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A SEMENTE

Luta de classes: a flor e o prensado

O Pastor Berlofa, cultivador e colunista da Breeza, escreve sobre as trocas e experiências que teve na We Expo, evento canábico que aconteceu em Campinas no final de março, e que o levaram a refletir sobre desigualdades na cena

Por Pastor Berlofa
Apoio: Flora Urbana

Em minha última coluna aqui na Breeza falei basicamente sobre a relação do maconheiro com o prensado, que é a forma mais popular e barata de consumir maconha. Falei sobre a péssima qualidade dessa erva prensada, dos riscos que ela traz, mas também coloquei como é a única forma que a maioria dos usuários de maconha têm acesso, afinal o auto cultivo ainda é muito gourmetizado no Brasil e quem pode pagar 150 reais em uma grama de flor boa?

E agora conto para vocês a experiência que tive nesse final de semana, que tem a ver com tudo isso que estamos conversando por aqui.

No final de semana passado, 29 e 30 de março, rolou em Campinas a We Expo, um grande evento canábico que contou com a participação de milhares de pessoas, centenas de marcas, shows, ativações e palestras, inclusive, esse que vos escreve foi um dos palestrantes. Foi um evento incrível que mostrou a força e seriedade do movimento canábico.

Então imagine, em um mesmo espaço, milhares de maconheiros reunidos de vários lugares do Brasil, e eu pude me conectar com muitos deles, conheci gente diversa, muitas causas, lutas, e pude entender melhor os medos, as dúvidas, as angústias que a galera anda tendo.

Sem querer eu acabei virando uma das atrações do rolê, não por mim, mas pelo que eu carregava em minhas mãos.

Primeiro devo lembrar aos leitores que sou cultivador de maconha com habeas-corpus para cultivo e porte do meu remédio, me permitindo assim levar minhas plantas, em qualquer estágio, onde eu quiser ou necessitar. Nesse caso, levei um pote hermético transparente, do tamanho de um liquidificador, com três belos braços de uma das minhas plantas que havia colhido dois dias antes. Levei no intuito de mostrar durante minha palestra, pois o tema era “maconha na quebrada”, falando justamente da dificuldade da galera das periferias em conseguir maconha de qualidade. Mas para minha surpresa o pote de ganja foi uma grande atração.

Por onde eu andava com o pote, era abordado. Era bonito ver o brilho nos olhos das pessoas ao verem aqueles belos buds resinados. Teve quem se emocionou, teve quem chorou, teve quem dançou, teve até poesia para a erva. As pessoas pegavam aquele pote como se fosse um bebê no colo, e a maioria dizia algo como “nunca tinha visto ela assim”. Pessoas que usam a maconha desde 1985 mas nunca tinha visto a não ser prensada.

Essa frase me marcou. “Nunca tinha visto”.

Pense por um minuto… o que mais você consome que nunca viu?

Percebe o nível de absurdo?

Uma outra cena que vai ficar na minha memória e meu coração foi quando um grupo de pessoas queridas, que basicamente só conhecia pela internet, me abordou e disse:

-Pastor, acredita que a gente não pode usar o bong porque nossa maconha é prensada?

Deixa eu explicar… uma das marcas que lá estavam demonstrando seus produtos era sobre um novo tipo de bong, super diferente, bonito, eu mesmo experimentei e adorei. Você levava sua erva e poderia fazer um “teste drive” no bong. Adivinha só, quando o grupo apareceu com o prensado foi barrado de usar. Segundo o dono, o prensado poderia contaminar ou até entupir o bong. E, na boa, nem podemos julgar o mano, de certa forma ele tem razão, não poderia arriscar seu aparelho degustativo em plena feira.

Como Deus é bom, o grupo não ficou desamparado e de forma milagrosa (e eu sou pastor e acredito em milagres) uma bela flor apareceu nas mãos dos meninos e eles puderam finalmente experimentar o tal bong.

Essa luta de classes dentro do movimento canábico tem que ficar clara!

Eu não gosto de passar pano pra nada e não é pros maconheiros gourmet que vai ser a primeira vez. Aí rapaziada dos grow de R$ 15 mil, dos leds de milhões, das flores altamente resinadas perfeitas, com sabor de limão. Quem dera que todos tivessem esse acesso, mas a maioria tá fumando merda, literalmente.

Eu me lembro quando comecei a pesquisar sobre cultivo, a impressão que dá é que, para você ter seu próprio cultivo, você tem que ser tipo um Walter White da maconha, conhecer cada molécula da planta e investir milhares de reais.

Não esqueço o Max terapeuta, meu padrinho no cultivo, dizendo:

“É planta meu paxtor, se jogar a semente na terra, ela nasce e cresce.”

Parece óbvio, mas é uma planta que nasce na terra!

Na natureza não tem grow, não tem led, não tem medição de PH e a planta vai muito bem, obrigado.

Entenda, não estou desqualificando os estudos e avanços que tivemos em relação ao cultivo de maconha. Eu uso o cultivo indoor, amo usar uma planta perfeita, mas essa é uma pequena realidade de uma pequeníssima parte da população. Temos que incentivar o auto cultivo de todas as formas, lembrando as pessoas que uma semente e um vaso de terra preta pode ser o suficiente. Temos que incentivar a “growbiarra”, para quem não tem quintal mas também não consegue montar um set de milhões.

Eu costumo dizer que a pior maconha que você colher será muito melhor do que a melhor maconha que você comprar.

Eu ainda lembro do choro quando colhi minhas primeiras flores.

E mesmo assim, com cultivo barato e growbiarra, muitas pessoas não poderão cultivar, por falta de tempo, espaço, e várias outras questões que atropelam nossa rotina. Nesse caso, o que fazer?

Bem, vou falar disso em minha próxima coluna aqui na Breeza, onde quero mostrar o trabalho incrível que associações canábicas estão fazendo.

Comente o que achou da coluna e mande suas sugestões para as próximas no Insta da Breeza, o @breeza_revista, ou no meu, o @pastorberlofa.