Saindo da estufa

Pedro Luís: “Gosto do beck para recrear na roça e com os amigos em pós-camarim. Antes do show, não” 

Pedro Luís é daqueles artistas que atravessam gerações sem perder a essência. Com uma trajetória que mistura o samba de raiz com a energia do carnaval de rua, ele segue transformando a música e o próprio Carnaval, que evoluiu e aprendeu muito com o Monobloco, fenômeno musical do qual é um dos fundadores e que neste ano completa 25 anos de existência.

Do primeiro contato com os blocos de rua na infância ao sucesso do Monobloco, que hoje tem agenda cheia o ano inteiro e arrasta multidões, ele relembra carnavais passados, movidos a maconha e lança perfume.

Nesta conversa com Anita Krepp, editora da Breeza, o “cantautor” admite que o baseado é o seu combustível preferido durante o carnaval, mas só no pós-show, porque senão, correria o risco de não se lembrar das letras das quase 100 músicas que canta em cada apresentação. 

Além do uso recreativo, Pedro Luís contou que faz uso medicinal desde que desenvolveu tinnitus (um zumbido insistente no ouvido) e sua médica introduziu o CBD no tratamento, em substituição ao Rivotril.

Você é um dos artistas mais simpáticos da música brasileira, onde você tem o Sagitário (risos)?

Ih, caramba, não sei onde é o Sagitário, não. Eu vou te falar todas as coisas que eu sei do meu mapa astral, eu vou te falar. Eu sou libriano com ascendente em capricórnio. Eu sei que a minha Lua é em Leão, minha Vênus é em escorpião e meu marte é em Câncer. Eu não sei mais porra nenhuma (risos).

O que é o Carnaval pra você? E mais do que isso, quanto dura o seu Carnaval?

É, tem uma coisa curiosa com o Carnaval, que começa na minha vida na infância, com os blocos de rua da Tijuca, o Salgueiro, que é a minha escola de coração. A quadra do Salgueiro ficava em frente a onde eu fiz a escola primária, também na Tijuca. De vez em quando o Monobloco vai cantar lá, inclusive. Mas começa na infância. Começa na batucada de rua. A gente se cotiza pra comprar uns instrumentos de escola de samba pra tocar. Não sei, como se fosse no Réveillon, no jogo do time de cada um da rua. E alguns amigos meus, assim, de infância, tanto da rua quanto da escola, esses mesmos foram parar na Bateria Mirim do Salgueiro, pessoas que me davam subsídios sobre batucada com alto nível. E aí na minha época também de adolescência o carnaval de rua ficou um pouco mais devagar. A gente ia pro clube, dar aquela paquerada, a orquestra tocando aquelas músicas e o povo rodando o salão, procurando seu par. Eu e meu irmão íamos para a concentração da escola de samba, ficávamos olhando a concentração, depois íamos pra trás do box, porque a gente não tinha dinheiro pra estar na festa, mas estava na festa, na periferia da festa. 

Até virar o centro da festa…

Aí o mundo rodou, eu fiz muitas coisas, minha vida virou profissionalmente de músico, de cantor, compositor. Nos anos 90 eu formo junto com meus parceiros a Parede, que é quem vai fundar o Monobloco. Primeiro, como uma oficina de percussão, ensinando leigos a tocarem os instrumentos de samba pra dali contemplar toda a diversidade musical brasileira no Carnaval de 2001 com o Monobloco. Deu muito certo a experiência. Tem um histórico no meio dos músicos que é assim, Carnaval era quando o músico ficava tentando arrumar um emprego pra ganhar dinheiro, que nunca tinham onde tocar. Esse status muda, inclusive o Monobloco aqui no Rio e um pouco também no Brasil acabou responsável por isso também, de mudar essa economia do Carnaval. Abri várias janelas pra chegar no meu Carnaval, o meu Carnaval, na verdade, que era no Carnaval, agora dura o ano inteiro, porque o Monobloco tem uma agenda muito intensa, não só de Carnaval, com os alunos que ele forma durante o ano e os eventos pré-carnaval e os desfiles. Mas o Monobloco show, que é o grupo profissional que a gente já forma, logo depois do Carnaval de 2001, a gente foi chamado pra abrir o Prêmio Multishow no Theatro Municipal. E dali a gente começa a experimentar os shows, grava o primeiro disco em 2002, mas o Monobloco show mesmo, que é esse formato orquestra profissional que roda hoje em dia o mundo inteiro, ele começa a embalar em 2004, ter muita demanda de show. Em 2005 saiu o primeiro DVD e aí é só história. A gente faz uma média de mais de 100 shows por ano, o que era sazonal agora é permanente.

E você tem tempo de cair na folia ou é trabalho e só?

É muito trabalho hoje em dia, mas eu gosto da folia. Eu moro aqui no Humaitá e aqui tem uma rua principal que liga a Praia de Botafogo até o Leblon. E aqui eu tenho uma praça incrível, uma praça bucólica, bem na frente da minha casa, aqui virou o circuito dos blocos pequenos e médios de Botafogo. Então, eles concentram na minha porta, dão a volta no quarteirão e chegam na minha porta. Tenho que tomar cuidado, se eu tiver que sair esses dias para me prevenir. Se eu tiver que sair de casa, tenho que deixar o carro no outro canto. Se eu tiver que sair de mala, talvez não ficar aqui, não dormir aqui, porque como o meu Carnaval é muito ativo também, às vezes o Carnaval tem isso, ele mobiliza e paralisa. Mas sempre que posso, eu caio na folia. Tem um bloco incrível que passa aqui em volta, que é o da Escola Sapereira, que é uma escola incrível que tem aqui atrás, e o bloco é lindo, com as crianças todas da escola, os professores, um carrinho de som pequeno e sempre a criançada que passa o ano inteiro também estudando. Sempre que estou aqui, eu desço para dar uma volta com o bloco da Escola Sá Pereira. Gosto do Bloco do Sujo, que é mais ou menos a minha origem. Às vezes eu vou para a avenida, saio uma vez na ala dos artistas da Mangueira, já concorri pela Vila Isabel. Então, de vez em quando eu estou lá também desfrutando desse evento maravilhoso e talvez o mais democrático de todos.

Você falou que na sua juventude o Carnaval não estava tão em alta. Como o carnaval de rua foi se transformando? 

Tem uns resistentes que nunca pararam, na Zona Sul tinha a Banda de Ipanema, que sempre teve ativa, também tinha muito a ver com a intelectualidade, com os jornalistas, que sempre faziam acontecer. O Bola Preta, que é mais que centenário e que é o bloco maior, por mais que os megablocos tentem disputar com ele essa supremacia numérica. O Bola Preta é incrível, porque ele carrega dois milhões de pessoas, porque ele é um bloco diferente, ele não é um bloco de um cortejo, são vários trios tocando, pequenos trios, caminhões com as fanfarras. O Simpatia é Quase Amor, acho que começa no final dos anos 70, em Ipanema. E ali pelos comecinhos dos 80 começa o Suvaco do Cristo, que reúne também um monte de músicos. Lenine fez parte da ala de compositores do Suvaco, Lula Queiroga, Nanico, Chacal, muita gente ligada também à música, à intelectualidade, ia lá concorrer com o samba, que era sempre temático, estou marcando isso para mostrar a diferença com o Monobloco, que é formado por músicos. A gente quis formar as pessoas realmente para tocarem os instrumentos de samba e não chegar qualquer um lá tocando de qualquer jeito e o bloco acaba não acontecendo. Muitos desses blocos anteriores ao Monobloco contratavam músicos de escola de samba, de blocos profissionais para ser a sua bateria, mas acabava que qualquer um encostava ali e tocava, o que também é divertido, mas é diferente, tem uma hora que a música não acontece. 

Qual foi a ideia original para o que hoje é o Monobloco?

E aí a ideia do Monobloco era formar gente para tocar as músicas e essa diversidade musical brasileira, bacana, com uma técnica básica, sem se machucar, tocando com uma certa musicalização, mas sem restrições para quem quisesse entrar. Nesse sentido, vários outros blocos se inspiraram em fazer uma oficina para entregar uma bateria no carnaval. A gente recebeu visitas de vários mestres de escola de samba, mestres de percussão afro-cubana, tudo isso eram os nossos guias, ídolos, que iam lá também ensinar outras levadas, porque a gente tinha essa intenção de multiplicar o tipo de levadas que o instrumental da escola de samba tocaria. E aí muitas pessoas começam a fazer isso, muitas pessoas que passaram pelo monobloco, mudaram suas profissões, viraram músicos, fizeram seus blocos. Lógico que a prefeitura, todo mundo, os patrocinadores ficam de olho nos blocos que têm mais demanda e querem estar junto naquele Carnaval. O Monobloco, nesse sentido, é também muito organizado e tem o privilégio de ser um bloco que tem aportes para fazer um carnaval de rua bonito. No nosso trio, o abadá é ser batuqueiro, não tem venda de ninguém para ficar dentro da corda, todo mundo que está dentro da corda está trabalhando. A bateria tem mais de 200 pessoas, vão ter uma corda em volta com os seguranças que ficam ajudando o desfile a fluir e os batuqueiros a fazer o seu cortejo de formatura. E a gente foi cada vez melhorando tecnicamente, é um desfile muito bem entregue, o som é muito bom, sempre a estrutura de atendimento de emergência se precisar, porque reúne pelo menos 300 mil pessoas que desfilam com Monobloco todo ano.

Você falou dessa economia que o Monobloco ajudou a transformar, como exatamente?

No começo dos anos 2000 já era um fenômeno bizarro de juntar muita gente, atrai as marcas para quererem aportar naquele Carnaval e a gente consegue ir melhorando a estrutura para a galera. Dá para fazer um Carnaval bacana, dá para virar uma profissão também, tem o bloco de estúdio, mas tem a coisa profissional, muitos blocos começaram até de outra maneira. Empresários montaram uma marca, um nome de bloco e vieram trazendo pessoas que eles sabiam que tocavam e fazendo seus rolês para entregar. Muitos blocos temáticos foram assim que apareceram, mas como um empreendimento. A gente não imaginava que fosse virar um empreendimento. A gente fez uma oficina para ganhar grana durante o ano dando aula, e no Carnaval, que era uma época que a gente praticamente não tinha trabalho, trabalhar, fazer o bloco. E isso foi virando, hoje em dia, são muitos blocos no Rio, muitos blocos em São Paulo, Minas Gerais está com um carnaval muito forte também, Brasília está começando a crescer um carnaval que tem um pouco essa característica de construir durante o ano um grupo que vai tocar e vai fazendo seus eventos preparatórios, tudo é uma economia, tem muito evento preparatório com ingresso pago. Hoje em dia a gente faz dois eventos preparatórios porque não tem como fazer oito eventos, tem muitos eventos de carnaval, não sei nem enumerar para você a quantidade de eventos e de festivais e de blocos e de ensaios. E tem os nossos ídolos que são as escolas de samba que também tem seus eventos. Os eventos do Monobloco são muito bombados. São 5 mil pessoas na arena assistindo. Meu amigo está ali, minha prima, meu sobrinho, minha mãe está ali tocando aquela bateria. Isso é uma coisa que o Monobloco moveu no espírito das pessoas aqui no Brasil.

“A diversidade musical brasileira que é uma coisa encantadora e o Monobloco se especializou em fazer, sem falsa modéstia, versões muito interessantes de canções que estão na boca do povo”

E é muito louco que o Monobloco, inicialmente era meio uma brincadeira da Parede e de repente virou um negócio enorme, caiu no gosto do povo e agora está completando 25 anos. O que o Monobloco tem de tão especial para ser tão longevo e ainda ter um engajamento inacreditável?

Eu acho que são dois ingredientes. Primeiro é a diversidade musical brasileira que é uma coisa encantadora e o Monobloco se especializou em fazer, sem falsa modéstia, versões muito interessantes de canções que estão na boca do povo. Sejam elas o Samba do Salgueiro, uma Martinha Carnavalesca ou a música do Ben Jor. O trio de músicas do Ben Jor que a gente junta ali que é o Taj Mahal, Fio Maravilha e País Tropical. Todos os blocos, não só blocos, mas artistas bombados no Brasil, pegaram aquele trio de músicas que a gente não pode tirar do repertório senão as pessoas ficam loucas. É um momento de catarse bizarra. Também essa coisa que eu falei das pessoas chegarem ali e verem “eu posso tocar isso”. É gente comum que está tocando ali dentro. Não é só os felas da escola de samba. Aí acontece uma coisa muito interessante. Como a gente traz as escolas de samba para participarem dos nossos eventos, todas as velhas guardas das grandes escolas do Rio foram convidadas da gente na Fundição em algum carnaval e isso aproximou o mundo do samba. Quem são esses classe média fazendo essa parada? Mas viram que a gente era muito reverente a eles e que vários de nós fomos tocar nas escolas de samba e depois nossos alunos. Acho que o Monobloco também tem uma certa responsabilidade em mulheres terem de tocar outros instrumentos na escola de samba que não o chocalho. Mulher na escola de samba chocalha. Chocalho é fácil, chocalho é leve. Hoje em dia e desde os anos 2003, 2004, mulheres do Monobloco iam tocar surdo nas escolas de samba, na Rocinha, na Grande Rio, tocar tamborim, tocar caixa. Porque tinha isso de formar aqueles instrumentos que só os feras que nasceram naquilo dominavam. É a maior orquestra original do Brasil. Esses combos de batucado, os maracatus no Recife, a congada em Minas Gerais, a escola de samba aqui, os blocos de ijexá na Bahia. Isso tudo são orquestras genuinamente brasileiras. Então acho que essas duas coisas acabaram fazendo a longevidade do Monobloco. 

Um quarto de século é muita coisa, eu conheci o Monobloco ainda adolescente.

E aí o que está acontecendo há uns quatro, cinco anos, Anita? Esse ano foi o auge. Está se renovando a plateia do Monobloco. No Show do Circo, no final do ano, cem menores de idade foram barrados porque eram menores de idade e queriam estar. E a quantidade de galera de 20 anos, vem filhos dos nossos fãs mais velhos dizer que quer cinco ingressos para ir na Fundição esta semana. É impressionante aquilo. A gente fica encantado com aquela quantidade de renovação que está acontecendo no nosso público. Tem uma coisa também de absorver coisas, especialmente no baile funk, que é um momento muito especial dos nossos shows e eventos. É um momento onde a gente também absorve músicas que estão na boca do povo agora. Pode botar um Gilsons, pode botar um funk carioca, ali cabe um piseiro, outras coisas que também a moçada se sente identificada. A gente está também bem curioso e feliz com essa renovação da plateia.

Para você carnaval é um beck, um MD, um cogumelo ou uma cerveja?

Eu acho que é o meu beck.

Na sua pochete de carnaval sempre tem um bequinho?

Não. Para mim, fumar é uma coisa muito doida, porque tenho muitos amigos de lá, inclusive, que gostam do beck e outros gostam da cerveja, são os dois aditivos prediletos. Mas, na verdade, tem duas coisas para mim com a maconha que são complexas. Eu esqueço das coisas, então não posso esquecer, tenho que cantar 75 músicas. Eu fumo muito recreativamente, em ambientes totalmente onde eu não vou ter responsa. Mas eu tenho amigos do bloco que precisam do beck para estar rendendo, para tocar, senão, para eles, não funciona. E aí tem a galera da cerveja. A cerveja a gente tenta deixar para mais para o final, porque ela deixa você mole, deixa mais desatento. E no meio da bateria é complicado, porque se derramar a cerveja, cai em cima do instrumento, então a celebração fica para depois. Sempre tem um churrascão, um festão pós-desfile que aí cada um vai no seu aditivo.

E você tem uma história muito louca de carnaval que você tenha vivido, sob o efeito de alguma substância?

Tem, no carnaval do Recife, com grandes amigos do Recife, que eu sempre levava meu disco novo com a Parede para eles ouvirem em primeira mão. E aí tem um desses amigos que é um acelerado. Então a gente começa bebendo muito e aí depois acabou, bebeu, saiu do restaurante, vamo fumar um. Aí ouvindo meu disco novo, um desses amigos tinha uma picape com mega som, aí botou o som no meio da rua em Olinda, a gente ouvindo, aí ele “peraí, peraí, peraí”, abriu a mala, abriu uma malinha dentro da mala, pegou um monte de lança perfume. Caralho, acho que foi a última vez que eu cheirei uma lança na vida. Já era cerveja, já era o baseado. Aí depois aquele negócio… Eu ouvindo meu próprio disco com aqueles ecos loucos do lança perfume. Acho que foi meu Carnaval mais radical de experiências psicotrópicas.

“Eu ouvindo meu próprio disco com aqueles ecos loucos do lança perfume. Acho que foi meu Carnaval mais radical de experiências psicotrópicas”

E você curte experimentar, tipo MD, cogumelo?

MD é o que põe líquido… Pode ser líquido na água também, né? LSD eu já tomei algumas vezes na droguinha, mas acho que tem gente que tem uma formulação. Porque eu lembro da festa de um grande amigo, festa de 50 anos dele, que aquela garrafa ficava passando de mão em mão. Daqui a pouco falei, caralho, vou embora, não sei mais onde eu tô. Tava aquele negócio muito doido, eu acho que era MDMA.

E cogumelo nunca experimentei. Ácido eu experimentei algumas vezes. E agora a minha droga, na verdade, eu tenho uma coisa que é muito comum entre músicos, que é o tinnitus, o zumbido. O rock ‘n ‘roll e o Monobloco me trouxeram essa realidade que é a de muitos músicos e quando eu descobri foi muito chocante, porque eu tava na minha casa, na Roça, no final de tarde, comecei a ouvir uma cigarra assim, ao longe. E aí duas horas depois essa cigarra continuava cantando. Falei “caralho, não é uma cigarra, sou eu, é meu ouvido”. Aí minha clínica, minha médica receitou alguns meses de Rivotril, porque é uma coisa que se administra logo quando você fica com tinnitus, que te dá uma acalmada, porque é muito angustiante quando você descobre aquilo permanente ali. Mas depois não ia ficar no Rivotril. E aí eu propus a ela, falei “Bernadette, e se a gente experimentar CBD”? Ela falou “pode ser”. Aí começamos a estudar. Ela foi estudar com médicos amigos dela que já estavam receitando, que já estavam prescrevendo. E é isso. Há alguns anos a cannabis é o meu relax. É meu relax para o meu tinnitus, para dormir, para estar no trânsito estressado e louco do Rio de Janeiro. Essa dose administrada, para mim, me faz ficar um cara com menos irritabilidade e menos incomodado com isso, que é uma realidade, para mim, que não tem cura. Você pode, com a fisioterapia auditiva, vibratória, que é um negócio que você usa durante o dia e bota na mesa de cabeceira, reduzir um pouco. Mas eu preferi não seguir nisso e a administração do CBD me deixa bem relax.

Então hoje em dia você toma cannabis para fins medicinais, para você lidar com essas questões e também tem o beck para recrear?

É, gosto do beck para recrear na roça e com os amigos em pós-camarim. Antes do show eu não gosto, porque eu esqueço. Eu te falei, tem a galera que precisa, que vai fumar antes do show. Eu não gosto mesmo. Também resseca muito a minha garganta. Resseca demais a minha garganta. Então, para cantar, não é bom para mim. E pelo esquecimento também não. Mas esses amigos ligam, eles precisam de uma coisa para ligar, são reações diferentes com a mesma substância.

“A cannabis é o meu relax. Para dormir, para estar no trânsito estressado do Rio. Me faz ficar um cara com menos irritabilidade e menos incomodado”

Mas você sempre foi assim, desde adolescente?

Eu não fumei muito adolescente, não. Fumei com 20 anos ali, meus amigos, quando eu fui morar em São Paulo, a gente tocou numa peça e a banda tinha uma galera que gostava bem de fumar, era bem, bem maconheira. Eu até fumei algumas vezes, mas me dava muito bad trip de “ah, a vida não presta, nunca fiz nada que preste”. Às vezes, quando eu fumava me dava esse negócio. Então, eu prefiro fumar realmente numa situação de muito conforto porque, se der isso, eu estou ali entre amigos. E ativa um pouco o sono também pra mim. Eu tenho uma grande amiga, que é médica também, que pra ela é o contrário. Se ela fumar, ela liga, as sinapses ficam a mil.

Você compõe pra artistas muito diversos. Como você consegue essa façanha de poder ser a mesma pessoa e várias ao mesmo tempo?

Na verdade eu gosto muito de encomenda. Encomenda me instiga. Então, quando vem uma encomenda, como veio da Adriana Calcanhoto, depois veio da Elza Soares. A Elza, na verdade, eu acabei redescobrindo uma música que não foi feita pra ela, mas que caiu como uma luva pra ela, que titulou o disco dela “Deus é Mulher”. É uma música que eu tinha feito sob encomenda pra uma outra cantora que já se encantou. E um dia eu fui chamar a Elza pra cantar comigo num projeto meu. Ela falou “não, essa música é minha, meu disco vai se chamar Deus é Mulher”. É um exercício que eu gosto muito, porque eu vou estudar a pessoa, vou estudar como ela gosta de cantar, que assuntos ela gosta de abordar, ou se for pra um filme, do que o filme trata. Eu sempre gosto de dizer que a padaria daqui de casa aceita encomendas, a padaria musical, e me instiga. Na minha casa nunca se teve preconceito com o tipo de música. Sempre se ouviu muito de tudo, sempre foi uma família que gostou de cantar junto, nove irmãos, todo mundo tocava alguma coisa, alguém trazia uma novidade, alguém trazia um disco. Então essa diversidade sempre teve e acho que isso me ajuda a poder ser um compositor diverso, um compositor que gosta de passear por vários lugares, e ainda meus ídolos, como Luiz Melodia, que chega o disco “Pérola Negra em casa quando eu tinha 12 anos de idade, é um cara que firma isso pra mim quando questionaram por que um compositor preto do Morro de São Carlos não fazia samba, e ele faz samba também, ao que ele respondeu “tudo me interessa, e se tudo me interessa, pra mim é uma joia, tudo me interessa”. Então talvez isso ajude também na hora de compor pra vozes tão distintas, pra ondas tão distintas, porque música, o Hermeto fala uma coisa muito legal, não tem gênero de música bom ou ruim, tem música boa e ruim em qualquer gênero de música.

Crescer numa família de nove irmãos é o maior presente da vida?

Mas também tem muitas complicações, são muito diferentes esses irmãos, irmãos de muitas ondas. Eu me dou com todos, mas tem irmãos meus que não se falam há anos porque são muito diferentes, muito mesmo. Eu talvez seja o único que fala com todos os irmãos, talvez seja pela minha Libra (risos).

E Pedro, onde tá a sua atenção agora? O que você tem curtido fazer?

Bom, o Monobloco já é uma coisa que anda sozinho, ele já funciona, e a gente montou um time desde o começo, é como um elenco, tem um pouco esse conceito, a gente tem em torno de trinta músicos e pode fazer revezamento nessa escalação. Por exemplo, comigo são sete cantores no Monobloco e são três que vão pro palco. Para os eventos grandes, a gente leva quatro. Mas três são o número bacana pra fazer aquele baile acontecer com pressão. Então, por exemplo, eu posso não estar, posso estar num, posso estar no outro, e não tem essa formação. A gente vai misturando todas as combinações de músicos e funciona muito bem. Isso me dá margem pra poder exercer também o compositor que eu sou, o “cantautor” que eu gosto de ser, desde 2011 eu faço meus projetos solo e acabei de lançar um em novembro, o disco “E Se Tudo Terminasse em Amor”, que está em temporada num teatro aqui do Rio, um pouco numa época que é bem complexa, porque o carnaval tá a mil, o Monobloco tá muito intenso, mas aí apareceu essa oportunidade de fazer todas as terças, num teatro que é icônico aqui do Rio de Janeiro, o teatro Ipanema, onde assisti shows incríveis, peças incríveis, então não deu pra negar antecipar o começo do show essa temporada. Meu sonho é cumprir expediente de compositor, todo dia sentar aqui, pegar meu violãozinho aqui, fazer uma musiquinha nova.

Tem algum ritual?

Do caos. Eu começo aqui, tô com um papelzinho aqui, aí anoto, aí bato uma coisa no computador, busco um som, pego um violão, tô aqui nesse quarto onde eu trabalho, aí vou pro outro onde os instrumentos estão guardados, aí vou pra sala, aí pego um caderno, aí gravo um pouquinho, o ritual é do caos. O caos é que me abastece como compositor.