
Psicóloga com prática na redução de danos, a ex-BBB Lumena Aleluia questiona o moralismo que cerca a cannabis, especialmente em espaços como o Big Brother Brasil, enquanto álcool e cigarro são lá mais do que permitidos (pois os encorajam no reality). “Se tivesse autorizado a cannabis no Big Brother, não ia ter briga, não ia ter treta”, brinca, reforçando como a substância poderia promover mais equilíbrio em vez de conflitos.
Nesta conversa com Anita Krepp, editora da Breeza, também revela seu desejo de atuar na publicidade de cannabis quando o mercado brasileiro avançar na descriminalização. “Meu sonho! Eu troco muita ideia sobre isso com o Whindersson Nunes”, comenta ela, que enxerga na cannabis ainda muitas barreiras morais e culturais, ao mesmo tempo que um grande potencial comercial e educativo que a regulamentação ajudaria a naturalizar e expandir.
Na nossa conversa, Lumena abordou a questão racial no contexto da maconha. Ela lamenta que o movimento negro ainda não priorize o tema, mesmo sendo as comunidades negras as mais impactadas pela Guerra às Drogas. Apesar de não consumir mais cannabis por razões espirituais ligadas ao candomblé, Lumena acredita que abrir esse diálogo é essencial para construir uma sociedade mais informada, onde o uso consciente e a educação sejam as bases para políticas públicas eficazes.
Por onde anda Lumena?
Eu tô com o Leo Dias, na cobertura do Big Brother Brasil, vai ser uma oportunidade muito legal. Eu não tinha a menor pretensão de ir para a área de comunicação, realmente estava naquele lugar de cumprir o desejo da minha família e seguir carreira acadêmica, doutorado. Mas a arte me escolhe de um jeito que eu fico sem entender. Gata, do nada o bagulho vem. E aí eu estou entendendo que o universo tá querendo dizer. Então, hoje eu tô respeitando, sabe?, esses sinais do universo que é a arte, é a comunicação, é o audiovisual. Hoje eu tô estudando mais porque antigamente a minha escrita de roteiro era uma escrita mais dura, mais política. E aí eu tô me desafiando muito mais no roteiro de humor, um roteiro mais comercial, um roteiro cômico, que eu brinco com a minha própria tragédia do cancelamento. O meme virou um grande marcador da minha jornada, eu fiz do limão podre uma limonada através da arte.
Como você lidou com esse cancelamento? Você falou em tragédia, mas foi tanto assim?
Eu brinco que eu adiantei 10 anos de análise (risos). Pô, Lacan tá orgulhosaço de mim agora. Fui fazer terapia em rede nacional, porque eu realmente acreditava que o meu espaço, a minha contribuição social, o meu propósito de vida era a partir de uma formação mais acadêmica, na sala de aula. Mas eu entendi que eu posso construir tantas outras formas de produzir conhecimento e sobretudo trocar conhecimento. Hoje eu me percebo numa interlocução muito mais popular. E é muito massa você receber o feedback do público. Na rua, na padaria, o tiozinho da padaria, do posto, o Uber. Sabe, o meu gueto hoje é popular, cara, é um bagulho muito foda, né? Tem o bônus e tem o ônus. O ônus é barril. O ônus é barril. Mas o bônus é essa coisa, né?, de resenha.
“Brinco com a minha própria tragédia do cancelamento. O meme virou um grande marcador da minha jornada, eu fiz do limão podre uma limonada através da arte”
E vem cá, quando descriminalizou a cannabis, em junho do ano passado, você perguntou no Twitter (o X) se já tava autorizado fazer publi de maconha. Era irônico ou era de fato você se colocando pra fazer publicidade de maconha?
Ah, eu queria muito, assim, meu sonho. Queria muito, muito! Troco muita ideia com o Whindersson. Cara, muito! Porque, velho, num dado momento da minha época, eu trabalhei, eu estudei muito a política de redução de danos, muito, trabalhei na rua, então, assim, eu tenho toda uma formação sanitarista em torno da relação com o uso canábico. Em termos teóricos, saco muito, mas em termos comerciais, ainda não posso tornar isso comercial, porque a gente ainda não faz determinados debates no campo publicitário. É muito incipiente, é muito pobre isso. Eu acho que um caminho muito legal é a galera do humor. Eu tenho grandes amigos do stand-up e da comédia e eles conseguem tornar isso mais palpável, gostoso. Só que eu tô nesse rolê de mainstream, qualquer coisa que eu faço é polêmica, minha empresária come meu cu. Mas eu quero que em algum momento eu possa até fazer filme sobre a cannabis.
Pois é, já tem uma galera saindo da estufa e fazendo publicidade. Quer dizer, o que antes podia queimar filme agora tá virando oportunidade dentro da publicidade, mas tem artista ainda com medo de falar sobre maconha. Como você vê isso?
É muito foda porque a minha formação teórica, em determinados espaços, eu teria total prazer, prazer mesmo de tornar isso uma discussão sobre uma perspectiva de saúde pública, de saúde mental, saúde pública de modo geral, saúde pública que envolve debates de violência, debate de gênero, debate de classe, debate racial. Não dá para fazer um debate racial sem fazer um debate sobre a política de drogas. Eu teria o maior prazer de resgatar essa Lumena. Ela tá aposentada, tá ligado? Tá no armário porque, infelizmente, eu tenho que fazer o corre das nossas.
“Não dá para fazer um debate racial sem fazer um debate sobre a política de drogas. Eu teria o maior prazer de resgatar essa Lumena. Ela tá aposentada, tá ligado?”
Mas você não acha que gente como você, Matuê, Whindersson, falando disso com clareza e sem tabu, não ajuda a desmistificar essa questão?
Nossa, seria foda. Hoje tem os festivais, tem as feiras. Tem as feiras que trazem os produtos… Anita, se a galera se organizasse dava pra fazer um bagulho bonito. Hoje o meu networking não é uma galera que se interessa muito. Mas tá aí, gostaria muito, você trouxe uma discussão, porque eu, não só como um profissional de saúde, mas como uma mulher preta e uma ativista das relações raciais, acho uma super ignorância o próprio movimento negro não pegar a pauta da cannabis e tornar isso prioridade. Porque quem morre são pessoas negras com esse atraso de discussão. E o sistema público de saúde perde muito, gasta muito dinheiro não trazendo o debate da discriminalização. E não só o sistema de saúde, é um debate interdisciplinar, multidisciplinar e que impacta, em algum momento eu acredito que vai impactar, vai ter que chegar na publicidade, vai ter que chegar. Inclusive lá no Big Brother.
E quando esse momento chegar, você vai estar aberta?
Óbvio, óbvio. E aí assim, abrindo meu coração, hoje eu pago uma equipe, pessoas dependem de mim, da minha imagem, então, o meu trabalho publicitário está relacionado à construção e o salário de algumas pessoas. Então, hoje eu escolho os debates. Infelizmente, escolho os debates que eu posso estar, porque pessoas dependem de mim, não posso ser irresponsável em alguns lugares. Mas, politicamente, gostaria muito, muito, muito, muito de tornar isso público, assim, da maneira mais palatável possível de fazer essa discussão. E, por exemplo, trazendo um dado de rolê lá no Big Brother, a gente faz exame toxicológico das substâncias das quais a gente consome. E no meu elenco teve gente que adoeceu porque teve que interromper o uso, e lá dentro bugou. Bugou porque tem uma relação com a substância e lá dentro não podia, e aí ficou mal lá dentro e coisas aconteceram, por conta dessa relação moral que se tem em torno do uso, meramente moral.
Total moral, porque eles fazem exame toxicológico mas colocam bebida alcoólica a dar com pau.
Se tivesse autorizado a cannabis no Big Brother não ia ter briga, não ia ter treta, tá ligado? Autoriza a cannabis, Boninho! Eu não entendo o porque esse atraso, porque, por exemplo, cigarro lá é autorizado, mas nenhum outro tipo de substância.
Tem alguma substância que você consumiu e teve que parar pra entrar no Big Brother?
Eu não, mas outros participantes sim. É uma galera, meu. Mas eu não, porque eu, no meu caso, já vivi uma jornada com a cannabis, mas em um dado momento, eu falei “ah, tô de boa”. E aí eu interrompi porque é isso, também, o que a gente consome no Brasil, né?
Você tava falando da sua experiência com redução de danos, que é super interessante e que é um ponto central em toda e qualquer discussão sobre o uso de substâncias, as legais e as ilegais. Qual é pra você a importância da redução?
Se debatesse redução de danos de maneira séria, por exemplo, a gente teria um avanço, sobretudo, nesses adoecimentos da atualidade. A gente tá vivendo um momento onde as crises de ansiedade, as crises de pânico, os burnouts da vida, os usos abusivos de álcool e outras drogas, os cânceres… esse universo de adoecimento psicológico, na verdade, todo esse cenário, acho que a gente poderia estar muito melhor. Se a gente… mas é isso, não é de um processo fim, é de uma pré, é de uma tomada de consciência do aspecto escolar mesmo, da escola, da pré-adolescência, é de estar introduzido numa perspectiva filosófica de vida mesmo, não só como uma política pública, mas uma política educacional, que passa por uma reeducação, a maneira como a gente se relaciona com as coisas da vida e, por consequência, com as substâncias da vida. Porque álcool, por exemplo, álcool, cerveja… o fato de a gente naturalizar essa relação, a gente perde pessoas, perde histórias, perde relações, então, eu acho que é um debate maior, envolve educação, envolve saúde pública, envolve segurança pública.
“Porque álcool, por exemplo, álcool, cerveja… o fato de a gente naturalizar essa relação, a gente perde pessoas, perde histórias, perde relações, então, eu acho que é um debate maior, envolve educação, envolve saúde pública, envolve segurança pública”
Você nasceu e cresceu em Salvador, com uma boa condição de vida, então eu queria que você me contasse um pouco da sua adolescência privilegiada em Salvador, que tipo de contato você teve, naquela época e naquele contexto, com as substâncias?
Eu cresci num bairro periférico em Salvador. Foi interessante que eu convivia com as duas realidades, tanto a realidade que minha mãe me proporcionou em termos de acesso a uma boa educação, a bons espaços de lazer, a inglês, balé, jazz, natação, aula de violão, porque ela tinha essa consciência da importância da educação, mas, ao mesmo tempo, a gente conviveu muito com uma realidade de pessoas periféricas e tal. Então, eu cresci sempre em lugares contraditórios, e refletindo, e questionando muito por que que eu ia pra uma escola de classe média e a maioria das pessoas, mesmo em Salvador, eram fenotipicamente brancas, e num balé também, e no inglês também, e no meu bairro, por ser um bairro considerado popular, a maioria das pessoas eram negras. Então eu já cresci com essa perspectiva de desigualdade racial desde muito pequena, acho que esse contraste foi o que me causou esse tipo de reflexão mais precoce. E aí eu escolho a psicologia aos 17 anos para entender o que estava por trás da violência doméstica, porque eu convivi com violência doméstica, convivi com a minha mãe sendo vítima de violência doméstica.
E como foi que rolou o seu primeiro contato com a maconha?
Foi através de uma namorada. Eu sempre fui meio careta, mas aí minha namorada, que foi o primeiro amor da minha vida, ela sempre teve um uso não só recreativo, mas um uso diário mesmo. O meu sempre foi meio recreativo, nunca foi uma relação intensa. E aí, num dado momento eu falei “ah, não tô afim, e aí segui de boa”. Como o meu contato com a cannabis sempre foi numa perspectiva de cuidar de pessoas que tinham um uso abusivo, eu sempre fiquei com um pé atrás, porque eu lidava com as pessoas em estágios de adoecimento mesmo. O uso sempre chegou pra mim como demanda de adoecimento, então eu sempre tive um pé atrás. A minha relação, de fato, sempre foi de uma perspectiva mais de cuidar de pessoas, não necessariamente de fazer o uso na minha rotina.
E é interessante isso de você receber essas demandas quando já chegam num nível de uso problemático, mas ainda assim você tem uma abertura pra enxergar que não existe só o uso problemático, que existe também a possibilidade de usar com consciência e controle.
É, eu acho que, por ter estudado, eu nunca tive uma relação moral com a maconha, era uma relação mais neuropsicológica. Qual o impacto do uso, sobretudo dentro das formações de redução de danos? O uso adequado vai impactar de maneira A. O uso adoecido vai impactar de maneira B. Então, a minha perspectiva sempre foi numa dimensão mais neuropsicológica mesmo em relação a outras substâncias, não só à cannabis. Sempre organizei o debate sobre a cannabis nesse ambiente mais científico e menos moralista. Então, por exemplo, com a minha namorada, a nossa relação, eu falei “vou experimentar para ver qual é”. E era sempre nesse lugar de baixa dosagem, mas eu nunca quis, exatamente por processo de autoanálise mesmo, eu sei que eu tenho uma estrutura do hiperfoco. Eu tenho questões psicológicas que me colocam em lugares vulneráveis com qualquer uso, então eu sempre estabeleci limites comigo mesma com tudo na vida.
O que você aprendeu nessas suas vivências com a cannabis?
Cara, eu vivi os dois universos, o universo de uma galera mais de humanas, as ciências humanas e tal, e é uma galera que não vai ser parada na blitz, uma esquerda mais festiva, enfim, esse era o meu rolê, o meu universo, que é esse uso mais acolhido pela sociedade, esse uso que está dentro de uma certa autorização, essa era a minha galera. Quando eu ia para o hospital, quando eu ia para a rede pública de saúde, era um outro cenário, é isso que me causava revolta. Como é que aquelas pessoas precisaram chegar naquele lugar, de estabelecer essa relação com a substância, uma relação adoecida, uma relação que não é de uma produção de vida, é uma produção de morte?
O que, segundo a sua experiência, está por trás do uso adoecido?
Históricos de escassez. Escassez social, escassez afetiva, escassez de consciência de si próprio. São pessoas com histórias muito complexas, de sentido de vida, de tomar rédea da própria vida. Muitas vezes o pareamento do uso abusivo da cannabis vem por um pareamento com o álcool. Oh, irmã, se eu fosse fazer um recorte de gênero aí, assim, cara, é um patriarcado. As relações de gênero, machismo. Se a gente for parar pra ouvir e elucidar essas histórias…
Você fez um intercâmbio na África do Sul e eu queria saber como foi se deparar com uma sociedade tão parecida com o Brasil, mas que na questão canábica, por exemplo, é completamente diferente, muito mais naturalizada?
Mano, a melhor maconha da minha vida. Quando eu voltei pro Brasil, falei que essa aqui é uma bosta. Minhas parentes lá foram muito doidas, também numa perspectiva mais recreativa e tal. Mas é interessante perceber essas discrepâncias, como, de fato, lá algumas coisas são realmente moralmente atrasadas outras são moralmente avançadas. É muito doido esses contrastes, mas foi ótimo. De lá, eu só lembro do… porque lá, eu descaralhei, Anita, eu descaralhei. Eu passei o rodo, fui lá pra aprender línguas, línguas reais, né?, e em vez de conhecer o inglês, eu conheci as línguas. Em vez de uma língua, foram várias (risos). Mas… não tinha esse medo que a galera tem de fumar na rua, não vi, não tinha.
Eu sei que você tem vontade de ser mãe, como é que você abordaria a questão das drogas com seus filhos?
Cara, eu fiz esse questionamento brincando numa reunião com os amigos. Falei “caralho, mano, como é que eu vou educar minha filha ou meu filho?” Taí, é uma super questão. O meu desejo é que até lá a gente tenha avançado numa discussão mais farmacológica em relação a isso, sobretudo. A indústria entenda, porque é sempre o jogo do dinheiro, então que a indústria entenda o cenário econômico que está por trás dessa discussão, e aí a gente consegue avançar em tantas outras coisas. Se eles entenderem o lance disso aqui, tudo se resolve. O máximo de informação que eu puder passar, informações baseadas em pesquisa, sobretudo pesquisa. O máximo de informação que eu puder passar no processo educacional para a minha família, para os meus filhos, para a minha geração, e aí dar a essa pessoa o livre-arbítrio de decidir, de ter essa autonomia, essa consciência, do uso ou não uso. Minha defesa sempre vai ser essa, de preservar a autonomia dessa escolha.
“Eu já entendi que nessa vida eu realmente não fui autorizada. Mas eu tenho vários irmãos que estão aí de boa fumando o cigarrinho deles. Eu que lute, irmã, eu que lute“
Sendo você do candomblé, fala um pouco sobre a sua compreensão da maconha no candomblé.
É um debate bem complexo porque envolve uma epistemologia da religiosidade, do candomblé. No meu caso, eu entendi o que aconteceu. Eu interrompo o uso um certo dia, eu passei muito mal, passei muito mal, tive uma crise de pânico, uma coisa estranha. Eu era uma pessoa muito cética, eu não tinha experiência religiosa nenhuma. E aí eu conheço o candomblé, faço a iniciação, eu recebo um recado de que eu não posso, nessa vida, usar substâncias que alterem em algum nível a minha consciência, porque isso faz muito mal para a minha matéria. No candomblé, eu sou uma pessoa que recebe a espiritualidade, o que a gente chama de rodante médio. Então, eu não recebi essa autorização não só em relação a maconha, mas também a outras coisas, whisky, vodca. E aí eu entendo o que está por trás de várias coisas do meu processo de estrutura psicológica, da vida, por uma explicação mais filosófica do candomblé. Eu entendo que minha matéria e minha espiritualidade, elas, nesse propósito de vida, estão relacionadas. Tem pessoas que são feitas no candomblé e têm essa liberdade, aí é o processo dessa pessoa. O meu processo, de maneira muito singular e muito individual, envolve o não uso de substâncias que alterem o meu nível de consciência por conta de uma demanda espiritual. Pessoas que trazem esse legado dessa energia espiritual, em sua maioria, não podem fazer o uso de uma substância canábica. Hoje eu tenho cinco anos de cabeça feita, e eu passei bons perrengues. Então eu realmente não fumo mais, zero fumaça, zero, zero, zero. A única coisa alcoólica que eu tenho realmente ainda uma certa relação é vinho, tô no rolê, tomo um vinho e, quando eu exagero, tomo muito no meu cu também. Eu já entendi que nessa vida eu realmente não fui autorizada. Mas eu tenho vários irmãos que estão aí de boa fumando o cigarrinho deles. Eu que lute, irmã, eu que lute (risos).