. Por muita coisa, não só por isso não. Eu irritei muita gente por muita coisa, não só por isso, não. Muita gente fica irritada com minha presença no planeta Terra. Então isso, ou não isso, ou qualquer outra coisa já irrita. Então por mim eu vivo uma vida de risco de qualquer forma. Estar vivo já irrita as pessoas. Eu nem devia estar vivo, mas estar vivo com 70 anos, ter essa pele, já é um saco pras pessoas (ele toma um longo gole de café).

“Muita gente fica irritada com minha presença no planeta Terra. Então isso, ou não isso, ou qualquer outra coisa já irrita”

Quando a gente lê seu livro, tem gente que pensa na droga e já pensa na Cracolândia, talvez, principalmente no Brasil, e vez da cocaína presente na alta sociedade, entre os artistas…

Normal…

As pessoas não entendem muito. Como rompe isso? É tabu?

A cocaína é caríssima, na Cracolândia é baratíssimo (o crack). Wall Street inteira é uma cheirada só. Ali até hoje a coisa funciona na base do canudinho. Não sei porque as pessoas não entendem… não entendem porque não querem. Aquilo ali, inclusive, Wall Street, funciona com dois tipos de pós, um acelerante, um pra baixar a adrenalina. É o speedball e depois a coisa vira o contrário. Problema deles, mas é assim que funciona. Tem gente que investigou isso, como o Paulo Francis, a sério e tal. Nunca publicou, não sei porque. Tem em filme isso, acho que até no próprio filme Wall Street. Eu não vi, mas com Michael Douglas, eu não vi. Mas me parece que esses filmes todos entregam o jogo. Redações de jornal, porque as pessoas precisam, têm de ficar acordadas, virar noites. É um virador de noite, é um fato, é um acordador, ou seja o nome que se dá a isso. Você fica acordado mesmo e fica esperto. Foi usado nos portos de New Orleans por carregadores de navios. Trabalham três vezes mais rápido, ficam três vezes mais espertos. É um alertador, você fica alerta, ouve mas, vê mais. Agora não vou ficar aqui defendendo nada, porque daqui a pouco sou acusado disso tudo de novo. Mas, enfim…

Eu assisti ao vídeo da sua peça, “G.A.L.A.”, que mostra uma mulher num mundo em ruínas. Um mundo que está ruindo e as reações dela são angustiantes. Minha pergunta é uma que você se faz no meio do livro, mas ao mesmo tempo a resposta fica solta: por que tá assim, o que aconteceu?

Eu vi o World Trade Center caindo na minha frente. Eu morava em Williamsburg, no Brooklyn, hoje eu moro em outra cidade, mas na época eu morava literalmente do outro lado do rio do World Trade Center. E o World Trade Center por acaso foi o único que eu vi crescer na minha frente. Todos os outros arranha-céus de Nova York estavam prontos (Gerald Thomas cresceu em Nova York e tem dupla nacionalidade, com a brasileira). E o World Trade Center, eu estava escrevendo uma coluna naquela hora da manhã, e eu vi o primeiro avião, o segundo avião, posso te mostrar o vídeo. Aquilo foi uma catástrofe acontecendo e quando caiu o primeiro prédio, o segundo, tudo foi ao vivo. Um Holocausto. E eu sou filho do Holocausto, meus pais e meus avós não falavam de outra coisa. Na mesa de jantar, no café da manhã, almoço e tudo.

Eu conheço o mundo e conheço Auschwitz… é o que conheço. Todos as minhas peças têm esse tipo de cenário. Todo meu videolog ali, já vê todos os cenários em ruínas. A peça que acabou ontem, o “Traidor”, com o Nanini , em Brasília, mas tava em SP. Um ano e meio em cartaz. É uma ruína, todas são ruínas. Acho que o mundo em ruínas é a maneira como eu vejo o mundo, é um karma meu, é a minha estética. Vejo dessa maneira e sou filho dessa estética, sou pintor também, e eu pinto dessa forma.

Em alguns momentos do livro, e é claro nas suas peças, a gente sente esse olhar do mundo que tá em ruínas. Mas como a gente acha um motivo dentro disso aí? É preciso drogas?

É só olhar em volta. A humanidade é uma ruína humana. Eu só vejo , sinceramente, eu só vejo a humanidade se degradando. Eu não vejo nenhum passo feito a favor. De vez em quando tem um Nelson Mandela, de vez em quando tem um Martin Luther King, de vez em quando tem um benefactor da humanidade, mas a maior parte são esses tiranos que estão no poder. Estou falando do Trump, né? Tô falando desses tiranos, ladrões, esses declarados. Não sei como eles chegam lá, mas eles usam a pior parte do ser humano e exploram a pior parte pra chegar lá. Essa pior parte é uma ruína que o ser humano desenvolve dentro da cabeça. É uma podridão, essa podridão é uma couve-flor podre que se desenvolve aqui dentro (ele aponta pra própria cabeça), e essa couve-flor podre é um retrato dessa natureza podre que o ser humano está conseguindo desenvolver também na natureza, devastando a Amazônia, devastando o deserto do Saara, que já foi uma coisa verde, maravilhosa também. Estão conseguindo arruinar o planeta de diversas formas e conseguindo arruinar o planeta dentro do próprio ser humano. E isso é uma natureza, é uma coisa suicida. O meu próximo espetáculo é o planeta tentando se suicidar, tentando se cuidar. Se ele vai conseguir ou não é uma pergunta que fica aberta no final do espetáculo. Mas o suicídio do planeta me parece uma coisa clara. Se esse suicídio é induzido pelo ser humano ou pelo proprio planeta, é uma pergunta que fica em aberto. Mas não é preciso drogas, não. Ou a droga tá no ar poluído.

E tem saída? Por que agora fiquei traumatizado aqui.

Às vezes me acho muito niilista. Às vezes me acho pessimista. Às vezes me acho um otimista incrível. Porque se eu continuo respirando, comendo, dormindo. Dormindo, não tô. Não durmo, não. Agora se eu tô vivo, falando com você, vivo, me divertindo, eu sou otimista. Vou continuar produzindo. Eu devo ser otimista. Não é um pessimista que tá aqui na sua frente, mas confesso que de vez em quando é difícil achar encorajamento, achar energia pra olhar pro mundo com esses presidentes, esses governos, que estão levando a esse mal, a essa aliança levando o mundo mais uma vez, sabe? Vou te contar uma coisa, não gosto quando falam que antigamente era maravilhoso. Era nada. Era um horror, antigamente. Que antigamente o cacete! Há 70 e poucos anos, estava no fim da 2ª Guerra Mundial. Que antigamente o caralho! Antigamente era tudo pior. Tinha de apagar a luz e os corpos voltavam para seus países em sacos pretos, como você viu em “G.A.L.A.”. Então antigamente é o cacete. Agora, de alguma forma ou de outra, a gente tá vivendo no septuagésimo sexto ano de relativa paz mundial. Relativa paz mundial. Pelo menos nós não estamos, eu aqui nos Estados Unidos, você no Brasil, não estamos envolvidos na guerra da Ucrânia, não estamos envolvidos no meio de Gaza, no Iêmen, enfim, a guerra não é mundial. Mas é uma guerra que a gente tem de prestar atenção (a conexão falha por alguns segundos). A gente sente pela morte, pelo genocidio, que tá acontecendo em Gaza, na Ucrânia e tal. Fala “porra, que loucura”. Abro o jornal e vejo esses ataques, essa coisa, e até que ponto eu tenho de fazer alguma coisa e o que eu posso fazer. E nesse sentido, eu como indivíduo, eu olhando como participante da Anistia Internaciinal, eu não me sinto mais empoderado como me senti na vida antes. Eu já fui da Anistia Internacional, seis anos de minha vida, na década de 70, eu sentia que eu podia fazer alguma coisa. Hoje em dia esses governantes tão grandes demais, a aliança deles é forte demais. Eu não posso fazer porra ennhuma. Nesse sentido, me sinto fraco. 

“A humanidade é uma ruína humana. Eu só vejo , sinceramente, eu só vejo a humanidade se degradando. Eu não vejo nenhum passo feito a favor”

Com angústia, mas mesmo assim eu sinto pelas pessoas que morrem que perdem a família, pelas vitimas locais. Agora a gente tem de reconhecer que a nossa qualidade de vida, por pior que ela seja, fez avanços inacreditáveis em vários sentidos. A gente tem uma noção de qualidade de vida, de poluição, a gente luta contra os poluentes, todos os dias a gente tem algum tipo de ganho, seja ela qual for. O negócio vem escrito e coisa (simula como se lesse o rótulo de uma caixa de produto no supermercado). O nome, é verdade, é mentira, mas tá escrito. Eles são obrigados a escrever… Que o plástico… A gente tem essa capacidade de observar o mundo de alguma forma, ou de outra. De vigiar, vamos dizer assim. A gente pode reclamar do Google, e dessas empresas todas, e do Facebook, em Mountain View, na Califórnia, mas eles ajudam de uma forma ou de outra. A gente tá no Google Meets falando. Eles ajudam o mundo a se conectar. Isso é do caralho. A gente não pode dizer que não é. Um garoto do interior da China se comunica com um garoto do interior de Montana e eles trocam figurinhas. Isso não pode ser ruim. Isso só pode ser bom, apesar dos grandes poderes estarem se cortando; ou estão mentindo dizendo que estão, quando vê lá em cima. Mas aqui embaixo tem um garoto do interior falando com outro garoto do interior, e esses são os garotos do futuro. Então algo legal vai surgir disso, acho eu. Então no fundo no fundo esse discurso foi um discurso otimista. 

O tema da repressão tem voltado com muita força nas artes, nas premiações, como no Oscar que o Brasil ganhou, que traz esse tema com “Ainda Estou Aqui”. Então duas perguntas em uma: como você vê esse renascimento do tema e qual é o peso desse Oscar pro brasil?

Muda nada, é uma bobagem. Claro que eu fico feliz, eu fui casado com a Nanda (Fernanda Torres), isso é número um, mas isso… eu teria preferido que a Nanda tivesse ganho como atriz do que o filme. Eu não vi o filme , não posso falar, não vi o filme. Mas eu conheço a história do Marcelo, do pai, porque o processo do pai estava em minha mesa, naquela época, na Anistia Internacional. O processo do Rubens Paiva, e lá ficou. De certa forma, feliz não posso ficar, mas me sinto realizado por esse processo estar nas mais altas esferas do conhecimento mundial, por estar nas telas. Mas será que o processo do Vladimir Herzog, do Manoel Fiel Filho também vão, dos 2047 presos políticos desaparecidos, exilados, brasileiros, vão um dia chegar na tela? Será que é de interesse mundial? Aí eu acho que não. Mas tudo bem, escolheram o Rubens Paiva. Já é legal, já é ótimo. Vai mudar alguma coisa? Não. Vai mudar na carreira do Valtinho (Walter Salles), que já estava numa ascendente desde “Central do Brasil”, e daqueles que protegem o Valtinho porque investem nele. Porque é tudo lobby, e assim é feito Hollywood, é tudo lobby. E ele é um diretor de cinema que segundo a Forbes tem 6 bilhões de dólares. E mais eu não digo.

Tem uma pergunta extra, que me veio à cabeça. Na Breeza a gente tem o mote de ser uma referência de ousadia, que é algo que você sempre foi, pra mim, pra várias pessoas, com sua atitude no palco, atitudes de protesto, desde usar o nu pra isso até outros sentidos. O que é ser ousado no mundo hoje? O que pauta a ousadia?

No momento em que estou no palco mostrando a bunda no Theatro Municipal do Rio em 2003, não vem na cabeça “estou sendo ousado”. Estou tirando as calças porque estou puto com aquilo que está acontecendo. Depois, quando estou algemado, na delegacia, aí “caralho, o que foi que eu fiz?”. Pelo menos estou servindo de exemplo para aqueles que se um dia quiserem se rebelar, vão ver o que pode acontecer com eles. Estou servindo de exemplo pra alguns, eles vão ter de arcar com isso. Se o governador, e naquela época era governador do Rio, Rosinha e Garotinho, porque depende do governador, governadora que está no poder naquele momento, é conservadorismo contra liberalismo, tem essa balança. Não tem exemplo pra dar, não. Você tem de ser, eu acho, um rebelde por natureza. Eu não confio em lei nenhuma. Acho tudo uma porcaria, tudo uma besteira. Lei não é lei. Lei é concessão. É literalmente a lei do denominador mais baixo possível. Mais baixo, não mais alto, lá embaixo. O mais baixo, não pela inteligência máxima, mas pelo pior possível. A gente vive através de um denominador comum lá embaixo, isso eu não acho legal. Eu entendo que quase 8 bilhões de pessoas não podem ser julgadas caso a caso. Tem de existir uma lei, tem de haver constituições. Mas acho que as constituições teriam de ser examinadas de tempos em tempos. São as constituições que vão desembocar em leis locais. Eu adoro a constituição americana e as emendas americanas, mas precisam ser revistas, a gente tem de bloquear o Trump de ter um terceiro termo, por exemplo. Tá na hora, tá na hora. E por aí em diante. Existe uma preguiça das supremos cortes, tô falando da americana porque vivo aqui, voto aqui, sou americano, mas acho que tem de ter uma coisa mais dinâmica dos governos locais de elegerem os juízes e tal, e demandar leis mais energéticas. Dos board of elections, não sei como falar isso em português. É o seguinte, com a eleição do Trump, essa última, nós democratas estamos numa baixa, numa desmoralização terrível. Estamos baixos, podres, broxas, não sabemos o que fazer. Faz três meses, quer dizer, ele (Trump) assumiu em 20 de janeiro. Agora em março, estamos comemorando… comendo uma ova, três meses de governo Trump. Quem ainda não se beliscou, que se belisque, porque é a realidade. Ninguém nunca fez tanta merda em 90 dias quanto ele. É bom ouvir o Obama numa coisa que ele falou 10 dias atrás. Se ele tivesse feito no governo todo o que esse vigarista fez em 2 dias, ele teria sido morto, assassinado. É uma loucura.

“Você tem de ser um rebelde por natureza. Não confio em lei nenhuma, acho tudo uma porcaria, besteira. Lei não é lei. Lei é concessão”

E o que você falou parece, aqui na nossa visão, que se aplica bastante à guerra às drogas no Brasil. Como lidar com as leis e o o debate da legalização (da maconha) hoje. Como você vê a lei aqui no Brasil?

Eu preciso te perguntar, não tem nem a maconha legalizada aí?

Aqui a maconha medicinal pode, mas é de difícil acesso, por questão de grana. E acabou de ser descriminalizado pro usuário até 40 gramas, mas é crime na prática.

E o CBD?

O medicinal, sim. pode.

Mas não tem lojinhas com…?

Não, dispensários (como nos EUA, no mesmo modelo). Tem de encomendar por aplicativo. Como era na Califórnia no início dos anos 2000.

Ou colorado, né?

É.

Eu não sei como eu vejo, assim. O que retarda as pessoas? Eu não entendo. São os bigodudos e gordos senhores de terno em Brasília que colocam o bloqueio? Um dos pioneiros desse ganho todo é o Boehner, um republicano aqui, um speaker of the house. Sabe quem é, né?

Uhum.

Ele falou “quer saber de uma coisa, vou parar de ser… vou lutar pela legalização da maconha”. Ele parou de ser republicano com a vinda do papa aqui, que ele patrocinou. Ele sentou com Obama , viram um filme juntos comendo pipoca, e se dedicou a essa causa. E viu a bobagem toda de republicanos e conservadorismo, e lutou por isso. E quando um republciano se dedica a uma causa liberal, a coisa funciona muito mais rapidamente. Porque ele pega todos os seus coleguinhas republicanos que são contra a coisa e tudo vai rápido. Tudo que vocês precisam no Brasil é de um conservador e “vem cá, para com isso, e vâmo lá, apressa essa papelada aí, deixa de merda”. Ou dá um baseado pro cara então (risadas). Resolve bem, resolve bem. Mais fácil.

Ia resolver tanta coisa.

Eu não sei quem ganha, entendeu? Ou é tão corrupto tudo. Acho que o Brasil funciona numa coisa de corrupção que é inimaginável, que é em outra esfera. É uma coisa marciana ou venusiana. Tem de chamar os incas venusianos do Natinaro Kido (ele faz um gesto como dos animes japoneses). Tem de chamar o National Kid do Japão. Porque eu não sei. O Brasil é muito retardado nessas coisas, porque tem muito lucro que pode ser feito nesse sentido. A maconha pode ser uma indústria, e parar com essa história besta. É muito bobo.