Reportagens

Nada de prensado

Brasileiros cruzam a fronteira para comprar maconha legal no Paraguai
31|10|24

“Eu sabia que maconha era proibida no Brasil, mas quando cheguei em um shopping do Paraguai e vi uma loja com maconha pra todo lado fiquei curiosa para entender porque uma coisa ilegal pra nós está até no shopping em outros países”, conta A. M., que cruza a fronteira com o país vizinho todos os meses, onde compra itens para revender, e nessas idas e vindas, virou consumidora também de subprodutos da erva. A sacoleira é uma das pessoas com quem a reportagem da Breeza conversou e que não quiseram se identificar por medo de complicações jurídicas.

É que a entrada de produtos de cannabis no Brasil não está permitida, o que na prática pode não dar em nada, ou, dependendo da (má)sorte, pode render uma acusação de tráfico internacional, conforme esclarece a advogada Marcela Sanches Goldschmidt. Na maioria das vezes, não dá nada mesmo, e os milhares de brasileiros que diariamente cruzam a fronteira de volta com chás, cremes de beleza, molhos e outros vários produtos feitos com maconha chegam em casa sã e salvos – e com lembrancinhas pra lá de especiais.

Há cerca de dois anos, surgiram os primeiros dispensários do Paraguai, que são autorizados a comercializar produtos de CBD (com um limite de até 0,5% de THC) em diversas categorias de consumo, como alimentos, bebidas, cosméticos e fitoterápicos. Um projeto de Lei, em discussão neste exato momento, propõe a autorização também para a produção e a venda de produtos com THC. “Todos estão a favor, estão apenas ajustando os detalhes, que devem ser aprovados e virar lei no primeiro semestre do ano que vem”, acredita Marcelo Demp, presidente da Câmara do Cânhamo Industrial do Paraguai.

A taxação para os produtos com THC será de 18%, enquanto que para os produtos não psicoativos é de apenas 5%, uma saída interessante para o novo marco regulatório da cannabis no país, o mais desenvolvido em se tratando da variedade industrial da planta na América Latina e o único do continente a permitir a venda de produtos de cannabis em dispensários.

OS PRIMEIROS DA AMÉRICA LATINA

Atualmente, 20 dispensários estão posicionados estrategicamente nos principais shoppings e nas fronteiras com o Brasil, Pedro Juan Caballero (com Pontaporã) e Ciudad del Este (com Foz do Iguaçú), e têm um público-alvo bem definido. “Os paraguaios não têm tanto conhecimento quanto os brasileiros, não são tão aficionados pela maconha”, analisa Demp.

Os brasileiros representam cerca de 60% das vendas nos dispensários e chegam cada vez em maior número, interessados em experimentar novos produtos de maconha, como sais de banho, óleo de massagem, chocolates e, muito em breve, também a cerveja, que no Brasil a gente encontra apenas Na versão terpenada, sem canabinoides, mas que o dispensário Life Green deve lançar até o fim do ano nas suas três lojas. Uma delas, aliás, será inaugurada nos próximos dias no shopping New Zone, e vai ter um viveiro de 5m2 com plantas vivas. A inovação responde à provocação proposta pelo próprio shopping, que pediu aos lojistas que apresentassem experiências criativas para se destacar das dezenas de outros centros comerciais.

“Na cannabis todos vendem, mas ver a planta de perto é só na nossa loja”, orgulha-se Nicolás Ahner, diretor do Life Green, que para viabilizar o primeiro indoor de plantas vivas em um shopping na América Latina – uma decoração, digamos, inusitada – precisou apenas comunicar o órgão de drogas do país e, claro, ter a autorização do local, que abriga também marcas como o Hard Rock Cafe e Lamborghini. 

Se antes o Paraguai era a maior referência na importação ilegal do velho conhecido prensadinho, o país agora resolveu se posicionar como o maior vendedor de maconha legal para os brasileiros em viagem ao país. “Sempre vem brasileiros buscado vaporizadores de THC, mas eu explico que não trabalhamos ainda com esse canabinoide. Então eles levam outros produtos, sobretudo pomadas, infusões e azeites sublinguais”, conta Ahner.

BRASILEIROS: CLIENTES PREFERENCIAIS

Tanto a publicidade das lojas quanto os cartazes e flyers são escritos apenas em português ou, em alguns casos, português e espanhol. Os dispensários também aceitam pix como forma de pagamento, e todo tipo de pagamento físico ou digital. E isso quer dizer que os bancos brasileiros já estão realizando operações de compra e venda de maconha, mesmo antes de o Brasil ter um marco regulatório estabelecido. Interessante, não? 

Essa questão da bancarizão do cannabusiness acontece de maneira fluida desde 2020 no Paraguai, onde até então as instituições bancárias não aceitavam operações desta natureza. Até que o banco estatal foi o primeiro que autorizou. “O presidente do banco entendeu que não se pode dar a bola, autorizar a partida e não deixar fazer gol. Esse dinheiro tem que chegar até os bancos, ter traçabilidade e não teve outra solução a não ser liberar”, lembra Demp, que atuou pessoalmente, com a Câmara do Cânhamo e outras organizações pró-cannabis, para convencer o Banco Nacional a abrir as portas para a maconha.

Os óleos à base de canabidiol, que no Paraguai são produzidos como fitoterápicos, ou seja, sem os selos exigidos pela indústria farmacêutica, vem se popularizando entre os turistas brasileiros, que têm retornado ao país para dar continuidade ao seu tratamento, comprando diretamente de marcas paraguaias de óleo de cannabis registradas na Anvisa, e assim, entram com o produto medicinal no país através da RDC 660, norma que rege a importação de cannabis.

“As duas lojas que temos nas fronteiras têm médicos trabalhando, prescrevendo produtos que se podem comprar na hora com a receita e a autorização da Anvisa, que sai no mesmo instante”, explica María José Rey, CEO da rede de franquias Cannashop, que além dos óleos sublinguais conquistam os brasileiros também pelas gummies, infusões para dores menstruais e flores medicinais a granel, aquelas mesmas, proibidas pela Anvisa, mas que os brasileiros continuam dando seu jeito de acessar dando um pulinho logo ali, no Paraguai.

Anita Krepp