
Saca essa brisa: as obras de arte que ilustram essa reportagem foram feitas de fumaça de maconha. Que onda, não?
A sacada é do artista carioca Fernando de La Rocque, que usa estêncil (técnica de ilustração), combinado com o vapor dos sopros do beque, para desenhar figuras simbólicas como a Santa Maria (com a óbvia referência à erva) e Pepe Mujica. A ideia lhe veio enquanto fumava um escondido da mãe, aos 22 anos de idade.
“Pra não ficar a marola dentro do banheiro, pegava papel higiênico e enrolava na mão. Soprava fumaça pra ficar ali presa e aí comecei a domesticar essa pigmentação (deixada pela maconha), comecei a cortar o estêncil”.
Sua primeira obra feita com a marca deixada pelo banza foi a Santa Maria, baseada em uma Nossa Senhora descaracterizada por ele. La Rocque inclusive vestiu uma camiseta com essa imagem quando foi entrevistado pelo Jô Soares sobre seu trabalho.
A série canábica, apelidada de Blow Job, que em inglês tem várias conotações, mas que no português ficou na até careta Trabalho de Sopro, começou em 2002 e desde então ganhou cerca de 20 quadros. No último deles, o artista escreveu uma mensagem com a fumaça: “A vida é um sopro”, frase que atribuiu a Oscar Niemeyer.
Figuras que emergem da fumaça
Tirando a exceção da frase de Niemeyer, os desenhos representam personalidades da sociedade, numa seleção bem variada e que vai da Rainha Beatriz, da Holanda, a Arnold Schwarzenegger. “A escolha vem do que eu tô vivendo, é uma coisa de colocar o personagem num contexto. Tem motivos diferentes para cada representação, vai muito da onda que estou no agora”.
La Rocque então exemplifica: “O Schwarzenegger fui fazendo assim (ele faz o gesto de muque). Pego esses estigmas, diluo esses estigmas. Coloco a luz nos assuntos. Percebi que o estado da Califórnia tem uma forma parecida com a do Rio, mas invertida. E aí o Schwarzenegger, primeiro governador a falar assim da legalização da maconha, com influência universal”.
As brisas do artista, que começa a fumar um no café da manhã e tem o costume de usar ao longo do dia, renderam desenhos de nomes como Eduardo Faveret, Aleister Crowley e a cachorra Laika, aquela que foi mandada pro espaço pelos soviéticos no fim dos anos de 1950. ”A Laika foi uma homenagem a um filósofo, Diógenes de Sinope, o pai do cinismo (…) Me interessa mais a questão poética desses personagens”.

Relação íntima
Os primeiros baseados de La Rocque foram aos 15 anos, idade que ele mesmo considera cedo demais (assim como a Breeza, defendendo a legalização e, junto com ela, a restrição a maiores de idade). “Ouvia muito Bob (Marley) e ficava vendo as imagens dele com cannabis. Pensava ‘preciso disso aí’”. A maconha virou sua companheira fiel desde então.
Experimentou outras drogas, em particular ácido, e teve uma relação que considera problemática com a cocaína. Hoje em dia, aos 45 anos, se restringe à diamba, sendo que calcula usar algo como um quilo ao ano.
“Diariamente, gosto do primeiro (baseado) do dia, junto com café e espuminha de leite. Café me dá otimismo, a cannabis já deixa, assim, o pensamento mais… me dá um confortinho mental. Dessa combinação, todo dia eu faço um desenho de manhã. Fumo o dia todo, produzindo”. Ele também identifica um uso terapêutico para lidar com as dores de uma hérnia nas costas. Sua mãe, com quem voltou a viver por questões de saúde dela, chegou a utilizar óleo medicinal.


A ganja entrou em sua arte cedo, sendo que começou com ele fazendo tinta amarronzada com a resina que sobra dos beques. Também se recorda de ter se inspirado em uma brincadeira da revista MAD, clássico do humor e dos maconheiros, na qual o leitor deveria soprar em um papel e, a depender da cor que aparecesse, indicaria-se a situação de seu pulmão (claro, sem qualquer respaldo científico ou médico).
Hoje fala com muita propriedade ao compartilhar mais de sua técnica do sopro de ganja: “Pode ficar mais clarinha (a imagem) pela força do sopro. Tem sopradas que ficam estouradas, tem sopradas que ficam direitinhas”. La Rocque diz se inspirar em técnicas que, assim como a maconha, são usadas pela humanidade há milênios. “Imagino que seja pré-histórico, aquelas imagens da caverna (ele faz o gesto com a mão, como se fosse desenhar o contorno dos dedos), sopravam o pigmento para ficar. Soprar fumaça é pré-histórico”.
Filipe Vilicic