
Você pode nunca ter ouvido falar de Hernán Casciari (o que é muito provável, a menos que você tenha alguma ligação com a Argentina), mas com certeza vai escutar por aí sobre a história de um cara que infartou em plena viagem romântica ao Uruguai e que foi ajudado pelo casal que os hospedava num Airbnb e que, por tamanha generosidade e empenho em salvar a vida de um hóspede, acabou recebendo investimento do próprio Airbnb para o desenvolvimento de um serviço especializado para hóspedes com necessidades especiais.
Essa é a história contada na série “O Melhor Infarto da Minha Vida”, que acabou de estrear no streaming da Disney+, e foi vivida e descrita por Casciari, um dos escritores argentinos mais criativos da atualidade. Como a Breeza não tem fronteiras, foi atrás do artista para entender como a maconha e outras substâncias fizeram ou fazem parte do seu dia a dia e da expressão da sua criatividade.
Nesta conversa com Anita Krepp, Casciari conta que a maconha foi sua fiel companheira por muitos e muitos anos, mas que depois que abandonou o hábito – principalmente pelo medo da larica, que, depois do infarto, segundo advertiu o médico, poderia ser fatal –, se tornou muito mais produtivo, sente ter “sete cérebros em vez de um”.
Como foi que aconteceu do seu livro virar uma série (O Melhor Infarto da Minha Vida)? E uma série de distribuição mundial…
As histórias vão recorrendo todos os formatos. A Disney+ se interessou pela história assim que escutou, assim que eu contei na rádio. Outras plataformas também se interessaram, mas a Disney foi a que mais confiança me deu. A distribuição mundial é muito benéfica para mim como escritor porque mais gente me conhece e isso sempre funciona bem. E também gosto que outras culturas além da Rio-platense, de Buenos Aires e Montevideo, também conheçam nossa maneira de ser, nossos paisagens, nossos atores e atrizes.
Na época do infarto você tomava alguma substância?
Sim, eu fumava maconha o dia inteiro. Esse 6 de dezembro de 2015, quando tive o infarto, deixei de fumar maconha, deixei de fumar tabaco e deixei de comer com sal, esses foram as três primeiras mudanças que me deu o melhor infarto da minha vida.
O Brasil é um país careta quando falamos de drogas, e na Argentina eu percebo uma maturidade em relação aos direitos humanos e liberdades individuais. Você concorda com isso? Sente assim?
Veja que paradoxo, se pensa o mesmo do Brasil. Na Argentina existe a fantasia de que o Brasil é um lugar muito livre, onde a droga circula. Eu acho que estamos o tempo todo acreditando que o jardim do vizinho é mais verde. Tenho essa sensação e penso que os países são muito parecidos nesse aspecto. Há uma proporção muito grande da sociedade que é careta e depois há pessoas que tentam equilibrar fazendo uso lúdico e livre do consumo de drogas, mas não creio que haja muita diferença, pelo menos no sul do Brasil e até em São Paulo. No norte eu já desconheço, porque me parece que é algo enorme. Estou falando de grandes cidades cosmopolitas, como São Paulo, Rio de Janeiro, o sul do Brasil, que já se parece mais com o Uruguai ou a Argentina. Somos bastante parecidos, além desse primeiro obstáculo, que é muito leve, da língua. Somos bem parecidos.
“Na Argentina existe a fantasia de que o Brasil é um lugar muito livre, onde a droga circula. Eu acho que estamos o tempo todo acreditando que o jardim do vizinho é mais verde”
Você é usuário de cannabis medicinal?
Não, não, não. Eu não fumo há uns 10 anos, mais ou menos. Tive um infarto e comecei a cuidar de mim, não especificamente por causa da cannabis, mas a cannabis, no meu caso, abre rapidamente a porta para outras coisas, como, por exemplo, o tabaco, que prefiro não usar mais. Então escolhi me afastar da cannabis para não ter essa relação próxima com o tabaco. Por isso parei de fumar.
Você fumava, imagino, na época em que vivia em Barcelona, onde o acesso à maconha é muito mais fácil e onde realmente existe esse hábito de misturar maconha com tabaco, né?
Sim, claro, sem dúvida. Comecei a fumar maconha com 13 ou 14 anos, em um povoado da província de Buenos Aires, quando era absolutamente proibido, no final do século XX. Mais tarde, quando vivi na Espanha, notei, no início dos anos 2000, a facilidade que havia por lá e a permissividade daquela época, não só para fumar, mas também para a posse pessoal e o cultivo em casa. Isso me surpreendeu muito, vindo da Argentina, essa liberdade. Morei na Espanha até 2015. Em 2015 tive o infarto que te contei e parei de fumar. Ou seja, quando voltei à Argentina já voltei sem fumar. Então, desde o final do século XX, eu não sei exatamente como funcionam essas questões na Argentina, embora tenha amigos que fumam e sei que é algo relativamente tranquilo.
Voltando um pouco para aquela época em Barcelona, quando você chegou lá aconteceu um… “Uau! Cannabis, aqui, pode”? Você também teve um momento de uso quiçá descontrolado pela facilidade com que se compra maconha por lá?
Acho que sim, vendo assim, com o “jornal de segunda-feira”, acho que sim. Mas não lembro de fumar mais do que fumava na Argentina. Fumava muito, tanto na Argentina quanto na Espanha.
Como era para você a influência do cannabis nas suas criações?
Veja, em Barcelona eu trabalhava com um programador que fazia o código das páginas dos meus livros e que era muito fã do cultivo. Ele era muito curioso sobre misturas, cultivo hidropônico, ao ar livre. Ele me usava quase como uma cobaia. Então dizia: “Olha, essa aqui é indica, é pura, é para corrigir, não para escrever. Com essa você corrige”. Depois dizia: “Essa aqui é para escrever humor, é para descansar”. Eu tinha vários potinhos, e, em vez de ter “indica”, “sativa”, etc., eles diziam para quê servia: para corrigir, para escrever… Era muito divertido. Nunca soube se era verdade ou não, mas seguia as instruções do Guillermo. Usava esses recursos, sempre misturando com tabaco. Eu pegava um cigarro de tabaco, misturava e fumava o tempo todo, em um estado intermediário, nunca muito “chapado”, nunca muito fora de si, mas fumava constantemente tabaco misturado com diferentes colheitas de maconha.
E onde está Guillermo agora?
Guillermo ainda é meu programador. Agora mora em Mercedes, a cinquenta quilômetros de onde eu moro, na província de Buenos Aires. Voltamos, saímos da Espanha e viemos para cá.
E ele continua cultivando?
Sim, sim. Cada vez mais expert. Ele faz coisas incríveis, coloca diferentes aromas, é um gênio, um grande gênio.
Depois vou querer o contato do Guillermo (risos). É interessante que, quando você falou sobre o uso que eu chamaria de recreativo e que ainda está em construção, em debate sobre o termo, né?, recreativo, uso adulto, consciente… E você usou “lúdico”. Como um homem das palavras, gostaria de entender sua percepção sobre esses termos, de como isso pode influenciar até mesmo nossa relação com o consumo da planta?
Claro, sim. Eu sempre tive um uso lúdico e, quando fumava, tinha uma filha pequena a quem ensinava a cultivar e explicava do que se tratava. Porque uma das primeiras coisas que, pelo menos no meu círculo, na minha família, com minhas filhas, eu queria eliminar era a questão do crime, da ilegalidade. São todos mandatos culturais que nos chegam com razões absolutamente ridículas sobre uma planta. Uma planta que, além de inofensiva, é muito adorável. Mas, claro, é adorável em ambientes controlados, onde o uso é obviamente adulto. No meu caso, acredito que “lúdico” e “recreativo” sejam sinônimos. O uso lúdico ou recreativo é quase a mesma coisa, mas é uma influência que tem a ver, no meu caso, exclusivamente com o aspecto criativo, com o ócio contemplativo, com deixar o cérebro, sem restrições, fazer novas conexões sobre determinadas ideias. Essas ideias não são necessariamente algo pronto para ser usado, mas para entender que há novas conexões. A partir daí, uma vez sóbrio, você pode encontrar um caminho novo no humor ou no conflito de uma história. Para isso, me serviu muito. Sempre tive na maconha uma espécie de “paredão criativo”. Você joga uma ideia e ela devolve outra. Isso elimina a barreira do medo do absurdo, que em um estado sóbrio pode te impedir de pensar de maneira diferente. Saem coisas muito divertidas. Por isso, em geral, o uso é recreativo. Mas também tive amigos que passaram a um estado “zen” da maconha, em que não a usavam para criar, mas para se evadir da realidade. Sempre tive um pouco de medo disso. Nunca aconteceu comigo. Nunca usei maconha como um recurso de evasão obscura. Nunca usei. Sei que essa possibilidade existe, como existe com o álcool e muitas outras coisas.
“Sempre tive um uso lúdico e, quando fumava, tinha uma filha pequena a quem ensinava a cultivar e explicava do que se tratava”
E o que você faz com a realidade, Hernán?
Eu compartimentalizo em textos, ideias, conceitos. Para mim, a realidade é como a farinha para um padeiro. Não é tudo, porque é preciso misturá-la com outras coisas, mas sem isso eu não saberia para onde ir. Não sou um escritor distópico, não escrevo romances sobre o ano 1600, nem sobre coisas que acontecerão em 2030. Minha literatura é muito fortemente autorreferencial, escrevo sobre coisas que me aconteceram ou que aconteceram com pessoas muito próximas. Então, para mim, a realidade é o ingrediente principal, eu preciso dela, e no caso do uso da maconha, quando eu fazia uso, era mais para a correção do que para a concepção da ideia. Para me soltar, uma vez que a estrutura já estava compartimentalizada. Sempre gostei de fazer dessa maneira.
E hoje, você não sente falta daquele gás que a maconha pode trazer para a criatividade?
Não. Sabe o que eu descobri, e com muita surpresa? Além de me dar esses benefícios na escrita, também me exigia um tempo muito longo de recuperação. A ressaca fazia com que, no dia seguinte ao momento efetivo da maconha, eu gastasse horas demais me recuperando daquilo. Mas eu não descobri isso porque me fazia mal, era o meu jeito de viver. Eu escrevia contos e estava tudo bem. No dia seguinte, escrevia outro. Mas era tudo o que eu conseguia fazer. Desde que parei de fumar, tenho sete cérebros em vez de um. Estou muito mais focado em projetos muito mais complexos do que a escrita de um conto. O que faço hoje, que é gerenciar cultura, fazer filmes, séries, produções com meus próprios textos, livros, revistas, etc., eu não conseguiria fazer com o consumo que eu tinha de maconha. Esse trabalho específico. Poderia fazer outro, muito mais criativo, mais pessoal, mas de forma alguma envolvendo, como no caso atual, um monte de pessoas, dirigindo equipes. Nem a pau, jamais conseguiria fazer isso com a cabeça em um estado de busca pelo absurdo, por exemplo. Hoje, trabalho muito mais com um Excel funcionando de forma artística, porque um Excel também é como um soneto, e quando tudo termina perfeito, você sente o mesmo prazer que ao escrever um conto. Mas eu preciso, ou pelo menos tenho hoje, e sei disso, reflexos muito mais apurados do que quando fumava maconha o dia inteiro.
O dia inteiro mesmo?
Sim, sim, deixo isso bem claro, porque eu tranquilamente poderia, hoje, já passaram nove anos desde que parei de fumar, não teria problema nenhum em fazer um uso recreativo nos finais de semana, com minha esposa. Não faço porque não sinto necessidade, mas não tenho medo disso hoje. No começo, sim, porque eu entendia que isso era um caminho para comer em excesso. Depois de fumar, vinha a larica. Nos primeiros dois ou três anos após o infarto ei tinha que comer de forma muito saudável, e eu sabia que, se fumasse um cigarro de maconha, iria direto para a geladeira e comeria tudo. Tinha muito mais medo dessa larica gastronômica do que da maconha. E depois o tempo passou, e já montei uma rotina na qual não faço uso de cannabis. Mas hoje eu já poderia usar se quisesse.
“Sabia que, se fumasse um cigarro de maconha, iria direto para a geladeira e comeria tudo. Tinha muito mais medo dessa larica gastronômica do que da maconha”
Interessante sua vivência com a maconha porque houve momentos em que ela foi importante, agora você entende melhor o lugar dela, mas, ao mesmo tempo, você é favorável, digamos, à legalização, certo? Como é essa visão de algo que não é preto no branco, que tem nuances?
Em geral, acho que quando temos um pouco de senso, quando lemos e conhecemos a história de qualquer coisa, é muito difícil termos uma posição fanática sobre qualquer tema. Os fanatismos ou o extremismo de preto e branco em qualquer questão não me parecem corretos. Sempre acho que há tons de cinza em tudo, e em quais casos sim, em quais casos não. No caso específico da maconha, me parece absurdo que haja uma polêmica sobre uma planta. Para mim, é absurdo desde que tenho uso de razão. Sempre vi isso como algo estranho, como algo de gente que não entende, que não leu, que não quer entender também, ou que não lhe convém entender. Nunca me pareceu um debate real. Há outros debates sobre os quais, embora eu tenha uma posição firme, consigo entender o outro lado. Nesse caso, não consigo nem entender o outro lado. Um debate, por exemplo, sobre a pena de morte. Eu sou contra a pena de morte. Mas, se você encontrar uma pessoa que teve um filho assassinado, você consegue se colocar no lugar dela e debater. No caso da maconha, não existe debate. Não há nenhum debate. Acho ridículo, acho que é tudo uma tela de fumaça americana que se enraizou profundamente na sociedade mundial e nada mais.
E a função social das drogas, já indo além da maconha?
Eu não tenho muita clareza sobre isso, nem investiguei ou foquei no tema de forma séria. Acho que o que eu poderia dizer é uma opinião pessoal de alguém que não pesquisou muito. Ou seja, o que eu poderia dizer sobre isso não tem muito valor. A mim, não me agrada quando outros opinam sobre temas complexos sem estudar, então prefiro ficar de fora e falar apenas do que entendo. E eu entendo de maconha porque consumo desde os 13 anos, porque consumi, parei de usar, ainda gosto dela, e jamais daria à minha filha de 7 anos – a atual filha pequena, a outra já tem 20 – uma visão distorcida sobre cannabis. Mas, no caso de questões relacionadas à cocaína ou outras drogas químicas, eu a afastaria imediatamente, sem nem explicar o motivo. Mas isso também é por um temor pessoal em relação a outras drogas, porque vi, de forma muito próxima, pessoas perderem o rumo da vida, se perderem, morrerem. Com a maconha, nunca vi isso acontecer com ninguém. Nunca. Então, para mim, a maconha se parece muito mais com o consumo de uma droga recreativa e não tanto com uma pulsão de morte. Vejo isso muito distante.
Quando jovem você fez uso abusivo de cocaína e chegou a pedir ajuda aos seus pais. Eles estavam abertos a isso ou foi algo que surgiu como uma necessidade sua?
Olha, eu não encontrava a quem mais pedir ajuda, eu era muito jovem, tinha quase 21 anos, mas 21 anos bem adolescentes também, não eram 21 anos de alguém que sabe se virar na vida. Desde os 16, 17 anos já tinha começado, bom, fumava maconha e comecei a usar cocaína, mas com aquela leveza de quem experimenta para escrever e criar, porque eu tinha aquela coisa do Jack Kerouac de entender o mundo através dos diferentes estados sensoriais, etc., e isso saiu do controle, saiu realmente do controle. Entre os 19 e os 20 anos comecei a roubar dinheiro, não na forma de delito nas ruas, mas dos meus pais, da minha avó, de clientes de uma consultoria onde eu tinha começado a trabalhar. Comecei a gerar uma espiral econômica muito destrutiva, só para conseguir mais cocaína, e eu percebi isso, num momento de lucidez, antes que se tornasse algo irreversível, eu percebi. E eu acho que a escrita, a literatura ou uma vocação tiveram muito a ver com isso, ter algo muito importante para provar. E naquela idade eu queria ser escritor. E eu queria provar que era bom e queria provar que poderia conseguir, e aí a cocaína apareceu como um grande obstáculo, um enorme obstáculo.
A caneta que usamos ao tirar a tinta para usar cocaína, se eu tirasse a tinta, poderia usar cocaína, mas não poderia escrever, e se colocasse a tinta, poderia escrever, mas não poderia tomar. E eu tive que tomar uma decisão sobre isso. O que faço com essa caneta? O que faço com essa lapiseira? Tomo ou escrevo? As duas coisas não podem ser feitas. E fui muito consciente disso uma noite, e as únicas pessoas próximas, de total confiança que eu tinha, eram meus pais. Eu os acordei de madrugada, aquelas madrugadas típicas de resignação, de tédio, de pensamento suicida, de ter aquela queda da cocaína em que a única coisa que pode acontecer é amanhecer e você ter que sair para buscar mais, como se fosse um ciclo, esses ciclos terríveis que nos acontecem o tempo todo com esse tipo de droga, e num momento de lucidez, eu os acordei e pedi para me ajudarem e disse que a ajuda consistiria, especificamente, em que eu ficaria trancado na casa deles e que, quando meus amigos viessem me procurar, com quem eu usava a droga o dia todo, eles dissessem que eu não estava, porque eu particularmente não conseguia dizer ‘não’. Durante um tempo, eu não conseguiria dizer ‘não’ e que, no momento que eles pudessem, financeiramente, se pudessem, me tirassem da cidade onde eu morava. Eu fui consciente de que o ambiente era minha perdição nesse caso, muito mais do que a vontade. E fizeram isso, nada mais do que isso, com muito medo, com muito desconhecimento, e depois de alguns meses de abstinência e isolamento, consegui, justamente com um prêmio literário, um dinheiro que me deram por um conto em um concurso, comprei uma mochila grande e fui viajar pelo norte da Argentina e parte da América do Sul, para me desintoxicar, para respirar o ar, e essa foi minha saída definitiva. Mas foram meus pais primeiro, e depois ir embora para ser mochileiro, fazer uma pequena aventura pessoal iniciática, me reencontrando com a natureza e o ar puro.
Me fale um pouco sobre essa sensação da adição, no seu caso, era física, mental ou emocional? Você conseguiu entender o que te levou a esse momento?
Olha, a pior adição que tive na minha vida, tanto mental quanto fisicamente, foi o tabaco. Nunca houve nenhuma com tanta aderência, com tanta força. O tabaco foi a única das minhas adições que, quando parei, não consegui mais escrever. O tabaco me impediu de escrever durante sete anos. Parar de fumar tabaco. Ou seja, as outras drogas, se comparadas ao tabaco, não são nada. Nada. Eu nunca pensei que conseguiria largar o tabaco, nunca pensei que fosse conseguir, e foi a única que me custou, e me custou uma boa parte do meu ofício, ou seja, parar de escrever. Mas depois, nem a maconha nem a cocaína tiveram mais… A cocaína causou certa abstinência, me gerou muita acidez, uma úlcera, e eu acho até que não foi por causa da cocaína, mas pelo corte, por certas coisas horríveis que colocam na cocaína para esticá-la. Nem era por causa da cocaína, se eu tivesse usado cocaína pura, não teria me acontecido isso. E depois a maconha, parei de fumar sem nenhum tipo de problema, nunca tive perigo. E o tabaco, que também parei no mesmo dia que parei de fumar maconha, o dia em que tive o infarto, não consegui mais voltar a escrever por muito tempo, ou seja, tentava escrever um conto e minha mão direita ia procurar o tabaco, mesmo que não estivesse lá. E isso tirava minha concentração e até o bom humor, me tirava o bom humor que é necessário para fazer uma boa correção de texto, para pensar melhor na história, e tomei a decisão de parar de escrever e me dedicar por um tempo que eu achei que seria curto, mas foi longo, a outras coisas.
Além de escrever contos e dessa série que acaba de estrear na Disney+, você criou a Orsai, que é um fenômeno literário, explica melhor do que se trata?
Começou como um blog, uma editora, uma revista, uma produtora de cinema, cada coisa que invento, coloco o nome Orsai e sigo em frente. Então, Orsai é o que eu faço, são as minhas atividades, dei esse nome fantasia. E a cada ano, junto com um monte de pessoas com quem trabalho, tomamos decisões que nascem da diversão. O que gostaríamos que acontecesse no ano seguinte? Agora estamos muito focados na parte de educação, abrindo uma escola de narrativa, que queremos que se torne uma universidade. No ano passado e no anterior, nos dedicamos bastante ao cinema, fazendo filmes e séries. Antes, na parte editorial, sempre buscamos um pequeno desafio que nos faça querer levantar pela manhã e fazer coisas que gostamos.
E você criou muito bem uma coisa que todo mundo gostaria, a tal da comunidade. Como foi esse processo?
Sem nenhum tipo de estratégia e sem saber que estava fazendo, quando comecei a escrever um blog em 2002, quando ainda a palavra comunidade não estava nem nos padrões do marketing. Ninguém buscava criar comunidade. Ninguém sabia que comunidade seria o único grande capital da cultura 20 anos depois. Eu também não sabia. Eu estava fascinado com o fato de que a internet permitia, de repente, a alguém que escrevia contos, escrever um conto, clicar em enviar e ele chegar rapidamente a qualquer parte do mundo. Parecia incrível e alucinante, e pelo visto, a muita gente também, porque começaram a se reunir ao redor do que eu escrevia. Eu tive, hoje sei, naquela época não sabia, uma virtude que é a constância. Dizia que escrevia às segundas, quartas e sextas, a uma certa hora, um texto novo, e cumpria. Era quase uma obsessão interna minha, um toque. Um transtorno meu. Mas isso, hoje sabemos, gera que as pessoas, pela constância, apareçam nos momentos constantes e fiquem, se fidelizem. E isso foi muito importante, pelo visto, mas eu não fiz isso de forma estratégica, não fiz para que as pessoas ficassem. Mas muito rapidamente, entre 2002 e 2004, vi que havia centenas de milhares de pessoas esperando um novo texto, um novo conto. Em 2005, me dei a conhecer com nome e sobrenome, porque antes disso eu não me nomeava, não havia um nome e sobrenome, eu era personagem, anônimo, escrevendo. Me dei a conhecer com nome e sobrenome e o número de pessoas continuou a crescer. Em 2006, comecei a entender que isso era uma comunidade e que precisava cuidar dela. Cuidar dela significa conversar regularmente, ouvir, não se achar acima de um pedestal e os outros abaixo, mas sim como uma equipe de trabalho, fazendo coisas juntos, começar a gerar projetos junto com a comunidade, inicialmente sem troca financeira, só por prazer, de forma lúdica. E só a primeira vez que falei sobre dinheiro foi em 2009, quando perguntei se eles gostariam de ver uma revista sem publicidade, sem subsídios de nenhum governo, com autores que todos admirássemos, que chegasse a cada três meses na porta de suas casas. Muita gente disse que sim e começamos a fazer a revista Orsai, que foi o início da constatação de que uma grande comunidade pode gerar produtos culturais impossíveis a priori. E bom, foi a primeira de várias coisas que começamos a fazer, já com uma comunidade cada vez mais constante e numerosa e cada vez mais fervorosa também.
Agora, pra fechar, Hernán, me fala um pouco sobre os seus métodos criativos.
Nos últimos anos, e principalmente desde que parei de escrever contos pontualmente, eu escrevo os contos na cabeça e o cenário do conto é a realidade. Ou seja, o primeiro pensamento forte que tenho é: ‘Ah, tem algo impossível que podemos fazer entre muitos, por exemplo, um filme.’ E isso forma parte de um conto, há um conflito nesse conto, ou seja, como conseguimos o dinheiro para fazer isso, como conto para as pessoas o quanto vai ser divertido fazer, prometo coisas, jogo pedras longe para ir buscá-las e que isso seja bem épico. Esse é meu sistema nos últimos dez anos, sabendo que há uma comunidade que imediatamente vai dizer que sim, se estiver interessada no projeto, buscando projetos impossíveis ou malucos, aqueles projetos que quando somos jovens, às 4 da manhã, pensamos com um grupo de amigos depois de fumar um pouco de maconha, esses projetos que no outro dia, quando você acorda, diz ‘não, era bobagem, não vamos fazer nada’, bom, com uma comunidade, podemos fazer. Você pode ter um projeto maluco e no outro dia contar para 15.000 pessoas, e essas 15.000 pessoas vão te ajudar a concretizá-lo, se os interesses desse projeto forem comuns a todas essas pessoas.