Na Breeza

O evangelho segundo Katy Costa tem cannabis

Por Anita Krepp

Retrato de uma mulher com cabelos longos e lisos, usando uma camiseta branca com a frase 'NADA BRENDE SEM NÓS', em um fundo de tijolos expostos.

Em 2019, os médicos disseram a Katy Costa que ela tinha 1% de chance de voltar a falar. O câncer de tireoide havia se espalhado e alcançado as cordas vocais, e a mulher que hoje passa os dias discursando sobre cannabis se viu diante da possibilidade de perder o instrumento com o qual construiria tudo o que veio depois. Ela era gestora pública na Secretaria de Habitação de São Paulo, filha de pastor, cristã de berço, e recebeu o diagnóstico sentindo que o mundo tinha acabado. Fez um trato. Se recuperasse a saúde e a voz, colocaria a vida a serviço de outras mulheres.

A promessa explica a candidata que ela é hoje. No hospital onde se tratava pelo particular havia uma ala do SUS, e foi ali que Katy conheceu as mães atípicas que reorganizariam a sua fé. Mulheres que cuidavam sozinhas de filhos neurodivergentes, muitas vezes abandonadas pelos pais das crianças, sem rede de apoio e muitas delas com dores no corpo irremediáveis. Foi um médico brasileiro radicado na Califórnia, Maurício Confalter, pai atípico, quem lhe apresentou o óleo de cannabis e o que a planta podia fazer por aquelas famílias. Foi assim que virou militante de uma pauta que a maioria dos seus pares religiosos trata como heresia.

“A fé tem que ser racional, não emocional. A fé tem que ser uma fé inteligente”, ela diz, e é essa distinção que sustenta o resto. Para Katy, religiosidade e fé são coisas separadas, e a cannabis cabe do lado da fé porque cabe do lado da ciência. “Deus deixou a cannabis na natureza, e o que está na natureza é para ser usado”, argumenta com uma construção que soa simples até se perceber contra quem ela é dirigida.

O alvo é a bancada evangélica, que Katy define sem meias palavras como demagoga. Ela acusa os parlamentares que se apresentam como voz dos cristãos de negar a pacientes o acesso a um tratamento que alivia a dor e devolve a dignidade e a qualidade de vida, e chama isso de crime.

Defesa da cannabis como um todo

“A minha fé não me autoriza a ser ignorante e muito menos a tirar o acesso à saúde daquela mãe que está sofrendo na fila do SUS atrás de uma medicação para a cura do seu filho”, explica a quem pergunta como uma evangélica pode ser tão aguerrida à pauta da liberdade da cannabis.

O preço da posição ela já pagou. Diz ter sofrido cancelamentos, ter sido chamada de maconheira, ter sido barrada em instituições religiosas. E relata algo mais difícil de verificar e mais revelador sobre o ambiente que descreve. Dentro das próprias igrejas, segundo Katy, há mulheres que medicam os filhos escondidas. “Eu conheço esposas de pastores que não comunicam ao marido que estão usando óleo à base de cannabis para o tratamento do filho, justamente por causa desse medo do abandono.”

O relato é dela, não um fato documentado, e Katy o encaixa numa denúncia sobre a dependência financeira dessas mulheres em relação à instituição religiosa. Se saírem da linha, perdem a igreja e o casamento. É a denúncia de quem conhece o mundo evangélico por dentro.

Katy não fica no CBD padronizado e comprado na farmácia, o terreno confortável do debate. Ela defende regulamentação para a cannabis recreativa e para a industrial, e é aqui que a pastora abre o coração de mãe. A filha, Júlia, hoje com 20 anos, não usa. “Se a minha filha um dia viesse a fazer uso, eu preferia que ela fizesse dentro da minha casa, debaixo dos meus olhos, para que eu tivesse esse controle.”

Uma alternativa dentro do campo evangélico

Katy aponta para a hipocrisia de um país que criminaliza o jovem parado na quebrada e protege quem tem sobrenome. Ela fala com a autoridade de quem cresceu dentro das instituições religiosas e viu os bastidores. “Pega um jovem de classe A e B que está utilizando, simplesmente porque é filho de um juiz, de um desembargador, de um político, de um bispo, e passa batido.”

A aposta política de Katy é a de que existe um eleitorado cristão órfão, gente que reza e não se reconhece na pauta de costumes da bancada. Candidata a deputada federal por São Paulo, ela conta que entrou no partido deixando claro de antemão que suas bandeiras não estavam em negociação. Diz que sofre boicote, que o seu conteúdo não chega a quem precisaria chegar, e que a missão é fazer esse eleitor saber que não está sozinho. É uma leitura otimista de um mercado eleitoral que ninguém mediu ainda.

A voz voltou, contra o prognóstico, e Katy a trata como algo que lhe foi devolvido com uma condição embutida. “Se Deus, através da minha fé e principalmente através da medicina, me devolveu o dom da vida, me devolveu a voz, então eu vou utilizá-la como instrumento para propagar pautas importantes para a população, como é a cannabis”, diz, usando a voz que tinha 1% de chance de existir. E é com esse 1% que ela pretende chegar a Brasília.