Por Anita Krepp

“Para eles não existe maconha. É Shuru Dume”, explica logo de cara Alexandre Giacomo, que fala dos Huni Kuī, povo indígena do Acre que chama por outro nome a planta que a polícia brasileira apreende como maconha. Para eles, o Shuru Dume tem uso medicinal e ritual, histórias de origem e um lugar próprio dentro da cultura. Alexandre é advogado e passou a analisar processos jurídicos envolvendo o plantio na aldeia, mas sua relação com os Huni Kuī começou antes disso.
Ele já vinha se aproximando das medicinas indígenas quando esse caminho se encontrou com sua atuação no universo da cannabis. “Eu já tinha uma caminhada espiritual, umbandista, e uma caminhada por esse lado das medicinas com os indígenas, junto com a questão da cannabis. Da luta da cannabis em todas as questões.” Ele chama esse encontro de “cruzo”.
O Shuru Dume acabou virando um ponto de encontro entre essas duas trajetórias. Os Huni Kuī dizem que a planta é deles e contam diferentes histórias sobre sua origem. Alexandre também conhece a discussão histórica sobre a presença da cannabis nas Américas antes da colonização, mas não acha que seja preciso resolver esse debate para reconhecer o que aconteceu depois. “E não importa quanto tempo foi, se foi antes da colonização, como que chegou. E eles adotaram isso. E isso é uma cultura, quando isso tem um nome.” O nome, nesse caso, diz muito mais do que a procedência botânica da planta: mostra que ela foi incorporada a uma cultura e ganhou um significado próprio dentro dela.
Esse reconhecimento não é consensual nem entre os povos indígenas da região. Alexandre conta que a criminalização da cannabis e a evangelização criaram um ambiente de desconfiança em torno do Shuru Dume. Os Huni Kuī, por manterem a planta em seus rituais, enfrentam resistência de outros povos. É uma história que ele aproxima do que aconteceu com as religiões de matriz africana. “Isso é uma briga antiga. Estou abrindo aqui para você, mas é uma realidade e é bem conflituoso. É o que aconteceu nos terreiros também. O que aconteceu com as matrizes africanas que tiveram que tirar a planta do uso ritualístico porque senão ia preso.”
Indígenas na mira da criminalização
Para entender por que uma planta pode assumir esse peso, Alexandre volta à história recente dos Huni Kuī. Durante o ciclo da borracha, o povo sofreu uma violência brutal e um profundo processo de apagamento cultural. A retomada viria décadas depois, com a recuperação de práticas que haviam sido enfraquecidas ou abandonadas. É nesse processo que ele situa as medicinas tradicionais. “Uma planta de poder é capaz de resgatar uma nação inteira, resgatar um bem-viver inteiro”, reflete.
Em 2022, Alexandre gravou com o Pajé Txana Mashã um vídeo para o encerramento de um curso da Unesp. A proposta era apresentar o Shuru Dume a partir do conhecimento do próprio povo. Falar publicamente sobre a planta, porém, tinha um peso especial devido a desdobramentos jurídicos envolvendo o cultivo. “Acompanhando a análise de um processo específico de plantio na aldeia, percebi o quanto essa realidade exige cautela. Ali é uma zona de forte vulnerabilidade”, explica. Foi acompanhando esse cenário que a discussão deixou de ser apenas sobre o reconhecimento de um uso tradicional e passou a esbarrar na realidade do território.
Alexandre começou então a levar informação jurídica para encontros e conferências Huni Kuī. Falava sobre o que a legislação permitia, sobre o que continuava proibido e sobre as mudanças que vinham acontecendo na política de drogas. Mais tarde, passou a atuar junto à Fephac, a federação do povo Huni Kuī, na discussão sobre plantas de uso tradicional e em trabalhos jurídicos relacionados aos conhecimentos e ao patrimônio indígena.
Quanto mais Alexandre entrou na realidade das aldeias, menos simples ficou uma ideia que, vista de fora, poderia parecer óbvia: se os Huni Kuī usam o Shuru Dume tradicionalmente e enfrentam restrições para plantá-lo, bastaria permitir o cultivo. É justamente aí que ele pisa no freio. “Não é um modelo simples”, aponta.
O desafio das fronteiras e a resistência indígena
A preocupação vem da análise de contextos sensíveis nas regiões de fronteira. Alexandre aponta que os territórios sofrem pressões sistêmicas de redes criminosas externas. Contudo, ele faz questão de ressaltar que o povo Huni Kuī atua na linha de frente combatendo ativamente as facções e o narcotráfico. Eles são guardiões e defensores da floresta e da soberania de seus territórios, resistindo a essas pressões. O Shuru Dume, portanto, transita em meio a essas vulnerabilidades geopolíticas externas, exigindo um cuidado redobrado na proteção da comunidade.
Essa criminalização das medicinas tradicionais, inclusive, não é um fenômeno isolado do Brasil. Alexandre também atua em frentes internacionais de defesa jurídica, como em casos de indígenas detidos por Shuru Dume na Armênia, demonstrando que a repressão a essas práticas atinge os povos originários em escala global.
É por isso que Alexandre reage quando a conversa chega à possibilidade de simplesmente liberar o plantio sem governança interna. “Não é bem assim, não vamos fazer na aldeia de qualquer jeito. A aldeia é terra da União, é tudo muito sério. Tem que ser muito bem feito, porque isso pode trazer riscos para a vida deles.”
O cuidado não significa recuar da reivindicação pelo reconhecimento do Shuru Dume. Significa, para ele, que as regras não podem chegar prontas de fora. A Fephac passou a reivindicar que os próprios povos indígenas tenham espaço para decidir como esse reconhecimento deve acontecer, inclusive com participação permanente nas instâncias em que a política de drogas é discutida.
Segundo Alexandre, parte dessa discussão chegou ao PLANAD 2026–2030, o Plano Nacional de Políticas sobre Drogas. Ele diz que o documento incorporou propostas relacionadas aos povos indígenas e às suas plantas tradicionais. O passo seguinte é fazer com que aquilo tenha efeito.
A cannabis também fez Alexandre olhar de outra maneira para a ayahuasca. Ele vê a medicina se espalhar para muito além dos territórios indígenas e enxerga nisso uma história que, em alguma medida, já aconteceu com a cannabis. “Quando a gente pensa na planta, então tá tendo uma nova neocolonização na ayahuasca, que é o que teve na planta da cannabis.”
A preocupação está em quem passa a se beneficiar desses conhecimentos e em quem continua tendo seus direitos questionados apesar de tê-los preservado. “Como o povo Huni Kuī, que exerce sua autonomia terapêutica e a salvaguarda de medicinas ancestrais, não tem direito ao plantio do Shuru Dume, sendo que a sociedade urbana pelas mais diversas vias pode?”