
Era uma quarta-feira à noite e cerca de 400 ilustres maconheiros iam chegando ao edifício La Llotja, um dos mais icônicos de Barcelona. A construção de estilo gótico, cravada no centro histórico da cidade, é normalmente palco de grandes eventos e festas de casamento e aniversário de endinheirados. Naquele 13 de março, porém, o espaço estava reservado para a comunidade canábica, que celebraria ali o International Cannabis Awards, prêmio que se autocompara ao Oscar. Além dos convidados, quem quisesse participar da celebração teria de desembolsar 500 dólares.
Toda essa pompa parecia propositadamente dizer “a gente é maconheiro mas trabalha e ganha grana, podemos ocupar qualquer espaço na sociedade”. E de fato, ocuparam muitos e variados espaços durante a cannabis week, uma semana intensa de eventos-satélite à Spannabis, a maior feira do setor no mundo.
Tem pra tudo quanto é gosto: desde pequenas reuniões e festas em clubes privados, a jantares temáticos, cursos, palestras, eventos corporativos, o tal do B2B, e copas. As copas canábicas estão por todos os lados. Alguns são julgados por jurados super renomados no mundo todo, outros pelo público, e ainda tem copa em que os jurados são os próprios competidores.
“É legal que dá pra testar o seu produto com diferentes públicos. O que vai agradar o povão? O que vai agradar o meu colega maker? Do que será que os jurados selecionados, os melhores do mundo, vão gostar mais?”, reflete a brasileira Bianca, mais conhecida como Lil Big Smoker, que sempre participa desses eventos paralelos, seja como competidora, jurada ou convidada.
Bianca viaja com o marido Dave (o Gas Town), todos os anos, do Canadá a Barcelona, para participar dessa semaninha épica e que fica cada vez mais saborosa. “Poucas vezes no ano conseguimos juntar os maiores nomes dessa cena em um país, numa mesma cidade, então criam-se oportunidades para estar juntos, passar o dia juntos, sentar e trocar ideias sobre cannabis.”
Da proibição…
Em 2024, a Spannabis celebrou 20 anos de existência. E de resistência. Apesar de parecer, a Espanha não é completamente legalizada e apenas tolera o uso de maconha e a existência dos clubes canábicos. A repressão vem em forma de multas aos usuários que forem pegos fumando ou transportando maconha (que vão desde o equivalente a 3 mil reais até o infinito, pois não há teto) e por uma ameaça constante de fechar as portas dos dispensários.
O maior evento canábico do mundo se consolidou em um ambiente proibicionista, mas a gente quase esquece disso quando se mistura com as mais de 25 mil pessoas que visitam os três dias da feira e sente aquela vibe boa, “de estar lá por conta da planta, ao lado de pessoas com a mesma ideia que você, é emocionante”, ilustra Alice Reis, hashqueen e fundadora do site Girls in Green.
Alice mora na Califórnia e bate ponto na Spannabis há sete anos. Desta vez, ela sentiu algo novo, que os eventos paralelos se tornaram mais importantes do que o evento principal. “Eu nem fico mais muito tempo, nem vou mais em toda feira, dou uma passada geral pra ver se tem alguma coisa inovadora, mas pra mim os eventos mais importantes são os paralelos, onde eu realmente consigo ter trocas mais genuínas e intensas com as pessoas, o que a correria da Spannabis não permite.”
Convidada de honra de, falemos assim, 8 em cada 10 eventos, Alice precisa negar alguns desses convites para conseguir sobreviver a uma semana intensíssima, mesmo porque vários deles rolam ao mesmo tempo. Além das seshs quase non-stop promovidas pelos maiores clubes canábicos da cidade e dos jantares secretos em restaurantes que são fechados especialmente para a ocasião, muitos dos eventos-satélite acontecem nas aforas de Barcelona, em mansões no meio da natureza, as chamadas macias.
Nada mal juntar uma galera gente fina, com vontade de conversar, ensinar e aprender sobre ganja num casarão com piscina no meio dos campos da Catalunha, com churrasquinho rolando e num ambiente legalize, né? Pense. A Ego Clash, por exemplo, é uma copa que acontece nesse estilo. Ah, e só pra convidados. Outros vários eventos existem com maior ou menor grau de ‘exclusividade’, entre os quais Hash Calabash, Dab-a-Doo, Legends of Hashish, Masters of Rosin e o High Secret, produzido por um grupo de brasileiras que moram entre Portugal e Espanha.
…Nasce a cultura
“Forma-se comunidade com esses eventos, e comunidades internacionais são muito interessantes porque a gente consegue mover essa agenda internacionalmente”, avalia Alice, totalmente integrada à comunidade mundial da maconha e especialmente a um grupo de mulheres que trabalham com a erva em várias partes do mundo.
Quase todas participam dos eventos Women in Cannabis, organizado pela colombiana Fahi Roldán e que acontecem ao longo do ano em diferentes países, com aulas de defesa pessoal, ganja yoga e outras ações que favorecem uma troca mais profunda entre as mulheres. Durante a cannabis week, as “women in cannabis” também se encontram em outras duas reuniões onde se discutem os espaços das mulheres na cultura e na indústria canábica, em volta a uma bela mesa com maconha em variados formatos e distintas apresentações.
O Women in Cannabis, aliás, já chegou ao Brasil. O Dab-a-Doo, da super Mila Jansen, também. Tem coisa acontecendo por aqui, principalmente em torno às marchas da maconha. Mas como são descentralizadas, o calendário brasileiro de eventos canábicos underground, que fomenta a cultura (ou seria a contracultura?) canábica, também é mais solto.
Com a chegada da ExpoCannabis, que prepara para este ano a sua 2ª edição, a comunidade brasileira ganha uma oportunidade de se organizar ao redor de uma data, como acontece na Espanha. Pode parecer absurdo comparar o ambiente regulatório de Brasil e Espanha, mas é importante lembrar que a cena da Espanha seguiu existindo e crescendo, apesar do proibicionismo. As pessoas seguem fazendo um movimento contrário ao proposto pela legislação, e assim forjam uma cultura canábica ativa, que existe apesar da proibição e cresce também para combatê-la.
Falta esse clique, que nos faça entender que independentemente do proibicionismo, a cultura canábica prospera. Coisa que segundo o Secret Lab’s, grower de responsa que frequenta a Spannabis há pelo menos dez anos, isso é só questão de tempo. “Ano passado tivemos ao menos um evento por dia paralelo a Expo. Porém tudo é muito novo, até a possibilidade de se reunir em torno da cannabis para a grande maioria ainda é uma experiência nova. Quase tudo o que acontece é no underground e no boca a boca.”
Anita Krepp