
Sabe-se que a maconha é uma das primeiras plantas a serem cultivadas no Leste da Ásia, tanto pela fibra do cânhamo quanto pelos propósitos medicinais, ritualísticos e psicodélicos. Os primeiros indícios de consumo da planta datam de cerca de 12 mil anos atrás, mas se acredita que por milênios o principal fim seria para o uso das propriedades da fibra, como relaxante ou mesmo pelo odor agradável em cerimônias religiosas, pois rende um bom incenso. Apesar da fama da cannabis por como ela mexe com nossa mente, ainda pouco é conhecido e muito menos é amplamente divulgado sobre as origens do hábito brisado de bolar e fumar um.
A Breeza mergulhou no assunto, mostrando onde, quando e como tiveram a ideia de selecionar as plantas de maior THC para queimar e dar um barato. E quando e como chegou no Brasil? Por que se espalhou o costume de bolar os baseados? Respondemos a essas dúvidas históricas nesta reportagem que tem o apoio institucional da Bem Bolado, marca que dispensa apresentações à nossa comunidade breezada por também ser apoiadora do nosso podcast de entrevistas, o Saindo da Estufa.
NOSSAS PRIMEIRAS RODAS
A cannabis não é originalmente de nosso país (ao contrário do tabaco, apresentado aos europeus em forma de fumo pelos nativos) e chegou ao Brasil junto com as primeiras caravelas no século XVI, na forma do cânhamo usado até nas velas das embarcações, mas também já sendo apreciada pelos marinheiros portugueses. “Há dois hábitos distintos de uso: um de influência indiana, da região do Egito e da Líbia, onde o costume é de comer ou beber, em forma de resina, do haxixe; e o de secar e fumar, da África Subsaariana, onde optaram por essa forma, provavelmente pelo clima”, nos conta o historiador Jean Marcel Carvalho França, autor do livro “Histórias da Maconha no Brasil”.
Os europeus colocavam a planta até em seus chás. Só que não dava qualquer barato, o que pegava era mais o do CBD. “Usavam provavelmente pelo efeito relaxante, para o descanso”, acrescenta França.
O hábito de fumar um veio em outro tipo de embarcação, uma que é simbólica de momento vergonhoso de nossa história e do qual até hoje procuramos nos redimir como nação: nos navios negreiros. “Os escravizados provavelmente não trouxeram a planta e nem sementes com eles, pois ambos teriam se tornado alimento nas condições terríveis, degradantes em que vinham”, diz o historiador Gustavo Maia, que em seu trabalho “A Maconha no Brasil Através da Imprensa” compilou registros midiáticos da ganja entre 1808 e 1932 e é também criador do perfil Cannabis Monitor no Instagram.
“O que eles trouxeram foi conhecimento, como na forma de usar e de fumar. Ao desembarcarem, encontraram a planta aqui, disseminada em plantações de cânhamo, e aí passaram a usar para a finalidade que conheciam, tirando os melhores benefícios da flor”, narra Maia.
Já seu colega Jean Marcel Carvalho França defende outra teoria. Para ele, as sementes também podem ter sido trazidas (assim como o costume de fumar) nos navios negreiros, mas não pelos escravizados. “Através dos tratadores de escravos, dos intermediários, muitos dos quais eram negros e até chegavam a enriquecer fazendo o transporte de escravizados negros”, diz ele.
A forma de fumar nesses primórdios não era a do baseado. Usavam-se principalmente recipientes com água, similares a bongs, além de cachimbos secos. “E queimando flores secas em bongs, desses que hoje são de vidro, mas na época artesanais, de cabaça”, conta Gustavo Maia, que em suas pesquisas resgatou notícias e imagens com esses métodos desde o século XIX. Uma das ferramentas tradicionais era, por exemplo, o grogoió, que pode ser visto na imagem que abre essa reportagem, fornecida pelo historiador.
BASEADO, BOLADO, BECK, FININHO…
Para os historiadores, o hábito de bolar e fumar baseados aparece no Brasil já no século XX. Em seu estudo da presença da maconha no noticiário brasileiro, Gustavo Maia reparou uma ligação dessa forma de uso com a onda de repressão, perseguição e proibição que se deu a partir do fim da década de 1920.
Até esse período, a diamba era restrita a grupos marginalizados, tanto de escravizados e depois de seus descendentes do povo preto brasileiro, quanto por indígenas e brancos de classes econômicas mais baixas. Aos segundos e terceiros, a erva foi apresentada e compartilhada pelos negros. Segundo os historiadores entrevistados por Breeza, além de pela pesquisa histórica realizada, essa é a principal razão de por séculos a planta ter passado mais despercebida pelas elites. Já falamos deste tema aqui na Breeza, aliás.
“O hábito de fumar começa a ser problematizado pelas câmaras municipais, que viam os trabalhadores negros se aglomerando em praças. Mas se limitavam a atos administrativos esporádicos, começando por algumas cidades no Rio de Janeiro, por Campinas (em SP)”, pontua Carvalho França. Segundo analisa, no século XX a questão começa a ser temida pela elite quando a prática chega aos jovens dessa mesma elite.
O historiador Gustavo Maia aposta que o início da onda de bolar baseados surgiu como forma de tentar driblar a repressão. Ele acredita que os usuários recorriam às sedas para fazer a maconha ficar mais parecida com o tabaco, imitando assim os cigarros convencionais. Tanto que pelas praias do Rio dos anos 1930 e 1950 eram vendidos (ilegalmente, sim) maços de cigarro, mas cheios de fininhos de ganja.
Jean Marcel Carvalho França, do livro “Histórias da Maconha no Brasil”, levanta outra teoria: “Tenho a impressão de que até ali pelos anos 60 prevalecia mais o hábito de fumar nos cachimbos e com outras ferramentas tradicionais”. Segundo sua hipótese, cigarros de maconha seriam mais raros até aquele período. O que teria mudado isso? “Tem a ver com os beatniks, o flower power, os hippies”.
Por essa teoria, os movimentos importados dos Estados Unidos teriam disseminado também o costume de fumar baseado, em uma cultura que chegou também às classes econômicas mais privilegiadas desse nosso Brasil de desigualdades evidentes. Seria essa uma das raízes de nosso beck? Pode ser, sim. Se for, aí a semente teria sido no México.
No documentário em quadrinhos “Cannabis – a ilegalização da maconha nos Estados Unidos”, do quadrinista estadunidense Brian Box Brown (entrevistado pela Breeza em uma andança pelas ruas de São Paulo), narra-se como as primeiras evidências de joints (o equivalente em inglês para baseado) datam de 1850, no México. “Apesar de se ter certa ciência de que esse costume é bem mais antigo, mesmo no México”, comenta Box Brown, em trocas de mensagens com a Breeza. De lá essa forma de uso foi para os Estados Unidos e conquistou jazzistas, tornando-se ritual simbólico das comunidades latinas e afro-americanas, antes de se popularizar globalmente com os hippies.
Logo bolar um virou parte de nossa cultura. Um hábito de conforto, lazer, medicinal, ritualístico e para qual fim for o seu. E que após muito fumo já é em parte legalizado no país, em sua versão para fins terapêuticos, e cujo uso adulto foi recentemente descriminalizado.
A SEMENTE NA ÁSIA





Se a cannabis chegou pelas caravelas e pelos navios negreiros, onde ela estava antes? A planta tem origem no Leste da Ásia, isso mencionamos lá no início dessa nossa conversa. Só que quando ela começou a ser fumada para dar um barato?
Uma pesquisa publicada em 2019, de cientistas de diversos países, mas principalmente ligados aos departamentos de arqueologia e antropologia da Universidade da Academia Chinesa de Ciências e do alemão Max Planck Institute, traz as evidências mais antigas que se tem desse hábito. Os pesquisadores encontraram vestígios de cannabis em dez vasos de madeira escavados de sepulturas do cemitério de Jirzankal, localizado no Planalto do Pamir, numa região que é no atual extremo oeste da China. Os recipientes milenares continham pedras que ficaram expostas a grande aquecimento, ou seja, eram algo como incensários primitivos que exalavam maconha (confira nas imagens da galeria acima).
Até aí, já haviam evidências mais antigas de cannabis sendo usada como incenso. A grande descoberta se deu na análise química do que foi achado. Aquela maconha era das que batem forte, com maiores índices de THC. Do tipo que não era encontrada solta na natureza, naquela época. Segundo os cientistas, isso indicaria que a planta era cultivada com fins psicodélicos (de alguma forma ainda desconhecida esses nossos ancestrais selecionavam as cepas com maior THC) e, naquele caso de 2,5 mil anos atrás, estaria presente em uma cerimônia religiosa.
Assim os pesquisadores descrevem, no estudo publicado pelo renomado periódico científico Science Advances, como deve ter sido essa cena há milênios: “Nós podemos começar a montar um quebra-cabeça de uma imagem de um rito funerário que incluía chamas, música rítmica e fumaça alucinógena, tudo com a intenção de guiar as pessoas para um estado alterado da mente”.
As evidências, contudo, param aí. A cannabis era disseminada na sociedade? Quais tipos de grupos usavam? Quais eram os propósitos fora desses rituais? De forma bem direta, nos respondeu o arqueólogo Yimim Yang, principal autor do estudo: “Não temos análises arqueológicas sobre isso. Talvez os arqueólogos deem mais informações no futuro”.
O que se sabe é que a cannabis acompanha a humanidade há milênios. Disseminou-se como uma planta de poder pela Rota da Seda, pelos mares, espalhando-se por todos os continentes. Só muito recentemente, no século passado, resolveram usá-la como motivo para reprimir quem a usa em uma mentirosa e falida Guerra às Drogas. Felizmente, vemos brisas melhores nos últimos tempos, agora com uma onda global contrária à guerra, de legalização, progresso e aceitação de nossas rodas.
Filipe Vilicic,
em conteúdo apoiado pela Bem Bolado