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Maternidade antiproibicionista: como falar sobre drogas com filhos?

‘Mãeconheiras’ dividem suas visões e lições sobre como encarar a questão a partir da perspectiva do antiproibicionismo. O que você, breezer, acha desse assunto?
Giulia Martini e sua filha, Serena Ayo, em 2023: “Entendi que a maconha, além de proporcionar um estado de relaxamento corporal, traz calma e presença, o que faz de mim uma mãe melhor”

Do pequeno acervo que compõe o vocabulário do meu bebê, a palavra ‘não’ é uma das mais vocalizadas por ele. E o motivo é claro: essa expressão é tão intrínseca à minha maternidade quanto as noites insones ou as fraldas sujas. “Não bote o dedo na tomada”, “não coloque isso na boca”, “não puxe o pelo do cachorro”, “não mexa aí”, “não, não, não”!

Como antiproibicionista que entendo ser, essa constatação me convidou a refletir sobre a forma com a qual conduzo a criação do meu filho. Porque, mais do que uma política de criminalização de substâncias (ou melhor, de pessoas), o proibicionismo é uma perspectiva hegemônica para lidar com comportamentos considerados desviantes ou problemáticos – e tão embrenhada em nosso contexto social que é preciso estar vigilante para não se submeter a ela.

Se é óbvio que, enquanto responsável pela integridade de uma criança que mal sabe falar, não posso permitir que ela tome um choque na tomada, se engasgue ou seja mordida por um cachorro, é ingênuo achar que posso blindá-la dos riscos inerentes à experiência humana, tão particulares quanto subjetivos, com um simples “não”.  

Em um contraponto à lógica de proibir, vigiar e repreender, o conceito de antiproibicionismo traz valores como acolhimento, autonomia e cuidado, que refletem a maneira como nossos filhos se preparam para tomar suas próprias decisões, inclusive sobre o uso de drogas. Mas, afinal, como transformar teoria em prática? Como introduzir uma conversa sobre esse assunto com os nossos filhos e filhas a partir da ótica da educação antiproibicionista?

O primeiro contato

“A gente ensina muito sem dizer nada”, afirma a psicóloga e educadora Ana Beatriz Brito, mãe do Francisco (6 anos) e do Jorge (2). “A primeira forma de aprender é pela observação: como se fala, se age, se faz. Isso vai desde naturalizar o uso de substâncias até aprender a pegar o garfo e acertar a boca.”

Se as percepções de uma criança são construídas, em primeira instância, a partir da observação de seu círculo social, estabelecer relações saudáveis e positivas com o que consumimos, seja café, álcool ou maconha, é um ensinamento inicial sobre como devemos pautar nossas escolhas. “Botar a banca e assumir que é assim que a gente vive, com responsabilidade e autonomia, é muito poderoso”, conclui a psicóloga.

Ana é maconheira e não esconde dos filhos seu apreço pela erva, mantendo aberto o caminho para quando eles quiserem ter essa conversa – que, segundo ela, não deveria ser mais complicada do que falar sobre substâncias socialmente aceitas, como o açúcar e o cigarro, apesar de envolver conceitos mais difíceis de processar. Ela reflete:

“Quando você quer simplificar, fala ‘isso é coisa de adulto, tem esses efeitos, então, você não pode usar ainda’. Ao evoluir esse papo, pode citar a questão biológica, de como o uso afetaria seu desenvolvimento neurológico, motor, físico e intelectual. A única diferença é que, quando a gente está tratando de drogas ilegais, o assunto se torna mais complexo, não pela questão da substância em si, mas por como ela é lida socialmente… a criança vai ter que ter um entendimento maior de construção social.”

Para a psicopedagoga Bea Argolo, mãe do Malcolm (3), a educação antiproibicionista é sobre “ter conversas nítidas, abertas, honestas com os nossos filhos, de acordo com o que eles podem digerir na idade, para que eles estejam preparados para lidar com o exterior.”

“O meu filho, por exemplo, é um menino preto. Então, eu sinto que vou ter que ter uma conversa com ele sobre a marginalização que os usuários de certas substâncias sofrem, mas aí é para quando ele tiver a habilidade de entender isso.” E completa: “Crianças são inteligentes, gostam de saber das coisas, apesar de serem tratadas como bobas. Se a gente mune elas com informação, educação, conversa aberta e acolhimento, elas vão tomar boas escolhas.”   

A coragem da verdade

A cineasta e sexóloga Giulia Martini, que foi criada nos moldes do conservadorismo e do controle, conta que sua relação com a maconha se fortaleceu depois do nascimento da pequena Serena Ayo (3), como uma forma de lidar com o puerpério, com a solidão e com os traumas de um contexto de violência que marcou o início de sua maternidade. “Entendi que a maconha, além de proporcionar um estado de relaxamento corporal, traz calma e presença, o que faz de mim uma mãe melhor”.

A partir dessa reflexão, a mãeconheira buscou formas de se relacionar que refletissem no fortalecimento de uma comunidade, extensa à família, comprometida com os ideais de uma educação libertária para as crianças. Encontrou no coletivo Segurando as Pontas, rede de acolhimento para mães (e filhos e filhas) antiproibicionistas, um espaço seguro para exercer sua maternidade galgada nesses valores. “O antiproibicionismo precisa estar dentro de uma lógica comunitária”, defende Giulia. 

“As crias do Segurando as Pontas têm a experiência de ver mães saudáveis fumando (maconha) juntas no quintal de casa, fazendo comida, na praia, brincando”, conta Marcelle Louzada, mãe do Lira (4), psicóloga, doutora em educação e uma das fundadoras do coletivo. “A visão que essas crianças estão tendo na primeira infância dessa substância, independentemente de ser proibida em termos macro políticos, é de algo que faz bem, que é natural, social.”

Ao assumir, com coragem, as decisões que trazem significado para suas experiências maternas, essas mães rompem com a lógica conservadora, perpetuada por gerações, e se permitem uma existência que reverbera antiproibicionismo.

“Eu não contei para a minha mãe que fumava maconha, porque eu cresci com muito punitivismo, muita surra, muito castigo, muito conservadorismo, muito cristianismo”, diz Marcelle. “Agora, o meu filho cresce com pais liberais, artistas, letrados. Pais livres, com outras formas de relacionamentos, não centralizadas ou monogâmicas. É uma criança que cresce diante de perspectivas contemporâneas.”

Para as novas mãeconheiras que estiverem lendo, algumas dicas iniciais para abordar o tema em uma conversa:

_ Abra o diálogo: encare perguntas delicadas e esteja aberta para conversas importantes;

_ Promova o letramento: introduza conceitos de acordo com a capacidade da criança de digeri-los;

_ Passe autonomia: permita que a criança seja incluída nas decisões que envolvem sua vida;

_ Estabeleça horizontalidade: com uma autoridade gentil e e que fuja do autoritarismo;

_ Lembre do acolhimento: entenda que errar faz parte do aprendizado e ofereça suporte sem julgamentos.

Como os nossos pais?

“Eu tenho a teoria da mola: tudo que está muito preso, quando a gente solta, treme fora do controle”, diz Bea Argolo, que, ao contrário da educação que oferece para seu filho, foi submetida a uma criação evangélica e extremamente rígida.

“Pra mim, a porta de entrada (para as drogas) foi o cursinho”, ela ri. “Quando tive um pouco de liberdade, menos supervisão, dei PT no estacionamento do Shopping Butantã (em São Paulo) e me assumi bissexual ali. Fui para o pronto socorro gritando que Jesus me amava, mesmo sendo sapatão. No dia seguinte, meu pai tentou fazer a cura gay, fugi de casa e não voltei nunca mais. Foi complexo, mas eu acho que a partir dali eu fui desconstruindo o proibicionismo que havia dentro de mim.”

Hoje, além de coordenar o Segurando as Pontas ao lado de Giulia, Marcelle e outras mães, em sua prática como psicopedagoga, ela ajuda a facilitar a conversa entre pais e filhos sobre essa questão. “É bem comum pais que causam conflitos com adolescentes que estão no começo do uso. Os jovens, de modo geral, não se sentem ouvidos pelos pais. E os pais têm medo, principalmente quem é de uma região periférica, preto, LGBTQIA+, de uma população marginalizada. Existe uma preocupação dos pais em preservar seus filhos, mas nem sempre isso se manifesta de uma maneira saudável.”

A empresária Nicoly Gonzaga, mãe da Belatriz (9) e do Sidarta (7), passou por uma experiência repressora semelhante à de Bea, que gerou nela a vontade de fazer diferente com seus filhos. “Eu não tive nenhum tipo de orientação (sobre drogas). Então, essa criação antiproibicionista, de dizer que tudo tem seu momento, é para dar uma orientação mesmo.”

Apesar disso, ela entende que faz parte da natureza (e do desenvolvimento) infanto-juvenil testar limites, agir por impulso e quebrar a cara. “Viver é difícil e não tem como não fazer nossos filhos sofrerem”, reflete. “E, eventualmente, eles vão fazer o que você acha que eles não deveriam fazer, a merda vai acontecer, faz parte da vida. Errar é aprender.”

Ainda bem que, na perspectiva da maternidade antiproibicionista, existe o acolhimento.

Por Thaís Ritli