
Xico Sá, como ele mesmo diz, sempre foi da psicodelia. E a gente bem que desconfiava. Esse sujeito que dá pinta por aí com as suas camisas invariavelmente floridas, é interessado nisso mesmo, no lado colorido e luminoso da vida. Uma inspiração que tem tudo a ver com o uso consciente que faz da maconha e dos psicodélicos.
As primeiras experimentações com o LSD, por exemplo, aconteceram ali no começo dos anos 80, mais ou menos na mesma época em que começou a escrever profissionalmente. Não dava pra ser diferente: a psicodelia e a escrita abriram, de fato, as tais portas da percepção de Xico.
Naquela época, já morava em Recife e lembra da qualidade da maconha com um carinho especial, com orgulho de ter pegado a melhor época das colheitas às margens do rio São Francisco. Segundo Xico, essa erva era cobiçada no país inteiro até meados dos anos 90.
O escritor, que está lançando “Cão Mijando no Caos”, o seu 15º livro, conversou com Anita Krepp sobre as suas experiências pessoais com substâncias legais e ilegais e de políticas de drogas. E falou ainda sobre a sua reinvenção no jornalismo, de Deus, pátria e família, mas de olhos sempre abertos para enxergar, e na medida do possível evitar, as armadilhas do capitalismo.
No seu novo livro, “Cão Mijando no Caos”, você novamente mistura política, amor e sexo. Como é que esses três temas conversam na sua cabeça? Por que você tem tanto apreço por esse trisal?
Ótima pergunta. Olha, sempre foram meus temas, assim, da vida inteira. Até por não saber e não querer separá-los. O jornalismo peca quando separa esse tipo de coisa. Eu digo o jornalismo mais sério, que tem a obrigação de entregar as coisas mais empacotadas, mais padronizadas. Mas eu acho que é a mesma história, é a mesma política, é a mesma ideia de estar no mundo. Essas coisas caminham juntas, se acorda com elas, se dorme com elas. Por isso que nas crônicas do “Cão Mijando no Caos” estão ali no dia a dia, fazem parte do cotidiano como qualquer história. Não tem como você tirar a ideia de corpo, de amor, desejo, da questão política, na hora H tem interferência de um no outro. Então no livro esses temas se conversam entre si o tempo inteiro. Até mesmo quando é um texto mais de humor e tal, mas estão ali presentes. E falando em trisal, as relações não monogâmicas viralizaram no Brasil num movimento que acontece de maneira especial. Eu sinto, no nosso país, e que é uma coisa que não vejo fora, por exemplo, essa coisa poligâmica.
E você acha que isso é reflexo de uma adolescência que todos nós estamos passando enquanto país?
Acho que junta tudo, mas eu vejo muito até como a gente voltou a ter uma uma política de moralismo, pesada, de repressão, principalmente de 2018 para cá. Eu creio que seja até uma resposta, sabe? E que seja também um escape. Fechou demais o tempo do outro lado. É muito isso. Tem também uma cota, e aí eu estou lembrando de quando trabalhei com a Regina Navarro Lins. A gente se reunia antes de ir no vídeo do Amor e Sexo, programa da Globo. A gente escrevia o roteiro do programa, então a Regina foi quem me ensinou muito sobre esse universo. Pessoas como ela, que sempre puxaram essa pauta, também merecem crédito nessa hora. De alguma forma é meio a vingança de várias Reginas que não deixaram a peteca cair. Sempre estiveram, principalmente nos livros dela, sempre mostrando a importância, mostrando que a ditadura dos velhos relacionamentos não servia mais para agora. Então nessa hora eu aproveito para aplaudir a Regina, que leva inclusive para a TV aberta esse tema. Não é pouca coisa quando uma pessoa de uma altura da importância dela leva esses temas para a TV aberta em todos os lares, no programa popular. Essas pessoas também contribuíram muito. Mas eu creio que agora haja a necessidade até de se expor mais, isso por conta da repressão que foi muito braba, muito pesada. Você teve esse discurso religioso, hipócrita, que a gente teve reforçado com muito vigor em 2018. Eu acho que isso fez com que as pessoas tivessem gosto por essa defesa, por esse manifesto de outra forma de viver, de viver mais livre. Acho que veio muito em consequência desse arroxo agora que vivemos.
“A gente voltou a ter uma uma política de moralismo, pesada, de repressão, principalmente de 2018 para cá. Eu creio que seja até uma resposta, sabe? E que seja também um escape. Fechou demais o tempo do outro lado”
E a não monogamia funciona?
Olha, eu acho que pode dar certo, pode dar errado, em qualquer modelo que for. Acredito muito mais na nossa grande capacidade de dar certo ou dar errado, porque somos humaníssimos. Acho ruim, inclusive, essa coisa de assim vai dar certo, assim vai dar errado. Vamos viver lindamente no modelo que escolhemos e tentar prolongar o máximo tempo possível. Porque aí você sai do papinho de quase uma obrigatoriedade de ser feliz para sempre, que passa a ser uma pressão muito pesada para qualquer casal, para qualquer pessoa. É muito da escolha e do acordo das pessoas. Não passa por… ah, agora nesse caminho a gente pode ser mais feliz assim, nesse pode ser menos. Eu já vivi todos os possíveis. E não sei se tem uma receita, sabe? O que eu acredito é que quando esse modelo do amor romântico, da obrigação da felicidade, esse modelo abençoado pelas igrejas, etc., esse eu creio que é o mais falido, sem a menor dúvida. Acredito muito mais nas combinações entre as pessoas do que em qualquer credo ou qualquer regra religiosa, sabe?
Xico, esse é o seu 15º livro. Quantas dessas quinze obras foram escritas sob o efeito de alguma substância?
Olha, eu creio que não é nem a hora da escrita, talvez tenha sido mais a, digamos, inspiração. Que é um momento muito nobre, quando você tem aquela eureca. Por exemplo, o título desse livro, para eu lembrar do “Cão Mijando no Caos”, que era um verso do Drummond, que eu tinha lido lá no Cariri ainda, numa apostila que eu estava estudando para ser funcionário do Banco do Brasil. E, tanto tempo depois, eu lembro desse título. De alguma forma é um presente ali do inconsciente que está sendo estimulado. Mas já tive muita coisa boa que veio, por exemplo, com a maconha. Quando eu morava em Pernambuco, acho que o começo da minha história como poeta, como cronista, foi muito ligado à abertura das portas da percepção no universo, na época, à grande e famosa internacionalmente maconha do São Francisco, das margens do São Francisco. Essa maconha produzida nas ilhotas do Rio São Francisco, principalmente do lado de Pernambuco. Pernambuco, Petrolina, Juazeiro, sempre tiveram muita fama. E não é por nostalgia, mas eu peguei essa planta no seu melhor momento, que eu creio que tenha sido na minha chegada no Recife, no começo dos anos 80. Então, imagina os benefícios que eu recebi para a escrita, não só para a escrita, mas para viver, para a ideia de viver de maneira mais suave, de tentar tirar os pesos dos ombros do mundo ali na pós-adolescência. Então, fui beneficiado ao extremo. Talvez hoje eu nem perceba o quanto faz bem à humanidade, como percebia nessa época, porque eram os primeiros contatos, era aquela coisa da chegada na universidade, uma hora de abertura completa da percepção, das famosas portas da percepção.
“Já tive muita coisa boa que veio com a maconha (…) o começo da minha história como poeta, como cronista, foi muito ligado à abertura das portas da percepção no universo”
Eu não sabia dessas plantações de maconha nas margens do São Francisco. Conta um pouco.
O Nordeste inteiro sempre teve grandes plantações e viveu sufocado por essa repressão pesada. Afinal de contas, a legislação proíbe. Mas você tem uma produção muito farta nessas regiões até meados dos anos 90, quando aumenta mais ainda essa caçada, essa repressão. Mas esse produto ligado ao São Francisco, às águas do São Francisco, tem toda uma mística da qualidade. Era muito cobiçado no país inteiro até o começo dos anos 90.
Então, realmente você viveu aquela boa época, né?
Sim, sim, sim. Nesse sentido, sim. Eu lembro, por exemplo, era tão farta essa produção que já como repórter, com o Fernando Gabeira, participei dessa coletiva lá no Palácio do Campo das Princesas, em Pernambuco. O Fernando Gabeira levando um projeto para o então governador Miguel Arraes, no começo dos anos… meados dos anos 80, o Fernando Gabeira tentando convencer o governo de Pernambuco a plantar maconha, a incentivar o plantio para o uso do cânhamo, para confecção, porque ele via que, no mundo inteiro, era um baita sucesso econômico. Poxa, temos terras generosas para maconha que você não tem praticamente em outro lugar do mundo. Por que não aproveitar isso economicamente para desenvolver o país, a região? Sempre apareceram essas boas propostas, mas a hipocrisia, a legislação atrasada, a maneira de ver as coisas só pelo ângulo policial impediram, inclusive o desenvolvimento econômico a partir da maconha. Já temos uma indústria ligada à maconha para tratamento, a maconha das terapias de medicação. Isso faria com que estivéssemos agora na vanguarda do mundo. Se não tivéssemos vivido sob a ótica completamente tacanha, ridícula, sem sentido dessa perseguição policial. Muita gente, no Recife mesmo, já batalhava por isso nos anos 80 de forma séria, responsável. Imagina se a gente tivesse desenvolvido isso. Estaríamos falando com o mundo de uma forma que não teria ninguém adiante nesse momento.
E aí foi só com a maconha ou tiveram outras substâncias também nesse seu momento de descoberta?
Não, experimentei LSD com amigos, que foi também uma coisa que era, num certo sentido, quase religioso, no bom lado da religião. Estamos falando de outro tipo de religião, num sentido também de descoberta, principalmente de descoberta, uma coisa que está em você, está na tua mente e que você não entendia, não compreendia o que representava certos pensamentos, certas frases e, hoje, mais do que nunca, está se comprovando. Você já tinha estudos, você tinha o Timothy Leary com vários estudos aprofundados, mostrando até o sentido terapêutico da psicodelia, onde você tem a comprovação científica. Você tem pessoas sendo curadas no mundo inteiro, casos em que a psicologia tem dificuldades, em que a medicina convencional tem dificuldades e tem sido comprovado, a psicodelia tem resolvido muitas histórias de pânico, de casos psiquiátricos. Você já tinha esses pioneiros do LSD há décadas, mas agora, a não ser que você queira permanecer nas trevas total e na ignorância, você deixa de reconhecer. Porque o mundo inteiro, inclusive o mundo acadêmico, prova e diz isso.
“Sempre apareceram essas boas propostas, mas a hipocrisia, a legislação atrasada, a maneira de ver as coisas só pelo ângulo policial impediram, inclusive o desenvolvimento econômico a partir da maconha”
Em 2021, você visitou um brasileiro que cultivava maconha no Uruguai e estava impressionado com a atmosfera do país legalizado. Você também cultiva ou já chegou a cultivar em algum momento?
Eu sou um péssimo agricultor, seja de maconha, seja de qualquer coisa. Nem um pé de tomate eu consigo, embora eu tenha uma origem rural, uma origem na roça. Não, nunca cultivei. Mas lá foi uma bela experiência. Eu tinha ido até fazer uma reportagem de esporte. Era o final da Libertadores, aproveitei para fazer essa reportagem. Ali, com o tipo de coisa que testemunhei, o que eu queria passar naquela história como repórter era ´olha que tremenda besteira fazem os países com a repressão´. Vê que se pode legalizar, que isso não vai deixar a sociedade maluca, como a voz da hipocrisia diz, que isso não significa nada, que se pode viver uma vida infinitamente melhor do que com a repressão policial. Aí fiz aquela visita e mostrei ali um país. E olha que agora acho que está completando dez anos que o Uruguai legalizou. Eu queria mostrar que um vizinho nosso não era nem um país assim que fosse governado por uma esquerda radical, nada disso. A população em massa aprova, você compra na farmácia. Só para mostrar que vamos parar com essa hipocrisia, com essa besteira.
E você, que é um ferrenho defensor da democracia, considera que a legalização das drogas também é sobre democracia?
Talvez seja a coisa mais importante para se cuidar em matéria de política. Sei que a gente não tem um cenário em que isso esteja possível, porque tem um Congresso medonho. Mas quando você pensa nessa falácia da guerra às drogas, gente, vivemos há décadas com o Estado colocando todo o dinheiro do mundo nessa tal guerra às drogas, que só leva a matança de jovens, principalmente jovens pretos da periferia. As cadeias estão apinhadas na sua maioria por jovens que foram pegos na rua com baseado ou sendo aviãozinho do grande tráfico. A legalização destruiria essa ideia de guerra às drogas, essa coisa ridícula, essa matança. Eu creio que enfraqueceria as organizações criminosas de uma forma como a gente nunca viu. Por isso que acho que a defesa da legalização é uma defesa política de suma importância.
“A legalização destruiria essa ideia de guerra às drogas, essa coisa ridícula, essa matança. Eu creio que enfraqueceria as organizações criminosas de uma forma como a gente nunca viu. Por isso que acho que a defesa da legalização é uma defesa política de suma importância”
O Lula tem decepcionado bastante quanto à política de drogas, né? Botou dois conservadores no STF, se finge de morto. Também criou o Bolsa Família e mudou a realidade de milhões de pessoas no país. Então tem coisas que sim e tem coisas que “putz, Lula”. E aí como é que dá pra gente criticar?
Eu acho que todos os governos democráticos não conseguiram avançar muita coisa. O Fernando Henrique Cardoso, que também é super legalize e tal, não avançou em nada. Por que também na hora H ele estava com o apoio dos conservadores para conseguir governar. Na época era o PFL e tal. Então poderia ter avançado, mas não avançamos tanto. O Lula enfrenta o mesmo tipo de problema do Fernando Henrique nesse sentido. Se avança, qual o risco de cair? Então é tudo… no governo, conheço muita gente que tenta fazer o que pode. Você tem núcleos dentro do governo que tentam avançar. Mas na grande política, na hora H, na negociação com a turma do Artur Lira, a gente sente que não está avançando em nada. O que foi importante agora é que essa decisão, por exemplo, das 40 gramas, que não é nada, mas veio via Supremo, foi um grande avanço… que o Congresso está tentando derrubar já. No dia seguinte eles já estavam tentando. Vai ser essa guerra, mas por isso que é importante a gente falar. Como a gente fala aqui, nessa nossa conversa. Cobrar o Lula, cobrar qualquer governante. Eu acho que isso não impede que haja uma cobrança e a manutenção dessa pauta, como vocês fazem. Uma coisa ainda mais importante é isso. Não deixar esse assunto morrer e tentar mostrar para a população que essa hipocrisia não vai melhorar uma vírgula no país. Pelo contrário, vai matar pobre, vai matar preto de periferia, vai levar ao extermínio, lotar cadeias com o garoto suburbano que foi pego com cigarro de maconha.
É a máquina de moer gente e de levar gente para o tráfico, de piorar a situação da segurança pública. Parece uma roda que fica girando e se alimenta da nossa política.
Perfeito. E vendendo a falsa ilusão de que essa repressão vai melhorar a política de segurança. Não melhora. A gente vê o que é agora mesmo. Acabou de sair um novo pacote de dados do IBGE sobre a questão da segurança pública no país inteiro. Os lugares mais violentos é onde têm mais repressão nesse sentido. Só resolve isso com o fim dessa guerra às drogas. Que não é guerra às drogas, é guerra à sociedade.
Xico, você tem uma personalidade superlativa de quando ama muito, de muito fã de comunismo, de futebol, até da igreja. E esse ser tão apaixonado e intenso também se reflete no uso de drogas? Ou você acha que essa característica pode desencadear em uma relação não saudável, de vício?
Eu creio que qualquer coisa em exagero, com radicalismo, pode prejudicar, até água. Se você começar a tomar dez litros de água por dia pode dar uma confusão. Nesse sentido, acho que a gente tem de ser muito cuidadoso e responsável, como comunicador, com o que passa. Mesmo você tendo o total direito de escolher a vida que você queira, o modo que você queira levar. Hoje, acho que em relação a tudo, a mesma questão da bebida, que já peguei muito pesado. Hoje, sou um vegetariano com algumas pequenas licenças para cometer uns pecadílios. Em tudo, estou muito nessa linha hoje em dia. Mas, sim, já cometi meus excessos. Meus excessos em todos os sentidos, com várias substâncias além da maconha. Eu sempre fui muito mais a favor. Isso está até na minha crônica, no humor e tudo. Sempre fui muito da psicodelia. Nunca fui de algo diferente desse universo. Sempre tem muito a ideia da psicodelia com o riso. Qualquer substância tem quase a obrigação de ser ligada ao riso.
Totalmente, do lado luminoso, xô baixo astral…
Mas, claro, o excesso, no caso, com uma coisa que pode ser muito baixa astral, foi com a bebida. Claro. Mas, com essa parte… sempre recomendo essa parte boa da vida que é a psicodelia, até para tratamentos de questões mentais, é uma maravilha comprovada pelos melhores estudiosos dessa área. Eu gosto muito dos escritos do Sidarta, claro. Ele é do Centro de Estudos do Cérebro, de Natal. E eu acompanhei muito todas as experiências e os estudos deles, desde o comecinho, com o uso da psicodelia, do LSD, e de outras substâncias que eram já usadas pelos indígenas, como a jurema. Eles têm esse trabalho importantíssimo, que é um trabalho responsável, com acompanhamento. Os grupos que fazem isso têm o acompanhamento médico mais sério possível. Então, sou muito curioso com essa experiência da psicodelia ligada à psiquiatria.
“Sempre recomendo essa parte boa da vida que é a psicodelia, até para tratamentos de questões mentais, é uma maravilha comprovada pelos melhores estudiosos”
Mas você tem práticas psicodélicas atualmente?
Não, nada mais profundo. Eu falo como cronista e tal, como objeto de estudo. Eu leio tudo sobre essa área, principalmente do mundo do Sidarta. Tem um jornalista, o Marcelo Leite, ele escreveu um livro também sobre essas práticas. Saiu pela Editora Fósforo, se não me engano. Ele tem trazido as grandes histórias do Brasil e um acompanhamento jornalístico mais sério. Então, tenho procurado estar muito ligado a esses estudos. Por que quanto mais informação você passa nesse sentido, para dar mais credibilidade, você vai matando a hipocrisia com dados, argumentos. Aqui não é folclore, não é coisa de doidão. Não, isso aqui é real. Isso aqui tem estudo médico, científico.
Xico, o homem branco, hétero cis, de meia idade, ele vem perdendo esse espaço preferencial que sempre teve na sociedade. Mas você, que é tudo isso, curiosamente anda na via contrária ao ostracismo. Por que?
Por que eu detono esse tipo, que é o meu tipo, de certa maneira, praticamente desde que eu nasci. Eu perdi essa ilusão muito cedo. Eu tinha uma coluna, que foi quando comecei a escrever sobre esse tema, na Revista da Folha, ainda ali em 1990, 1991, e eu já detonava muito essa ideia desse macho ridículo, com todos aqueles defeitos que vem ao mundo, impregnado daquela cultura que faz o mal terrível, faz o mal terrível no amor, no dia a dia, faz o mal terrível para a família, para tudo, para o convívio, para os relacionamentos. Eu sempre achei que havia algo de muito errado nisso. Talvez eu tenha sobrevivido porque eu sou muito crítico a esse modelo. Sempre dei muita porrada nesse modelo. Claro, escrevendo textos de humor, mas sempre em uma linha muito crítica, porque não acredito nesse tipo, eu acho que está falido. E eu vim crescendo nessa crítica até o livro que acho que é o mais crítico nisso, que é “Os Machões Dançaram”, que é um livro de uns oito, dez anos atrás, que nesse eu acho que consolido todo o pensamento que eu vinha já evoluindo desde 1990. Nesse “Os Machões Dançaram” é quando eu chego realmente à conclusão de que “olha, esse não é o caminho, se a gente continua com essa ideia, a gente vai destruir todas as possibilidades de bons relacionamentos, de boas histórias amorosas, de boas histórias de relacionamento com filhos, com todo mundo”. Por que esse modelo está falido. E, por incrível que pareça, é um modelo que teve uma retomada muito forte. Aí eu volto ali ao princípio do governo Bolsonaro, porque voltou-se a fazer um elogio muito forte a essa macharada que age assim até agora.
E você não acha que também esse momento que a gente está vivendo não deixa os homens bastante confusos? Vão trocar isso tudo, essa bagagem e tal, pelo o quê?
É uma crise, assim, nesse sentido do macho meio perdido, já há muito tempo. Mas acho que, na real, há muita preguiça por parte nossa, há muita preguiça por parte dos homens, um comodismo. Nós, homens, nos acomodamos, inclusive em ficar nessa, estou perdido, estou perdido, como se fossem umas crianças de 10 anos de idade. Então, acho que há, na real, uma preguiça tremenda do homem em evoluir, em abandonar esse modelo que sabe que é uma farsa, não existe. O modelo dos nossos pais, dos nossos avôs, o meu modelo, o modelo da minha geração, é uma farsa, não leva a nada, só à infelicidade total. Porque você fica nessa de se dizer que está perdido ou buscando desculpas culturais dos tempos do meu avô, da minha avó, em vez de estar tentando construir uma história nova.
Então, você fez uma transição do jornalismo para alguma coisa mais autoral, uma transição que, no fundo, todo jornalista deseja fazer e, no seu caso, foi muito bem-sucedida. O que você diria para os jornalistas que estão fodidos hoje, trabalhando pra caralho, ganhando pouco, com medo de demissão e nenhuma perspectiva de futuro?
Nossa, você traçou o quadro, o perfil. O quadro tenebroso do momento, que é realmente isso. Olha, eu não tive, digamos, nenhum planejamento de carreira ou da minha trajetória. Foi meio se dando de uma forma meio maluca, por necessidade. Fui inventando outras coisas, porque a nossa profissão, da maneira que imaginei que as grandes redações iam continuar existindo e eu ia estar lá de cabelo branco, ou sem cabelo, com aquele crachá de repórter… esse mundo acabou. Esse mundo que eu fui de repórter, ali no começo dos anos 90, e o que se faz hoje, é outro universo completamente diferente. Hoje você tem que cobrar de escanteio, correr você mesmo para cabecear, tem que filmar, tem que fazer a chamada, tem que escrever o texto, postar nas redes sociais. O jornalista virou um ser, uma criatura totalmente alucinada que faz um milhão de coisas e mesmo assim tem uma dificuldade enorme, uma dificuldade material enorme de sobreviver.
E você percebeu isso lá atrás, não é?
Acho que eu não percebi. Foram os pés nas bundas, as demissões, as vezes tantas que fui mandado para a rua que foram me educando. Não foi uma coisa sábia dizer agora vou escrever sobre isso, então vou escrever um livro agora disso. Foi meio pé na bunda, aí pensava uma coisa nova. Foi mais isso do que qualquer outra história. E talvez… acho que consegui aproveitar esse desmantelamento da redação e, em vez de ficar só naquela nostalgia, já saí para fazer uma coisa nova. Por exemplo, quando saio a primeira vez da redação, já faço um site com os amigos do Recife, já começo no dia seguinte tocando uma nova história sem ficar só na nostalgia, que no meu tempo era o jornalismo de verdade, que era o grande jornalismo. Isso talvez seja o que posso dar de contribuição e recomendação aos mais jovens.
E talvez você possa falar também da criatividade, porque você é uma pessoa muito criativa, no sentido de criar o seu próximo produto, o seu próximo assunto.
Sim, de não me acomodar a um certo conforto de um bom emprego ou uma boa remuneração. Sempre estava inquieto nesse sentido. Talvez seja essa uma boa lição. E também entendi que, ao mesmo tempo que foi pesado para a minha geração perder aquela ideia de uma grande redação que mal ou bem funcionava, cada um tinha a sua função específica, o repórter reportava, o repórter fotográfico ia lá e fazia a foto, era todo mundo no seu lugar…revisor, pauteiro… as baias todas funcionando, tudo corria bem. Eu compreendi que, quando houve o desmantelamento da nossa profissão por conta da chegada da internet, do mundo online, etc., entendi que havia, que podia dar muito trabalho, mas havia um campo enorme que eu não havia tido no jornalismo mais tradicional, que eu podia ser eu mesmo o canal de televisão, eu podia ser eu mesmo o meu próprio Roberto Marinho. Então, essas coisas que a molecada foi tendo acesso… eu saí da faculdade, eu teria obrigatoriamente que trabalhar. Havia dois jornais grandes em Pernambuco, um ou duas outras publicações. Eu tinha que, obrigatoriamente, me submeter a essas poucas opções. Quem sai hoje pode juntar uma moçada, um grupo da própria faculdade e fazer um podcast, contar a sua história, contar a história da rua. Então, as possibilidades também são enormes. E talvez eu tenha entendido isso e não ficado só na… na parte de cultivar a nostalgia, sabe? De ficar “ah no meu tempo, no meu tempo”, ah, meu tempo é agora!
Você que virou pai quase aos 60, o que tem de bom de virar pai a essa altura da vida?
Talvez a grande história, uma das melhores coisas do mundo. Eu entrei para a turma do avôhai, avô e pai, para pegar aquela música do Zé Ramalho. Não, mas foi sensacional. Foi incrível também nessa ideia de percepção também. A gente falou lá das portas. Da psicodelia das portas lá nos anos 80. E esse agora talvez tenha sido um novo escancaramento de portas, sabe?
Da paternidade…
Da paternidade. Foi fabuloso voltar à ideia de ouvir uma criança de forma permanente, no dia a dia, acho que mostrou o universo gigante da bobagem adulta em algum momento, por exemplo. Isso foi uma grande lição, né? Olha, pode pensar assim e agir assim. É muito mais fácil. São lições diárias.
“Estamos dentro, completamente inseridos no capitalismo, na ideia de consumo e tal, mas sendo inteiramente críticos a isso, tentando ser o mais saudável possível para escapar das armadilhas do capital, que são diárias”
E hoje você tem uma família toda certinha, né? Mulher, filha, propriedade privada e tal. Como é que um ex-marxista, comunista ferrenho, enxerga a realidade da vida em família? Afinal, casamento, família, filhos, são uma invenção do capitalismo ou uma salvação do capitalismo?
Eu acho que, no meu caso, funciona muito bem assim. Até porque, como eu falei, vivi vários tipos de modelos e não sou radical em achar, não, só funciona assim, só funciona de outra forma. Está, óbvio, inserido dentro do grande modelo do capital, mas continuamos todos aqui batendo pesado no próprio capital. Marx se salva e impera nesse sentido. Estamos dentro, completamente inseridos no capitalismo, na ideia de consumo e tal, mas sendo inteiramente críticos a isso, tentando ser o mais saudável possível para escapar das armadilhas do capital, que são diárias. Antes de escapar da ideia consumista, escapar de todas as arapucas que o capitalismo te apresenta desde que você acorda até dormir, todo dia.