Por Anita Krepp

Na noite de domingo, depois que a vitória de Lula foi confirmada, Douglas Duarte não tomou nenhum psicodélico. Estava na Cinelândia, no Rio de Janeiro, entre milhares de pessoas que tinham saído às ruas para comemorar. Ainda assim, ao tentar explicar o que havia vivido, recorreu ao vocabulário de seu mais recente documentário, “Vozes na Sua Cabeça“.
“O encontro das pessoas para fazer uma coisa grande junto dá barato”, disse. Para Douglas, havia algo de psicodélico naquele êxtase coletivo, na sensação de tanta gente sonhar a mesma coisa e realizá-la junto. “Isso é mágico, isso é psicodélico, isso é a revelação de uma alma coletiva.”
A cena ajuda a entender o que interessa a Douglas nos psicodélicos e no cinema. Não necessariamente visões extraordinárias ou viagens a outros universos, mas a possibilidade de olhar para a experiência humana de outra maneira.
Douglas passou boa parte da vida dividido entre curiosidade e medo de experimentar essas substâncias. Na adolescência, chegou a imprimir clandestinamente trechos de “As Portas da Percepção“, livro em que Aldous Huxley relata suas experiências com mescalina. Ao mesmo tempo, conheceu histórias que alimentavam o receio de perder o controle. Um conhecido da família teria consumido drogas e nunca mais voltado ao estado anterior. A história envolvia também heroína e uma possível predisposição ao transtorno bipolar. Um primo, quase um irmão, envolveu-se com o tráfico internacional de drogas. “O assunto droga para mim não era um assunto simples”, contou.
O cinema ofereceu outra maneira de investigar histórias e subjetividades. Em seu primeiro documentário, “Personal Che“, Douglas já se interessava pelas pessoas por trás das figuras públicas. A influência de Eduardo Coutinho, mestre em transformar conversas em matéria cinematográfica, também contribuiu para seu interesse pelas memórias e pelas versões que cada um constrói da própria vida. “O que acontece dentro da sua cabeça é real”, resume.
A mudança na relação com os psicodélicos veio por volta dos 36 anos, quando experimentou LSD pela primeira vez, a convite de um amigo, em um sítio. Na época, enfrentava um bloqueio criativo e não conseguia avançar em projetos antigos. Depois da experiência, escreveu dois projetos de filmes que estavam parados havia anos. Meses depois, ambos receberam financiamento. Um deles foi “Sete Visitas“.
A experiência não foi apenas um episódio isolado. Por um período, o LSD passou a fazer parte de alguns fins de semana, mas Douglas também fez pausas. O que permaneceu foi a vontade de compreender o que havia vivido e por que os psicodélicos eram cercados por tanto medo e desinformação. Daí nasceu a ideia do documentário.
À brasileira
Mas ele não queria repetir uma história centrada em personagens como Timothy Leary, psicólogo norte-americano associado à popularização do LSD, e Albert Hofmann, químico suíço que sintetizou a substância. Incomodava-o o pouco espaço dado ao Brasil, ao México e ao Peru, territórios com longas histórias de relação com plantas psicoativas.
A pesquisa o levou também à literatura brasileira. Em “Iracema”, de José de Alencar, Douglas identifica elementos que, em sua leitura, mereceriam lugar na história dos psicodélicos. “Por que é que eles são um elemento preponderante e o José de Alencar, que escreveu Iracema, que gira em torno de uma mulher que controla o acesso a um psicodélico, é menos importante que eles?”, questiona.
Não se trata de reivindicar uma origem pura. A história da jurema, como a de outras plantas e práticas tradicionais, envolve encontros, sincretismos e transformações. O que Douglas pretende é tornar visíveis conhecimentos e experiências que ficaram à margem da narrativa dominante. “Na verdade, a gente só tá tirando um apagamento, a gente sempre teve esse lugar, né? Não necessariamente o Brasil, mas o território que hoje a gente chama de Brasil.”
“Vozes na Sua Cabeça” reúne oito personagens selecionados entre mais de 35 entrevistas de pesquisa. Entre eles estão pessoas sem ligação profissional com o tema e especialistas, como o neurocientista Drauzio Araújo e o psiquiatra Dartiu Xavier. O filme acompanha como essas experiências atravessam histórias pessoais, incluindo questões como racismo, abandono na infância e reconexão com a família e as próprias origens. Em vez de se limitar a explicações científicas ou relatos extraordinários, procura entender o que muda na maneira como cada pessoa interpreta a própria vida.
A forma de representar essas experiências também se tornou parte central do projeto. Quando a ideia surgiu, em 2019, as imagens geradas por inteligência artificial ainda tinham uma aparência estranha, truncada, quase onírica. Douglas se interessou por essa estética e, ao lado do artista Nelson Porto, começou a explorar como ela poderia traduzir visualmente os relatos dos personagens.
Psicodélico não salva ninguém
A equipe estabeleceu limites éticos para o uso da tecnologia, mas poucas imagens do filme foram geradas exclusivamente por IA. Os resultados mais interessantes surgiram da combinação com outras técnicas, como a fusão de imagens e o datamoshing, que manipula arquivos digitais para produzir distorções imprevisíveis. A intenção não era ilustrar literalmente cada relato, mas construir uma linguagem visual entre a imaginação dos entrevistados e a do diretor. “A gente conseguiu achar formas de criar esse mundo onírico, que é criado entre os personagens e eu, porque é o meu imaginário, dirigindo, minha intuição mais que tudo.”
Essa dimensão subjetiva não significa idealização. O documentário inclui experiências difíceis e não apresenta os psicodélicos como solução universal. “Se psicodélico fosse poção mágica, o Elon Musk não era o escroto que ele é. Psicodélico não salva ninguém de si mesmo”, diz Douglas. Uma experiência pode provocar introspecção e confrontar alguém com questões que vinha evitando, mas não garante transformação positiva. Pode ser boa, ruim ou não produzir mudança perceptível.
Perto do final, o filme aborda a Operação Psicose. Douglas conta que, durante uma entrevista de pesquisa, um delegado envolvido na operação afirmou que jovens estariam comprando cogumelos para cometer suicídio. Para o diretor, o relato exemplifica uma abordagem estatal que privilegia a proibição e a segurança pública, em vez de tratar o tema prioritariamente como uma questão de saúde. A afirmação do delegado, tal como relatada por Douglas, não equivale a uma conclusão comprovada pelo documentário.
A crítica à desinformação, portanto, não implica negar riscos ou transformar os psicodélicos em promessa de salvação. O que interessa ao cineasta é abrir espaço para experiências que costumam ser reduzidas a estereótipos, sem ignorar suas contradições.
Ao refletir sobre a palavra “psicodélico”, associada ao psiquiatra Humphry Osmond e proposta em meados dos anos 1950, Douglas encontra uma síntese para seu interesse tanto pelas substâncias quanto pelo cinema. Nos dois casos, trata-se de tornar visível algo que antes permanecia escondido. “São máquinas de revelar, são formas de revelar a nossa mente, a nossa alma, e é por isso que eu sou apaixonado por esses temas.”