Saindo da estufa

Day Limns: “Às vezes, para se conhecer, você precisa aprender a ficar sozinha, inclusive sem a maconha”

Uma mulher sentada no chão com jeans largos e camiseta, cercada por caixas de som, um teclado musical, um copo, um cinzeiro e cabos.

Day Limns começou a fumar maconha na pandemia, quando o isolamento lhe deu tempo de sobra para pensar, criar e investigar a própria história. Foram a maconha, a psicanálise e a arte que a guiaram numa jornada de autoconhecimento, que levou a cantora a olhar para a relação complicada com o pai, com quem tinha uma conexão improvável: justamente a erva. O baseado que ela enrolou para ele enquanto ele lutava contra a Covid, e que nunca chegou a fumar, acabou guardado na carteira do pai como uma espécie de última mensagem entre os dois.

A maconha também esteve presente num dos momentos mais importantes da jornada de autoconhecimento de Day, mas a cantora não romantiza a relação com a planta. Depois de perceber que ela tinha deixado de ser companhia para começar a ocupar o espaço de outras coisas, inclusive atrapalhando sua voz, Day decidiu parar. Nesse papo com Anita Krepp, editora desta Breeza, ela conta como a cannabis entrou na sua vida, o que descobriu sobre si mesma nesse processo e por que hoje diz que consegue acessar sua espiritualidade e seu “eu mais profundo” sem precisar fumar.

Eu li uma entrevista sua em que você dizia que o seu maior feito era ter sobrevivido a você mesma. O que você quis dizer com isso?

Já começamos assim? (risos) Eu sou uma pessoa cuja mente funciona com muitas abas abertas o tempo inteiro. Penso muito, faço muita reflexão. Eu me critico muito, sou muito perfeccionista. Às vezes as pessoas fazem comentários sobre mim e eu penso que já fiz comentários muito piores sobre mim mesma e sobrevivi. Isso com muita terapia. Com um projeto de autoconsciência que fui desenvolvendo ao longo do tempo, uma abertura para me conhecer de verdade. Quando eu falo que sobrevivi a mim mesma, é porque me conheci e vi tudo o que sou, tudo o que sou capaz de fazer comigo mesma. Não com os outros, comigo. Ou tudo o que eu já fiz comigo. Eu já fui uma pessoa que fez muito mal a si. Já me machuquei, já fiz coisas que não me faziam bem e, para além de tudo isso, tinha os pensamentos. Quando eu paro, penso que estou viva. Porque ninguém é feito só de parte boa. Ninguém é só o bem, ninguém é só o mal. Quando vi que não me rendi a essas coisas ruins, aos meus traumas, que não permiti que eles me definissem nem ditassem o caminho para onde eu vou, percebi isso como uma vitória. Por isso hoje eu consigo viver muito mais em paz, ainda mais sendo uma pessoa pública, no âmbito da internet e das redes sociais, onde a nossa vida está exposta e as pessoas têm percepções sobre a gente. Primeiro, porque sobrevivi ao caos que realmente vivi, especialmente na pandemia. Acho que minha jornada de autoconhecimento começou ali, quando eu tinha muito tempo para ficar sozinha. Comecei a me entender, a mergulhar em mim, tendo também a arte para me ajudar a me enxergar de fora. Isso é um presente, uma dádiva que sei lá quem me deu, mas me ajudou muito a me olhar como uma pintura externa e perceber que era aquilo que eu estava fazendo comigo mesma, que era aquilo que eu era. E também não me permiti me definir dessa forma. Pensei que estava sendo aquilo, mas que podia ser outra coisa. Tudo ficou mais leve. É até difícil responder essa pergunta. Enquanto falo com você, estou tentando definir a resposta certa. Mas sobreviver a mim mesma envolve tantas questões, tantos demônios, como se diz… Hoje aprendi não só a conviver com eles, mas a mandar neles também, a dizer para eles que não é a hora deles.

Super importante a gente conhecer as nossas sombras.

Exato. Uma coisa que sempre me incomodou, especialmente vinda de um âmbito extremamente religioso, foi a culpa religiosa, que era muito intrínseca em mim. Percebi que a gente tem que ser a integração da luz e da sombra, e não tentar separar. Quanto mais a gente tenta separar a luz da sombra, mais disfuncional, mais esquisito, mais estranho, mais feio a gente fica. Acho que o grande problema de muitas pessoas é tentar forçar esse ser de luz. Deve ter sido nessa mesma entrevista que você viu que eu disse que a característica que acho superestimada é ser do bem. Porque ninguém é só do bem, gente. Me poupe. A gente tem sombras, e não dá para demonizá-las, ainda mais porque crescemos nessa cultura de céu e inferno, anjos e demônios. A gente acha que só vai estar mais perto de Deus se se distanciar das sombras, mas acho que é justamente o contrário, porque Deus é o todo. Não tem como esse ser que é o todo não ter a sombra incluída. Senão, ele não é o todo.

A gente sabe que quanto maior a sombra, maior a luz…

Exato. Quando comecei a ter esse entendimento, passei a me permitir me apropriar dessas sombras. Mas não de qualquer jeito. É com conhecimento e com consciência que busco desenvolver a cada dia mais. E até a consciência tem um limite. Sinto que estou num ponto em que preciso dosar, porque às vezes fico com uma hiper consciência que vira quase uma hiper vigilância. Escrevi num texto meu que a consciência às vezes vira a sala mais elegante do medo. Você se conhece tanto que para de se permitir certas coisas, porque acha que nem vale a pena fazer, já que sabe onde vai dar. Mas será que sabe? Você ainda é a mesma pessoa? Hoje eu sei muito bem onde estou pisando, e às vezes isso é foda. Às vezes me traz um certo medo, porque antes, pela inocência ou pela falta de conhecimento, eu me permitia me jogar mais em certas coisas e por ter me jogado, agora eu sei.

Como foi a sua jornada de autoconhecimento? Alguma coisa te marcou especialmente nesse caminho?

Tem, com certeza. Sempre fui uma pessoa muito auto-analisadora, mesmo sem fazer terapia. Como eu disse, olhava demais para mim, às vezes de forma exacerbada, até pouco saudável, com um olhar muito crítico, com muita penalidade. Até porque cresci nesse lugar de achar que, se eu cometesse um erro, iria para o inferno. E o inferno não é um lugar muito legal de se estar, nem de se imaginar estando. Acredito que vou falar muito da pandemia como um start mais claro, pelo privilégio que tive de ficar sozinha, sem fazer nada. Naquele contexto tenebroso, era um privilégio enorme poder ficar em casa pensando e criando. Lembro que ali comecei a pensar demais. Pouco depois, meu pai acabou falecendo de Covid. E esse foi o grande estalo que eu precisava para me autoconhecer.

Quando meu pai estava internado, eu tinha muitas questões com ele. A gente não era próximo, a nossa relação era bem estranha, e muitas pessoas diziam que eu parecia com ele. E vou me permitir, porque sinto que estou no lugar certo para isso, senão a história fica sem pé nem cabeça… Mas o que conectou eu e o meu pai foi a maconha. Comecei a fumar na pandemia. Era um tempo em que eu tinha muito ócio, muito tempo de sobra. A maconha começou a ocupar um lugar tanto de companhia quanto de fazer alguma coisa, e com o tempo, passei a fumar bastante. Eu, que já pensava muito, que já refletia bastante, imagina fumando. Comecei a entrar nuns buracos de pensamento que foram me levando para a minha ancestralidade. Fui tentando entender a minha família, só que ainda com muita resistência em relação ao meu pai.

Um dia eu estava conversando com a minha mãe, e ela me mostrou o que estava bebendo, e eu mostrei que estava fumando. Aí ela me contou que o meu pai também fumava. Na hora já comecei a achar ele bem mais legal. Pensei que aquele era o ponto de conexão entre mim e o meu pai e que, quando voltasse para Goiânia, ia querer fumar um com ele. Achei que dessa forma ia conseguir me conectar com ele sem nada forçado, numa coisa de que nós dois gostamos. Em 2021, quando tive a oportunidade de ir para Goiânia, meu pai já estava internado. Antes disso, minha mãe tinha vindo para São Paulo e me pedido para enrolar um para o meu pai. Eu enrolei, e ela levou para ele de presente, sem que a gente se falasse. Essa foi a nossa forma de comunicação. Quando cheguei em Goiânia, ele já estava internado com Covid, e minha mãe foi me mostrar a carteira dele. Lá estava o baseado, sem fumar. Ele guardou. A gente realmente não se falava, meu pai não falava muito. E ele guardou o baseado na carteira. Fiquei bem mexida com isso, e o processo de autoconhecimento ficou muito mais forte. Enquanto ele estava internado, comecei a investigar a vida dele para entender por que ele era do jeito que era. Por que fazia as coisas que fazia, por que tratava a gente daquele jeito, por que era tão fechado. Fui investigar com os meus tios, com a minha avó, a vida da minha avó também. Perguntava como tinha sido a vida dela, como tinha sido a vida do meu avô. Lembro que fazia isso fumando um. Não com a minha avó, mas na frente dela. E a minha avó me contou que o meu pai também puxava fumo.

Uma investigação das raízes, que vai acabar nas raízes da avó, é isso?

Exato. E as coisas foram fazendo sentido. Teve um momento muito chave para mim. Eu estava tomando banho. Não podia ir vê-lo, era pandemia, e meu pai estava internado com Covid, já com crise respiratória. Então tomando banho, pensei que não ia conseguir falar com o meu pai. Alguma coisa dentro de mim já tinha avisado que ele não ia sobreviver. Foi por isso que comecei essa investigação, porque sabia que ia ter que dar conta de tudo, e precisava me conhecer, me entender. Nesse banho, falei com ele. Disse que sabia que ele estava me ouvindo, porque achava que ele nem estava mais nesse plano. Comecei a falar com ele imaginando e tendo a certeza, em algum lugar dentro de mim, de que ele me ouvia. Disse que ele tinha sido um filho da… em vários sentidos, mas que eu o entendia e o perdoava. Eu chorava horrores no banheiro. Disse que o perdoava e que, por mim, ele podia ir em paz, que deixasse que eu cuidaria de tudo aqui e que eu o entendia. Mas que ele ter feito o que fez, ter sido da forma que foi, tinha me deixado assim e assado, me fazia sentir assim e assado. Fui muito honesta. E terminei dizendo que o perdoava e o liberava, que, se dependesse de mim, ele estava liberado.

Um momento super catártico…

Muito, e eu estava sob o efeito da cannabis naquele momento. E eu não acho que a cannabis me dê alguma coisa como criatividade ou espiritualidade. Acho que são coisas que já estão em mim, que já são minhas, e às vezes ela só coloca para fora, ou traz um outro tipo de contato com isso. Esse momento foi a virada de chave do meu autoconhecimento. A partir daí, comecei a fazer terapia, psicanálise. Aquilo que eu tinha começado a entender sozinha, com a ajuda da medicina da planta, passei a trabalhar com uma profissional. Aí minha vida começou a mudar de fato. A terapia foi absurdamente transformadora. A morte do meu pai também fez com que eu quisesse mudar tudo muito radicalmente. É como se eu tivesse entendido muita coisa, mas meu corpo não estivesse preparado para viver certas coisas. Eu me achava com muito conhecimento, mas, na prática, diante de certas situações, o sentimento ainda era o daquela eu que não tinha esse conhecimento. A terapia me ajudou a ir dosando, a ter paciência com os meus processos. Desde então, minha vida mudou. A cada dia me conheço mais e sempre tem uma coisinha nova para conhecer. Até escrevi uma música em que digo que entendo de onde venho, mas que não é para lá que eu vou. É meio isso.

Esse beck bolado que você mandou pro seu pai, ele chegou a responder via sua mãe?

Não, a gente realmente não se falava. Para você ter uma noção, meu pai era bloqueado no meu WhatsApp. Foi quando ele estava internado que descobri várias coisas. Peguei o celular dele e eu era a artista mais ouvida por ele. E, nessa época, eu nem tinha lançado meu primeiro álbum ainda. Estou falando aqui coisas que nunca imaginei que fosse falar, honestamente. Ele era meu fãzaço, só não fazia questão de falar. Era algo que guardava, e talvez, se falasse, eu também fosse ignorar, não sei. Eu tinha uma relação muito esquisita com o meu pai. Só que, quando ele morreu… Falo disso num texto meu, agora tenho um blog também. Para mim, perder a minha voz às vezes parece uma morte pior do que perder o meu pai. São mortes diferentes. E ele sabe disso, de onde estiver, sabe que fez todo o sentido. Por mais que tenha sido num contexto tenebroso, em que faltou vacina e o genocida estava no poder, individualmente, para mim, fez sentido. Parece que integrou uma parte de mim que faltava. Uma coisa que eu não aceitava sobre a minha raiz, sobre quem eu era, eu peguei para mim. Peguei até as partes ruins, o que depois foi tratado na terapia, quando tive que entender que aquela parte eu não precisava pegar tanto. Meu luto foi diferente. Peguei meu pai, a personalidade dele, e tentei moldar em mim. 

Essa reintegração do seu pai também foi uma maneira de lidar com seus traumas de infância?

Com toda certeza. E é muito interessante, porque tenho outros traumas também, além dos ligados diretamente ao meu pai. É uma relação muito contraditória. A minha mãe era uma mulher cristã, da igreja, aquela coisa fervorosa. Minha primeira lembrança com ela é ela me levando numa Fiorino para a igreja. Já a minha primeira lembrança com o meu pai indicava medo. Ele bebia muito e era extremamente violento. Essa era a minha primeira lembrança com o meu pai, e tinha esses traumas para além da relação com o meu pai, da coisa esquisita que ele tinha com a minha mãe e da igreja. Eu não podia ser, não podia existir, não podia nem ouvir música direito. Ia descobrindo brechas e formas de moldar a minha personalidade, dando voltas e voltas, às vezes fazendo certas coisas escondidas.

Ainda assim, só fui dar meu primeiro beijo quase aos 18 anos. Eu tinha medo de verdade. Era um medo real. Quando digo que a relação com o meu pai era contraditória, é nesse sentido. Quando decidi libertar a minha sexualidade, a minha mãe, que era a pessoa que estava sempre comigo, quis me dar as costas por um momento. Ela ficou chocada com o fato de eu gostar de mulher, foi contra. Já o meu pai, mantendo um certo distanciamento, disse do outro lado da sala uma frase que nunca vou esquecer, ele disse que não mudava nada pra ele, porque ele era do mundo. Acho que até o meu problema com ele vinha daí, porque eu queria ser do mundo, igual ele era. A gente vai entendendo isso, e a igreja diz que o mundo é do maligno. Vou ficar aqui de olhos fechados, esperando morrer para ver se tem um céu me esperando? E, para chegar a esse céu, tenho que agir aqui conforme a régua moral. É uma coisa muito difícil de bancar. Difícil não, impossível. Digo isso com toda a certeza do mundo. Quando alguém vem com esse discurso, gente, que preguiça. Isso não existe. Todos esses traumas foram se curando, e acho que, com a morte do meu pai, as coisas começaram a acontecer. Comecei a criar arte muito a partir disso, de todos esses traumas, que acho que foram me limpando, de certa forma.

Então foram a psicanálise, a arte e dá pra dizer que também a maconha teve papel nessa sua jornada de autoconhecimento?

Eu não sou a pessoa que demoniza a maconha, nem a que romantiza. Na pandemia, ela começou a ocupar esse lugar de companhia e de tempo. Também entendo a maconha como uma planta medicinal, que tem ligação real com a natureza. Infelizmente, no nosso país, hoje a maioria das pessoas não tem acesso a uma maconha boa. Uma que eu realmente consiga olhar e dizer que é uma boa planta. Hoje é tudo muito misturado, a gente não consegue saber exatamente o que está fumando. Aí já entra em outros BOs, que nem precisa falar. Mas acredito que sim, tem a ver, porque me deixou mais aberta. Acredito muito que não só a maconha, mas outras plantas e raízes que vêm da terra ajudam a conectar com o espiritual. Historicamente, essas plantas foram demonizadas pela igreja porque os indígenas diziam que estavam se encontrando com Deus. E a igreja questionava como assim eles estavam se encontrando com Deus, se só na igreja se encontrava Deus, e decidiu proibir aquilo. Só que é muito, muito delicado falar dessas coisas. Acredito que você, mais do que ninguém, sabe disso, porque fala muito sobre esse assunto. Então acredito, sim, que a maconha tenha, de certa forma, aberto e expandido um pouco a minha mente para entender melhor tanto a mim quanto a vida, de modo geral.

Você falou que começou a fumar na pandemia, quando já tinha seus vinte e poucos. E o que aconteceu antes? Com o lance da sua mãe ser da igreja, você pensava “não vou chegar perto disso para não criar problema com ela”?

Mas com álcool ela não tinha problema, né?

Acontece nas melhores famílias.

Acho que foi só uma questão de tempo. Lembro que eu demonizava. Tem até uma história com um amigo que estava fumando e foi me oferecer. Peguei o baseado da mão dele, joguei no chão e pisei. Toda vez que o vejo, digo que estou devendo um baseado para ele. Meu Deus do céu, que vergonha. Parecia uma doida. Eu adoro me contradizer, é algo que me acontece com frequência. E acho que, se estou me contradizendo em certos assuntos, é porque estou me movendo, mudando, evoluindo. Não sei, acho que o que aconteceu foi que na pandemia, aquele período de me sentir sozinha, com muito tempo ocioso, a maconha se tornou uma companhia de verdade, uma coisa que ocupava o meu tempo. Além disso, na época eu achava que ela exercitava muito a minha criatividade. Eu já sou uma pessoa criativa, não preciso dela para isso, mas ela me deixava num estado de receptividade muito grande. Abre o canal, e às vezes acho que abre até demais. Aí é uma questão de dosar.

Você, que é tão aberta à sombra e à luz, como faz para dosar tanto as substâncias quanto a sombra e a luz na sua vida?

Acho que é pelo autoconhecimento. Não tem como fugir disso. Se conhecer é de uma importância enorme. Às vezes, para se conhecer, você precisa aprender a ficar sozinho. Inclusive sem a maconha, que às vezes parece um ser humanozinho ali do seu lado o tempo inteiro, dando a ilusão de que você não está só. A terapia me ajuda muito. Quando passei a fazer terapia de 15 em 15 dias e fiquei uma semana sem, percebi que precisava fazer toda semana. Às vezes preciso da terapia me puxando. Eu fico meio no ar, e ela me puxa de volta para a terra. O ser humano é muito complexo. Vai ter hora, vai ter situação em que vou querer agir de outra forma, que talvez não seja a melhor, ou em que vou tentar ser mais querida quando era para ser mais ponta firme. Aí é sobre se conhecer e entender, ou dar a cara a tapa para ver que não era bem aquilo. Em relação à substância em si, na pandemia, ela ganhou esse lugar de companhia e de ocupação do tempo, e sinto que esse lugar se fixou. A pandemia passou, eu já não precisava, sinceramente, dessa companhia nem de ocupar o meu tempo com isso, e ela seguiu ali. Ocupou demais esse lugar, começou a tomar o espaço de outras companhias, de outros afazeres. Até que me dei conta de que alguns dos meus planos e algumas das minhas relações estavam virando fumaça. E percebi isso na terapia. Não fui eu sozinha. Eu fumava um na frente da terapeuta. Amava fazer terapia fumando um. A terapia era online, então ela ficava sem ver. Mas, falando ali, eu me dei conta… Eu sou uma pessoa muito visual e lúdica também. Quando percebi que as coisas estavam virando fumaça, parei e percebi que não queria aquilo. Porque fumaça é uma coisa que você não toca. É algo que não aterrissa. Ela estava ocupando um lugar de que eu não precisava mais, que por um tempo foi da hora, mas decidi dar um basta. 

E como ficou essa relação com a maconha?

Meu Deus, está suado. Agora já tem um tempo que estou sem. E me percebo uma pessoa completamente diferente, no sentido de funcionalidade. Deixei a querida da florzinha tomar um lugar muito expressivo na minha vida, um lugar que ela não precisava ocupar.

É fácil cair nessa.

Mas, ao mesmo tempo, percebi que, no meu caso, não havia muito vício. Era mais o lugar em que eu a coloquei, de companhia e de ocupação do tempo, porque era muito mais fácil ocupar o meu tempo assim, na minha cabeça, eu jogava muito nela essa conta da criatividade, a ideia de que tinha mais ideias, estava aberta a novas ideias, mas não colocava nada em prática.

E o que você botou no lugar do hábito canábico?

Uma rotina. Acordar, trabalhar, fazer o básico, porque às vezes ela estava ocupando o lugar do básico na minha vida. Também tive que me colocar limites. Sou uma pessoa muito visual, então não posso ter em casa. Simplesmente não posso ter na minha casa neste momento. E fui surpreendida com o quanto não me faz falta, e isso me pegou muito de surpresa, porque eu mesma achava que já dependia disso para funcionar. Era uma mentira que eu estava me contando. Não dependo em nada. Acho que me auxiliou bastante naquele momento em que me deixou receptiva e mais aberta a entender certas coisas sobre mim, sobre a vida. Mas são coisas que tenho aprendido a acessar sem precisar dar um dois para acessar minha espiritualidade, ou o meu eu mais profundo. Não sinto mais essa necessidade. Fui bem surpreendida com o quão funcional eu de fato posso ser. E um dos principais motivos para eu ter parado foi a minha própria voz. Sou uma pessoa que vive da voz e depende dela. Quando percebi que estava me atrapalhando a alcançar certas notas, a fazer certas coisas, acendeu um alerta.

Isso foi na produção de PUT@RIA & POE$IA (mixtape lançada em agosto) ou antes?

Já vinha passando pela minha cabeça havia muito tempo, mas eu estava adiando. Acho que tive que chegar num certo limite. Sempre soube que sou a pessoa que chega aos limites, só que não é algo que eu recomendo às pessoas. Não esperem quase perder para valorizar o que vocês têm. É uma característica minha que conheço através desse autoconhecimento. Costumo dizer que existem várias de mim aqui dentro. A mãe, o pai e a criança. E eu estava meio que sendo o pai. Isso virou pauta na terapia também, por causa dessa integração do meu pai. Eu era o pai que deixa o menino fumar mais um pouco, curtir mais um pouco. A mãe mandava o menino parar com aquilo. E o pai insistia em deixar a criancinha brincar mais um pouquinho. Até que a criança estava prestes a se esfolar todinha, e aí chegou a hora de parar. A mãe tomou as rédeas.

Me conta seus planos até o fim do ano. Imagino que vai seguir apresentando esse seu novo trabalho…

Exato. PUT@RIA & POE$IA é uma parada da qual tenho muito orgulho, porque consegui voltar a fazer música e me permitir lançar canções que não vêm de uma necessidade muito grande de me explicar.

Como assim?

Nos meus dois primeiros e únicos álbuns, eu estava num processo de autoconhecimento tão grande que tinha necessidade de me entender de fora, e a arte deixou de ser subjetiva. Ela tinha que ser o que eu definia, porque era sobre mim. PUT@RIA & POE$IA vem de um lugar de muito mais desprendimento, de uma leveza muito maior, em que eu precisava só fazer música e que ela fosse boa. Eu também tinha, e tenho, uma vontade enorme de colaborar. Adoro colaborar. Queria fazer música com fulano, com sicrano. Fui buscando essas colaborações, e elas foram acontecendo. Quando vi, estava com um projeto bonito, com várias músicas boas, com artistas excelentes que admiro muito e com quem também tenho amizade. Ela não tem uma… apesar de eu ter encontrado um fio narrativo, porque não consigo evitar, só depois de as músicas estarem prontas. Geralmente eu fazia o contrário, eu entendia o que queria falar e depois escrevia as músicas sobre isso. Desta vez, não. Fui fazendo as músicas e, quando vi, tinha encontrado um fio invisível que conecta tudo.

É essa coisa entre o arroba e o cifrão, onde se encontram as relações hoje em dia. Se a gente está se conectando, se está se consumindo, ou se está fazendo os dois ao mesmo tempo. Só que é uma linha invisível que não fica perceptível quando você escuta. É realmente uma mixtape sem essa necessidade de explicar. É só ouvir, curtir, se identificar. E me conectar um pouco mais com a rua. Quando falo da rua, falo de conversar com as pessoas em vez de ficar dentro do meu quarto olhando para a minha luz, para a minha sombra, para o meu próprio reflexo. Agora quero olhar para os meus outros reflexos, que também são o outro. Querendo ou não, o outro também é um reflexo da gente. Só que agora a céu aberto, na rua, descobrindo outros tipos de vivência. E reforçando essa coisa da música mais urbana que tem conexão com o rap, com o R&B, com o trap, e até com o funk, de forma muito sutil. É uma coisa bem despretensiosa que me permiti fazer, me desprendendo das minhas próprias regrinhas enquanto artista. Da obrigação de ser profunda demais. Entendi que dá para ter profundidade na leveza também, e isso tem sido bem libertador. Meu objetivo agora… Como cada música tem seu universo próprio e seu próprio feat, acredito muito que dá para trabalhar cada uma com calma. Sem pressa de ter o próximo projeto, porque tem muita música ali para ser aproveitada. E eu quero aproveitar. Estou tentando levar esse projeto para uma parada mais ao vivo, e seria grandioso trazer essas pessoas para um palco e cantar essas músicas juntos. Estou fazendo planos para ver como isso vai se dar.

No mais, meu plano para este ano é esse. Também quero vender o show Day Canta os Anos 2000. É um projeto pelo qual estou apaixonada, inspirado nos Acústicos MTV, em que canto músicas que moldaram a minha personalidade, não só a artística, mas a minha memória afetiva. Percebi que as pessoas realmente se conectaram com esse show e quero levá-lo para mais cidades e fazer mais datas.