Saindo da estufa

Samantha Schmütz: “Maconha legalizada vai ser bom para todo mundo, vai ser bom para o nosso país”

Mulher sorridente vestindo um vestido animal print (leopardo) em fundo vermelho, posando com uma mão levantada e a outra na cintura.

A atriz Samantha Schmütz mora em Los Angeles – uma espécie de Disney para adultos – onde compra maconha em lojas que parecem Apple Stores, em que ela pode escolher a variedade da erva pelo efeito desejado e encontra produtos que vão de balas a óleos e chocolates. 

No Brasil, onde a realidade é bem diferente, Samantha estrela a versão cinematográfica do Verão da Lata, episódio que marcou a história da contracultura brasileira no final dos anos 80 e tem estreia marcada para o mês que vem. Entre uma coisa e outra, ela fala sobre a diferença que a legalização faz na vida cotidiana e abre seus hábitos de fumeta gourmet.

Nesse papo com Anita Krepp, editora desta Breeza, Samantha conta também como a maconha entrou na sua vida, desde a sua primeira vez, num show dos Paralamas do Sucesso, e fala sobre a sua propensão aos vícios – inclusive aos bons –, o detox de álcool e o preço de se posicionar publicamente em um mercado que ainda prefere artistas neutros e previsíveis.

Estamos em vias da estreia de “Verão da Lata”, uma história clássica da maconha no Rio, que rolou no final dos anos 80, e eu quero saber se você conhecia a história do Verão da Lata antes de ser convidada para o filme?

Ah, essa história é clássica. Todo carioca e todo maconheiro, no melhor dos sentidos, quem gosta, sabe dela. E é uma história que teve desdobramentos, como a música da Fernanda Abreu, Veneno da Lata. Então eu já conhecia, sempre fui super curiosa, e ficava até chateada por não ter participado ao vivo. Risos. Mas agora tive a chance de viver a réplica dessa história.

E o que foi mais interessante, ou mais curioso, para você nesse processo de produção do “Verão da Lata”? Porque é uma chance de se aproximar não só da história, mas do próprio universo canábico, e através do humor, não daquela coisa pesada de apreensão e tráfico…

Eu percebi que ainda é um assunto difícil de se falar aqui no Brasil, por não ser legalizado. Vi isso na diferença entre as entrevistas que eu e os meus colegas dávamos no set, porque eu moro em Los Angeles, num lugar onde é legalizado. Lá eu posso falar abertamente que eu fumo, não é crime. Aqui, em alguns momentos, eu causava um certo desconforto, do tipo “ah, não, mas eu não quero fazer apologia”. E eu falava “não, não é apologia”. É que eu moro num lugar onde se vende vodka, gin, cannabis, chocolate de cogumelo. Eu vivo na Disney, aquela coisa. Isso tudo é um reflexo. Morar num lugar legalizado reflete em várias outras áreas, financeiramente, em relação a impostos, à liberdade, à clareza sobre o que é a cannabis recreativa. Principalmente no que a gente está falando, que é o assunto do Verão da Lata, o lado do qual eu entendo mais, mais do que do universo canábico medicinal. Eu acho que é um lazer permitido, assim como a bebida alcoólica, mas aqui ainda existe esse preconceito.

Morar num lugar legalizado realmente faz toda a diferença sobre a percepção das pessoas em relação à maconha. Como foi essa sua chegada ao ambiente legalize?

A Califórnia é a mais especial. E há muito tempo eu compro maconha legalizada lá, acho que desde 2018, se não me engano. Antes mesmo de morar.

E qual foi esse primeiro contato com o mundo legalizado?

Eu vi que abriram lojas, foi muito comentado. Falei “claro, vamos nessa loja”. Cheguei lá e era tipo uma loja da Apple, com iPad para você escolher, se era mais para relaxar, mais para outra coisa, porque tem uns rótulos com a função da planta. Esse aqui trabalha mais na criatividade, esse ajuda no sono, esse ajuda a concentrar. Você tem essas opções. Tinha refrigerante, chocolate, jujuba, bala, e, para quem não quer fumar, tem vape, tem óleo. Eu fiquei tipo “uau, não acredito que estou vendo isso, nunca pensei que fosse vivenciar uma coisa dessas”. É muito evoluído.

E, entrando nessa coisa das preferências, você é mais da gummy ou da flor mesmo?

Eu não sou da gummy. Já testei e não bateu bem em mim, passei meio mal. Usei uma vez, comi num show, e deu uma ondinha boa, mas eu prefiro fumar.

E tem uma strain preferida, um gostinho mais cítrico, mais candy? Você é dessas gourmet?

Sou. Eu fumo sempre uma lá na Califórnia, tipo pineapple, e gosto bastante. Às vezes compro os cristais também.

Com esse repertório gigante sobre uma coisa que no Brasil ainda é tabu, você no set de filmagens era a expert?

Você acha? Não era só eu, a equipe do filme inteira era expert. Risos. Não todos, claro, mas são muitos experts.

E qual é o seu momento de fumar um? Toda hora é hora, ou você tem preferências?

Depende do meu ritmo, da minha rotina. Eu não gosto de fumar para ir trabalhar, prefiro estar mais sóbria. Quando vou fazer uma peça, um show, não quero botar a culpa nisso se eu errar. Não quero me dar esse luxo, quero errar e botar a culpa em mim, chamar a responsa. É como o álcool. Se eu fumo, ainda consigo fazer. Mas se eu bebo três taças, de repente não conseguiria. Para mim o álcool é muito mais danoso, me tira muito mais do equilíbrio dependendo da quantidade. É muito mais prejudicial, te tira do eixo.

E nesse set, imagino que uma coisa que não se podia ter era maconha, né?

Sim. A gente fumava um negócio horroroso, um chá de camomila, que era difícil, porque eu não gosto. Eu já fui fumante de tabaco, de cigarro, mas parei há muito tempo. E aquilo baixava a minha pressão de um jeito ruim. No set não é legalizado, então foi tudo muito certinho.

E esse lance do tabaco, como foi o processo de largar? Como você lida em geral com os vícios?

Eu sou uma pessoa propensa a vício, a me viciar em coisas, mas podem ser coisas boas também. Quando eu entro na de fazer academia, faço triatlo. O hábito vai entrando em mim e cresce, uma bola de neve. Então eu tenho que tomar cuidado com os meus hábitos. Fumei cigarro durante muito tempo e um dia falei “cara, não faz o menor sentido eu fumar”. Estava com muito cigarro, acordando tossindo, e o cheiro é ruim. Eu era casada na época com um cara que também já tinha parado, e é ruim beijar uma pessoa que fuma quando você não fuma. Foi uma coisa que eu senti necessidade de parar, e parei, e foi a melhor coisa. Amo ter parado, não entendo como eu fumava cigarro. É muita burrice.

E você misturava com cannabis, ou sempre gostou separado?

Não, nunca misturava.

E, falando de hábitos, quero saber, quais são os hábitos da Samantha para brilhar?

Olha, eu tento tomar cuidado com a alimentação. Tento comprar coisas orgânicas, saudáveis, me exercito, durmo muito bem, o meu sono é ótimo. E cuido da pele com coisas básicas. Eu acordo, lavo o rosto com um sabonete bom, específico, passo vitamina C toda manhã com filtro solar. Tenho esse skincare, que também é um vício, mas é o vício bom. E, outra, eu descobri uma clínica maravilhosa esses dias, um amigo me indicou, falou que eu tinha que ir. Perguntei o endereço e era no meu prédio. Ontem praticamente morei na clínica. Tudo não invasivo, porque estou fazendo uma série, não posso voltar com outro CPF para outro set de gravação, com outra cara. Fiz um peeling, um negócio que tonifica a barriga, o glúteo, uma cadeira que tonifica o assoalho pélvico. Fiquei o dia inteiro lá. Falei “o meu skincare agora vou fazer aqui, é só pegar o elevador”. Um luxo, amei. Mas acho que alimentação e exercício físico são os principais, e quero ficar cada vez mais cabeçuda nisso, porque tem o equilíbrio. Outro dia mesmo, passei maio e junho fora, fui ao festival de Cannes e depois dei uma esticada até a Itália. Bebi muito vinho, comi muito livre, porque também tem que equilibrar. Quando voltei para Los Angeles, falei “cara, vou ficar um mês aqui sem beber, só para experimentar”. E olha, estou quase há quatro meses sem beber, porque não estou conseguindo voltar.

Porque você vai ouvindo o seu corpo…

Isso. Eu botei essa meta, um mês sem beber. E eu sou daquelas que vão pedir uma batata frita numa adega só para se testar, “vamos ver se eu sou forte mesmo”. Risos. Sento lá e peço uma água e uma batata frita. No dia em que fui, falei “cara, acabei de parar de beber e estou num lugar que é só bebida nas paredes, um paredão de bebida alcoólica”. 

E esse hábito de beber foi substituído pelo hábito da maconha?

Não, uma coisa não está relacionada à outra. Eu decidi parar de beber porque achei que tinha bebido muito, uma quantidade que não é a minha habitual, porque estava de férias. Aí falei “vou dar um tempinho para o meu organismo”, e é como se ele respondesse “ai, Samantha, vamos continuar sem o álcool”. Os meus órgãos comemorando, tipo “que legal, ela parou de beber”.

Mas você considera que fumar maconha é um hábito seu? Como é o seu uso hoje?

Considero que eu gosto muito. Mas não é uma coisa diária, depende da situação. Se estou trabalhando muito, não. Se estou mais de férias, relaxo mais. Não tem uma coisa fixa.

E lá na sua casa fica muito mais fácil também, é só ir na esquina e comprar… 

E, curiosamente, quando fica mais fácil às vezes você até fuma menos, porque está ali, sem ansiedade, você vai lá quando quer.

Me conta um pouco a trajetória dessa planta na sua vida. Imagino que, como todo mundo, você ficou sabendo da maconha na adolescência. Como foi?

Eu achava um bicho de sete cabeças. A primeira vez, uma amiga minha levou para a casa da minha prima, porque tinha pegado do irmão. Cheguei lá, ela “ai, isso é para fumar”, e eu “cara, que absurdo, vou embora”. E fui embora mesmo da casa da minha prima. Risos. A primeira vez que eu fumei de verdade foi num show dos Paralamas do Sucesso, lá em Niterói, numa quadra de um colégio salesiano. Eu dei um tapa num baseado, tipo de onda, só para ver qual era. Estava no show, no começo da vida, do adolescente, do rock and roll. Não aconteceu nada, na verdade. Fui para casa. Mas rolou uma coisa muito doida, porque no dia seguinte a minha mãe falou “Samantha, o que você fez nesse show que nunca tinha feito?”, e eu “como assim, mãe?”. Ela jogou verde, um verde limão. Eu perguntei “por quê?”. Eu sou muito despreocupada, ela me pegou de surpresa, a minha cara deve ter me entregado. Ela falou “você fumou maconha, né?”. Eu “não”. E ela “eu criei um marginal, falsificou a carteira para entrar na boate, fumou maconha, o que foi que eu fiz, meu Deus?”.

Toda aquela cena de drama de mãe de adolescente…

É, mas não deu nada nessa primeira vez. A primeira vez que deu onda mesmo foi numa excursão de ônibus para Arraial d’Ajuda. A gente parou naquela parada no meio da estrada e um amigo meu, com tipo um charuto, falou “gente, vamos ali fumar antes de voltar”. Eu topei, Carnaval, Arraial d’Ajuda. Fumei. E, cara, dormi de Campos dos Goytacazes até Arraial d’Ajuda. Foi a melhor viagem. Eu não descia nas outras paradas, fiquei dormindo umas 18 horas. A galera “o que a gente faz com a Samantha?”. Mas eu estava só dormindo, respirando, e todo mundo morreu de rir.

E aí você passou a vida nessa relação normalizada com a cannabis?

Normalizada não, no começo não. Eu fumava mais em festas, era muito difícil de conseguir, não tinha dinheiro para comprar. Depois que comecei a trabalhar, consegui, mas sempre de uma forma complicada. Por isso agora eu fico feliz de estar num lugar onde posso comprar na loja.

Você transita bem pelas artes porque, além de atriz, você é cantora, trabalha com produção musical e é uma pessoa que se permite experimentar. A cannabis entra de alguma maneira nessa sua história com a arte?

No Verão da Lata, o tema foi muito mais o que me chamou. E também o fato de eu ser uma pessoa que, até por estar protegida por morar num lugar legalizado, se sente à vontade para falar sobre isso. Porque não é fácil, tem muito preconceito mesmo. Maconha não é um assunto que muita gente gostaria de tocar, porque pode complicar com marcas, pode complicar com um monte de coisa porque a gente vive num mundo em que se quer pessoas chapa branca, que tentam agradar a todos, e aí você fica morno com todo mundo. 

Mas com você não existe essa pressão?

Existe, sim. Eu acho que existe um preço. Mas também tem um valor. Tem o preço e tem o valor de você ser coerente, de não ser hipócrita, e de ter essa disposição, porque tem que ter disposição. Você ganha ali e perde aqui, como em tudo. Não dá para ganhar tudo o tempo todo, em todos os lados, querer agradar todo mundo. A gente vive nesse mundo em que todo mundo quer agradar todo mundo e fica patinando num lugar que não é nem lá nem cá. Aí as pessoas perdem a identidade. E não me interessa ser essa pessoa. Prefiro deixar de fazer algumas coisas, mas ser autêntica, do que, por dinheiro, ir contra uma coisa que eu uso na minha vida pessoal. Ou fingir que não posso falar sobre isso. Pode falar, gente.

O que você diria para aquele ator ou atriz querendo se posicionar sobre cannabis, mas sem muita coragem?

Cara, eu acho que a pessoa tem que sentir até onde pode ir no lugar da vida em que está. Eu talvez fui falando mais à medida que estava com a minha casa dos três porquinhos mais segura, porque se assoprarem não leva o telhado. Tem a hora de engolir o sapo e tem a hora de falar. Esse balanço é de cada um. Quem tem isso naturalmente dentro de si vai saber a hora de falar, de lutar pelos seus ideais. Comigo foi assim. Uma vez alguém falou, na internet, “ah, ela deu para falar agora”. E eu “não, eu sempre falei, só não me escutavam”.

Sobre o tema da cannabis especificamente?

Não, sobre o tema em geral, nem lembro exatamente. Era uma época de pandemia em que eu estava muito falante, revoltada, com o avião caindo, e acho que tinha que ser assim mesmo. Para mim o mundo estava acabando, e naquela hora eu estava no speed. Sempre fui de falar, de me posicionar, nem que na vida pessoal às vezes eu nem me posicione tanto. Mas a gente tem que se permitir ser sincero e saber o limite também, porque na nossa carreira tem uns sapos que você tem que ser inteligente e engolir, às vezes engolir aqui para falar ali. É uma dança, um jogo.

O que você espera da repercussão do Verão da Lata? Como o filme pode impactar na luta pela legalização e pela regulamentação dessa planta?

Para mim seria incrível se ajudasse a ampliar o número de maconheiros indo ao cinema, mostrando “olha como somos tantos”. Se isso for legalizado, vai ser bom para todo mundo, vai ser bom para o nosso país. As pessoas que estão no comando têm que abrir a cabeça, não serem tão conservadoras e fechadas, olhar para o que acontece nos lugares onde é legalizado e tomar como exemplo. Porque aqui tudo está muito ligado a um preconceito, como em tudo. É difícil, porque acho que está na criação, na cultura, no egoísmo. Quem sabe esse filme não ajuda nesse sentido, na quantidade de pessoas que passam a falar naturalmente sobre o assunto.