
“Quando chegou a pandemia, eu pensei ‘qual foi a única coisa que não deixei de fazer?’ Comer e fumar maconha. Então vi que era hora de voltar a empreender com a erva”, conta Leili Gonçalves, brasileira que vivia na Espanha quando em 2020 perdeu sua fonte de renda que advinha dos cursos de intercâmbio que vendia. “Fechava 20, 30 pacotes por mês e, de repente, zero.”
Garantir o seu próprio sustento e também o de sua filha, que na época tinha 8 anos, foi a principal motivação de Leili para voltar a empreender no canabusiness — anos antes, ela havia se aventurado como cultivadora –, desta vez, com um banco de sementes cujo diferencial seria o toque feminino, pensado por e para mulheres. E assim nasceu a Girl Seeds, um banco de sementes que se diferencia desde a sua raiz para não ser engolido pelos grandes.
“Numa trip de cogumelo eu comecei a pensar na logo e me veio a ideia de colocar uma vagina. O nosso clitóris é visualmente parecido com uma semente de cannabis, então pedi a designer uma pepeca germinando e o clitóris de semente”, lembra ela, que imediatamente se conectou a outras mulheres da cena canábica para cavar mais espaço para o feminino num universo ainda muito dominado pelo masculino.
“Havia mulheres que não frequentavam clubes porque só tinha homem e elas não se sentiam bem. Estamos mudando isso, o caminho é apoiar e encorajar outras mulheres a fazer o que fazem os homens, dar as caras pra cultivar, aprender sobre cannabis e sair de trás do marido.”
MOTHER CUP
O ponto alto da carreira de Leili e do seu compromisso em feminizar o ecossistema da cannabis acontecerá no próximo dia 10 de março em Barcelona. Organizada por Leili (em parceria com Ana María Tebar, da agência Humo) e intitulada Mother Cup, esta será a 1ª copa canábica do mundo com juízas 100% mulheres, que viajarão à Espanha provenientes de várias partes do mundo, para participar da Spannabis (uma das maiores feiras de cannabis que existem) e de eventos satélites como este, que promete ser um dos mais concorridos.
“Já fui juíza de várias copas, algumas vezes eu era a única mulher, outras vezes, fui uma das poucas mulheres, e decidi que queria fazer uma copa onde todas as juízas sejam mulheres”, explica. Entre os nomes já confirmados, claro, está o da nossa brasileiríssima girl in green, Alice Reis. Também a mexicana Polita Pepper e as norte-americanas Dank Duchess e Luna Stower.
A empresária Leili está emocionada com a iminência da realização de um sonho e a criação de um evento desse porte em meio a uma das semanas canábicas mais famosas do planeta. Mas se sente, sobretudo, empoderada e confiante de que abrir novos espaços para outras mulheres é, de fato, o caminho do contentamento para a sua alma.
“Gosto mesmo de empoderar as mulheres. Não quero ver minas fodas, cultivadoras talentosas se apresentando como mulher de fulano, mas com seu próprio nome, sua própria história”, afirma, abrindo, em seguida, seus planos para levar a copa canábica só de mulheres para Berlim, em junho, e para a Tailândia, no segundo semestre deste ano.
MACONHA EM ALTO-MAR
O caminho de Leili até aqui não foi fácil. Em 2013, aos 27 anos, deixou o Brasil rumo à Irlanda para aperfeiçoar o seu inglês. Dois anos depois, ela, que já dava um dois, decidiu deixar de ser apenas usuária para se tornar uma empreendedora da cannabis, e partiu para as Ilhas Canárias (território espanhol longe da Espanha e a poucos quilômetros do Marrocos), onde junto com o seu marido na época, teve a ideia de abrir um clube canábico.
Em menos de seis meses colheu o primeiro ciclo de cultivo. “Vimos que não era tão simples abrir um clube e voltamos para a Irlanda para cultivar”, conta ela, que tampouco encontrou no gélido país um ambiente propício para desenvolver o seu negócio. “Saí fugida de lá, com a roupa do corpo”, lembra. “O dono da casa que alugamos descobriu os 56 pés de maconha que estávamos plantando, fechou a rua com o carro e chamou a polícia”, diz ela, que no dia seguinte voou para Portugal.
Mas não tinha jeito, parece que o destino chamava Leili de volta para perto da planta, e ao ser revelados seus dons de breeder em uma conversa em terras lusitanas, recebeu um convite para mudar para a Espanha para produzir sementes para a Sweet Seeds – um banco de sementes famoso na Europa –, e aproveitou a oportunidade para fazer networking e se estabelecer como cultivadora de mão cheia.
Hoje, além de estar à frente da Girl Seeds e da Mother Cup, Leili também se dedica à produção de eventos canábicos especiais, como o Halloweed (que em outubro passado reuniu mais de 400 pessoas na noite de Halloween), e o High Boat, que em 2025 vai celebrar a sua 8ª edição, e reúne a nata do cannabusiness espanhol em alto mar, com comida, bebida (sem álcool) e dab station liberadas. A mãe tá muito on.
Anita Krepp