Na Breeza

Palco pra maconha

O comediante Nando Viana levou as suas experiências pessoais com a erva para dentro dos seus shows de stand-up e conquistou o coração de uma legião de fãs

“A galera achava que eu era mais doidão do que de fato eu era”, conta Nando Viana, um dos artistas mais criativos da cena stand-up brasileira, sobre a época em que começou a falar abertamente sobre as suas vivências com a erva. Isso há mais de dez anos, quando na sua primeira temporada de stand-up profissional apresentou uma compilação de piadas com maconha. Todas muito bem recebidas pelo público. 

Hoje, Nando está em turnê no seu 4º show, que não é exclusivamente sobre o tema, mas que contém uma coisinha ou outra sobre a planta, e logo retorna aos assuntos principais, que são a ansiedade e o TDAH, vividos na pele pelo artista. Falar sobre cannabis nesse show faz muito sentido, não só pela conexão da planta no tratamento dessas patologias, com resultados positivos em vários estudos científicos, mas também pela experiência pessoal do artista, que, para além dos baseados diários, passou a usar gotinhas de CBD para conviver melhor com suas condições.

“Sinto que tô curado da depressão. Até encontrar o remédio certo você demora um pouquinho. Tentei umas coisas não tão boas, tipo Venvanse, mas agora encontrei remédios interessantes. CBD baixou bastante a minha ansiedade, mas eu não tomava sempre porque ele me dava um pouquinho de náusea, como eu tomava dose grande, e até comento isso no show, no meio do dia eu ficava arrotando, dava um retrogosto, isso me enjoava um pouco e acabei buscando outros caminhos”, lembra Nando.

ONDE TERMINA O TDAH E COMEÇA O THC

Nando foi quem inaugurou a ousadia de levar piada sobre maconha pra cima dos palcos mais pops da comédia paulista, e isso em meados de 2015, quando o uso medicinal ainda não havia se popularizado e o termo maconha causava arrepio, era sinônimo de perdição, drogas pesadas, toda aquela coisa. Como pioneiro, acabou ganhando uma pecha de maconheiro master – e por vezes foi chamado por aí de drogadito, coisa que nunca foi. 

“Sou mesmo maconheiro, outras drogas só provei no âmbito da curiosidade, foi o máximo que eu fiz, sempre tive medo, sou muito fácil de me viciar. Tomei meus cuidados ao longo da vida pra eu não afundar em nada”, diz ele, que encara o baseadinho como uma espécie de concessão que deu a si mesmo. A maconha é um recurso particular que Nando usa para acessar a inspiração, por exemplo, na concepção de um novo espetáculo; e que lhe permite encontrar, entre outras coisas, as personas que cada comediante leva dentro de si. 

A persona do maconheiro, é claro, desabrochou com muita facilidade. “Além do típico estereótipo, eu também misturava, comecei a fazer piadas um pouco mais reflexivas, não inteligentes, que tinha também ironias, coisas subentendidas, acho que foi muito o uso da cannabis que me abriu pra esse lado”, reflete. 

Em 2017, quando Nando preparava o segundo show da sua carreira, decidiu sair de vez da estufa. Como sempre curtiu piadas baseadas em experiências próprias, criou um show temático sobre causos com maconha. “Meus pais souberam que eu fumava junto com a plateia.” 

A CARA DA MACONHA

O dono do espaço onde apresentava seu novo espetáculo deixava ele fumar um beck no escritório do lugar. Pra quê? Nando já não se dignava nem a descer um pouco antes pra fazer a concentração prévia ao concerto, mas se dava ao luxo de ficar de papo pro ar fumando seu baseado até a hora que escutava anunciarem o seu nome, apagava o beck e subia no palco sem medo de dar pala.

“Eu conseguia escutar quando me chamavam, então fumava, baixava o beck, descia a escada recém-fumado e entrava no palco. Isso acabou me dando um treino pra não ficar com medo. Como eu vi que lá eu conseguia, fui fazendo e meu estilo foi mudando, a maconha me possibilitou buscar uma persona mais desligada, que sou eu mesmo, mas valorizar essas coisas em mim, o falso burro, o desligado, aquele que não entendeu direito”.

Nando tem mais de um milhão e meio de seguidores nas redes sociais, e apesar disso, nunca foi convidado a ser a cara de uma marca, e entre as poucas publicidades que fechou, a maioria tinha a ver com o universo da cannabis. “Sinto que ter aberto esse assunto fez eu ter menos clientes no mundo dos anúncios”, avalia. 

Há dois anos, Nando chegou a fazer uma ação para uma marca que estava mais suja no mercado e deu pau de galinheiro, recebeu uma enxurrada de críticas. “Naquele então eu não estava a par da discussão, depois daquilo eu fui estudar melhor a indústria”, diz ele, que tem pensado cada vez mais em abrir um negócio no ramo.

Anita Krepp