
Astrid Fontenelle guarda numa latinha uma pequena cápsula do tempo. Dentro dela há sedas, tesourinhas, credenciais, ingressos de shows e uma coleção de lembranças dos anos em que a maconha fazia parte da sua rotina.
A latinha é de uma edição do Planet Hemp e está exatamente como ficou quando Astrid resolveu parar de fumar, depois de 30 anos de hábito. Hoje, o CBD que fica na cabeceira serve para outra coisa. Às vezes ajuda a dormir e outras vezes alivia a dor nas articulações. Mas foi a cachorra, Bela, quem acabou dando a Astrid a prova mais convincente de que a cannabis também funciona como medicina.
Nesse papo com Anita Krepp, editora da Breeza, a comunicadora que na semana que vem lança uma plataforma de conteúdo para mulheres 45+, falou sobre drogas sem ter uma tese pronta: conta o que fumou, por que parou, as vezes em que viu gente próxima se perder e se recuperar, a única experiência que teve com ayahuasca, e a razão pela qual defende a descriminalização da maconha mesmo achando que ela pode fazer mal a algumas pessoas.
Astrid, conta pra gente sobre esse portal para mulheres de meia-idade que você estreia no dia 23 de setembro. É uma bela reinvenção e um autodesafio imposto, né?
Exatamente. Quando a primavera chegar, chegará a nova Astrid, digamos assim. A Astrid de agora, empresária, editora-chefe do meu próprio conteúdo, atendendo a uma demanda que eu tenho muito grande e sempre tive. As pessoas, sobretudo as mulheres, gostam muito de me ver falando sobre o assunto que está pipocando naquele momento. Quando eu saí do GNT no ano passado, primeiro houve uma leve transição. Saí do Saia Justa, criei um novo programa, o Admiráveis Conselheiras, que teve duas temporadas em dois anos, e continuava fazendo o Chegadas e Partidas. Em 2025, eles romperam o meu contrato, descontinuaram. Me vi aos 64 anos numa aposentadoria forçada, e eu, erroneamente, não tinha pensado nela, porque a gente acha que a vida da televisão é mais longeva, já que não é CLT. Eu já estava havia um tempo pensando em fazer isso e falei, agora é a hora. Só que primeiro eu esperei a minha bola baixar. Primeiro você fica com raiva, fica chateada, fica magoada, então vai se curar lá no mar da Bahia. Risos. Quando me curei no mar da Bahia, a minha cabeça estava pronta pra pensar em coisas novas. Assim nasceu essa determinação de fazer essa plataforma, que eu também posso chamar de um hub de conteúdo, que vai se espalhar por várias frentes, e aí a gente vai falar de tudo. Saúde física, saúde mental, menopausa, comportamento, muita coisa.
São temas importantes pra você, ou que você considera importantes pra esse público?
É um jeito da gente falar da vivência de uma mulher de 65 anos através de conteúdo editorial. Tem pautas muito fofas, como “as musas dos anos 90 amadureceram”. A gente foi atrás de Fernanda Abreu, Paula Toller, Marina Lima. Vamos ter alguns guias também, guia de viagem, guia de literatura, guia de cultura. Na verdade, pra pessoa entender melhor, é uma grande revista, que sai em forma de newsletter. É o conteúdo mais parrudo, com reportagem e com as entrevistas que a gente foi buscar com especialista. A gente tem médico, sexólogo, economista pra falar de dinheiro, que eu acho uma pauta importantíssima, ginecologista. Esse conteúdo mais parrudo a gente publica no Substack, que é a mãe do negócio. O Substack gera conteúdo, mas não só ele, pra uma conta no Instagram que se chama viver.avera. Do Instagram, a gente parte pra conteúdo no TikTok, no Spotify e no Facebook. No Facebook eles usam o termo comunidade, mas eu vou montar um clube. Já está tudo pronto. A gente vai ter um clube dentro do Facebook, porque no final da história o objetivo é fazer encontros presenciais. Tanto que, pro lançamento, eu vou fazer quase um experimento de como seriam esses encontros. Vou juntar outras criadoras de conteúdo que estão nessa praia da mulher madura com um especialista de determinada área. Estou convidando a minha própria ginecologista pra dar uma palestrinha de 20 minutos sobre um assunto que a gente vai escolher, com mulheres interessantes e com esse público que está lá dentro de todos esses lugares, mas em especial no clube. É uma coisa levando a outra. E a cereja do bolo é um podcast, que eu já gravei na semana passada.
Pois é, eu vi isso, foi intenso, né? Gravação na sua casa…
Foi. Lembra desse caderno de adolescente, que a mulherada preenchia e respondia? Essa historinha do Caderninho das Coisas Comuns ficou bastante conhecida como questionário Proust. O Marcel Proust, autor do magnífico Em Busca do Tempo Perdido, quando garoto, na adolescência, preencheu um desses cadernos lá na França, de uma amiga dele, a Alexandra, uma amiguinha. Quando ele morreu, isso apareceu, e as respostas do Proust são geniais. Esse negócio se populariza, chega aqui no Brasil, e eu fiz caderninho. Você fez?
Vários, eu adorava.
Gerações completamente diferentes, longe uma da outra, e você fez, eu fiz. Agora essa moçada, as meninas amigas do Gabriel, que tem 18 anos, não sabem o que é. Mas adorariam fazer, acharam a ideia maravilhosa. Pode ser que ele volte à moda. Eu peguei algumas perguntas desse questionário Proust e misturei com um pouco de filosofia. A primeira pergunta é, “que idade você teria se você não soubesse a idade que você tem?”. Isso é filosofia, isso é Confúcio. Depois pergunta um amor, uma dor, um arrependimento, um bicho, e se você não fosse quem você é, quem você gostaria de ser. É pano pra manga. Melhor se arrepender do que passar à vontade. São coisas que a gente não pensaria se não estivesse diante dessas perguntas. Parecem simples, mas podem levar a gente pra caminhos maravilhosos. A mulher chega na minha casa, preenche o caderninho sozinha numa mesa, e depois a gente senta no sofá e bate um papo. Essa é a cereja do bolo.
Nesse podcast eu vi que tinha Luedji Luna, Márcia Sensitiva, Cláudia Lins. Você vai olhando as respostas do caderninho e trazendo pra conversa?
Quando acaba de responder, vem que eu vou ler junto com você. Olha a resposta da Heloísa Perissé, atriz, a Lolo. “Qual seria a sua idade se você não soubesse a idade que você tem?” “30 anos, a cada ano que passa, eu não envelheço, eu atualizo.” Não é genial? O podcast vai ser lançado junto com o site, um episódio por semana, e são 12.
Eu quero entender como foi essa reinvenção. Sinto que você é boa de se reinventar.
Eu sou maravilhosa. Eu realmente passo perrengue, passo, mas tiro alguma coisa dali. Não escondo que passei um perrengue. A minha grama não é mais verde que a de ninguém, a minha grama queima. Eu vou lá, e acho que é um jeito de expurgar, de tirar isso de mim e não ficar uma velha ranzinza, magoada com o meu empregador. Eu falo, “ó, fui demitida, estou chateada, estou triste, vou ali dar um mergulho e daqui a pouco eu volto”. Eu já voltei e já estou trabalhando. Trabalho porque preciso, e depois porque gosto muito do que faço. Sou uma comunicadora nata, não tem jeito. Eu não queria nem fazer o podcast, mas as pessoas ficavam, você não vai voltar pro vídeo?
Você falou desse fugir do amargor, que é uma coisa difícil. E ainda tem a questão da idade, é difícil se reposicionar. Como é que você lidou com isso?
Não sei te explicar. Eu fui programada, eu falava muito isso, fui programada com o chip da felicidade. A energia que eu vibro é lá no alto, é a da paz, a do amor. Eu quero fazer coisas legais, coisas boas, quero a felicidade do outro, quero que a gente viva aqui dentro num ambiente de harmonia, de alegria. A Mary, que trabalha comigo há 20 anos, é uma pessoa igual a mim, uma pessoa alegre, vibra na mesma energia. Está sempre ouvindo música. Eu conserto o negócio do som pra que ela ouça música quando eu não estou aqui. O meu filho tem essa mesma energia, e eu costumo falar que isso não é DNA. Ele não tem o meu DNA, mas tem a minha criação, o ambiente em que vive. Os meus amigos são assim. Eu não sei viver de outro jeito, sempre fui assim. Fui criada pela minha mãe também assim, tinha música em casa, tinha uns amigos dela tocando violão, tinha comida pra um monte de gente. Quando eu fiz na MTV o programa Pé na Cozinha, hoje um nome inadmissível, mas uma fórmula muito boa, não existia nenhum programa de entrevista em que a pessoa ficasse cozinhando e conversando. Foi um programa criado pelo Jorge Espírito Santo, vendo aquela situação que acontecia na minha casa, eu cozinhando e a galera conversando. A Márcia Sensitiva esteve aqui, e a gente nem se preocupou em perguntar pra ela se ia dar certo o projeto. Ela falou assim, “gente, isso aqui é muito bom, vocês vão fazer muito sucesso, a energia está em 500 Hz”. Eu não sei nem o que significa isso, mas ela falou que estava. Risos.
Você tem alguma prática específica pra manter essa vibração lá no alto?
Como te falei, a parada é orgânica. Não faço nada. Faço meditação quando quero, rezo quando quero. Rezo todas as noites, mas sem aflição, sem muito “obrigada”. Eu passo pelos santos, tenho um altar no meu quarto, passo pelos santos e falo, “ó, hoje valeu, hein, foi bom demais”. É assim que eu falo, como se estivesse falando com amigos, com os brothers que estão aqui dentro. Vou à missa eventualmente, vou ao Gantois, que é uma casa de candomblé de Salvador. Fiquei muito próxima de mãe Carmen, mas ela faleceu ano passado. Poucas vezes estive doente. Atravessei um lúpus, e aí, lógico, você reza mais, procura mais, medita mais. Eu sou uma pessoa como a maioria, tenho um relacionamento de fé, de crença, mas não praticante usual ou clássica como as pessoas imaginam. Da meditação ao incenso, à arruda, à alfazema que eu jogo na casa quando quero que todo mundo vá embora. Eu sou brasileira. Acredito em Deus, acho que Jesus Cristo foi um cara que passou por essa terra de uma forma incrível.
Eu ouvi dizer que você faz uso de canabidiol. O que te trouxe até o CBD?
Foi sugestão de um dos meus médicos, uma naturopata, porque eu estava sentindo umas dores nas articulações de novo, e velho tem dor na junta. Ele me deu e realmente melhorou bastante. Outra coisa que percebi muito é que melhorou a qualidade do sono. Não é um indutor do sono, mas tive sonhos mais profundos, gostei. Agora, sabe onde eu percebi a real valia? Na minha cachorra. Ela tinha machucado a pata muito tempo atrás e vivia mancando. Ia pra hidroginástica toda semana, ficava lá na esteira. Passava, ficava boa, aí pulava de novo do sofá e ficava ruim outra vez. Nada consertava a bicha. A veterinária sugeriu dar o CBD pra ela e a Bela zerou.
Você já fazia uso antes e resolveu estender pra ela também?
Fazia. Dizem que pra animal é um negócio bem mais claro, até com dose menor. A dose dela era mínima, ela pesa menos de 3 quilos.
E você continua fazendo esse uso?
Esporádico. Esse ano, por exemplo, acho que não fiz, mas fica ali na minha cabeceira, e de vez em quando eu boto uma gotinha pra dentro.
E, em relação à cannabis como um todo, você já era a favor de uma descriminalização, de uma legalização regulada. Sempre se posicionou favorável a esse tema, né?
Completamente. Sou a favor disso, da descriminalização da maconha. Agora, também acho que nenhuma droga, nem a bebida, a gente não sabe o que deflagra, não se sabe, não há estudo. Então é perigoso, muito perigoso. Eu conversava muito com a Bárbara Gancia sobre isso. A maconha, a mesma coisa. Essa semana eu li que, pra algumas pessoas, pode levar a um ataque de pânico surreal. Então pode ser perigoso. Há muito tempo eu não leio estudos sobre. Eu também fui usuária durante muitos anos, fumava recreativamente. Como os homens que bebem uma dose de uísque quando voltam pra casa, tensos, eu fumava um baseado. Nem todo dia, mas teve uma época em que era todo dia, no fim do dia. Foram 30 anos. Quando voltava pra casa, fumava. Apesar de ter trabalhado na MTV, as pessoas têm uma imagem muito fantasiosa. Eu não fumava maconha pra trabalhar, nunca fumei pra trabalhar. Era uma maconha pra relaxar, era assim que ela operava em mim. Até que um dia alguém me perguntou “Astrid, há quantos anos você fuma maconha?”. Eu falei, “puta que pariu, quantos anos eu fumo maconha? Deixa eu pensar”. Comecei com 17, 18. Aí fui fazer a conta, que ano a gente está, e me assustei. 30 anos. É muito, não quero mais não. Nesse momento eu decidi que não ia mais fumar. Fumei o que tinha em casa e, a partir dali, passei a aceitar se me oferecessem, até o dia de hoje, em que eu posso estar num momento com todo mundo fumando maconha e não vou querer. Vou achar bonito, vou ver uma flor, vou sentir o cheiro, acho o cheiro gostoso, prazeroso. Mas essa é a minha experiência, que fique claro. Eu conheço gente que começou fumando maconha e daqui a pouco estava cheirando cocaína, daqui a pouco estava bebendo pra caralho, daqui a pouco pirou. Também conheço gente que se ferrou a vida inteira, que quase morreu algumas vezes, e que, quando resolveu parar, parou, através de muito tratamento, muita terapia. Mas eu digo que o primeiro passo é você querer fazer. Pra mim foi suficiente querer, não precisei de mais nada. Não precisei de substituto, de psicólogo, de CBD, de Rivotril, não precisei de nada. Mas essa é a minha experiência, e acho que ela é particular pra cada um.
E com o seu filho, em pleno início da vida adulta, deve ser um tema. Você fala com ele a respeito?
Já conversei muito com o meu filho sobre isso. Acho que não é uma droga pra um cérebro em formação. Nenhuma droga é, nenhuma experiência é, a bebida também não é. Mas essa é muito mais difícil de controlar, porque ela é oferecida em qualquer lugar, a cada esquina, entra em festas. E não estou falando das festas clandestinas da adolescência em São Paulo, estou falando de grandes festivais. Ainda mais o meu filho, que nunca aparentou a idade que tem.
Então a maconha foi a substância que você mais usou na vida?
A única. Eu só vim a beber com 46 anos, quando já estava me relacionando com o meu marido, o Fausto, que é um bom bebedor de vinhos. Ele começou a me apresentar uns vinhos muito bons, e vinho bom é muito bom. Uma bebida muito boa, eu não nego. Mas ano passado teve a mesma coisa, não quis mais beber, e não bebi mais.
E você acha que tem a ver com o quê, essa falta de necessidade da substância?
Não sei. Estou bem, estou ótima. A minha cabeça se satisfaz com o que eu consumo de literatura, de filme, de trabalho. Meu trabalho me dá prazer. Não sei te responder de verdade.
Tem gente que para com o álcool quando começa a sentir que virou bebedora profissional.
Não era, zero. Tinha uma coisa física que estava me incomodando, pode ser que seja isso, mas não era só isso. Eu bebo muito pouco, não bebo mais do que duas taças de vinho, não bebo mais do que duas Coronas pequenininhas, coronita. Numa vida normal, férias na praia, no máximo eu bebo dois, três copinhos americanos de cerveja e depois uma taça de vinho, e acabou pra mim. Mesmo assim, eu percebia que aquilo interferia na qualidade do sono e, principalmente no verão, no inchaço do pé. Aí eu falei, “ah, não quero isso pra mim”.
Você falou da MTV. A gente tem a impressão, de fora, de que era um lugar de liberdade e libertinagem. Era assim?
Tinha um jornalista errado por lá cujo sonho era fazer valer a lógica sexual da MTV. A gente botou ele pra correr. Isso aqui a gente produz, a gente trabalha, não é bem assim. Agora é todo mundo muito jovem. E todo mundo que é muito jovem, que namora, que é sexualmente ativo. Naquela época éramos, acho até que mais ativos. Hoje a gente vê tanta gente assumindo que não gosta de transar, gente jovem falando isso, tem até um nome. Mas naquela época, não. E sim, tinha gente que fumava pra trabalhar, fumava o dia inteiro. Isso eles falam hoje em dia, os que são públicos já falaram. Um deles, que é público, já falou isso, e ele parou. Quando chegou no fundo do poço, correndo risco de vida, se internou e se curou. Hoje é um exímio corredor e ciclista.
Agora lembrei de uma entrevista que fiz com o João Gordo. Ele me contou que teve uma overdose, estava na UTI, e você foi visitá-lo.
Sim, muitas vezes, não foi só uma. Foram duas. Com ele, olha só, nunca conversei sobre isso. As duas vezes em que ele teve overdose, que eu soube, foi perto do Natal. Quando você está mais sozinho, quando os seus amigos não estão por perto, quando as baladas diminuem, quando não tem show, quando não tem a loucura. Ele, sozinho, apesar de ter família, irmã, mãe, teve essas overdoses. Até que achou aquela mulher santa dele, com quem teve filhos, construiu uma família, e hoje é um cara que está limpo. Ele mesmo usa essa expressão, está limpo, e eu acho tão interessante, porque então antes a gente estava sujo?
Você praticamente acompanhou o nascimento e o desenvolvimento do rock nacional, do pop, da MPB. E, claro, as drogas nesse meio, você também deve ter percebido essa movimentação. Você acha que hoje mudou muito do que era antigamente, justamente porque perdeu essa aura de proibido?
A vivência é diferente hoje. Hoje eu estou do outro lado, não estou mais no backstage de um show. Acho que muitos dos meus pararam com as drogas pesadas, muitos. Você deve saber melhor do que eu, não vou ficar falando nome. Então não sei te dizer. Hoje o que me preocupa muito é que tem muita droga sintética, muita coisa estranha rodando. Mas me preocupa como mãe, porque hoje eu tenho um novo papel. Eu tinha um uso de maconha seguro, nunca subi em morro pra comprar. Aliás, nem precisa subir hoje em dia, chega no delivery.
Você fala do sintético, mas tem também uma ascensão do natural. Tem muita coisa. O cogumelo, desde a pandemia, está muito pop…
Também conheço muita gente que está usando, e muita gente que experimentou e não curtiu. Mas eu não tenho, não sou boa de repertório de drogas.
Eu achei que você fosse dada a uma ayahuasca.
Tomei, experimentei uma vez, pra nunca mais.
O que aconteceu nessa única vez?
Vomitei loucamente, e eu odeio vomitar. Odeio com todas as minhas forças. Queria que passasse, porque nem tomei o copo todo. Mas também foi no lugar errado.
Você acha que tinha a ver com o lugar?
Eu não sou boa de droga. Talvez as pessoas tenham uma imagem minha que não corresponde à realidade. E você está vendo isso. Não sou doidona, nunca fui. Eu gostava era de chegar em casa e pegar a minha latinha, que tenho até hoje. Do jeito que ela parou, ela ficou. (Foi buscar a latinha pra me mostrar). Essas caixinhas são Planet Hemp, era uma caixinha do álbum do Planet Hemp. Olha aqui, parada no tempo. Tem umas credenciais aqui. Tem o cheiro, a tesourinha. Nunca mais abri. Tem muita seda, muita seda, e os cartõezinhos que eu usava pra enrolar o beck. Eu fazia beck com a mão. Olha, ingresso de Hollywood Rock. Essa caixinha é demais, metálica.
Tem aí vários nomes de bandas. Tem algum beck que você tenha fumado com alguém desse panteão da música?
Como é que eu vou lembrar disso, se eu estava louca? Risos. Pra mim, talvez fosse natural estar com essas pessoas, então não é uma coisa marcante. Marcante seria se eu tivesse fumado um beck com a Madonna, com o Bob Marley. Eu tenho até o contrário. Tem uma história da MTV. O vocalista da banda, a gente chama de Jamiroquai, mas ele não se chama Jamiroquai. Ele estava dentro de um estúdio da MTV, e a repórter do jornalismo desceu pra entrevistá-lo, ele ia gravar uns programas dos VJs. Ela voltou putaça, porque estavam lá no estúdio, os produtores, uma galera fumando maconha com o cara, e ela querendo trabalhar, e eles dando risada dela. Voltou quase chorando. Aí eu desci, fui lá e tive que dar bronca em todo mundo, porque estavam fumando maconha no estúdio. Uma hora tem que dar bronca. Agora estou lembrando, mas não vou falar nome. Risos. Era comum um artista dizer, ah, não quero fumar aqui, e eu logo sugeria vamos lá pra casa, aqui do lado. Pegava o carro, chegava em dois minutos na minha casa. Isso acontecia.
Então a maconha participou de uma parte importante da sua vida durante esses 30 anos…
Foi uma situação social, era tipo um ritual. Eu não vou me classificar. Era uma coisa que fazia parte socialmente da minha vida, mas não necessariamente. Porque eu viajava com a minha mãe e ficava dias sem fumar. Nunca teve ali uma necessidade, não era um negócio que eu tinha que fazer todo dia, o dia inteiro, ou sair da MTV pra fumar um e voltar. Eu gosto de comparar com a questão do homem que chega em casa. Tem muito isso nas novelas. Nessa novela das nove, aliás, está todo mundo bebendo à beça. O pessoal bebe muito uísque, uísque cowboy, uma pedra de gelo, eu vi vários núcleos bebendo na novela. Eu chegava em casa e fumava um beck, era isso que eu queria. Ou ia pra um show e fumava um, se estava ali, mas não levava, não andava com. Era a minha latinha na minha casa.
O auge do seu uso foi há uns 40 anos, e a maconha, naquela época, era super criminalizada…
Era super criminalizada. Por mais que você tivesse um uso. Eu lembro que teve um filho de um político famoso, não vou lembrar qual, que foi pego no carro e deu uma merda. Cheguei a viver, na MTV, os caras do Planet Hemp presos por pouca quantidade também. E a gente está vendo agora, em 2026, o João Gordo importunado por causa de um baseado no aeroporto. Mas eu me preocupava, óbvio, com isso. Talvez por isso sempre adquiri o hábito de deixar o negócio em casa. Eu não andava com maconha, não viajava com maconha.
Onde está a diferença entre o seu uso recreativo e o seu uso medicinal?
Ah, não, não sou estudiosa disso não. Eu tomo o CBD que o médico mandou, tem uma porcentagem ínfima de THC, acho que por conta da extração, não sei. Tomei porque o médico mandou. Ele comprou, mandou pra mim, eu nem comprei, chegou aqui. A da cachorra, a mesma coisa, foi a veterinária que mandou fazer a fórmula, eu paguei e comprei. Então, na minha opinião, na minha experiência, é completamente diferente. Eu fumava, ficava chapada, ficava com sono, com fome, com tesão, variava. Agora tomo o CBD e durmo. Nem durmo na hora, fico lendo um livro, aí entro num sono profundo e melhora a minha dor.
Como tem sido pra você se transformar física e criativamente na frente do Brasil inteiro?
A maior transformação foi a física. Porque, em relação à maturidade, eu fui trabalhando nos lugares onde trabalhava, e a carreira que construí foi amadurecendo junto comigo. Hoje eu vejo uns clipes da MTV, umas cabeças de vídeo minhas, me vejo na MTV, era uma garota que falava mais gíria, tinha até um jeito diferente de falar, porque estava falando com a juventude. Depois ela sai dali, vai pra Band, continua divertida, alegre, gostando de música, gostando do carnaval, mas já diferente. Eu fui amadurecendo no vídeo, e as pautas foram envelhecendo junto comigo. Fui me encaixando perfeitamente às pautas. Hoje se fala muito de menopausa. Será que não está se falando muito de menopausa? Porque lá no Saia Justa a gente falou muito de menopausa, a gente viveu a menopausa da Mônica no ar. Eu falei muito sobre o primeiro fogacho que senti e sobre a reposição hormonal que fui fazer. E agora, uns 10 anos depois, está todo mundo falando. É o amadurecimento que as pessoas foram vendo. Já a grande mudança física foi que, na pandemia, eu parei de pintar o cabelo e deixei ele ser a cor que quisesse ser. E deu nessa cor prateada. Hoje as pessoas me veem, eu vou muito ao supermercado, estou muito na rua. Hoje mesmo, estava dentro do Einstein fazendo fisioterapia, passei por um café, e tinha uma mulher tomando um café. Ela passou e falou assim, “estou deixando, graças a você, o cabelo branco”.
Você meio que veio anunciando os novos tempos.
Acho que eu sou esse anjo Gabriel que fica anunciando as boas novas, ou falando sobre as não tão boas. Porque eu vejo muita gente, muitas mulheres, que não se relacionam bem com a própria idade. Não gostam de falar que são idosas, não gostam de falar que estão velhas. Mas você está velha, você é idosa. E eu vou lá e mostro as pequenas alegrias da vida da idosa. A primeira coisa que fiz foi tirar o cartão do idoso, mostrar o cartão e falar sobre o uso que faço dele. Eu não paro toda vez em vaga de idoso. Paro quando não tem outra vaga, e aí paro na vaga do idoso, porque invariavelmente ela é mais perto das portas, seja de shopping, de supermercado ou de aeroporto, que são os lugares onde eu mais vou. Eu prefiro parar mais longe pra dar uma andada, hoje o meu corpo pede mais caminhadas. Eu já estou conversando com você há muito tempo, sentada. Então eu sei que, quando levantar, vou sentir. O meu Apple Watch está aí pra isso, ele te avisa que você está há muito tempo sentada. Avisa pra mim e pra você, porque o Apple Watch não é relógio só pra velho, é pra todo mundo. Ficar muito tempo sentado não é bom pra ninguém. Quando eu falo desse jeito, estou abraçando aquela que está sentindo a dor, falando, “ó, não é só você que tem que ficar de pé, todo mundo tem que ficar de pé”. Não à toa o Apple Watch te lembra de ficar de pé, e te lembra até de respirar.
O que você acha que vai anunciar para os próximos anos?
A última pergunta do caderno é “no futuro haverá?”. Eu vou ler o que escrevi, porque acredito que combina com o que pensei agora. Eu respondi, “resistência, amor e arte”. Por conta do tema que a gente está levando, acho que vamos ver mais e mais pessoas envelhecendo bem. A sociedade brasileira está envelhecendo. A gente tem que caminhar pra um lugar onde elas envelheçam bem, com qualidade de vida. Daí, acho que teremos dias de luta e de glória também.