Na Breeza

Unzinhos contra as dores

A farmacêutica Lívia Teixeira transformou o que vem aprendendo sobre os males de sua doença em vídeos e posts com informações essenciais para quem, como ela, encara a fibromialgia (e a erva entra como remédio essencial)
06|02|25

“Sou muito grata por essa planta que torna a vida mais bonita e suportável nos momentos de angústia, como por conta da doença e da vida moderna”. O que nos disse a farmacêutica Lívia Teixeira reflete muito do que nós, adeptos da brisa da maconha, sentimos. Ela fala com propriedade: como paciente de fibromialgia – doença crônica que gera dores, problemas intestinais, fadiga, insônia e mais; como pesquisadora nível pós-doc pela USP e Unesp; como comunicadora com dezenas de milhares de pessoas que seguem seu Insta e seu canal de YouTube sobre o tema; e como maconheira desde a adolescência.

“Comecei com 14 anos, meus amigos sempre muito envolvidos, hoje muitos trabalham com isso”. De início, era por festa. Na faculdade, passou a usar em rolês mais calmos, na natureza, e a ajudava a ficar super relaxada. “Fui desenvolvendo essa relação e comecei a enxergar (os benefícios) de forma inconsciente, nem tinha o diagnóstico (de fibro)”.

Foi durante a faculdade de farmácia na USP que ela começou a investigar mais dores que sentia desde a juventude, mas que vinham aumentando. Nos últimos anos, a fibromialgia vem ganhando destaque e visibilidade, tanto que podemos até chamar de fibro, e os mais informados entenderão. Quando Lívia sentia em si os sintomas, porém, pouquíssimo era sabido dessa doença, que continua muito enigmática. Ela recebeu diagnósticos diversos antes de chegar à conclusão de que era fibro.

A falta de informações sobre o assunto, somado ao descontentamento que ela vinha tendo com a carreira em farmacêuticas, a fez pensar em um projeto pelo qual espalharia conhecimento da doença. Assim nasceu há 10 anos o De Bem com a Fibro, que promove a educação sobre a fibro por meios como um canal no YouTube e um perfil no Instagram, ambos seguidos por dezenas de milhares de pessoas.

FIBRO E ERVA NAS REDES

Ao entrar no canal de Lívia no YouTube logo se é recebido por um vídeo em que ela relata os desafios da descoberta e de se ter fibro: “Precisamos falar sobre isso, por mim e 228 milhões de pessoas em todo o mundo que se encontram na mesma situação que eu”. Ela ressalta ainda como normalmente se demora, em média cinco anos, até pacientes serem corretamente diagnosticados com a condição.

Em meio a vídeos informativos e cientificamente embasados sobre a fibro, há uns conteúdos com títulos que saltam ao olhar de breezers: Cannabis no tratamento da fibromialgia; Medicamentos à base de cannabis. “Bora falar sobre maconha”, diz ela na lata, em um dos vídeos.

No mesmo vídeo, dá dicas como do curso Unifesp e do MovReCam, que ela própria também fez, e de quais são as opções mais em conta para comprar de forma legalizada, ou mesmo cultivar. Assim como compartilha os benefícios do uso para o paciente, incluindo uma tese de que disfunções do sistema endocanabinoide podem estar ligadas à doença crônica.

Hoje com 35 anos, Lívia teve o diagnóstico de fibro aos 25. Logo que começou a tratar do assunto, percebeu como a cannabis estava no centro das atenções. “Foi um boom no Instagram e empresas do ramo começaram a me procurar, passei a ganhar tratamentos”, diz ela, que tem, é claro, todas as autorizações necessárias para o uso de seu remédio.

“Hoje uso todas as vias de administração, afinei a relação com cada produto de canabinoide”, diz ela, que depois exemplifica “para mim o THC é um analgésico eficaz, a gummie tem um efeito mais longo”. 

É SAGRADA

A paciente, pesquisadora e comunicadora da fibro e da erva passou também a cultivar o próprio remédio, com habeas corpus. “A planta é uma entidade viva, uma ser que me relaciono no dia a dia”. Lívia considera que tem uma relação íntima com as flores, principalmente aquelas que ela própria cultiva.

Hoje vê a maconha como uma espécie de guia, uma “medicina sagrada ligada a outras medicinas da floresta”. Conta que com o tempo colocou a cannabis em um espaço espiritual de seu dia a dia, vendo o uso também como ritualístico, uma ferramenta para se orientar em decisões importantes.  

Tornou-se uma porta-voz dos benefícios da planta para ela e muitas outras pessoas. E só quem necessita da cura da erva sagrada sabe o quanto descobri-la traz maravilhas, graças e, em casos como da fibro, um alívio, aquele colo necessário nos momentos de angústia. “Falta chegarem informações corretas para as pessoas, que estão recebendo muitas informações contraditórias, com as redes sociais, com toda essa loucura”. Espalhar o conhecimento inclusive pode motivar quem precisa a procurar por essa cura, seja ela física ou mesmo espiritual. “A mídia (como a Breeza) colabora com essa visibilidade, toda vez que alguém famoso fala sobre a maconha, alguém olha e pensa ‘talvez possa me ajudar`”.

Filipe Vilicic