Na Breeza

O policial que quer mudar a política de drogas 

Homem de camiseta branca olhando para cima em frente a um mural colorido.

Nova soja. É assim que, segundo Fabrício Rosa, alguns parlamentares de direita já começam a se referir à cannabis, pensando na planta como commodity. Eleito no último pleito como deputado estadual pelo PT em Goiás com 81.540 votos, a segunda maior votação do estado, Fabrício leva para a Assembleia Legislativa outra ideia de legalização, que ele chama de popular. “Essa mesma planta, utilizada para criminalizar corpos pretos e pobres, hoje se torna uma commodity para grandes indústrias. Então, a gente entende que nunca foi sobre a planta, mas sobre quem usa e quem lucra com ela”, argumenta.

Na legalização que ele defende entram o uso adulto e o direito ao autocultivo. Na avaliação de Fabrício, o uso medicinal já conquistou até conservadores e o industrial começa a ganhar espaço, mas o adulto esbarra num momento de extremismo em que pautas morais ocupam o lugar da política. Ele cobra uma explicação para o fato de álcool e tabaco serem vendidos legalmente enquanto a cannabis segue proibida. “Legalizar não é liberar. Muito pelo contrário, liberado já está. Legalizar é criar regras. E pensar em uma legalização popular significa entender que essas regras não devem favorecer apenas grandes industriais, grandes fazendeiros e pessoas que historicamente lucraram com a proibição e agora querem lucrar também com a legalização”, diz ele.

Fabrício não descarta o potencial econômico da planta e cobra da direita e de parte da esquerda que enxerguem a proibição como atraso para o país. A régua dele, porém, inclui segurança pública, saúde e as prisões que a lei atual produz. “O problema é que muitos defendem a cannabis porque enxergam seu potencial econômico, e não porque entendem que legalizar essa planta, garantindo o direito ao autocultivo, pode evitar que nossa juventude continue sendo presa e morta.”

A maconha entrou em sua vida muito antes da política. O pai era usuário numa época em que pouco se falava de planta ancestral ou de uso medicinal, e pagou um preço por isso. “Meu pai sofreu com esse preconceito por muito tempo, inclusive dentro de casa, até poucos anos atrás”, revela ele.

A encarnação policial

Aos 18 anos, foi expulso de casa por ser gay e entrou para a polícia. Na Polícia Militar e depois na Polícia Rodoviária Federal, participou de operações em que a maconha levava gente para a cadeia e começou a reparar em quem era preso. Pouca gente ali representava algum perigo para a sociedade. “Eram, na maioria das vezes, pessoas pobres que se sujeitavam a riscos para enriquecer alguém que nunca seria atingido pelo nosso sistema legal, pelas nossas leis e pela nossa polícia.”

O incômodo não o tirou da corporação. “Então, mesmo cumprindo os protocolos, eu sempre questionei muito aquele tipo de lei. Isso me levou a estudar cada vez mais a proibição, não só da maconha, mas também de diversas outras plantas, como a papoula e a folha de coca.” Dos estudos saiu a leitura de que a política de drogas foi construída historicamente para criminalizar corpos e pessoas. Fabrício situa uma das origens disso na Lei do Pito do Pango, de 1830, no Rio de Janeiro, que ele descreve como uma das primeiras proibições dirigidas ao uso da maconha. Na interpretação dele, já ali comerciantes brancos e usuários pretos recebiam tratamentos diferentes.

A crítica encontrou companhia na LEAP, a Law Enforcement Against Prohibition, e depois no movimento Policiais Antifascismo, que Fabrício ajudou a criar ao lado de outros policiais antiproibicionistas. Segundo ele, o grupo prestou apoio às famílias atingidas pela chacina da Chapada dos Veadeiros, em 2022. Veio o doutorado em Direitos Humanos pela UFG, veio um mandato de vereador, e houve um período em que as duas coisas conviveram com o trabalho na PRF. Foi quando ele se tornou paciente da associação Curando Ivo e fez tratamento com óleo rico em CBD. “Acho que, de todos os períodos da minha vida, talvez esse tenha sido o mais estressante, e o CBD foi um aliado fundamental.”

Semeou o futuro

Desde a primeira campanha, quando ainda se apresentava como policial, ele leva a cannabis ao palanque, por entender que a eleição é também o momento de expor ideias à sociedade. Foram seis disputas. Em 2022, ficou a 77 votos de uma cadeira na Assembleia e terminou como suplente. Neste ano, que ele avalia como o de maior número de candidaturas antiproibicionistas da história do país, foi eleito e diz que nem a equipe esperava uma votação daquele tamanho.

Para o mandato, promete apoio ao NUPECC, o Núcleo de Pesquisa em Cultivo de Cannabis, da Universidade Federal de Goiás, e às associações de pacientes do estado, entre elas a própria Curando Ivo, a SouCannabis e a CannabCura, que, segundo ele, obteve há pouco uma liminar para funcionar. A prioridade, diz, são as Marchas da Maconha, que em Goiás ainda sofrem muito preconceito.

Fabrício assume a cadeira num parlamento que descreve como majoritariamente conservador. A cannabis que promete renda aos fazendeiros e espaço na exportação, pelo que ele conta, já ganhou interlocutores à direita. A que ele defende, com autocultivo, uso adulto e menos gente presa, parte de um estado onde, diz ele, muita gente ainda não sabe que maconha e cannabis são a mesma planta.