Na Breeza

Potência da flor

As mulheres que criam alternativas ao patriarcado na cena canábica em ação na Spannabis mais feminina de todos os tempos

Você não fazia ideia que vermelho ia tão bem com azul até ver Polita Pepper chegar de vestido vermelho modernoso e óculos profundamente azuis – e igualmente modernos – para apresentar um evento cuja programação era composta quase que exclusivamente por mulheres especialistas em cannabis e psicodélicos. 

O evento em si e Polita, é claro, causam mesmo essa sensação de curiosidade. Quem será essa mulher? Uau, por onde começar? Ela é mexicana e viaja o mundo educando sobre plantas de poder, esteve em várias edições da Spannabis e testemunha por dentro a expansão da ala feminina desse ecossistema.

Semana passada aconteceu a última edição da Spannabis em Barcelona e, por coincidência, foi também o ano em que houve a maior participação de mulheres em todos os tempos. Não há números oficiais, mas quem percorreu aqueles corredores apertados e as agendas paralelas respirou um ambiente muito mais feminino. As mesas de debate nas conferências – nos congressos paralelos, nas copas canábicas, premiações, jantares – também eram testemunha de uma participação massiva.

A semana canábica mais fervilhante da Espanha começou com o C-Days, aquela série de palestras que a Polita Pepper não só apresentou, como também foi responsável por montar a programação, pela 1ª vez composta 100% por mulheres. O tipo de coisa que só Polita poderia fazer. Hiperconectada, a empresária-ativista é figurinha carimbada dos eventos canábicos mais importantes do planeta. Polita vai revolucionando os espaços profissionais da planta com alegria e muita disponibilidade para a vida. 

No mesmo dia e num mesmo palco, a Polita reuniu a suprasumo do jornalismo canábico nos EUA, Lindsey Bartlett, a empresária e ativista norte-americana Luna Stower; Mercedes Ponce de Leon, sócia da Latinnabis (que organiza as Expo Cannabis Brasil e Uruguay); além da hashmaker mais estilosa do rolê, The Dank Dunchess. Enquanto isso, na plateia, havia a presença ilustre de Thabata Neder, que é diretora da Nagual (hub de negócios canábicos), e de uma das associações de pacientes mais interessantes no Brasil, o CBFC, apelidado carinhosamente de Cluba

No caldeirão da bruxa

O que há de mais interessante nesse ecossistema está sendo pensado por essa turma aí. Enquanto que no mundo masculino a tônica é a repetição – de padrões, fórmulas, conceitos –, essas mulheres vêm mostrando que no feminino há espaço para inovação, identificação e vínculo, com propostas arrojadas e complexas, que trazem discussões desde como construir uma indústria guiada pelo amor, ou retribuir às comunidades originárias a manutenção do conhecimento indígena sobre as plantas de poder, até lutar contra o encarceramento injusto gerado inclusive em nações legalizadas, como o Uruguai.

No caldeirão dessas bruxas é que se cozinham as microrrevoluções de que a cannabis precisa. Os encontros ao vivo periodicamente, elas já se ligaram, precisam acontecer. E pra que só um por ano, se a gente pode fazer bem mais? Pelo menos três por temporada, passando pela Espanha, pelo Brasil e pela Alemanha, onde essas mulheres autogestionam eventos femininos, mais ou menos “exclusivos”.

Mas como nada é perfeito, essa história de exclusivo, secreto, além de cafona e deselegante, é também pouco condizente com o estado de espírito que a planta estimula. Mas a gente entende que, afinal, não é tão simples se livrar dos resquícios do patriarcado mesmo quando ele parece ter sido superado. 

Por sorte, apesar de não ser escancarados, os encontros são acessíveis para quem chega junto. No Cannabis Women, por exemplo, o evento oficial da trupe acabou reunindo quase cinquenta mulheres, que primeiro se reuniram em um clube canábico para um brunch e depois seguiram para uma chácara a meia hora de Barcelona. 

Mulheres de todos os universos da cannabis passaram um dia inteiro juntas trocando ideia, fazendo aula de defesa pessoal, yoga, aromaterapia e, claro, chapando. A mulherada abraçou de vez a tarefa de conectar a cannabis com o universo do bem-estar e do bem viver. Vida longa!

Anita Krepp