Na Breeza

As fotos breezadas de Claudio Edinger

Um dos maiores fotógrafos do país nos conta histórias de seus já clássicos (e surreais) ensaios, como da psicodélica Venice Beach, do icônico Chelsea Hotel e por dentro do Juqueri, o aterrorizante manicômio paulista
22|08|24

Nem todos sabem, mas no quesito fotografia o Brasil é uma constelação de astros. A lista de estrelas é pomposa: Sebastião Salgado, Claudia Andujar, Walter Firmo, Araquém Alcântara, Mauricio Lima, Pierre Verger (um francês que era bem mais brasileiro), Miguel Rio Branco… a seleção é farta. Dentre os luminares de nossa fotografia, um se destaca por ensaios surreais e, digamos assim, bem breezados: o carioca Claudio Edinger.

Aos 72 anos, Edinger lançou neste ano o lindíssimo “Coisas que eu vi: Os caminhos trilhados até aqui”, com relatos, imagens e memórias de suas cinco décadas de profissão. Ao examinar o currículo do artista, vê-se o quanto seu brilhantismo é admirado. Sua primeira exposição fotográfica, logo no início da carreira, quando abandonou a Economia para se dedicar aos cliques de sua máquina, foi logo no MASP (Museu de Arte de São Paulo Assis Chateaubriand), o mais icônico museu de São Paulo. Em sua trajetória, morou na Califórnia, em Nova York, na Índia; e teve suas obras expostas até em suprassumos da arte global, como no International Center of Photography (Nova York) e no Centre Georges Pompidou (Paris).

Só que o que mais cintila em seu trabalho são suas fotos. Em conversa com a Breeza, ele lembra de seu primeiro grande ensaio fotográfico, em 1975: “Foi no edifício Martinelli, o primeiro arranha-céu de São Paulo. Um lugar surreal”. Construído com todo requinte, o prédio foi sendo abandonado com o passar das décadas e, naqueles tempos, abrigava um cortiço colossal. “Virou um grande favelão, sempre me interessei pelos paradoxos da vida”.

Foi esse trabalho que ganhou espaço no MASP em 1975 e o revelou para o meio artístico. Olhar as imagens faz com que o observador se sinta levado a um mundo onírico que parece não saído da realidade. Essa, aliás, é uma das características marcantes de seus ensaios: nos fazer viajar para muito além, em momentos surreais paralisados no tempo por suas lentes.

O HIPPIE QUE VIROU IOGUE

Na juventude, Edinger era hippie, um adepto da contracultura. “Usava cabelão, barba, me chamavam de Jesus falsificado”. As experimentações psicodélicas eram praxe. “Minha geração de artistas, de pensadores, foi muito influenciada pela contracultura, pelo LSD. Tomei LSD, usei várias drogas”.

A proximidade com a contracultura parece ter influenciado o seu olhar. Logo após a exposição no MASP, mudou-se para a área de Nova York, mais especificamente para o Brooklyn. Em sua nova vizinhança, fotografou como viviam (de certa forma, também à margem da sociedade) os judeus hassídicos do bairro. Os retratos em preto e branco foram parar no International Center of Photography de NY. E logo Edinger viu seu trabalho começar a ser requisitado por revistas como Time, Newsweek, Life, Rolling Stone e Vanity Fair.

Após a passagem pelo Brooklyn, continuou o que seria uma vida nômade e camaleoa, indo para Manhattan, mais especificamente para o histórico Chelsea Hotel, hoje ponto turístico e que naquela época servia de morada para nomes icônicos como Bob Dylan, Charles Bukowski, Janis Joplin, Patti Smith, Leonard Cohen, Iggy Pop e Robert Mapplethorpe. Aproveitou, é claro, para fotografar o dia a dia no hotel. Seu ensaio Chelsea Hotel, de 1978, virou livro em 1983 (ao todo, o artista soma mais de vinte livros na carreira) e o encheu de louros, como o cobiçado prêmio Leica Medal of Excellence.

No meio do processo, em uma volta a São Paulo, um tio lhe apresentou os ensinamentos do guru Paramahansa Yogananda (1893-1952). Nesse momento, deixou as experiências psicodélicas para trás e passou a se dedicar a hábitos como o ioga e a meditação. “A droga era um meio para atingir as experiências espirituais. Quando me dei conta disso, resolvi cortar o caminho e comecei a me interessar pelos mantras. Para mim, hoje drogas são uma perda de tempo”.

A PRAIA DA CONTRACULTURA

Mudou-se para a Califórnia, berço dos beatniks, dos hippies e da cultura iogue ocidental da qual começava a ser adepto. Lá alcançou o estrelato com seu ensaio em Venice Beach, praia em Los Angeles conhecida mundialmente como point dos adeptos da psicodelia. Apesar de ter se afastado das experiências com substâncias psicodélicas, continuou atraído pelos elementos da contracultura.

Em Venice, retratou aqueles que alguns viam como weirdos, os personagens que povoam a visão que se tem da psicodelia dos anos 1970. Em imagens que nos transportam para um tempo que parece bem menos careta, regrado e pudico do que hoje em dia, povoado por figuras com maquiagens exuberantes, corpos dourados e esculpidos, e com um tempero sexual que permeia as fotografias.

“Cada lugar que fui, era uma tentativa de tentar encontrar meu lugar. Nunca me senti parte do planeta, da minha vida. Não sentia que era meu destino final”. Além de Brasil e Estados Unidos, Edinger espalhou seu olhar pelo mundo. Na conversa com Breeza, ele destaca especialmente o período em que viveu na Índia, país que passou a visitar com frequência, fotografando especialmente a região norte, ao redor da cidade de Varanasi, uma das mais antigas do planeta, com mais de 3 mil anos de existência, e considerada sagrada pelo hinduísmo. Ao ver seus ensaios por lá, nota-se como as cores vibrantes sobressaem, contrastando com o preto e branco que vinha empregando até então.

DA LOUCURA AO CARNAVAL

Na volta ao Brasil, na virada dos anos 1980 para os 90, uma experiência familiar, ao ver a avó acometida pelo Alzheimer, o levou a se interessar pela loucura humana. Mergulhou no assunto e suas pesquisas o levaram ao maior asilo de doentes mentais da América Latina, 

Sua pesquisa o conduziu ao Juqueri, o maior asilo de doentes mentais da América Latina, no interior do estado de São Paulo, à época com 3,500 pacientes. O trabalho rendeu o livro “Madness (Loucura)”, que é povoado de fotos em preto e branco inquietantes, que transmitem o sentimento de que são saídas de um pesadelo que nunca deveria existir.

O complexo psiquiátrico, inaugurado em 1898, ficou conhecido pelas péssimas condições, superlotação e tratamentos degradantes e ineficientes. “Os pacientes ficavam completamente dopados, milhares deles. Isso não é solução, davam a droga para acalmar, evitar surtos, adiando a possibilidade de cura”.

Enquanto batalhava pela publicação de seu dolorido livro sobre Juqueri, voltou suas lentes para outro fenômeno brasileiro: o Carnaval. O fotógrafo, que há décadas estava careta, sem nem ingerir álcool, não perdeu o fascínio pela contracultura. Sua câmera colocou o surrealismo, e até um certo tom de dadaísmo, nas cenas carnavalescas, como no retrato de um palhaço que parece daqueles de filmes de terror, com o fundo desfocado, como se ele saísse de outra dimensão; outra de escafandristas navegando pela fumaça imaginária criada pelo desfoque do ambiente atrás; ou ainda uma de um homem fantasiado de policial e apontando seu revólver para um bebê (calma, se tratava apenas de um boneco).

O FOCO SELETIVO

Na mudança para o novo século, Edinger passou a se dedicar a fotografias que jogam com o foco, colocando áreas em perfeição, enquanto outras ficam perfeitamente desfocadas. A ideia lhe veio enquanto sobrevoava o Rio de Janeiro. Uma marca tinha o contratado para fotografar o Maracanã, mas ele achou muito clichê clicar fotos do chão e pediu um helicóptero para fazer imagens aéreas. Após trinta minutos, estava tudo pronto, mas ainda sobravam outros trinta de aluguel do helicóptero e ele pediu ao piloto para sobrevoar outro local.

“Era uma fumaceira na cidade, pois tinha um incêndio em Laranjeiras”, recorda ele. Voaram para Niterói, de onde Edinger observou a cidade com seu olhar. “Saiu essa foto que começou o meu trabalho de imagens aéreas com as montanhas do Rio, na contraluz, com aquela névoa”. Desde então, dedica-se a um projeto de fotografar cidades com a técnica que chama de foco seletivo.

“O universo conspira a meu favor”, comenta, ao observar como parece sempre estar no lugar certo, na hora certa: a Venice da era hippie, a clássica Nova York dos anos 1970, no dia perfeito para tirar a foto meio desfocada, meio focada, do Rio de Janeiro. Claudio Edinger, porém, vê um propósito que faz com que os astros joguem para o seu lado. “Pois o universo conspira a favor do artista, daquele que se ocupa com sua vocação natural”. A dele é, sem dúvida, a fotografia.

Filipe Vilicic