
O que significa ser uma pessoa “careta” quando se vive cercado por uma imagem de excesso? Para Rogerio Skylab, a resposta passa por uma distinção que ele faz o tempo todo: o sujeito biográfico, o sujeito artístico e o sujeito político são três coisas diferentes.
Na vida pessoal, ele se considera quase abstêmio, não fuma cigarro, não se dá bem com maconha, teve poucas experiências com cocaína e evita psicodélicos porque diz que não voltaria de uma experiência dessas. Mas isso não o impede de defender a descriminalização da maconha. Para ele, uma coisa é aquilo que funciona ou não para o indivíduo e, outra, é o que deve orientar uma política pública.
Nesse papo sobre vícios com Anita Krepp, editora desta Breeza, inclusive os que não têm nada a ver com drogas, Skylab admite ter os seus e diz que lutar contra eles é difícil porque o vício é muito poderoso. Sexo, música e outras obsessões. Para ele, o ser humano está sempre em busca de algum estado psicológico, e é essa busca que ajuda a explicar por que somos diferentes dos animais.
Ficou consolidada uma imagem muito forte sua como a de alguém ligado ao excesso, à transgressão, às drogas, ao sexo. Quanto dessa imagem corresponde ao Rogério real e quanto é uma projeção que as pessoas fizeram sobre você a partir da sua obra ou da sua postura no mundo?
É como você falou, todo mundo pensa que eu cheiro tudo, que eu fumo tudo. É impressionante. Mas eu faço separações. Existe o âmbito político, existe o âmbito da experiência pessoal e existe o âmbito da perspectiva artística. Eu separo esses três aspectos, sempre separei. Arte, para mim, não é biografia. Nunca foi. A arte está no campo da ficção. Por exemplo, eu tenho uma música que ficou muito famosa, pelo menos entre o meu público, que é “Tem cigarro aí?”. É a música de uma pessoa absolutamente obcecada por fumar, que passa a música toda pedindo um cigarro. Evidentemente, quando você escuta uma música dessa, vai pensar “bom, o Skylab é totalmente viciado em cigarro”. Pois eu vou te falar que eu nunca fumei. Quer dizer, todas as vezes que tentei fumar um cigarro, nunca gostei. Eu não gosto de fumar, não tenho nenhuma relação com o cigarro. Aí você vê que existe uma diferença entre a experiência pessoal e a perspectiva artística. E eu faço uma terceira categoria, que é a perspectiva política. Por exemplo, a questão da maconha. Eu sou totalmente a favor da descriminalização da maconha. Porque a política tem, de alguma forma, uma relação com a ciência. Quem falava isso era o Foucault, da relação entre poder e ciência, política e ciência. Essa relação existe. Cientificamente, já foi provado que o álcool, e o próprio cigarro, a longo prazo são muito mais prejudiciais à saúde do que a maconha. Isso já está provado e não se discute mais. Em relação às outras drogas, politicamente, aí pode-se discutir. É um campo de discussão. Mas em relação à maconha não tem mais discussão. Os legisladores têm que ter consciência dessa questão, é uma questão política. Na questão política, você tem que descriminalizar totalmente o uso da maconha. Não cabe mais esse tipo de discussão. Querer discutir uma questão dessas é uma coisa retrógrada. Já no campo artístico, da mesma forma que eu acho que a política tem uma relação com a ciência, a arte tem uma relação com o inconsciente. E no inconsciente tudo é liberado, nada é proibido. O inconsciente não admite julgamento ético, e na arte também não se admite julgamento ético. Na política, sim, mas na arte não. Na arte, para mim, tudo é liberado. Não existe proibição. Você não pode mergulhar a questão ética na arte, porque, se fizer isso, vai começar a criar censura, proibições. Então, na questão artística, a liberação também tem que ser absoluta. Não só da maconha, mas de qualquer coisa. O terceiro âmbito é o da experiência vivencial, e aí é outra coisa. Cada um tem a sua experiência. E eu vou te falar uma coisa surpreendente. Não é só o cigarro. A maconha, que é uma droga da minha geração… Você está numa festinha, vão fumar maconha, e eu já fumei maconha diversas vezes, mas vou te confessar uma coisa, eu não me sinto bem. É uma experiência pessoal minha.
E como é esse não sentir-se bem?
Eu me sinto fora do eixo, e isso me dá uma certa agonia. Você está me entendendo?
Perfeitamente.
Curiosamente, eu já passei uma noite cheirando cocaína e não senti absolutamente nada. Mas na maconha existe algum elemento que me deixa fora do eixo. Alguma coisa da minha constituição individual. É por isso que eu não posso misturar a experiência individual com a experiência política, muito menos com a experiência artística.
Conta mais sobre essa sua reação à maconha…
Todas as vezes que eu fumava maconha, eu ficava perdido. Quer dizer, quando eu fumo maconha, eu fico perdido, e quando fico perdido, me dá uma certa agonia. Provavelmente porque eu seja uma pessoa muito racional, muito pé no chão. A maconha me tira do eixo, e isso me provoca uma agonia. Eu fico mal por dentro. E falo isso por experiência mesmo. Eu me lembro de quando era muito novinho. Tinha 22 anos e morava no Mato Grosso do Sul, tinha ido trabalhar lá, e tinha muito contato com engenheiros agrônomos do Paraná. Cara, lá os agrônomos fumavam maconha direto. Mas era direto. Eu me lembro de um charuto de haxixe que eu fumei e passei o dia todo deitado na cama. A minha constituição individual não se relaciona bem com a maconha. Por isso eu te digo que existem esses três âmbitos. O âmbito da política, o âmbito da arte propriamente dita e o âmbito da experiência individual.
Que bom que você tem essa clareza, porque acho que ela falta muito quando a gente fala de política e de liberdade individual. Uma pessoa pode perfeitamente dizer “eu não quero fazer isso” ou “isso não faz sentido para mim” e, ainda assim, entender que isso não lhe dá o direito de impedir que outra pessoa faça uma escolha diferente. Acho que o problema começa quando a convicção pessoal vira uma tentativa de impor essa escolha ao resto da sociedade…
Esse é o perigo. Esse é o perigo, porque a pessoa não consegue distinguir esses âmbitos e começa a achar que o que ela vive é o que deve prevalecer. Ela não consegue separar as outras instâncias. Quando você não consegue separar essas instâncias e quer que a sua experiência individual prevaleça sobre todos os âmbitos, aí ferrou.
Fumar não é a sua praia, mas e as gotinhas de cannabis, você já experimentou?
Não, nunca experimentei. Mas acredito, e já está provado cientificamente, que no uso medicinal da maconha não há dúvida. Isso não se discute mais. E eu nem quero entrar nesse campo medicinal, porque ele já faz parte de uma prática. Inclusive já foi liberado pelo Ministério da Saúde, mas nunca experimentei. Nunca precisei.
Você tem uma honestidade, uma autenticidade, um tipo de humor que a maioria das pessoas só consegue encontrar sob o efeito de alguma substância. Se não vem das drogas, de onde vem isso no seu caso?
No início do meu processo de composição, eu precisava entrar num estado psicológico para fazer as músicas, para combinar a letra com a melodia. A canção é essa junção mágica entre palavra e melodia. E muitas vezes é o contrário do que acontece com o poeta propriamente dito. No poeta, é a poesia, a letra, que vai impor o ritmo. Na canção não. Na canção, o compositor tem que ter humildade para saber que você quer falar uma coisa, porém a melodia está querendo falar outra. O compositor tem que ter uma certa humildade para deixar a melodia levar, deixar a melodia falar. Então você tem que ser mais humilde. Fazer canção é uma lição de humildade. Você não pode valorizar muito o que quer dizer, tem que abrir os seus canais para o que a melodia quer dizer. Antigamente, os gregos diriam para o que os deuses querem dizer.
Mas isso artisticamente, e no âmbito da biografia?
Não, não. Na biografia eu sou a pessoa mais careta que você possa imaginar, cara. Careta no sentido de que eu tenho alguns livros publicados. Recentemente escrevi um livro chamado “A melodia trágica”, que é um estudo sobre a canção brasileira. Cara, você não imagina o esforço e o tempo que isso levou. Eu passei quase 15 anos escrevendo esse livro. Levava uma vida absolutamente metódica, uma vida de biblioteca, quase de padre, indo diariamente estudar aqueles livros todos. É um trabalho de pesquisa em que você não pode se dar o luxo de ficar fumando. Você tem que estar muito racional. Por isso eu digo que, na minha biografia, na minha vida pessoal, eu sou uma pessoa extremamente racional. Eu não poderia ter escrito os livros que escrevi se não levasse essa vida regrada.
Não teve espaço nem para um psicodélico? Um LSD, um cogumelo, uma ayahuasca? Você teve alguma experiência desse tipo?
Não. E sabe por quê? Porque eu conheço a minha constituição. Se eu tomar LSD, eu não volto. Acho que eu não volto. Eu conheço pessoas que não voltaram. Quer dizer, não digo que não voltaram, mas voltaram meio complicadas. Pela minha constituição, eu não me dou essa experiência. É como eu te falo. Na minha vida pessoal, eu preciso do pé no chão.
Mas nenhuma vez na vida? Nada, nenhum cogumelinho?
Não. Cogumelo não, LSD também não. Mas cocaína sim. E, como te falei, aparentemente a cocaína não me provocou nenhuma mudança psicológica. Talvez eu tenha ficado até um pouco mais agitado, mais consciente. Mas não mexeu muito com a minha constituição. Agora, a maconha é terrível para mim, para a minha experiência.
A cocaína chegou a ser um hábito seu?
Não, não. Foram talvez umas três noites. Não me levou ao vício, nada disso.
Dá para dizer, então, que o Rogério Skylab é quase um abstêmio? Abstêmio de tudo?
Quase. Quase abstêmio. Cigarro eu não fumo. Mas veja a questão do álcool, só para você ter uma ideia. Com whisky, por exemplo, eu não me dou bem. Passo mal. E não é esse negócio de whisky falsificado, não. É o whisky de um modo geral. Agora, eu me dou muito bem com cerveja e vinho, e com qualquer desses drinks aí, gin, vodka. Quando eu bebo, fico num estado de passividade que me torna uma pessoa dócil, uma pessoa que abre os ouvidos para escutar. Eu escuto muito as pessoas falando. Eu bêbado, quer dizer, eu com alguma dose de álcool, fico muito passivo, fico numa boa, fico bem, fico legal.
Tem os que bebem e ficam transtornados…
Exatamente. Para você ver como os efeitos são diferentes.
Mas você se considera uma pessoa dócil?
Talvez eu seja. E talvez o álcool intensifique esse estado. Quando bebo, eu fico numa boa, não falo muito, fico ouvindo. É uma perspectiva mais de psicanalista. Eu fico ouvindo. Eu digo até, nesse texto, que seria capaz de perdoar as maiores atrocidades possíveis quando bebo, porque é uma vontade tão grande de estar junto com a pessoa. Risos.
O que você acha que as pessoas estão tentando encontrar quando procuram as drogas, o álcool, os excessos?
Eu acho que é o estado psicológico. Quem fala isso é o Caetano. Eu não acredito que uma pessoa beba porque gosta de beber, porque é gostoso. Acho que é sempre a procura de um estado. A droga é isso. É sempre a busca de um determinado estado psicológico. O ser humano é diferente do animal. Vamos pensar no cachorro, no gato. Eles vão trepar porque estão no cio. É uma questão de instinto. Terminado o cio, desaparece o desejo, desaparece o cheiro, desaparece tudo isso e acabou. O ser humano não. O ser humano não é movido a instinto, ele é movido a vício. Eu até brinco e falo “quando você não tiver vício nenhum, você se torna um animal”. Porque é isso. Se você não tiver vício nenhum, você se torna um animal. O que constitui o ser humano é o vício. Agora, eu tenho outros vícios. Eu tenho vício em sexo. O sexo me leva a um estado psicológico que, para mim, é uma coisa absolutamente maravilhosa, a que a maconha nunca vai me levar. Nenhuma droga vai me levar a esse estado. Então tem essas coisas, cara. Quando você me fala que eu sou abstêmio… Não, de forma nenhuma. Eu tenho outros vícios. E lutar contra o vício é um problema. É um grande problema.
Esse vício em sexo é algo que prejudica de alguma forma ou já prejudicou e você aprendeu a lidar com isso?
Prejudica. O vício prejudica. Em momento algum você será capaz de lutar contra o vício. A não ser que você seja um daqueles caras que entram nessas sociedades contra a bebida, essas sociedades protetoras, para discutir se está bebendo muito. É muito forte você lutar contra o vício. Muito forte. O vício é poderoso. O vício faz mal. O vício do jogo, por exemplo. Hoje nós estamos vivendo essa experiência das bets. A política pública sabe disso. Ela sabe aonde o vício pode te levar e tem que jogar contra mesmo. Tem que jogar duro. Porque o ser humano sozinho não resolve isso. Tem que haver lutas externas, porque sozinho você não resolve. O vício é muito poderoso.
Você acha que o excesso é uma forma de revelar alguma coisa que o comportamento normal tenta esconder?
Eu acho, por isso eu ligo muito essa questão à arte. Na arte, o vício é fundamental. Aliás, fazer música para mim é uma obsessão. É um vício também. E acho que tem uma relação profunda com o inconsciente. E no inconsciente não existem essas regras éticas. Na música, por exemplo, não se pode dizer determinadas coisas, porque, se disser, você pode sofrer cancelamento, pode sofrer inclusive questões no campo jurídico. Mas eu acho que na arte você tem que lutar contra isso. Na arte você tem que ser absolutamente livre.
Interessante que você trouxe isso. Como é que você tem percebido essa questão?
Eu fico um pouco incomodado com a questão da absoluta liberdade. Por isso eu sempre distingo esse âmbito, o âmbito artístico. No âmbito artístico, a liberdade é absoluta e acho que não se deve responsabilizar ninguém no campo artístico. Se você responsabiliza um artista porque ele fez determinada música, determinada peça de teatro, determinado filme, abre um perigoso precedente para a caça às bruxas. Aí você vai viver coisas que nós vivemos durante os regimes militares, com a censura. Vamos viver períodos como os da Rússia de antigamente, quando, se você escrevesse livros contra o regime, ia para a Sibéria. Na arte não pode haver esse tipo de caça às bruxas. É um perigo. A arte é absolutamente livre. Já no discurso pessoal não pode ser assim. A absoluta liberdade pode ser perigosa. É aquela velha história. Eu sou livre até onde não corto a liberdade do outro. Eu posso estar sendo livre aqui e, ao mesmo tempo, cometendo bullying contra uma pessoa que está num grau de miserabilidade e não pode nem reagir. Isso é antiético. Eu acredito na ética em determinados campos. Mas no campo artístico não. No campo artístico você tem que ter tolerância. É um campo de absoluta liberdade. Eu faço música há mais de 30 anos, e às vezes, quando vou montar um set list e quero pegar uma determinada música para cantar hoje, posso ficar constrangido em cantá-la.
Isso já aconteceu?
Isso acontece e acho isso absolutamente natural. Não vejo problema nisso. Alguns grandes compositores, não vou citar o nome, entraram num discurso de criticar o identitarismo. Você sabe muito bem a quem eu estou me referindo. Eu acho um erro desse compositor. No nosso país de terceiro mundo, o identitarismo é fundamental.
Pode ser que em algum momento o identitarismo queira atravessar a liberdade artística. Como é que se equilibra isso?
Isso é normal porque, veja bem, o identitarismo pode chegar para você e falar assim. “O Monteiro Lobato foi comprovadamente racista. Está nos livros do Monteiro Lobato que ele foi racista.” Muito bem. Ele foi racista. E eu acho isso fundamental, porque a cultura, de um modo geral, é uma coisa viva. É um organismo vivo, em constante mutação. Então é natural que hoje a gente possa questionar alguns ídolos do passado. Acho absolutamente natural você falar que é um absurdo o que está escrito na primeira estrofe de uma determinada música de um autor muito consagrado. A cultura tem todo o direito de questionar os nossos ídolos do passado. Evidentemente, os nossos ídolos do passado vão ficar muito nervosinhos, porque eles viveram essa exaltação e sempre foram protegidos pela indústria cultural. E uma das coisas positivas da internet, das redes sociais, que eu valorizo é justamente essa. Acabou, meu querido, a proteção da indústria cultural. Hoje você está no mesmo patamar de todo mundo. O Chico Buarque, quando descobriu a internet, no período em que descobriu a rede social, descobriu que uma porrada de gente odiava ele. Evidente que ele ri. Ele ri, mas é um riso incomodado, porque todos esses antigos ídolos eram protegidos pela indústria cultural, e agora não são mais. As redes sociais acabaram com isso. É evidente que as redes sociais trouxeram no seu bojo muito esgoto. Mas uma das coisas positivas das redes sociais foi essa, hoje não existe mais unanimidade. Hoje você vai ser criticado e tem que saber conviver com essas críticas.
Mas, na hora em que você está escolhendo as músicas do setlist, você não se sente tolhido na sua liberdade artística?
Eu sinto. Mas, Anita, tem uma coisa também. Não tem jeito. Eu sou um artista ligado aos tempos modernos, aos tempos contemporâneos. Eu acho que o artista deve estar ligado ao seu tempo, e as questões contemporâneas hoje são diferentes das de 68, 69. Então, sim, eu acho que a arte tem que ser absolutamente livre. É inadmissível qualquer tipo de censura na arte. Essa é a minha posição. Mas, evidentemente, como um artista de 2026, na hora de fazer uma música eu vou trabalhar com esses entraves. Eu sou um artista dos tempos contemporâneos, então vou viver toda essa problemática da autocensura. Será que eu devo colocar essa palavra? Será que eu não devo? Eu vou viver isso. Não tem como fugir. Os nossos ídolos do passado poderão ser questionados, sim. Poderão ser questionados, sim. Porque a cultura é uma coisa viva, um organismo vivo, contemporâneo, que vai mudando sempre. A arte não é eterna, não. Os valores vão mudando com o tempo. Então, lamento informar, mas os nossos ídolos do passado poderão ser questionados. Isso faz parte da cultura.