Reportagens

Parentalidade psicodélica

Mães, pais e cuidadores encontram conforto nas substâncias psicodélicas e criam comunidade global para combater estigmas e construir rede de apoio
12|09|24

“Ser mãe é a experiência mais psicodélica que alguém pode ter na vida”, define Marcela Bonancio, psiconauta de 42 anos que é mãe de um rapaz de 23. “Mesmo as que não fazem psicodélicos, só pelo fato delas serem mães já estão vivendo uma experiência completamente psicodélica”, filosofa. 

Essa compreensão é coisa recente na vida da Marcela, que a despeito de exercer a maternidade há mais de 20 anos, só foi entender os efeitos psicodélicos na pele em 2021, quando provou psilocibina e MDMA pela 1ª vez, na tentativa de lidar melhor com o luto da perda do pai, vitimado pela Covid um ano antes.

Os psiquiatras com quem Marcela se consultou quando estava enlutada prescreveram antidepressivos clássicos. “Depois de um ano eu quis sair dos tarja-preta, mas precisava achar alguma alternativa pra não ficar tão mal”, conta ela, que não só se livrou dos remédios controlados e do medo de experimentar psicodélicos, como também se tornou uma entusiasta do assunto e foi estudar a respeito. Hoje ela é aluna do mestrado em neurociência com foco em psicodélicos na Columbia University, em Nova York.

Entre os colegas de classe, que têm, em média, a mesma idade de seu filho, ela é admirada por ser uma mãe que utiliza e estuda as substâncias psicodélicas. “Queria tanto que a minha mãe fosse igual a você, eles vivem dizendo.” Mas o próprio filho nunca se interessou em participar de um ritual. 

“Tudo o que os pais fazem parece meio cringe, aquela coisa de se minha mãe faz, então não é muito cool”, conta Marcela, que apesar de não compartilhar experiências práticas de psicodelia com o rebento, mantém ao dia as conversas sobre redução de danos e a porta aberta para quando a curiosidade bater. “Meu filho não tem medo da substância, mas da mudança que vem com a substância, ele diz que se um dia tiver vontade, vai me procurar.”

As plantas entram no conceito de família?

Com a popularização das substâncias psicodélicas, tem sido cada vez mais comum que pais e mães as utilizem como ferramentas para experimentar e oferecer versões melhoradas de si mesmos como cidadãos e, naturalmente, também como cuidadoras. A conexão espiritual estimulada pelo contato com a psilocibina e com a ayahuasca, por exemplo, propicia um estado de autobservação que é a base para o cultivo da paciência, da delicadeza, da gratidão e do cuidado, todas essas, características muito bem-vindas no exercício da parentalidade.

“A ayahuasca tem isso de abrir nosso coração e deixar mais afetuoso, o que reflete na minha paternidade”, diz Gustavo Teixeira, daimista há 18 anos. Dez deles, ao lado da esposa, Branca, que seguiu tomando a bebida terroza de aspecto amargo durante toda a gravidez do filho do casal, hoje com sete anos. “As pessoas acham que você vai ficar doido, que vai perder a sua lucidez, e é justamente o contrário, o Daime amplia a sua consciência, aumenta a sua lucidez para ser melhor pessoa, melhor filho e também pai.”

Não tem como fugir. A construção de uma nova sociedade que seja mais justa, igualitária, pacífica e amorosa passará, necessariamente, pela redescoberta e normalização das substâncias psicodélicas. E também por uma atualização das bases da parentalidade, principalmente num maior envolvimento e participação do pai na vida dos filhos e da família, e, assim, contribuindo com mais leveza à maternidade.

Essa mudança de paradigma na vida dos pais que usam psicodélicos tem gerado diversas reflexões, que vão desde pensar em família de maneira mais ampliada, com varios tipos de configuração, até o acolhimento das diversidades das crianças, que são tão diversas quanto os adultos. “Vamos aceitar o tabu? Comprar o estigma de que o assunto psicodélicos não pode envolver as crianças?”, indaga o sociólogo Glauber Loures que, junto da esposa, Jaqueline, e dos três filhos de seis, quatro e dois anos de idade, moram em uma comunidade oaskeira em Minas Gerais.

Figura conhecida internacionalmente por sua contribuição nos estudos da psicodelia, Loures acredita que a compreensão sobre a inclusão das famílias na revolução psicodélica será muito importante para o futuro da nossa sociedade, promovendo debate sobre drogas e educação sobre redução de danos para preparar as novas gerações para a realidade de que os psicodélicos se difundiram e já fazem parte da sociedade, independentemente da aprovação dos governos.

“O relacionamento das familias com as plantas é a coisa mais antiga que existe. A gente quer quebrar estigmas e trazer conciência sobre esses assuntos para mudar a cabeça principalmente de quem vive no norte global”, diz ele, que considera o sul global “o lugar mais psicodélico do mundo”. “Vamos pegar os exemplos de modos de vida dos povos originários e reinventar os espaços”, propõe. 

Começando pelas conferências psicodélicas internacionais que, ignorando a necessidade de se criar espaços apropriados para receber crianças, acabam excluindo as mães e fazendo desses eventos ambientes onde a presença de homens é esmagadoramente maior que a das mulheres, a exemplo do que já acontece em outros setores, mas que em se tratando de eventos psicodélicos para discutir novas visões de mundo, precisam se responsabilizar por uma mudança mais profunda partindo das bases sociais fundadas nas famílias.

Como se quebram os estigmas

Pensando nisso, Loures criou uma comunidade virtual para fomentar debates sobre o tema e que já conta com associados na América Latina, Europa e nos Estados Unidos. A PPC (Psychedelic Parenthood Community) promove fóruns mensais de pais psicodélicos, círculos quinzenais de compartilhamento com pais BIPOC (sigla em inglês que caracteriza negros, indígenas e pessoas não-brancas)  e LGBTQIA+, um círculo mensal para mães, e numa segunda fase, pretende ainda criar retiros para pais e mães psicodélicos.

“Um espaço seguro para que as famílias psicodélicas possam ser livres de qualquer estigma, onde possam se sentir seguras e onde possamos lutar por uma ciência psicodélica que inclua crianças e adolescentes”, define Loures, que conhece bem o estigma de ser pai de uma família do estilo. O episódio mais recente aconteceu quando precisou contratar uma babá evangélica, que foi pedir ao pastor a autorização para trabalhar na casa e teve o pedido negado. 

“Ao longo do tempo os preconceitos vão se desfazendo na prática”, conta o documentarista Gustavo Castro, que faz parte da PPC e é pai solo de dois adolescentes. “Meus filhos sempre foram bons alunos, sempre foram socialmente muito aceitos por demonstrar valores de amizade, de espírito coletivo e nisso a comunidade do Daime tem bastante crédito, porque quando vão para a comunidade escolar eles se relacionam com bases mais coletivistas, são agregadores, respondem bem aos professores e isso fez com que os estigmas fossem aos poucos se quebrando.”

O espaço meditativo de calma e paciência propiciado pelas experiências psicodélicas ajudaram Castro a lidar com os desafios da paternidade solo e a elaborar entendimentos sobre a sua condição. “Os psicodélicos fazem conexões neurais que ajudam a gente a entender que não existem padrões definidos para a paternidade. Agradeço muito ao Daime e à cannabis por me ajudar a ter me transformado em quem sou hoje”, conta ele, que mantém o diálogo aberto com os filhos sobre o que convencionalmente chamamos de “drogas”. “Em casa, eles até me ajudam a regar as plantas de maconha.”

A uruguaia Sofía Zerbino se juntou à PPC por ser esta a primeira e única comunidade a discutir parentalidade psicodélica no mundo. “Meu objetivo é contribuir para a construção de um espaço inclusivo e de cuidado comunitário contra qualquer tipo de discriminação e isso implica abordar questões de gênero, porque somos as mães, as mulheres, as que carregamos, em maior medida, as responsabilidades e o trabalho de cuidar de crianças e idosos, e que recebemos maior escárnio e rejeição por parte da sociedade ao escolher um caminho como esse.”

Sofía é mãe de quatro crianças entre seis e nove anos, e acredita que falar sobre parentalidade psicodélica ajudará a sermos uma sociedade mais inclusiva, respeitosa, culturalmente aberta e amorosa. “Em casa, falamos sobre Deus cristão, judaico, yoga, dinossauros, futebol, psicodélicos, ‘drogas’, Harry Potter, super-heróis e princesas de maneira natural. Em nossa casa, nos aceitamos como somos.”

Anita Krepp