Por Anita Krepp

Os médicos de Vanessa Seabra diziam para ela continuar fumando seu baseado. Era o começo da graduação em Medicina Veterinária, e uma crise de dor tinha acabado de travar a estudante e de lhe render mais um diagnóstico, o de fibromialgia, que se somava a uma lista onde já figuravam endometriose, disfunção temporomandibular e enxaqueca crônica. Para essas outras dores, a maconha fazia parte da rotina havia bastante tempo, e a orientação médica era seguir usando, mesmo fumada, que era o que dava para acessar na época.
A insistência tinha razão de ser. Vanessa já tinha testado o caminho convencional e conhecia de perto o que ele oferecia. “Percebi que o tratamento tradicional, com mais de 20 comprimidos por dia e um custo altíssimo, só me dava efeitos colaterais e não controlava nenhum sintoma, só me dopava”, lembra.
Com o próprio corpo de laboratório, ela foi atrás do sistema endocanabinoide, o conjunto de receptores e substâncias do organismo sobre o qual agem os compostos da cannabis, e de como a planta vinha sendo usada no Uruguai, na Colômbia e na Europa. Estudou tudo sozinha, ainda na graduação, até chegar à pergunta que puxou todo o resto. “Se a planta me devolveu a vida, por que não ver se ela também conseguiria ajudar meus pacientes?”
Os pacientes, no caso, tinham quatro patas, e a relação de Vanessa com eles vinha de longe. Começou a resgatar bichos aos dez anos e só parou três anos depois de entrar na faculdade, quando o tempo já não dava para cuidar bem de tantos. Antes da veterinária, passou por outros cursos superiores, nenhum capaz de segurar o interesse. Na graduação, os gatos de casa somavam uns nove e viraram também objeto de estudo. “Passei a estudar a espécie por perceber uma enorme falha no ensino e no manejo deles na rotina clínica do dia a dia fazendo com que esses animais não tenham suas características inerentes respeitadas, causando doenças que muitas vezes seriam evitáveis.”
Da curiosidade sobre a planta nasceu a Vetcann Brasil, que Vanessa fundou com a amiga e sócia Aline Goulart para fazer educação e pesquisa em endocanabinologia veterinária. Na sequência, emendou o mestrado e se mudou para Curitibanos, no interior de Santa Catarina, onde descobriu que a fama da pós-graduação de devastar a saúde mental de quem passa por ela tinha fundamento. “Perdi bastante do meu amor pela academia e, nessa altura, eu queria ser professora de fisiologia veterinária em alguma federal para ensinar sobre o Sistema Endocanabinoide (outra falha grave no conhecimento técnico de qualquer profissional de saúde).”
Psiquiatria veterinária
Foi ali, ainda assim, que ela fez uma pesquisa clínica que descreve como inédita no mundo, testando óleos integrais com THC em pacientes ansiosos e de difícil manejo durante a consulta. Aline acompanhou a empreitada também fora do laboratório. Numa das viagens para escolher onde morar, as duas se hospedaram num Airbnb que era uma fazenda, com vacas, cabritos, ovelhas e cavalos, e uma cabrita que adotou Aline e chamava por ela todas as manhãs na porta da casa. “Acordávamos com umas 30 curicacas gritando no teto às 5h da manhã, batendo -5 °C no termômetro, e as vacas lamberam os faróis do carro da Aline até quebrar, além de se esfregarem nele. Tivemos muitas aventuras para compensar as decepções!”
O gosto pela pesquisa voltou no doutorado, na Universidade Federal de Lavras, com o professor Luis Murgas. Lá, Vanessa faz pesquisa pré-clínica e clínica com cannabis em zebrafish, o peixinho listrado de uso corriqueiro nos laboratórios, e em cães, dentro da psiquiatria veterinária, área que, segundo ela, só vem crescendo.
Com os gatos, a conversa pede outro tipo de cuidado. A espécie tem dificuldade para metabolizar uma série de substâncias, e por isso Vanessa trabalha, sempre com acompanhamento de perto, com microdoses de cannabis combinadas a outros compostos, como os ômegas e a palmitoiletanolamida, a PEA, uma molécula canabimimética. “Isso modula o sistema endocanabinoide desses animais para o tratamento das mais diversas patologias, em conjunto com os tratamentos tradicionais, inclusive mitigando efeitos colaterais de medicamentos e diminuindo as doses necessárias”, explica.
Pós em Endocanabinologia Veterinária
Entre os felinos que ela acompanhou com cannabis, um que marcou Vanessa foi Hugo, um gato preto de 13 anos que chegou para tratamento paliativo de uma suspeita de linfoma intestinal, câncer comum e agressivo na espécie. A suspeita nunca foi confirmada, porque as tutoras não quiseram fazer a biópsia. Hugo começou quimioterapia na UFMG, e foi a oncologista veterinária do caso quem indicou Vanessa para acompanhá-lo com cannabis.
Gatos nessa condição não costumam ter boa expectativa de vida. Deixam de absorver direito o alimento, emagrecem muito, têm diarreia, e a quimioterapia precisa ser agressiva para conter o avanço da doença. “Entrei com a cannabis e o Hugo passou a se alimentar bem melhor, ficando mais tranquilo quando precisava fazer ultrassom ou exames de sangue para acompanhamento”, conta.
Com quimioterapia e cannabis correndo em paralelo, e sem um diagnóstico fechado, não dá para dizer o que coube a cada tratamento. O que Vanessa relata é que Hugo ganhou peso e viveu com qualidade por mais três anos, pelo menos, ao lado das tutoras. Morreu de uma pancreatite importante, que o corpo já velhinho não aguentou.
Hugo chegou a ela já como paciente paliativo, e esse é justamente o lugar que a especialidade costuma ocupar. “A endocanabinologia veterinária ainda é vista como paliativa, enquanto deveria ser pensada como protocolo inicial integrativo para diversas doenças”, defende Vanessa, que cita o reconhecimento da área como especialidade pelo CFMV.
O passo seguinte é uma pós-graduação em Endocanabinologia Veterinária, que ela e Aline Goulart estão lançando com a Faculdade Qualittas para que outros veterinários levem o tema à rotina clínica. De certa forma, é a professora que Vanessa queria ser lá em Curitibanos. E a turma, de saída, tende a incluir os mesmos colegas que, desde a graduação, ela acha que ainda não sabem lidar direito com um gato.