
Quem está próximo ou passou dos 40 anos, o que representa a maior parte da nossa atual comunidade breezada, deve ter percebido: com o passar dos anos, a planta que fumamos, comemos, vaporizamos está batendo cada vez mais forte. Será impressão? Não. É isso, mesmo, até um fininho agora tá porreta. A maconha que chega até nós está cada vez mais forte, com níveis de THC que são em média dez vezes maiores do que como era na era hippie, lá pros idos de 1970.
No Brasil, estamos bem às escuras com o que consumimos, devido ao mercado ilegal. O já legalizado, o para fins medicinais, porém, espelha o que ocorre na gringa, e é certo dizer que boa parte das cepas que se fumam, digamos assim, por fora, têm influência dos cultivos estrangeiros (aqui falando só das flores, não dos prensados).
Assim, a melhor referência que se tem para o quanto a maconha está mais forte vem dos EUA. O governo norte-americano conduz um programa que todos os anos colhe flores de maconha pelo país, seja qual for a origem, e avalia quimicamente, com o auxílio de pesquisadores da Universidade do Mississippi, o quão forte é cada exemplar. Enquanto em 1975 se fumava uma ganja com algo entre 1% e 2% de THC, hoje em dia a média passa dos 15%.
O aumento, porém, não foi gradual. Para se ter ideia, em 1995 o baseado regular não continha mais de 4% de THC. O salto brutal ocorreu a partir dos anos de 2010, quando a onda de legalização ganhou força, em particular nos estados dos EUA. Um estudo de cientistas ingleses e estadunidenses, publicado em 2020, achou motivos para a multiplicação da dosagem após o cruzamento de dados de diversas agências que monitoram o mercado (clandestino ou não) da cannabis.
Segundo o artigo, liderado pelo psicólogo Tom Freeman, da Universidade de Bath, na Inglaterra, “o aumento do THC na cannabis herbal foi atribuído ao aumento da presença no mercado de sinsemilla com alto THC”. Para quem ainda não é familiar, sinsemilla é como se chamam as flores fêmeas não polinizadas e, portanto, sem sementes, o que permite que elas desenvolvam índices maiores do elemento responsável pelo princípio psicoativo, pelo barato (na grande maioria das vezes, gostoso).
Em 2022, uma outra pesquisa, de cientistas canadenses e dos EUA, achou outra razão, que se soma à maior presença de sinsemilla. Com o processo de legalização, aumentou o uso de concentrados, que são os produtos derivados da planta, como as balinhas e os óleos, e que podem ter índices bem maiores de THC, chegando até ao patamar de 90%. De acordo com o estudo, óleos para vape, por exemplo, têm concentração de THC 70% maior, e a presença no que se chamam de “sólidos”‘ (como os comestíveis) é ainda mais relevante.
E daí?
Então, sim, a maconha de hoje em dia tá potente. Só que, além de tomar cuidado ao passar um para um amigo ou parente que ainda tem o costume de fumar daquela mais fraquinha da era hippie, o que isso quer dizer?
É consenso também dentre os estudos levantados por Breeza que o principal objetivo do aumento na concentração de THC é mercadológico. Para simplificar, a gummy que bate forte vende melhor num mercado legalizado – e com o setor já plenamente industrializado e capitalizado – como o dos EUA. Todavia, os pesquisadores também concordam em outro ponto: o baseado com mais THC representa maiores riscos para o usuário.
Cada organismo é de um jeito quando se trata de maconha, disso já falamos aqui. Bate diferente para cada um, bem melhor (por vezes sem malefícios identificáveis) para uns, enquanto dá bads horríveis em uns poucos. No caso de ter alto índice justamente da substância psicoativa, vale o mesmo, sendo que o maior problema é aumentar as chances de bater ruim.
Um estudo publicado em 2020 pela psicóloga Cinnamon Bidwell, professora da Universidade do Colorado (EUA) e especialista em abusos de drogas, indicou efeitos do exagero de THC. A pesquisa foi realizada em um dos lugares mais legalizados no planeta, o Colorado. Pelo mercado já ser permitido, constatou-se que as flores locais têm índices ainda maiores do que a média nacional, com entre 16% e 24% de THC. Já os produtos concentrados, como as balinhas, variam de 70% a 90%.
Bidwell e sua equipe analisaram os efeitos em 121 usuários de ervas mais fracas, comparando-os com os de concentrados. Em curto prazo, não foram notadas diferenças substanciais nos efeitos. Porém, em longo prazo, a literatura científica atual indica que a elevada presença do THC é tida como responsável por prejudicar funções motoras e capacidades cognitivas, além de aumentar a chance de vício.
Breeza enviou por e-mail algumas perguntas sobre o tema à Cinnamon Bidwell, que liderou o trabalho. A pedido, as repostas foram elaboradas pela psicóloga brasileira Luiza Rosa, doutorando na mesma universidade, e revisadas por ela. Elas destacaram uma série de preocupações com o “dramático crescimento do uso de concentrados de cannabis”, como a forma como afeta o movimento e o equilíbrio, além de maiores chances de intoxicação, com consequências como atraso nas capacidades de fala.
Nas mensagens, afirma-se: “Quando se tratam de mercados legais, estudos têm mostrado que há ofertas de produtos com índices significativamente maiores de THC, em comparação com os mercados ilícitos. Só que a natureza regulatória permite medidas de qualidade de controle, garantindo que o consumidor está ciente do conteúdo de THC e assim pode tomar decisões informadas. Em contraste com os mercados ilegais”. Ou seja, além de sempre ser melhor no cenário legalizado, é bem mais seguro, pois o fato é que quando se compra na biqueira, não se tem ideia do que se está fumando.
Já o trabalho do inglês Tom Freeman, da Universidade de Bath, é ainda mais taxativo ao indicar os malefícios: “Estudos de laboratório com humanos mostram que a administração de THC [em altas doses] causa dependência e aumenta a intoxicação, os prejuízos cognitivos, a ansiedade e sintomas de psicopatia”. Quando os usuários começam a sentir esses efeitos, costumam fazer o certo: diminuir a dose ou cortar de vez. A primeira opção, entretanto, tem sido cada vez mais difícil de calcular, principalmente nos mercados ilegais, mas também nos legalizados, nos quais os produtos estão vindo com porcentagens altas.
Outro ponto que se ressalta é que o aumento dos índices de THC não vem acompanhado de igual crescimento da presença de CBD, que tem também certo papel em balancear o efeito psicoativo. Hoje em dia, destaca a mesma pesquisa, a produção de produtos de cannabis podem ser divididas em três principais categorias: alto THC/baixo CBD, baixo THC/alto CBD e TCH moderado/CBD moderado.
“Reduzir os riscos associados com a cannabis de alta-potência pode ser desafiador”, pontuam as psicólogas da Universidade do Colorado, na troca de e-mails com a Breeza. “Um caminho é rotular de forma consciente e transparente a dosagem, o tamanho da porção a ser servida e os riscos de saúde associados”. Para assim termos a liberdade de decidir como e o quê queremos colocar em nossos corpos e em nossas mentes. “Outra medida seria educar os usuários de estratégias de redução de risco, como evitar dirigir depois de usar e saber escolher cepas”.
O importante é ter a melhor ciência possível daquilo que se está usando, seja fumando, comendo ou vaporizando. Os benefícios são incríveis, como defende a Breeza, tanto pelo ponto de vista medicinal quanto pelo prazer, pela criatividade despertada, por controlar estresse, combater insônia, e por tanto mais. Todavia, também é necessário ressaltar que toda droga exige responsabilidade e assim é com a maconha. Se quer que bata forte, vá em frente e com consciência. Porém, se não te fez bem, saiba maneirar, selecionar direito, escolher o momento, a cepa, a forma correta e as pessoas com quem se compartilha a roda.
Filipe Vilicic