
“No Brasil eu recebia salário de executivo”, diz Notill, sobre a época em que vendia maconha em São Paulo. “O acesso é tão difícil que qualquer coisa que você planta, por mais que a nossa fosse de altíssima qualidade, vende instantaneamente por um preço abusivo. Hoje, entendendo o valor da cannabis no cenário internacional, eu vejo que num mercado regulamentado ou semi-regulamentado existe uma competição muito grande, então o preço é muito menor”, conta, dando como exemplo a realidade que vive como grower na Espanha, onde ao lado de Brow, sócio e amigo, ganhou o 1º lugar na categoria Sativa na Spannabis.
Os growers brasileiros venceram uma das mais importantes copas canábicas do mundo com a variedade Tropaya, que tem notas de papaya tropical, é um pouco cítrica, um pouco gasosa, e é leve, com uma onda bem cerebral. Não é aquela erva que vai te deixar lesado, com vontade de dormir. “Os perfis que geralmente têm ganhado as competições atualmente são mais candy, skittles, mas a Tropaya se destacou por ser bastante exótica. Ela não lembra nem a papaya nem a tropicana cookies, que são os pais dela. É algo diferente e, particularmente, não é o nosso perfil favorito de terpeno”, confessa a dupla. Eles também tinham inscrito outras genéticas na competição, “que agradavam a gente muito mais, então foi uma surpresa essa ter vencido”.
A surpresa foi geral, não só pelo perfil da Tropaya, mas por aqueles moleques ainda serem relativamente desconhecidos na cena internacional. Essa foi a primeira vez em que se inscreveram numa disputa desse tipo. “Talvez a gente entre em outras competições, ou talvez não. Essa parada nunca foi o nosso foco, a gente gosta demais de plantar ganja e por isso é que a gente planta. O prêmio foi só um bônus, uma reafirmação de que a gente tá caminhando na direção certa.”
Só para amigos e pacientes
Apesar de serem muito jovens (26 e 28 anos), os dois já cultivam maconha há 10 anos, mais ou menos o mesmo tempo que têm de amizade. Eles se conheceram num bairro da zona sul de São Paulo e, no começo, enquanto ainda era para uso pessoal, plantavam em suas respectivas casas, com o aval dos pais. “Um privilégio de se estar numa classe social em que isso era um pouco mais aceito”, admitem. “Sempre deixaram cultivar em casa, desde que a gente continuasse estudando, fizesse faculdade. Mas trabalhar com maconha, nem a pau.”

Só que a gente sabe, maconha boa ganha fama rapidinho, e logo eles começaram a fornecer para um grupo limitado de pessoas, de amigos mais próximos, e para alguns pacientes que naquela época não tinham a opção de importar ou comprar na farmácia e, caso plantassem, corriam o risco de ser presos. Notill e Brow sabiam desses riscos, mas tocaram em frente e alugaram uma casa na periferia da extrema zona sul onde produziam uma média de quatro quilos por ciclo.
Se para muita gente a produção de maconha dos dois era arte, perante à lei, aquilo era tráfico, e essa maluquice, de criminalizar cultivadores que contribuíam com o bem-estar de amigos e pacientes, podia terminar mal. Para não mais correr riscos e poder expandir os negócios, eles decidiram deixar o Brasil e sair em busca de técnicas de manipulação, cultivo regenerativo, cannabis orgânica, solo vivo, processamento e pós- processamento. Assim viajaram por Uruguai, Canadá e os EUA.
Não foi uma jornada fácil. “Na Califórnia as condições são péssimas, já que não é seguro nem tão gratificante lidar com fazendeiros armados. É delicado. E não é bem remunerado o trabalho braçal no dia a dia dos cultivos. Um salário aceitável, mas levando em consideração a movimentação financeira dessa indústria… é ridículo.”
Os vizinhos dos sonhos
Os sócios não fincaram pé em nenhum desses lugares nos quais a legalização já era ampla. “Para uma escala de produção pequena, que era o que a gente queria ter, não adiantava sonhar com o mercado regulamentado, porque nele não tem espaço para o pequeno produtor. Entendi que a Espanha era o lugar certo para tentar estabelecer o nosso negócio.”
Isso porque o país vive um estado de alegalidade, com as benécies, mas também alguns riscos dessa zona cinzenta. Permite-se, por exemplo, o consumo de cannabis nos clubes e dentro de casa, mas não se autoriza o transporte da erva entre um lugar e outro. Pra quem pensava que hipocrisia era exclusividade do Brasil, a Espanha também se prova como um prato cheio.
Em Barcelona, fincaram pé e há nove meses iniciaram a operação da empresa de cultivo e extração, ao qual deram o nome de Neighbors. Plantar em larga escala é ilegal na Catalunha, mas o autocultivo, esse sim, é permitido. Respaldados também por uma assessoria jurídica, eles produzem maconha em pequena escala, apoiados no direito ao autocultivo, “sem enfrentar grandes problemas, como seria no Brasil”.
A produção é dispensada em alguns clubes canábicos escolhidos a dedo. Hoje, são apenas cinco, dentre os quais, dois de brasileiros: Gorilla e Hasher. Antes de aceitar trabalhar com um novo clube, os growers observam se o pretenso futuro cliente entende de armazenagem e manipulação, afinal, é preciso garantir que o zelo do cultivo seja mantido sob condições ideais até chegar nos breezados. “A gente tenta não importar nenhum insumo e produzir aqui, num raio de 5km dos clubes onde a gente dispensa”, contam, sobre a preocupação de manter a sustentabilidade e, dentro do possível, gerando uma pegada de carbono o mais neutra possível.
“Temos contato próximo com as pessoas que consomem a nossa erva e isso faz com que a gente queira produzir com excelência. Se fosse vinho, seria como ir numa vinícola e falar com as pessoas que cuidam daquele vinhedo, em vez de ir ao supermercado e escolher uma garrafa da prateleira… que é o cenário dos dispensários norte-americanos. A gente tenta fazer um produto que carrega os nossos valores.”
Anita Krepp