Saindo da estufa

Dexter: “A maconha me ajudou muito dentro do presídio”

Foto: Rafa Leforte/Divulgação
Foto: Rafa Leforte/Divulgação

A maconha ocupa um lugar bastante contraditório no sistema prisional brasileiro: é motivo para tanta gente ser encarcerada e, na experiência de Dexter, também foi uma forma de suportar a vida atrás das grades. O rapper conta que a cannabis o ajudou a relaxar durante o período em que esteve preso, no fim dos anos 1990. A experiência deixou marcas na maneira como ele enxerga a política de drogas e ajuda a explicar por que, mesmo depois de interromper o próprio consumo, ele continua defendendo a legalização.

Nesse papo com Anita Krepp, editora desta Breeza, Dexter fala sobre a passagem pelo presídio, a ansiedade que o levou a parar de fumar e o papel do rap na luta antiproibicionista. A conversa vai além da regulamentação do mercado e passa pelo encarceramento em massa, pelo racismo que atravessa a política de drogas e pela urgência de reparar os danos causados a quem foi preso por pequenas quantidades de maconha. Também falamos sobre ayahuasca, espiritualidade e suas experiências com outras substâncias.

Dexter, o que você curte fazer quando não está no palco, sobretudo nas turnês internacionais?

Andar, conhecer. Gosto de ir nas festas daqui para entender como eles fazem festa. Gosto de conhecer lugares, comida. Adoro comer, adoro conhecer a culinária regional. Comer é bom, beber uma cervejinha é bom, trocar ideia, andar, conhecer os lugares, morou?

E fumar um beck também é bom, né?

Querida Anita, eu não fumo. Eu só bebo cerveja.

Você está de brincadeira.

Parei há muito tempo, já não me contempla mais. Me brequei.

Como é que isso aconteceu?

Eu entendo que, medicinalmente falando, é super potente, necessária. Acho que está na hora da criminalização da cannabis cair por terra. A gente está aí discutindo o assunto, é pertinente, e acho que o rap me trouxe essa questão. Mais do que eu ter feito o Pico da Neblina, uma série que retratava um Brasil fictício que liberava a maconha numa época em que ainda não tinha essas gramas que estão liberadas hoje.

Era mais polêmico, né?

Sim, era um assunto mais polêmico. Mas o rap já discutia essa liberação de uma forma positiva, por conta do bem que a cannabis faz quando usada de uma forma especial, digamos assim, de uma forma médica, orientada. Eu entendo tudo isso, respeito e sou a favor, inclusive. Mas parei de usar faz um bom tempo. Agora é só por tabela, junto com a rapaziada fumando. Aí acabo ingerindo, mas eu mesmo parei.

Vejo que muita gente parou porque começou a dar ruim, começou a ficar ansiosa. Tem a ver com isso? Como foi a sua jornada com a planta?

A cannabis eu descobri há muito tempo, quando era tudo apenas prensado, e a maconha no Brasil teve uma evolução muito grande. Hoje é bem diferente da minha época, de quando comecei a fumar. Só que naquela época a gente também pouco desenvolvia a questão da ansiedade, que eu adquiri com o tempo, dentro do presídio. A maconha me ajudou muito nesse período dentro do presídio. Me ajudou a esperar com mais paciência os resultados dessa coisa muito morosa que são as leis no país. Estou falando de 98, 99. A cannabis me ajudou muito a relaxar, a esperar com paciência, a melhorar. Essas coisas que a maconha realmente desenvolve no nosso organismo. Agora, veja bem, Anita, há uns 5 ou 6 anos, essa coisa da ansiedade me pegou um pouco mais forte. Essa ansiedade que eu também adquiri começou a aparecer com mais frequência, digamos assim, e a pegar um pouquinho mais junto com a cannabis. E aí eu percebi que não estava legal. Sou obrigado a te dizer, e sem problema nenhum, que não sou um exímio conhecedor, não sei qual me faria bem, qual eu teria que ir atrás, conhecer mais. Então achei que estava na hora de dar um break. E parei. De lá para cá, devo ter dado mais um ou dois tragos em algum momento de descontração na casa de um amigo, mas, sinceramente, fiquei bem sem, o que é legal. Mas continuei tendo as minhas crises, infelizmente. Ontem mesmo eu tive uma crise. Agora com o poder de dominá-la, digamos assim, de entender o que está acontecendo comigo. É uma crise um pouco mais controlável. Como eu já sei que vou ter, então já vou me cuidando, já vou me preparando. Quando ela vem, consigo fazer com que fique com menos intensidade, que seja um pouco menor.

E como é que você chegou nesse entendimento? Como conseguiu dar essa controlada?

Psicólogo, troca de ideia. Passei pelo psiquiatra também, para entender. No começo eu não sabia o que estava acontecendo comigo. Porque você acha que está tendo um infarto, que o seu coração vai explodir. Os sintomas são meio parecidos. Você fica ali com o coração acelerado, tremor, falta de ar. O pulmão fica hiperventilando e você não consegue completar a respiração. É um desespero.

Mas, ao mesmo tempo, se você conseguir se concentrar na sua respiração, já é uma boa, né?

Exatamente. Foi isso que eu aprendi. Eu tenho um exercício que faço, o do quatro em quatro, gelo na mão, umas coisas assim. Eu acho que essa é a doença do século. Muita gente hoje em dia, infelizmente, desenvolveu essa doença. Muita preocupação, muita coisa. O mundo está acelerado e a internet colabora. Eu sou muito profissional nas minhas coisas, e a gente tem muito hater. Hater de todo tipo nos seguindo, nos copiando, nos espiando, nos vendo e fazendo igual, sabe? Tudo isso a internet faz chegar até a gente, e a gente desenvolve esse tipo de coisa, Anita. Hoje em dia, infelizmente, é a doença do século, e está todo mundo sofrendo dela.

O que aconteceu ontem? Em que situação você teve essa crise?

Porra, estou saindo de Lisboa, vamos para o aeroporto, tem que dar tudo certo com o horário, aí pega um pouco de trânsito. Puta, vamos chegar, não vamos? Já estava quase em cima. A pressão do dia a dia e também de algo específico, a ida para o aeroporto. Não vamos perder o voo, vamos correr para não perder o voo. Aí eu tive um princípio de ansiedade, mas controlei com a respiração e deu tudo certo, graças a Deus. Mas é isso. O foda é para quem não sabe o que está acontecendo, para quem ainda tem medo de enfrentar, de encarar essa doença, de sentar com um psicólogo para conversar, de sentar com um psiquiatra, de parar de achar que psiquiatra é coisa de louco. Aqueles preconceitos que a gente tem a respeito desses profissionais. Acho que está na hora da gente se conscientizar, de entender que estamos vivendo num mundo louco, tudo muito rápido, sobretudo nós, que somos pessoas de visibilidade, digamos assim, que estamos à frente de muita coisa. Somos artistas, somos revolucionários. Acho que está na hora da gente parar e pensar nessas coisas.

Mesmo não fumando, você associa o seu nome, e não é só você que quer associar, a própria comunidade, a própria cultura canábica te consideram um elemento importante…

Tudo vai por conta de eu ser uma pessoa pública, um rapper que fala em nome de um povo que já é sofrido, que já sofre racismo, preconceito e diversas mazelas no nosso país. E também por muitos deles estarem presos por conta de uma ponta, de um baseado. Eu entendo que a liberação da maconha no Brasil, além de muitos benefícios, e aí estamos falando de medicina e tudo mais, vai ser positiva também para essas pessoas que foram presas por conta de uma ponta ou de tantas gramas. Elas também vão poder conquistar a sua liberdade. Então acho que as pessoas fazem essa associação, porque eu entendo que quem está preso por conta de uma ponta, de 10, 5, 4, 3 gramas, sei lá, ou simplesmente por ser usuário, não deveria estar preso. Tem o Pico da Neblina também, a série que eu aceitei fazer justamente por entender que é um assunto pertinente, que precisa ser discutido, para que muita gente saia do sistema carcerário. Porque é uma cultura, né? Prender maconheiro no Brasil é uma cultura. Então eu acho, não, eu tenho certeza, que essa é a situação. Não é porque eu não fumo mais, a associação entre mim e a cannabis se dá por esse motivo. Porque eu entendo e legitimo a luta. Agora, Anita, é muito bom frisar que, além da maconha, é preciso liberar muitas outras coisas para o nosso povo. Não é só maconha. Precisa liberar saúde de qualidade e gratuita, porque a gente paga muitos impostos neste país. Estudo de qualidade que também seja gratuito para o povo. Moradia digna, entendeu? Eu entendo que essa liberação vai para além da cannabis. Existem muitas outras liberações que precisam ser efetivadas no nosso país, para o nosso povo. Até porque quem fuma dessa florzinha muito bem feita, muito bem cultivada, não é o nosso povo.

Você tem algum plano, algum projeto de reparação social para incluir justamente pessoas que foram presas por causa de maconha, para que possam ter a ficha limpa e ter acesso ao negócio?

Anita, eu acho que é isso. É liberar essas pessoas, tirar essa ficha suja, limpar essa ficha, entendeu? E entender que, porra, isso faz bem, é uma planta. Infelizmente, ainda não é vista dessa maneira. A discussão está aí, ela é pertinente, e acho que avançamos algumas casas. Mas essa liberação, para mim, ainda soa como uma coisa meio… entendeu? Não é exatamente uma liberação.

Muito cerceada.

Isso, ainda não é uma liberação. Até porque, se você é pego, é levado até a delegacia, o seu produto fica preso, você assina um termo e vai embora. Eu acho que essa é a minha contribuição, trabalhar em prol da conscientização das pessoas. Ser um agente para espalhar essa conscientização e fazer com que as pessoas entendam que é possível. Claro que não tem que ser uma coisa bagunçada, precisa ser organizada. Mas que todo mundo tenha acesso, que seja barato para todos, que todos, se quiserem, possam, para além de consumir, também plantar, cultivar. Se tem que haver autorização ou não, aí já não é da minha alçada, eu não sou um cientista político nesse sentido. Acho que a minha contribuição é muito mais em relação à consciência, de entender que é positivo, do que querer ganhar dinheiro, querer também cultivar. Não é isso. Já me chamaram até para acoplar o meu nome, mas por enquanto não quero. Eu quero que seja bom para todo mundo, e não que só alguns ganhem dinheiro com isso. Acho que tem que ser uma coisa mais coletiva. A minha participação é muito mais nesse sentido do que querer construir alguma coisa para mim e ganhar dinheiro com isso. Não é isso. A minha contribuição, o meu papel nisso tudo, é mais de conscientização e de achar que a liberação vai ser muito mais proveitosa para todos nós.

Eu queria voltar agora a uma parte da nossa conversa em que você falava sobre a cannabis naquele momento da prisão. Qual era a importância dessa planta para você e, em geral, para as pessoas que estão naquela condição?

Para você ter uma ideia, todo diretor de toda cadeia, em algum momento… Essas coisas não chegam exatamente da maneira que a gente vê na televisão. A mulher do preso que levou, não sei o quê e tal. Essas coisas são…

Era isso que eu ia te perguntar. Dizem que os carcereiros facilitam a entrada da maconha na prisão porque ela traz paz, sem ela, seria impossível. É isso?

Você já disse o que eu ia dizer. Todo diretor sabe que a maconha acalma os presos. O próprio diretor tem essa consciência. É por isso que uma coisa ou outra passa, que entra, que chega. Porque o diretor sabe que, sem a maconha, o presídio vai virar, a rebelião vai acontecer quase direto. Por quê? Porque ela acalma. Ela traz paz, traz reflexão, traz um pensamento mais crítico. É assim que funciona, até eles sabem que essa planta faz bem, e é por isso que, de uma maneira ou de outra, a cannabis entra nos presídios. E outra, países de primeiro mundo têm a maconha liberada, gente. O Brasil é muito atrasado nesse sentido, e em milhares de outros sentidos também. O que acontece, Anita, é que muita gente ganha dinheiro com o tráfico de drogas. Muita gente. Se você libera essas drogas de algum jeito, muita gente vai perder muito dinheiro, e isso não é interessante. É por isso que acontece esse tipo de coisa, mano. Simples assim, a gente sabe como funciona. Ponto, ponto. E dentro dos presídios também é assim. Todo diretor de cadeia sabe que a maconha acalma os presos, pronto. Na verdade, não é o preso, ela acalma as pessoas. Isso independe da pessoa estar presa ou estar aqui fora. Acalma, faz você pensar de uma maneira mais racional, te ajuda em diversos pontos da saúde. Eu tenho um amigo que tem a mãe e outro amigo que tem o pai com Alzheimer. Eles estão no óleo e melhoraram muito. A coordenação motora, a atenção, enfim, tudo. A gente sabe. Existem estudos que dizem isso, e aí não dá para ir contra a ciência, entendeu? O que acontece no Brasil é que as pessoas ganham muito dinheiro com o tráfico de drogas, por isso a liberação não é interessante.

Você já experimentou psicodélicos?

A ayahuasca eu já tomei. Experimentei, queria entender esse processo. Vem de origens indígenas, dos povos originários, e está presente no Peru e em vários outros lugares do mundo. Quem me explicou também falou sobre ser um processo espiritual. Foi bom, mas foi só uma vez. Por enquanto não quis repetir a dose, mas já experimentei. Já tomei MD também, mas é outra coisa, outra viagem. Experimentei quando fui cantar no Universo Paralello.

Aí não tem como (risos)…

Eu me permiti ter essa experiência. Foi importante, foi legal, mas não foi algo em que eu falei, “ah, quero dar continuidade”. Foi uma experiência, e está tudo bem. Foi bom para o dia. Mas não foi algo do tipo “preciso consumir todo final de semana”. Foi legal, foi uma experiência legal. Fora isso, maconha, óbvio, e já usei cocaína também. Que é outra experiência, outra coisa, e que ficou lá atrás, graças a Deus. Desde 2000, 2001, na verdade. Assim como o cigarro, aquele que é vendido na padaria. Também, graças a Deus, parei há muito tempo já.

E a ayahuasca, onde você tomou?

Eu tenho um amigo que faz o ritual. Ele é médico, o doutor Marcelo, e conhece o poder dessa medicina. Ele faz o ritual na Cidade Dutra, na zona sul de São Paulo. Ele me convidou e eu falei, “mano, legal, quero conhecer essa experiência”. E foi isso. É um cara muito dedicado a isso, que vira e mexe está com os indígenas na Amazônia, participando de processos de aprendizagem.

O que você aprendeu sobre você nessa experiência com a ayahuasca?

O que eu posso te dizer é que pude perceber, sentir a força da medicina, a força dessa natureza, foi isso que eu percebi. Mas usei uma vez só, e é um processo. Você tem que usar mais vezes, tem que entender mais coisas. Por exemplo, eu sabia que a minha mãe estava lá. Perdi a minha mãe há 4 anos e tinha acabado de perdê-la quando isso aconteceu, fazia um ano e meio, 2 anos no máximo. Eu senti a presença dela. Não consegui ver a minha mãe, mas sabia que ela estava lá. Isso tem a ver com essa força, que eu diria, inclusive, que é espiritual. Mas não posso te dizer muito mais sobre isso, porque foi uma vez só. Para poder falar mais, ter uma experiência maior, você precisa usar mais. Para ter mais conhecimento, tem que saber um pouco mais. Na época eu li muito sobre o assunto, assisti a muitos vídeos, mas não senti mais vontade de ter essa experiência de novo. Pelo menos por enquanto. O que eu posso te dizer é que é uma força espiritual muito grande e que precisa ser respeitada.