Na Breeza

O golpe do beck

Por Anita Krepp

Silhueta de uma pessoa acendendo um isqueiro com um cigarro na boca, iluminada por uma luz vermelha ao fundo.

Lucas Bernardo estava na Praça Roosevelt esperando uma amiga terminar uma aula quando um homem chegou puxando conversa. Perguntou se ele queria “voar”. Lucas disse que sim. O homem pediu que ele bolasse, Lucas bolou e entregou. Depois veio uma cerveja, uma conversa sobre onde comprar bebida mais barata, uma caminhada curta pela praça. Nada ali parecia especialmente estranho. A amiga chegou, os dois se encontraram na frente da SP Escola de Teatro, onde haviam estudado, e o homem ofereceu o baseado outra vez. Lucas acendeu, deu um trago e passou para a amiga.

Quando pegou o cigarro de volta, alguma coisa tinha mudado. “Eu já não tinha mais controle do meu corpo. É horrível quando você perde o controle total da única coisa palpável que você tem, que é o próprio corpo.” A partir dali, a memória de Lucas fica entrecortada. Um rapaz passou de bicicleta e assobiou. Lucas olhou. O homem disfarçou. 

Foi nesse momento que ele começou a desconfiar de que aquilo poderia ser um golpe. A amiga também estava profundamente alterada. Enquanto o desconhecido continuava puxando assuntos banais, Lucas tentava entender o que estava acontecendo com ele. Por dentro, estava em pânico. Por fora, mal conseguia se mexer.

Ele tentou levar a amiga para a SP Escola de Teatro. Disse que estava passando mal, que precisava ir ao banheiro. Na cabeça dele, a situação já tinha virado outra coisa. Imaginou um carro parando, alguém puxando uma faca, um sequestro. Conseguiu atravessar a rua e encostar em um carro. Chamou a amiga repetidamente. Então apagou.

Quando voltou, estava no chão. O homem estava sentado ao lado dele e tentava pegar seu celular. “Até que eu consegui mandar uma ali embaixo e desapareceu, ele desapareceu.” Lucas conseguiu levar a amiga para dentro da escola. Ela estava pior e permaneceu inconsciente por cerca de uma hora e meia. Um segurança ajudou os dois. Depois, conseguiram chamar um carro e foram embora. O que havia naquele baseado, ninguém sabe. Lucas não fez uma análise toxicológica, então não é possível afirmar que havia K9, ou qualquer outra substância específica, no cigarro. Mas a história não terminou ali.

Tem droga na nossa droga

O vídeo que Lucas publicou no Instagram passou de 22 mil curtidas e recebeu cerca de 1.600 comentários. E, no meio das mensagens, começaram a aparecer outras histórias. Pessoas dizendo que passaram por situações semelhantes na Roosevelt, na Augusta, na Bento Freitas, perto do Mackenzie. Algumas descrevem a mesma sequência: um desconhecido se aproxima, oferece um baseado, a pessoa fuma e, pouco depois, perde completamente o controle do corpo.

Uma pessoa escreveu:

“Antigamente a gente tinha que ficar esperto pra ver se não estavam colocando droga na nossa bebida, hoje tem que ficar esperto porque tem droga na nossa droga. É de fod3r! Que bom que vocês estão bem e vamos nos cuidar, galera. E não é somente em relação a pessoas, mas até em lugares, pois tem muitos lugares no centro que dopam você dentro do estabelecimento.”

Outra leitora foi direto ao ponto que talvez mais incomode quem lê o relato: como alguém conseguiria colocar uma substância em um baseado sem que a outra pessoa percebesse?

“Mds me deixou mto impactada ouvir isso pq nós da comunidade cann4b1c4 meio que confiamos uns nos outros e saber que tão fazendo isso me deixa desesperada, compartilhei pra alertar os amigos. Mas tenho uma pergunta, vc quem bolou certo? E parecia g4nj4 normal ou tinha uma aparência/cheiro diferente? Vc já tava desconfiado ou nem? Estou tentando entender como esse homem pode ter colocado boa noite Cinderela ali”

A pergunta faz sentido. E a resposta é menos confortável do que procurar alguma diferença na cor, no cheiro ou na aparência da erva. Os chamados canabinoides sintéticos são um conjunto enorme de substâncias. K2, K4 e K9 são alguns dos nomes populares usados para elas, mas não existe uma única substância chamada K9. A composição pode variar bastante. 

Segundo o Ministério da Justiça, já foram identificados mais de 330 canabinoides sintéticos no mundo, com diferentes potências, efeitos e toxicidades. Eles podem ser adicionados a material vegetal por pulverização, imersão ou outras formas. Por isso, duas amostras vendidas pelo mesmo nome podem não conter exatamente a mesma coisa.

E aqui está uma diferença importante. Apesar do nome popular “maconha sintética”, essas substâncias não são versões sintéticas da cannabis. Elas atuam nos mesmos receptores do sistema endocanabinoide, mas são moléculas diferentes das encontradas naturalmente na planta. Algumas têm afinidade muito maior por esses receptores do que o THC, o que ajuda a explicar por que seus efeitos podem ser tão intensos e imprevisíveis.

Confusão, paranoia, vômitos, agitação, alterações cardiovasculares, convulsões e perda de consciência estão entre os quadros já descritos em intoxicações por essas substâncias. Em casos graves, há registros de coma e outros eventos potencialmente fatais.

Também não existe, para quem está fumando na rua, um método confiável de olhar ou cheirar a erva e descobrir se ela foi adulterada. A composição é justamente uma das grandes dificuldades dos canabinoides sintéticos: são muitas moléculas diferentes circulando, com concentrações que podem variar.

Acabou a confiança

São Paulo acompanha o problema de perto. A Secretaria Municipal da Saúde mantém desde 2023 um sistema específico para monitorar casos suspeitos de intoxicação por canabinoides sintéticos e continua publicando relatórios mensais em 2026.

Isso, porém, não responde à pergunta que ficou depois do vídeo de Lucas: quantas dessas intoxicações aconteceram porque alguém deliberadamente colocou a substância no cigarro de outra pessoa para depois roubá-la? Não há, até aqui, dados oficiais que permitam medir isso. O que existe são os relatos. E eles têm uma coisa em comum: a confiança vem primeiro.

O desconhecido não aparece oferecendo uma substância estranha. Ele oferece justamente uma coisa que, para quem frequenta a cena canábica, pode parecer banal. Um beck, uma seda e uma roda improvisada com alguém que acabou de chegar. Lucas não desconfiou quando bolou para o homem. Não desconfiou quando recebeu a cerveja e nem quando acendeu o baseado. A desconfiança só veio depois, quando já não conseguia controlar o próprio corpo.

O que torna esse tipo de relato tão perturbador não é apenas a possibilidade de alguém colocar uma droga em outra droga, mas perceber que compartilhar um baseado, um dos códigos mais simples de convivência entre pessoas que fumam, pode também ser usado para baixar a guarda de alguém. Naquela noite, na Roosevelt, Lucas não precisou encontrar um estranho que parecesse perigoso. Bastou encontrar alguém que parecia não oferecer perigo nenhum.