Saindo da estufa

Maria Flor: “Você não vai ouvir ‘ele fumou um baseado e bateu na mulher'”

Prestes a retornar à TV depois de desacelerar a carreira para abrir espaço na agenda para ter um filho, a atriz Maria Flor voltará ao ar em novembro com a novela “A Garota do Momento”, na Globo. E espera refletir em cena a maturidade que experimenta desde que se tornou mãe.

Muito mais conectada com o tempo presente desde que Vicente nasceu, há dois anos e meio, a nossa entrevistada da vez abre o coração sobre ser mãe, mulher, esposa e profissional, e de onde nasce esse desejo, que em vàrios aspectos se parece com o das mulheres dos anos 50.

Nesse papo com Anita Krepp, da Breeza, Maria Flor revisita a sua trajetoria com a maconha desde a adolescência, época em que segundo ela mesma conta, era uma super maconheira, e conta pela primeira vez que fumar maconha ajuda na construção de seus personagens, pois a erva propicia a abertura de novos pontos de vista.

Maria, a gente tá vivendo um momento de vida parecido, com idades parecidas e bebês pequenos, e uma coisa que ainda me pega é essa pressão invisível, que é cuidar de bebê, cuidar da casa, do marido, por recuperar o corpo de antes da gravidez, e ainda ser criativa e inventiva no trabalho. Como você lida com isso?

É, esse eu acho que é o nosso maior desafio de ser uma mulher contemporânea e brigar por essa mulher, né? Porque é muito difícil e, ao mesmo tempo, às vezes, eu tenho vontade, tipo, cara, eu não vou fazer nada, sabe? Dane-se que não tem comida na geladeira. Tipo, eu não aguento mais. Eu não quero mais cuidar desse bebê, entendeu? (risos) Eu não quero brincar de bombeiro, eu não quero ler o oitavo livro antes de dormir. Eu acho que essa pressão é muito nossa, é muito mais uma pressão minha comigo mesma, do que uma pressão, sei lá, da minha família, ou do meu companheiro, ou de quem quer que seja. Eu quero ser essa mulher múltipla, que é criativa e trabalha fora, e ao mesmo tempo é boa mãe, ao mesmo tempo cuida da casa, tem uma casa… você sabe uma coisa muito louca que eu tava pensando? Eu tô fazendo uma novela agora, que é uma novela das seis, tem uma personagem muito legal que chama Anita, por coincidência. Ela chama Anita, e ela é uma mulher, a novela se passa na década de 50, então ela é uma mulher dona de casa nos anos 50. E eu comecei a estudar como eram essas mulheres no Brasil, como eram essas mulheres nos anos 50, quais eram as ambições delas, quais eram os objetivos, quais eram as funções. E eu comecei a perceber como essas mulheres são próximas da gente, como a gente tem no nosso DNA, na nossa pele, na nossa carne, ainda essas mulheres dos anos 50. Então a gente ainda quer ter a casa perfeita, arrumada, bonita, a gente ainda quer comer com a família toda ali reunida, e eu amo fazer isso. Por mais que seja uma coisa um pouco… ah, é careta, mas eu amo quando senta todo mundo na mesa à noite, eu, o Emanuel, o Martim, que é meu enteado de 10, e o Vicente de 2 e meio na cadeirinha dele, e todo mundo come junto, e o Martim conta da escola. Então isso ainda tá… as coisas boas e as coisas ruins também, que é de uma certa perfeição, de uma certa… Aí, minha casa precisa estar impecável, linda, e precisa ter flores, e precisa, sei lá o quê. Isso eu acho que é uma coisa que eu tento um pouco me desapegar. Uma coisa que eu tenho muito, que é uma vontade de ter uma coisa, uma ansiedade por tudo dar certo, tudo tá no horário, tudo tá encaixando, e às vezes não tá, às vezes desencaixa. E filho é muito bom nesse sentido também, né? Porque o filho vem te mostrar que assim, desencaixa, eu vou ter outro tempo hoje pra ir pra escola, e eu caguei pra você. Você quer malhar e eu não tô nem aí. E eu acho que pra mim o Vicente foi muito importante nessa desconstrução também, dessa minha vontade de perfeição, de ter tudo muito organizado e fazer milhões de coisas. Não, às vezes eu não vou conseguir fazer milhões de coisas, vou conseguir fazer duas coisas. O bebê, ele tá o tempo todo te colocando no presente. Eu quero comer agora, eu tô chorando agora, o meu mama é agora. Então, é o presente o tempo todo. Isso é muito legal também de aprender com eles.

Você deu uma diminuída nos trabalhos, nas aparições na TV e tal. Por onde você tem andado desde 2021? Você tomou esse tempo também pra ter o Vicente e pensar em todas essas questões, esse universo que se abre com a maternidade?

Eu tava fazendo uma novela quando veio a pandemia, e a gente tinha decidido que eu ia acabar a novela, e a gente iria engravidar. Mas aí veio a pandemia, a novela atrasou, e quando eu comecei a fazer a novela em 2021, eu falei “ah, então vamos engravidar quando acabar a novela, lá pro final de 2021”. E acabei engravidando antes. Então eu tava fazendo uma novela em 2021, quando engravidei do Vicente. E aí engravidei do Vicente e falei “cara, eu preciso ficar aqui”. E consegui ficar um ano focada nele. E realmente foi a melhor coisa que fiz. Eu acho que todo mundo devia, na verdade, ter dois anos de licença maternidade. Se os governos fossem justos e as pessoas realmente pensassem sobre essas famílias, essas mulheres, essa vida. E as mulheres precisam, acredito muito nisso, precisam de um apoio financeiro, emocional, e de saúde, bem-estar e saúde mental, durante esses primeiros dois anos. Porque é muito duro ser mãe. É uma transformação muito profunda que ocorre na mulher e no homem também. Os escandinavos têm muito mais dinheiro do que todo o resto do mundo, mas eles têm ali aquela coisa de dois anos de licença, aí você pode escolher um ano o pai, um ano a mãe. Eu acho isso muito justo com as famílias e os seres humanos, né? Eu fiz uma série que eu dirigi, chamada “No ano que vem”, o Vicente tinha acabado de fazer um ano. Eu comecei a fazer a preparação da série e rodei a série em 2022. E aí montagem e tal. A série estreou agora, em março de 2023. E aí depois da série eu falei “vou fazer a série com calma, tranquilo, para conseguir fazer meu primeiro trabalho mais robusto como diretora”. Fiz uma escolha de fazer trabalhos mais pessoais durante esses dois anos. Trabalhos que são mais flexíveis, que eu tinha maior domínio dos meus horários e da minha agenda. E poderia levar ele na escola e buscar e tal. Então nesses dois anos do Vicente, eu fiquei muito focada nele. E realmente a minha prioridade mudou muito, né? Agora eu tô voltando a fazer televisão e tô voltando a ser… tô voltando um pouco muito diferente de quem eu era, assim, antes do Vicente. Mas voltando um pouco para aquela outra mulher que eu era, que é outra, que não é mais aquela, mas pensando em mim, pensando em sair, nos meus amigos, nas festas, ir ao teatro. Voltar a ter uma vida com o marido, um pouco mais de tempo. Que é muito difícil isso com um bebê pequeno, você deve estar vivendo isso, é muito difícil.

Você se perde, né?

Um pouco. Não tem espaço emocional, você não tem energia física, você tá exausto, você tá só tentando sobreviver ao bebê, né?

Qual é a sua expectativa pra esse retorno à TV?

É, eu acho que eu amadureci, assim. Meio cafona falar isso. Mas eu acho que eu amadureci muito com a chegada do Vicente. E agora, voltando pra televisão com essa bagagem. De uma forma muito mais madura, muito mais focada no meu trabalho de atriz, de como eu posso construir para um melhor personagem. E sendo menos invadida pelo ambiente todo, da celebridade, do sucesso, que eu acho que é o que atrapalha um pouco o trabalho do ator. Então, eu acho que nesse momento eu tô construindo a melhor Anita que eu posso construir. E trabalhar nela, e fazer ela ser a personagem que ela pode ser.

Você falou dessa coisa de celebridade, e justamente eu sempre senti você diferente da média das atrizes da sua geração. Você se sente uma outsider dentro desse mundo de celebridades?

Sim, eu me sinto uma outsider, mas eu não me sinto uma celebridade. Eu acho que isso é uma coisa que sempre foi muito estranha pra mim. Quando as pessoas falam comigo, ou se aproximam. Tipo, você é a Maria Flor, deixa eu fazer uma foto, deixa isso, deixa aquilo. E eu sempre faço. Por que não fazer uma foto com alguém? Mas, pra mim, é uma brincadeira isso. E por um outro lado, também, eu não acredito nisso. Não acredito que o ator seja uma figura especial, ou o que quer que seja, porque ele aparece na televisão. Acho que as pessoas acham isso, mas eu não acredito nisso. Ser ator é um trabalho como qualquer outro trabalho, só que tem uma exposição, as pessoas se identificam com aquele personagem que você está fazendo, elas se emocionam com aquilo, então você entra num lugar do afeto das pessoas, que é muito especial. E aí, como é que você retorna pras pessoas esse carinho? De um lugar não de eu sou uma pessoa famosa, eu estou na televisão, mas um lugar de “tipo, que maneiro que você gosta disso que eu faço, que bom que você está me assistindo, e eu estou aqui pra estar aqui também com você agora”. E aí, como é essa troca? Eu acho que é muito mais essa a troca do ator com o público do que esse lugar de eu sou uma celebridade. Afinal, o que é ser uma celebridade? O que é ser célebre? Não sei. 

“Eu acho que é muito mais essa a troca do ator com o público do que esse lugar de eu sou uma celebridade. Afinal, o que é ser uma celebridade? O que é ser célebre? Não sei”

E tem uma coisa agora de que as atrizes, os atores, precisam ter zilhões de seguidores nas redes pra serem notados, pra serem chamados pelas produções. Que também estão contando com essa audiência dos atores, pensando já na divulgação dos produtos audiovisuais. Como você vê isso de que todo mundo, independentemente da profissão, precisa ser também influenciador?

Eu acho uma loucura, né? Porque eu acho que às vezes você virou um pouco… pra todo mundo, pra todas as profissões, virou um pouco… ah, eu vou num médico. Aí você vai ver se o seu médico, o médico que a sua amiga te indicou, que alguém te indicou, você vai ver se ele tem um Instagram pra você ver a cara dessa pessoa. Ou pra você ver como é o Reels que ele tá fazendo. Por quê? Se antigamente eu ia só no médico e ia encontrar aquela pessoa e ia falar “ah, legal essa pessoa”. Ou não, não bateu essa pessoa. E eu acho que a gente deveria continuar sendo assim. Porque agora realmente a gente precisa ter esse espaço, que é um espaço de autopromoção o tempo todo, então você tá o tempo todo se autopromovendo pra você existir no mundo, pra que as pessoas te olhem, e pra que as pessoas venham até você. Você é um ator, você tem que tá lá existindo, dizendo, eu tô fazendo isso, eu tô lançando isso. 

Então me chamem porque eu estou aqui, sou bonito. Eu acho uma maluquice que você, além de tudo que você tem que fazer pra ser um profissional no Brasil, e sobreviver do seu trabalho, você ainda tem que ser um empresário de você mesmo nas redes sociais, uma pessoa que fica se autopromovendo nas redes sociais, pra continuar existindo pras pessoas. Eu tenho tido muita dificuldade com o Instagram nesse momento, não tenho conseguido postar nada, não tenho conseguido falar nada. E sempre acho que é muito pouco o que a gente faz com a ferramenta. Eu não quero realmente me postar de biquíni, não que eu já não tenha postado. E acho que tem gente que quer postar, e posta, seja feliz, faça o que você quer. Mas eu não quero me postar de biquíni mais. Eu não tenho interesse nisso. Não é o meu corpo que eu quero que as pessoas queiram ver. Não tenho vontade de postar muito a minha família. Porque é a minha família, é o que eu tenho de mais precioso. Eu vou ficar expondo eles? Eu não sei se eu quero isso também. Nesse momento eu tô bem em crise com o Instagram e com as redes sociais, de uma forma mais abrangente, porque eu não consigo entender como usar essa ferramenta pra que ela tenha algum sentido pra mim.

A Aline foi o seu personagem mais brisado?

Aline, eu acho a Aline super… Eu acho que a Aline foi muito legal, porque é uma série que apareceu na TV numa época em que ninguém falava sobre relacionamento aberto, ninguém falava sobre trisal. Ninguém falava sobre poliamor, não existia isso, pelo menos na minha bolha não tinha esse tipo de assunto. Imagina, quando o Adão (iturrusgarai, cartunista) fez a Aline, muito tempo antes da série existir, aí é que não se falava mesmo. Era muito moderno esse assunto e essa mulher, né? Essa mulher que tinha dois namorados e dormia com os dois. E dividia o apartamento com os dois. E dividia a vida com os dois. E cada um tinha a sua profissão. E eles pagavam as contas. E meio fodidos, assim. Então, eu acho que a Aline, ela começou ali a me mostrar como as relações podem ser múltiplas e mais complexas do que as relações normativas que a gente aprende. Acho que a Aline talvez seja a mais brisada.

“As relações podem ser múltiplas e mais complexas do que as relações normativas que a gente aprende”

Você já foi meio Aline em algum momento da sua vida?

Não, eu sou muito careta em relação a isso. Eu sou muito careta. Eu sempre fui muito de namorar. E namoros longos. E… nunca fui, assim, de experimentar várias relações ao mesmo tempo. Sempre fui muito comprometida, com uma pessoa.

Mas tem um frescor ali na Aline que eu também vejo em você. 

Acho que sim. Mas eu acho que é um frescor meio da vida, assim. Eu sou uma pessoa que tem uma energia de vida, de otimismo com a vida, com as coisas. Eu sou alegre na maior parte do tempo. Não sou uma pessoa pessimista, sempre acho que tudo vai dar certo, que as coisas vão acontecer, que vai rolar, vamos pra frente. Eu trouxe pra Aline uma coisa espivitada, e quando eu era mais jovem, eu era ainda mais assim. Ainda tenho isso, um otimismo com a vida mesmo, vejo muita beleza na vida, no cotidiano e nas relações. Me emociono realmente com a existência, com estar viva.

Flor, cada vez mais as mães têm usado cannabis pra melhorar a qualidade de vida. Você incluiu a cannabis na sua rotina pós-parto? 

Não. Eu não inclui a cannabis na minha rotina pós-parto porque ali no pós-parto me falaram que não era legal fumar durante a amamentação, foi bem dito pra mim isso, que não era recomendado mesmo nem fumar, nem beber, porque tudo vai pro leite.  Na adolescência fui super maconheira. Na adolescência mesmo, na escola. Quando eu tinha um namoradinho, aquela coisa, né? A gente ficava na praia tocando violão, uma coisa bem hippie. E depois eu fui aproveitando outras formas da cannabis. O THC, o óleo, o CBD. Então eu acho que todas essas novas formas de consumir a cannabis, que é uma erva muito poderosa, muito ligada ao relaxamento, a calma. Eu descobri muito os óleos por conta do meu cachorro que foi diagnosticado com câncer. Porque ele entrou num momento paliativo. A gente tinha que só esperar e cuidar dele pra ele ter uma passagem mais tranquila, uma morte com menos dor. E foi aí que eu fui descobrindo os óleos, mas eu sou um pouco ignorante ainda, na verdade, em relação a isso. Mas foi aí que eu fui entendendo e entendendo como ele melhorava. E eu acho tão legal isso. Acho muito triste que o Brasil seja ainda esse país hipócrita que não legaliza a maconha. É muito reacionário mesmo por parte dos nossos governantes, e uma falta de entendimento do bem que isso poderia fazer para a política, para a sociedade, como isso diminuiria a violência, como isso diminuiria o tráfico de drogas. E tantas outras drogas são liberadas. Isso é uma coisa que também… tanta gente viciada em ansiolíticos, que poderia estar usando uma planta que talvez funcionasse muito melhor. Essas pessoas poderiam ser muito mais saudáveis do ponto de vista psíquico, mesmo. E físico. Porque gera muito menos dependência. Ela não é uma droga. A maconha é uma planta, e ela está ligada ao prazer, por exemplo, da alimentação. Pessoas que têm câncer e que consomem a cannabis, se alimentam por conta disso. E têm vontade de comer por conta disso. Várias vezes eu recebo abaixo-assinados ou sei de instituições fazendo experimentos de liberação do óleo pra crianças que sofrem vários tipos de doença. Agora a gente liberou o porte. Quem sabe as pessoas não vão mais ser presas injustamente nem serão assassinadas por conta de gramas de maconha.

“Não inclui a cannabis na minha rotina pós-parto porque ali no pós-parto me falaram que não era legal fumar durante a amamentação (…) Na adolescência fui super maconheira”

Como foi a sua relação com a maconha ao longo da vida? 

Quando eu comecei a beber eu parei de fumar. E eu acho a bebida uma droga muito perigosa. Muito. É muito rápido o quanto você vira dependente daquela quantidade de álcool. E o quanto você rapidamente duplica, triplica e vai indo infinitamente numa compulsão mesmo pro álcool. Porque o álcool, ele também te dá uma anestesiada, mas ele faz muito mal pro organismo. Você pode pegar um carro e matar alguém, você fica agressivo com o álcool, que é uma coisa que não acontece com a maconha, realmente. A maconha não é uma droga da violência. Ela é uma droga… (Que horrível, porque eu continuo falando que ela é uma droga? E ela não é). A maconha é da calma, de pensar na sua vida, nas suas coisas, de sensibilizar os seus ouvidos, o seu olfato, o seu olhar. A maconha é uma substância muito poderosa e muito bonita. E hoje em dia, eu faço um consumo muito pontual. Mas sempre numa intenção de relaxamento e de baixa de ansiedade. Eu percebo que o álcool, por exemplo, quando eu consumo, no dia seguinte eu fico muito ansiosa. O álcool me traz muita ansiedade. Tenho familiares com problemas com álcool e tenho muitos amigos com problemas com álcool. O álcool deveria ser uma droga muito mais controlada do que ela é, no Brasil somos muito viciados em álcool. Muitos acidentes acontecem por conta de álcool. Os homens bebem muito mais, e acho que no Brasil isso também gera uma série de outros problemas, como o feminicídio, como a violência doméstica. Acho que o álcool é muito gatilho pra isso, coisa que a maconha não é, de jeito nenhum. Você não vai ouvir ´ele fumou um baseado e bateu na mulher´. Isso não vai acontecer. Ele fumou um baseado e ele bateu de carro e matou uma pessoa. Eu nunca vi no jornal isso.

A maconha ajuda a relaxar a Flor pistola?

Eu acho que a gente está tão ansioso, assim, por conta das redes sociais e dessa pressão, essa aceleração do mundo. Você ter que dar conta de tanta coisa e de repente você só precisa de algo que te faça parar. Peraí, deixa eu olhar pras coisas de um outro jeito, e eu acho que a cannabis proporciona isso, você olha as coisas de outro jeito. Eu penso coisas com a cannabis e eu acho que ela tem essa dimensão de abertura da cabeça, do pensamento, que me ajudam na minha vida cotidiana, no meu entendimento da existência mesmo. E é uma coisa que também não tenho com o álcool. O álcool pra mim é uma coisa que eu tento cada vez mais beber menos. Mas é difícil. O álcool é muito difícil porque é uma droga muito social, tá em todo lado. Você é convidada, vamos tomar um chope, vamos tomar um vinho, vamos tomar sei lá o que, e quando você vê, passou o fim de semana todo bebendo.

“A maconha é da calma, de pensar na sua vida, nas suas coisas, de sensibilizar os seus ouvidos, o seu olfato, o seu olhar. A maconha é uma substância muito poderosa e muito bonita”

Conta pra gente alguma eureka que a maconha te trouxe?

A maconha tem uma coisa pra mim, me traz outras coisas pros personagens. Se eu fumo e penso sobre as personagens, ela abre um pouco o meu olhar, experimento outras coisas estudando os personagens. É até uma coisa que acho que vou voltar a fazer, que eu faço, mas que tem tempo que eu não faço, agora que virei uma mãe careta… mas talvez depois dessa entrevista (risos). Eu anotava e testava coisas e depois levava pro trabalho essas novas percepções.

Você tem experimentado psicodélicos?

Cara, eu tenho muito medo dos psicodélicos. Tenho um medo terrível, acho que eu jamais terei coragem. Tenho um medo terrível. A cannabis ela te dá uma alteração, mas é uma alteração muito controlada, né? O máximo que pode acontecer com você é dormir (risos). Esse negócio de passar mal, de ver cor, não quero ver coisa, não. Não quero ver coisa. De repente você ter uns insights com pessoas que morreram, também não quero. Não quero nada disso.

Mas o cogumelo não tem muito isso, né? O cogumelo é um pouquinho mais controlado.

O cogumelo eu comi uma vez e eu acho que fiquei tão preocupada com o que eu ia sentir que eu comecei a ficar muito ansiosa e me deu muito bad vibe, assim. Fiquei pensando “Ah, eu vou ter alucinação. Ah, eu vou ter coisas”. Uma vez eu tomei uma gota de LSD, foi uma experiência muito dura, mas fantástica, de um entendimento da minha insignificância diante do universo e ao mesmo tempo da beleza de estar aqui junto com esse universo existindo. É uma coisa muito haribo isso que eu tô falando, incrível o que eu tô dizendo, mas me deu uma consciência de como eu sou insignificante, de como a vida é finita e como nada disso que a gente construiu faz sentido. Tipo prédios, carros, Instagram, celulares, internet, nada disso faz sentido. Mas nunca mais tomei porque fiquei com tanto medo dessa sensação absurda. Foi uma vez, assim, e eu fiquei traumatizada e falei “gente, isso é muito poderoso pra minha cabecinha”. Porque se é esse mundo todo que a gente construiu, nós, homens, nada disso aqui faz sentido, como é que eu vou continuar? Eu tenho que morar, sei lá, numa casa no meio da natureza. Hoje em dia eu penso isso. Eu gostaria de envelhecer bem velhinha mesmo, numa casinha no meio da natureza e morrer lá. Eu adoraria isso. Não sei se eu vou conseguir fazer isso, mas eu acho que quanto mais velha a gente vai ficando, mais a gente deveria se aproximar da natureza. E se desconectar dessas coisas todas.

“Uma vez eu tomei uma gota de LSD, foi uma experiência muito dura, mas fantástica, de um entendimento da minha insignificância diante do universo e ao mesmo tempo da beleza de estar aqui junto”

E por que não agora?

Não, eu tento muito esses movimentos, mas são movimentos curtos, né? Porque aí tem a escola, o trabalho, tem que pagar conta, tem o boleto que vai chegar, tem o plano de saúde, tem a vida que a gente inventou pra gente mesmo. Ela é muito cruel com a gente e com a nossa conexão com a natureza, né? E com o divino. Gente, eu tô muito hippie (risos). Eu moro do lado do Jardim Botânico (do Rio de Janeiro), do lado mesmo. Tem momentos em que eu escapo pro Jardim Botânico e eu fico lá sentada, olhando pra tucano, macaco, árvore, vento. É uma coisa que eu preciso. Tem gente que não precisa, né? Pra mim é uma coisa que eu preciso, estar perto da natureza, porque eu tenho uma conexão comigo e parece que a vida se modifica ali. E aí eu posso voltar um pouco mais calma e transformada pra essa vida louca que a gente inventou.