Colunas
Observatório da Planta

Luz, cena e fumaça: é permitido fumar um na TV?

Por Murilo Nicolau

Essa semana um leitor da Breeza nos questionou se ele, ator, poderia usar maconha na gravação de um programa de televisão. Confesso que ouvi essa pergunta enquanto lembrava do filme “O Mestre da Fumaça” e também da famosa cena da Glória Maria fumando maconha em pleno programa da Globo. 

Se o uso de cigarro em cena já é controverso, imagine o de maconha? Na verdade, exceto a reportagem da Glória Maria, que foi gravada na Jamaica, todos os conteúdos e peças gravadas em território brasileiro não devem usar a plantinha em cena. Uma vez que a planta é proibida em nosso país, existe o claro risco de implicações jurídicas por apologia, induzimento ao uso de substâncias dentre diversos outros crimes previstos em nossa legislação. A conversa é séria.

Além disso, arrisco opinar mesmo se o nosso querido leitor tiver autorização para vaporizar maconha, ainda assim, não deverá sacar um baseado do bolso em pleno estúdio de gravação. Nesse caso é mais seguro apostar em outros recheios para o artefato cenográfico, alguma outra erva menos controversa e perseguida pelos humanos como a camomila resolveria o problema.

O problema da maconha é justamente a falta de regulamentação somada à proibição pela Lei de Drogas do seu uso, cultivo e transporte. Sabemos que o uso medicinal não enquadra nos crimes previstos na Lei de Drogas, vez que o uso com prescrição tem fins de saúde e, portanto, não pode ser criminalizado.

Contudo, o uso em cena talvez desvirtuaria a finalidade medicinal desse consumo da substância, fazendo com que não haja qualquer proteção legal ao artista. Sem dúvidas faz parte da liberdade artística do profissional querer e poder retratar com fidelidade um personagem que usa a planta, mas existem formas mais tranquilas de fazer isso.

Me lembrei também do caso da atriz Claudia Raia, que usou cigarros de alface (isso mesmo, alface) para uma peça de teatro que participou em 2011 chamada Cabaret. No caso dela, a personagem fazia o uso de cigarros em cena, mas a atriz, ex-fumante, não queria se expor novamente à substância. O mesmo ocorre, com mais facilidade, com o uso de álcool em cena, por razões óbvias.

Outra situação parecida acontece em episódios de podcasts brasileiros famosos. Quantas vezes não vimos famosos fazendo o uso de cigarros de “tabaco orgânico”, como eles mesmos nominavam, mas que na verdade tinham outros recheios mais controversos. 

Nunca saberemos se era tabaco ou não. Assim como o espectador da sua obra não saberá se você está fumando maconha, tabaco ou camomila em cena, então aproveite-se disso e fique longe dessas controvérsias. Seu diretor de cena e corpo jurídico do espetáculo irão agradecer.

Tem dúvidas jurídicas sobre a planta? Toda terça, responderei às perguntas enviadas pela comunidade breezada. Envie DM pelo Instagram da @breeza_revista. Ou pelo meu, o @omurilonicolau.