Na Breeza

Na trilha da maconha até os Himalaias

A viagem de Anita Krepp, repórter da casa, até a região montanhosa da Índia onde a erva é meio de subsistência de milhares de famílias
08|08|24

Existe uma teoria de que a origem da maconha se deu na China, que de lá foi parar na Índia, pelos Himalaias, de onde seguiu para o Paquistão, foi dominando o Oriente Médio, até chegar na África e finalmente dar a volta ao mundo até as Américas. Segundo essa teoria, então, eu fui buscar a maconha na sua raiz, praticamente na fonte primal, quando empreendi viagem aos Himalaias indianos para ver de perto os enormes cultivos de cannabis que aquelas montanhas abrigam a mais de 2 mil metros de altura.

Como não há ideia que nasça do nada, começar a cogitar a possibilidade de viajar ao norte da Índia surgiu quando eu já estava na Índia, mais especificamente em Rishkeshi. Tinha ido pra lá passar um mês frequentando os satsangs (reuniões espirituais onde geralmente há uma figura central, o tal do guru, termo que costumo evitar, mas que às vezes é inevitável), e muitas vezes tirava a tarde para descansar depois de andar 12 km de ida e volta do Ashram (lugar onde acontecem as reuniões). 

Numa dessas tardes, cheguei, não me lembro ao certo como, a um documentário do Strain Hunters, um grupo de empresários do ramo aficionados pela erva e que produziu uma série de vídeos sobre as suas expedições pelo mundo atrás de genéticas especiais. Dentre os vários destinos, escolhi, claro, assistir à expedição canábica aos Himalayas indianos. 

Abri o Google Maps. De onde eu estava, a Kasol, um povoado que fica aos pés do Parvati Valley, região onde o Strain Hunters tinha gravado, dava treze horas. Eu não sabia exatamente onde era, mas dava igual, pelo que tinha visto no doc, pois os cultivos de maconha estavam por toda parte. O tempo do trajeto não me assustou, afinal qualquer coisa a menos de quinze horas é perto na Índia. Mas um fato não jogava a favor: era fim de março, época de plantio, não ia encontrar com plantas vistosas, mas com mudinhas. Fui do mesmo jeito.

Restaurantes ou clubes canábicos?

Caso você se anime em fazer essa viagem em algum momento, tenho apenas uma sugestão: se aproxime o máximo possível desse povoado de avião. Ir de ônibus é ter a certeza de estar por mais de dez horas contornando um desfiladeiro num veículo precário e sem o mínimo de segurança. Quis economizar e quase morri (não do desfiladeiro, mas do coração ao encará-lo durante tanto tempo).

Kasol é uma beleza. Povoado chiquito com um bom número de restaurantes e guests houses às margens de um rio que, ao cruzar, é cerceado por uma cadeia de montanhas onde há outras vários chalés para turistas. Nos restaurantes, me deparei com uma penca de israelenses fumando erva, e assim é que descobri que os restaurantes são também uma espécie de clube canábico, inclusive onde se paga por comida e por maconha no mesmo caixa.

A flor é mais rara de conseguir. São as charas que estão em larga circulação. Esse é o nome que se dá ao hashish indiano, feito artesanalmente, com as mãos. Uma tola são um pouco mais de dez gramas de charas e é esse o tamanho standart; se não me equivoco, custava algo em torno de vinte dólares àquela época.

Logo me inteirei de que a subsistência de todo o povoado, e dos povoados vizinhos e dos vizinhos dos vizinhos era, em boa parte, proveniente da cannabis. Os pais cultivam, as mães cuidam do restaurante, as avós dos chalés e os mais novos, de vender aos turistas. Além desse ecossistema perfeito e ainda por cima de kilômetro zero, sobra maconha, que é depois distribuída por quase todas as regiões da Índia.

Rio de erva

Uns dias nessa vida boa de ir provando restaurante a restaurante, clube canábico a clube canábico, picnics ao redor do rio e tardes inteiras olhando para o infinito Hilamaia sem absolutamente cansar, e ainda sentir saudade… e consegui a informação sobre como chegar sem guia às plantações de maconha mais próximas dali, uma vila onde vivem cerca de mil pessoas e vários animais. Que fossem as mais próximas não significava que fossem perto. Encarei uma caminhada ladeira acima de pouco mais de quatro horas, onde fui encontrando com uma infinidade de cavalos e ovelhas subindo e descendo com suprimentos para os moradores da vila.

Lá em cima todos trabalhavam em alguma coisa. Tinha gente plantando, construindo casas, dando comida aos animais, cuidando de crianças, consertando algum equipamento. A sensação era de movimento contínuo. Todos te notavam, claro, quantos turistas sobem ali? Naquele dia, apenas eu e a pessoa que estava comigo. De fato, não rolavam aquelas fotos maravilhosas abraçando plantas gigantes, mas rolou trocar uma ideia com algumas pessoas e comprar uma tola amassada com mão pela mesma pessoa que te vende. Bonita como jornada antropológica.

Entrei na casa de um senhor que também tinha uns chalés para alugar lá no topo da vila, que era vila, mas continuava a ser uma montanha, que subia e subia. Lá no alto, os chalés que o senhor aluga custavam 1 dólar, esse eu lembro bem porque me impressionou estar em um lugar absolutamente impressionante e que por apenas um dólar fosse possível dormir ali. Ele tirou a balaça, mostrou onde armazenava as charas e fez uma demonstração de como se produz. Não fez todo o ritual porque leva tempo. Um dia inteiro, ele disse, pra fazer uma tola. Levei duas, ou seja, vinte e poucos gramas. E, depois, claro que eu me arrependi de não ter levado mais.

De tempos em tempos, a polícia aparece por lá e destrói as plantações. Não tem muito como prever, e por isso eles estavam adiantando a colheita o máximo possível, e é assim ano após ano. Mas quando dá tudo certo, a produção dessa vila e de incontáveis outras ao redor do vale segue como um rio banhando toda a Índia e, no caminho, abastecendo dos retiros de yoga em Rishikesh às festas psicodélicas em Goa.

Anita Krepp